uma pequena fábula

depois de, a conselho do Jean Némar, ter acrescentado no postal de ontem umas coisas em que falava numa fábula do Kafka que na minha opinião se ajustava perfeitamente ao que dizia o texto, o Jean voltou à liça e disse que, já agora, também podia juntar a tal fábula do Kafka.
Lá me fui ao meu enferrujado alemão e aqui a têm então numa tradução pelo menos aproximada:

“Ai de mim”, disse o rato, “o mundo torna-se mais estreito a cada dia que passa. A princípio era tão vasto que eu tive medo, corri em frente e fiquei contente ao ver finalmente ao longe muros à esquerda e à direita , mas esses muros compridos aproximam-se um do outro tão rapidamente que em breve estarei no último compartimento onde ao canto está a ratoeira para onde corro.”
“Não tens mais que mudar de direção”, disse o gato e comeu-o.

os ativistas são uns chatos. (Ou não?)

De há uns tempos para cá as conversas à minha volta não demoram muito a ir dar às questões ambientais e à crise climática. E aos ativistas, claro. (Tenho um cá em casa!). Não é sempre com simpatia que se fala deles, pelo contrário. Há, muitas vezes, latente, uma raivinha contra estes chatos que insistem em nos querer acordar no meio do melhor dos sonos. Nós sossegadinhos, no quentinho dos lençóis e vêm eles aos gritos, de megafone em riste, sacudir-nos, lembrar-nos que se faz tarde, que temos de. E que é do nosso melhor interesse. Marcámos o dia e a hora. Agora há que passar à prática. Não bastam as boas intenções.
Nós sabemos que no fundo eles têm razão, mas…
Quando a mensagem não nos agrada, voltamo-nos contra o mensageiro. 


Verdade se diga, os ativistas nunca foram muito apreciados. Os ativistas “climáticos” ainda menos. Escapam-nos as razões que os movem. Podemos compreender as razões dos trabalhadores grevistas que exigem a nossa atenção, a nossa solidariedade, que dão cabo da nossa rotina, mas que lutam por “qualquer coisa”, o salário, as condições de trabalho. Somos capazes de nos pôr no lugar deles. No caso dos climáticos não. À falta da greve, são eles próprios as armas: bloqueiam ruas, acorrentam-se à entrada de edifícios públicos, ocupam escolas, usam a disrupção, usam formas de provocação, umas mais criativas que outras (por vezes bastante estúpidas, haja paciência) para trazer a crise climática para a ordem do dia, para o nosso dia a dia, “para nos acordarem”. E é isso que mexe connosco, que nos tira do sério, a nós, que com os problemas dos outros podíamos bem. Dos “outros”, até percebermos que os outros somos nós também.

Sabem o que isto me faz lembrar? As sufragistas. A sério! Hoje já ninguém se lembra das sufragistas, as ativistas que em meados do século XIX (onde isso já vai!) reivindicavam o direito de voto para as mulheres. Hoje é coisa dada por assente? Pois é, mas à custa de quê? Da luta de várias gerações de mulheres que não hesitaram em recorrer à disrupção contra a indiferença e a oposição da sociedade da época com manifestações e atos de desobediência civil. Os direitos assim conquistados permitem-nos hoje esquecer que o foram à custa de ativistas que entraram em confrontos com a polícia, que foram atacadas sexualmente, que foram espancadas, que enfrentaram a fúria e a troça dos jornais, que se acorrentaram a edifícios públicos, que fizeram greve da fome, que partiram montras.
Há aqui muita coisa que nos faz lembrar o ativismo climático nos nossos dias: sobretudo as formas de luta de quem não representa interesses corporativos ou de classe nem reivindica nada de “palpável”, de interesse direto e imediato. Com uma diferença importante, apesar de tudo: os “climáticos” desde sempre se identificaram como pacifistas e recusaram os meios violentos. No caso das sufragistas nem sempre assim foi. Na Inglaterra, por exemplo, houve uma ala mais radical que chegou a recorrer ao terrorismo, a incêndios provocados, a bombas, a cartas armadilhadas e outras formas de ação direta.
Os “nossos” ativistas não vão por aí. E se algum mal causam é a si próprios. Não exigem regalias, ou privilégios, nem compensações económicas. Querem apenas acordar-nos para nos levarem a acordar os que têm poder de decisão. E para isso usam a arma que têm: a disrupção – porque é essa a única maneira de que dispõem para interromper a nossa rotina, a nossa indiferença, a nossa apatia.
Outra diferença: as sufragistas tinham uma meta clara – uma lei que reconhecesse os seus direitos, o que veio a acontecer em 1928 (com a Representation of the People Act) em Inglaterra e com a aprovação da 19ª Emenda constitucional nos EUA, em 1919, que, porém, excluía desse direito as mulheres negras que só vieram a consegui-lo com o movimento dos direitos cívicos na década de 1960). Mas no caso dos movimentos pelo clima, onde fixar a meta? E como o fazer? Há as metas digamos “oficiais” dos Acordos de Paris, e das COP, mas que têm sido deixadas ao sabor das relações de forças entre as grandes potências industriais. E que escapam à intervenção do ativismo climático. Por isso, possivelmente, o que se pode dizer é que “atingir a meta” ou aproximar-se da meta se medirá em última análise pela capacidade em mobilizar os “outros” em cada país. E os “outros” somos nós todos, afinal. Se tudo o que agora se diz em tom menor de “eles e nós”, começar a passar para o tom maior de um “nós” sem distinções. Os ativistas não são (não têm de ser) nem heróis nem vítimas, todos concordarão. Mas… será que se aceita realmente que eles representam uma tomada de consciência da sociedade? Há quem ache que é só poderemos pensar que sim no dia em que o digamos, expressamente, com a nossa presença e a nossa voz, juntamente com “eles”. Eu, que sou mais cético (ou céptico, como quiserem), acho que só quando isso se traduzir em votos, quando os partidos incluírem metas com calendário nos seus programas, quando os Governos fizerem o mesmo. De resto… vemos que o caminho se estreita, que o desastre climático se anuncia cada vez mais claramente, que a nossa vidinha começa a ver-se comprometida, mas seguimos em frente.
Será que alguém como o gato da fábula do Kafka um dia nos dirá: “Não tinhas mais que mudar de direção” ?


António Guterres que, pela posição que ocupa e pelos contactos de que dispõe, está bem consciente do problema, disse isso mesmo há cerca de um ano (6 de fevereiro de 2023) quando apresentava as suas prioridades de ação perante a Assembleia Geral da ONU: ”We need disruption to end the destruction.

ele há iscrita & escripta

Já há muito que andava para convidar o Queneau, o Raymond Queneau, para aparecer por aqui a dar um arzinho da sua graça. Desocupado como está, desde que em 1976 o levaram para o Cemitério Antigo de Juvisy-sur-Orge, não muito longe de Paris, disse logo que sim. E cá o temos.
Ainda julguei que nos iria falar do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle (mais ou menos “Oficina de Literatura Potencial”), de que foi um dos fundadores, dedicado à composição literária baseada em em processos formais ou matemáticos rigorosos, e que viria a incluir outros da família, como Calvino e Perec. Ou julgava eu que iria falar da sua experiência no Collège de Pataphysique, para onde entrou em 1950, que assentava no Princípio fundamental da equivalência de todas as coisas, ou, na fórmula sintética de Vian, em “pensar nas coisas em que nós pensamos que os outros não pensam”. Podia ter a sua piada, até porque por lá andou gente tão original como Max Ernst, Man Ray, Jacques Prévert, Michel Leiris, Boris Vian, Ionesco, René Clair e uma data de surrealistas.
Mas não, não era disso que Queneau queria falar. Tão-pouco do seu estudo sobre os “loucos literários” ou da sua “Enciclopédia das Ciências Inexactas”. Não, do que ele queria falar era da proposta do “neo-francês” que ele expôs no livro agora quase esquecido “Bâtons, chiffres et lettres” e que, por singular coincidência, vejam lá, eu ando a ler neste momento. Não me pareceu particularmente entusiasmado, o Queneau, aqui muito entre nós o digo. Talvez por já por volta de finais dos anos sessenta ter chegado à conclusão de que o neo-francês era uma ideia sem futuro. Desistira. Por isso, voltar agora ao assunto era talvez a maneira de ele nos dizer: “mas olhem que…”

Nesse livro que ando a ler (formado por vários textos dispersos, de 1937 a 1955), Queneau explica como a distância entre o francês falado e o francês escrito se ia tornando cada vez maior – desde formas verbais que desapareciam na língua falada, até às grandes diferenças no vocabulário e até na sintaxe. “Escrevemos uma língua morta…”, conclui. A língua viva esbraceja e definha sob as peias e os preceitos da sintaxe e da ortografia oficiais. A literatura, essa, vive num reino à parte. Quando se arrisca fora dessas fronteiras, é o sobressalto, quando não o escândalo ou a censura. Céline é um bom (e raríssimo!) exemplo: com ele, finalmente, surge na literatura o francês falado, moderno, tal como ele existe. Queneau, até certo ponto, também o tentou, em livros como “Zazie dans le métro”. Antes de Céline (e depois dele, ainda…) o francês real, o francês falado, limita-se quando muito aos diálogos e quase sempre em assomos de calão ou a imitar a “linguagem vulgar” de personagens marginais, ou dos meios ditos populares. Um toque destinado a criar um efeito “de genuíno, de autêntico, de pitoresco, de povo”, como a crítica não deixará de salientar.
O grande projeto literário de Queneau passa a ser, desde que toma consciência do problema, o de tentar aproximar esses dois extremos. Para isso seria necessário, diz ele, uma tripla revolução: do vocabulário, da sintaxe e da ortografia. A ortografia – uma convenção que assenta sobretudo na “influência nefasta dos pedantes [do século XVI]” não passaria de um culto de uma memória dos puristas. E conclui, citando o linguista Vendryes que o inspira: “O que uma convenção fez, outra convenção pode desfazer”. É desta ideia que nasce o projeto do “neo-francês”, uma língua em que a escrita assentaria na regra fundamental da ortografia fonética, em que todas as letras se pronunciam e sem nunca mudarem de valor, qualquer que seja a posição que ocupam em cada palavra.
Não é difícil imaginar u iscândalo questa proposta iria causar se fose levada à letra. I maizainda salém da urtugrafia também a sintase e u próprio vucabulário segisem u mesmo príncipio: escreve-se uque sdiz i como sdiz.

Mas, naõ vá o senhoor pároco ver aqui rrezam per hua igual mudãça antre nós, & porque tã bem nam desejo tam asinha a minha mofina fym, tornemos jaa a lingoa às talas e à forma [leiase fôrma] em que ella deve fycar muy sossegada & fermosa & dina pera todo ho sempre. Asi a fizerão antes, da mesma maneyra deve ficar despois & eternamente. E se dahi resultar que a orthographia leixe aos vyndoyros esse grãde abysmo entre o que é dyto e o que é scrito, asi ficará todavya por mays abyssal que seja o abysmo.
Con “y” se faz favor, para fazer a vontade ao ooutro.

reclame (ou não?)

anda por aí um cartaz publicitário que tem dado muito que falar: um reclame a uma estante dizendo que é boa para guardar livros ou… 75.800 €. Os euros, toda a gente topa logo, mais que não seja pela soma exata, são uma alusão ao caso do político que escondeu um envelope com essa massa toda (sem indicação do remetente, está bom de ver) na estante onde a judiciária a foi desencantar. Há quem reclame, quem ache que a publicidade não se devia “meter em política”, um terreno que devia estar vedado a aproveitamento comercial. Outros não, dizem que cada qual come do que gosta e se não gosta vai a outra tasca, e até acham piada àquilo. Enfim, uma boa polémica à medida dos tempos que correm em que nada mais – não fora a catástrofe climática que se anuncia, as desigualdades económicas abissais, as guerras calamitosas com que se debate a Europa e o mundo, a crise dos valores em que até aqui assentava a nossa brava cultura ocidental, a falta de canalizadores aos domingos, etc etc – nada ou pouco mais há que nos entretenha.
A seguir a este cartaz outros se seguiram, de outras marcas e de outros produtos, a aproveitar a maré. E mesmo o Jean Némar, que devia era ter mais juízo, resolveu dar um arzinho da sua graça e mandou-me este postal com uma montagem de sua autoria. Hão de uns achar – talvez, talvez… – que está com isso a passar as marcas; e hão de outros achar que não e até achar piada, como é de norma.
Mas, adiante, é assim o postal do Jean Némar:

“No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo, e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: “Faça-se a luz.” E a luz foi feita.”
Deus, como nos ensinaram, falava em latim e assim o que disse foi “Fiat Lux”. Ou, na minha versão, que uma imagem vale mais que mil palavras:

o paraíso da sucata

o mês passado deu um fanico ao meu carro. Coisa grave, a exigir um transplante. Do motor ainda por cima. Não há por aí motores à mão de semear, de um modelo já fora de moda, ainda por cima. E foi assim que o meu carro – desfalecido, sem dar sinal de si – escapou ao limbo do abate irremediável e foi parar ao Paraíso, que é assim que chamam à Quinta do Carmo. O Paraíso da Sucata.

Já não era a primeira vez, há que dizer. Já tinha havido uns sinais percursores, umas coisas que “não iam passar” na inspeção e que tinham de ser substituídas e que a oficina “da marca” já não tinha e que não havia nada a fazer e que o melhor era dá-lo para abate. Eu é que ainda não estava preparado para me despedir do carro e queria procurar uma solução alternativa. Nem que tivesse de ir à bruxa.
Mas não cheguei a ir… Foi um dos tipos “da marca”, à socapa, discretamente, que me sugeriu tentar a Quinta do Carmo, para os lados da Portela. A ver se.
Lá fui e descobri o mundo insuspeitado de um manancial de peças de automóvel de todas as marcas, de todos os modelos e de todos os preços. E descobri ainda por cima o mecânico ideal para implantes, transplantes e até cuidados paliativos para todos os tipos de carros também. Nuno Paixão, de seu nome. E que no meio daquela sucatagem toda está apetrechado com tudo o que há de mais moderno, testes de diagnóstico, kits de tratamento informático. Tudo. Como “na marca”. Menos as meninas de mini-saia, os meninos engravatados e afáveis, os néons e os sofás, as oficinas resplandecentes que mais parecem consultórios médicos modernaços. Com os preços (upa, upa) a condizer, claro.
O Nuno Paixão lá resolveu o berbicacho, lá fez haver as peças que já não havia, lá levou o carro à inspeção e lá mo entregou pronto para outra. O que não demorou muito, como comecei por dizer. Um caso mais sério, desta vez: o tal transplante do motor. Motor esse que ele desencantou, não sei como. Nem quis saber onde encontrou ele o doador. Bastava-me saber que me custava menos do que um carro novo. Lá se fez o transplante. Agora era só rezar para que não houvesse rejeição, e que o sistema informático “reconhecesse” o novo coração do bicho. Reconheceu, sim senhor, mas com um ou outro tropeço: uns sensores que não respondiam, uma cablagem que não passava a mensagem… Mas acabou por ir tudo ao sítio. Com uns quantos acertos e afinações que me valeram uma enfiada de viagens à Quinta. Era já íntimo do Nuno Paixão. Dizia ele: se isto assim continua vamos ter de dar uma explicação à nossas mulheres.
Mas, ia eu a dizer, com esta série de visitas vi-me a dar a volta à Quinta, aos seus moradores e aos seus mistérios. Uma verdadeira aldeia dentro de outra, que aliás não é já aldeia nenhuma, antes uns arredores medonhos com uns prédios medonhos encastrados entre vias rápidas e saídas da cidade. Armazéns e hangares, barracões, cada qual exibindo a sua especialidade: peças de uma certa marca, a mesma peça declinada em todas as marcas e modelos possíveis, carros semi-desfeitos, órgãos esfacelados de carros quase irreconhecíveis. Não sei se viram o filme “Inteligência Artificial” do Spielberg. Há lá uma cena em que se vêem alguns andróides defeituosos a rebuscar um amontoado de peças soltas numa lixeira, restos de outros andróides rejeitados, à procura de sobresselentes para as partes que lhes faltavam. Foi o que me fez lembrar esta aldeia de sucateiros. O Paraíso da Sucata, realmente.

com os olhos em Gaza

não sei se conheces, se já leste alguma coisa de Amos Oz, o escritor israelita. Li só um livro dele, em francês, La troisième sphère, que não será seguramente o melhor. Li-o há muito, muito tempo e já pouco ou nada me lembra da história. Mas há uma cena que nunca me saiu da ideia: Fima, a personagem principal, segue num autocarro e ao olhar pela janela, à luz de um candeeiro, repara numa frase escrita na parede: “Morte aos árabes!”. Instintivamente traduz a frase para alemão e tem um acesso de raiva. Fima é um intelectual, um sonhador, e ali mesmo decide nomear-se a si próprio presidente e, mais ainda, decide fazer nessa qualidade uma visita oficial à aldeia de Deir Yassin no aniversário do massacre que os israelitas aí praticaram contra a população árabe indefesa e fazer um discurso pela paz entre os dois povos.
Fima é claramente uma projeção do próprio autor. E quem conhece Amos Oz, um dos fundadores do movimento “Paz Agora”, sabe como sempre alertou incansavelmente para os perigos da ocupação militar de uma terra onde existem duas nações. Num pequeno texto que acabei de ler (“Sonhos de que Israel deve livrar-se rapidamente”), di-lo claramente: “Se aqui não houver dois Estados, e rapidamente, é muito provável que, para conter o estabelecimento de um Estado árabe do mar até ao rio Jordão, reine, temporariamente, uma ditadura de judeus fanáticos, uma ditadura de caraterísticas racistas, uma ditadura que vai oprimir com mão de ferro tanto os árabes como os seus opositores judeus. Uma ditadura assim não perdurará por muito tempo. Quase nenhuma ditadura de uma minoria que oprime a maioria teve longa duração na época moderna.”
Oz não esconde os duros factos da ocupação: cerca de um terço das terras da Cisjordânia foi já saqueada por Israel (o texto data de 2015), e esse roubo continua. Denuncia a violência e a arrogância dos colonos dos territórios ocupados para quem a ocupação é não só um direito, “mas principalmente uma obrigação, a obrigação religiosa de ocupar cada palmo de terra”. Também não esconde as dificuldades de encontrar um caminho de saída. Diz: “Não posso garantir que, se, no âmbito de um acordo de paz, sairmos dos territórios, tudo vai ficar maravilhoso. Mas tenho a certeza de que se ficarmos neles, tudo vai piorar (…) O contrário de um acordo de concessões mútuas é fanatismo e morte. Nós e os palestinianos não podemos tornar-nos, de um dia para o outro, uma família unida e feliz. Precisamos de dois Estados. Com o decorrer do tempo talvez consigamos cooperação, um mercado comum, uma federação. Mas numa primeira etapa esta terra tem de ser um condomínio com duas residências para duas famílias, porque nós, os judeus israelitas, não vamos sair daqui. Não temos para onde ir. E os palestinianos tão-pouco irão para algum lugar. Eles também não têm para onde ir.”
À “direita fanática” que diz que a situação é irreversível, aponta os exemplos de tantas outras situações “irreversíveis” que a coragem e a ponderação das alternativas conseguiram reverter: quem viu Charles de Gaulle, o herói da direita francesa, a conceder a independência à Argélia; quem viu Menachem Begin o líder da direita israelita, a abdicar do “império” israelita conquistado durante a guerra dos Seis Dias, em troca de um acordo de paz com o Egipto; quem viu Itschak Rabin e Shimon Peres, dois falcões apoiantes dos colonatos, apertarem a mão a Yasser Arafat e tentar chegar a um acordo de dois Estados; quem viu Mikhail Gorbachóv, desmantelar inesperadamente e definitivamente o Império soviético, quem viu tudo isso não vai engolir facilmente as pílulas de desesperança da “situação irreversível”.

As palavras de Amos Oz trazem-me à ideia as palavras de um outro israelita que, de passagem por Lisboa, ficou uns dias em minha casa. Era na altura historiador investigador no Museu do Holocausto do Yad Vashem e, inevitavelmente, a conversa foi dar à “questão palestiniana”. Dizia-me ele: “A solução dos dois Estados é inevitável. Tudo isto é uma perda de tempo e de vidas”. Dito por ele, estas palavras têm outro peso: Vivia em Jerusalém e tinha dois filhos no exército, o que, em Israel, quer muitas vezes dizer na guerra.
Não podia adivinhar ainda, nessa altura, o beco sem saída para onde Netanyahu haveria de conduzir Israel. Estava ainda longe de imaginar como a mistura de desespero e humilhações acumuladas – uma mistura explosiva – haveria de rebentar em ódio e terror cerca de vinte anos mais tarde, em 2023, com o massacre perpetrado pelo Hamas no Kibutz Nir Oz.
“Numa terra de profetas, é difícil ser profeta”, dizia Amos Oz, mas é muito possível, vamos acreditar, que o espelho que daqui resulta – o massacre odioso do Hamas, o mundo devastado de Gaza deixado pelas retaliações do exército israelita – faça todos recuar de horror e permita abrir uma janela para a única solução que ainda se vislumbra e que Oz há muito antevira.

o beco do imaginário

ainda não me saíram da cabeça os “verdadeiros portugueses” de que agora tanto se fala por aí. Faz-me espécie aquele “verdadeiros”, mas para dizer a verdade até aquilo dos “portugueses” me dá que pensar. Porque, se formos a ver bem, é coisa que tem que se lhe diga, pois o que, ou quem, são os portugueses? O que conta nisto de se ser português? O bilhete de identidade, ou cartão do cidadão, é isso? Hão de logo dizer que ter um cartão não faz de ninguém um português. Fará dele um cidadão, com os seus direitos, os seus deveres e tal, mas “ser português” é outra coisa. Qualquer coisa de mais… nem sei como dizer, de mais intangível, de mais profundo. Qualquer coisa capaz de nos ligar mesmo a um desconhecido encontrado noutro país, no meio de uma multidão indistinta. De entre todos, é para esse que somos atraídos, com quem nos irmanamos, com quem partilhamos… o quê? E é aqui que bate o ponto.
Sem o dizermos, pressentimos que há um sem número de coisas que nos liga entre nós, e que nos separa de todos os mais. Nem sempre coisas identificáveis, racionais – antes uma miscelânea de imagens, fantasias, símbolos, mitos, vivências e coisas que tais a que nem sequer saberíamos dar um nome. Tudo colado com um cuspo a que à falta de melhor chamamos o imaginário português, aí onde podem conviver alegremente as cinco quinas de Cristo; a virgem alcandorada numa azinheira; as plangentes areias de Alcácer Quibir; um nebuloso quinto império que nos está talhado e só não sabemos ainda para quando; a nossa pícara peregrinação por índias e brasis, por franças e araganças, ou a memória do que disso resta; o clamoroso remate do Éder, ou do Figo ou do Eusébio; e às tantas até as pataniscas de bacalhau e outros milagres que mais ninguém, senão um “português”, poderia entender e partilhar. Por mais atualizado que seja o seu cartão de cidadão, que emigrante recém-chegado as poderia partilhar, com a mesma unção, ou devoção, ou alegria? É esse consenso quase místico dessa quase mística salada de símbolos, códigos, rituais que se amalgama no imaginário coletivo e dá sentido e lógica ao que de outro modo não passaria de uma coleção de imagens e ideias sem qualquer conotação afetiva.
Teremos então aqui o cimento que nos une, a chave do segredo d’ “os verdadeiros portugueses”? À falta de melhor, é muito capaz de haver muita gente que se contenta com isso. Ou pelo menos que não se dará ao trabalho de escavar mais fundo.

Mesmo que de pé atrás quanto a certezas tão ambíguas, imagine-se o meu desconcerto cada vez que ao descer a Calçada de Santo André, perto de minha casa, me vão dar os olhos à placa que assinala o Beco do Imaginário. Não é que confunda as coisas (ainda não!), mas, assim de repente, é como se a incerteza me atacasse de dúvida em riste. Pois teria ele chegado a um beco sem saída, o nosso imaginário? Começo, mesmo sem querer, a vacilar. Serão afinal cinco? ou mais? ou menos? as tais quinas e/ou chagas de que nos falam na escola? E não é verdade que a Virgem, mesmo sem azinheiras à mão, desceu à terra também noutras terras, em grutas, em penhas e penedais? E não é mais que certo que mesmo sem bacalhau outros farão pataniscas por esse mundo fora com o que mais lhes calhar? E, ainda que sem o mesmo poder simbólico, ainda que sem o palavrão do Éder, não houve outros a marcarem golos igualmente memoráveis nos muitos campeonatos que por aí abundam?
Percebo como é bem possível que neste ponto o Imaginário se ponha a recuar, a hesitar, acuado contra a sólida realidade de um mundo onde a partilha e o consenso se podem alimentar de coisas bem menos fantasmáticas do que as quimeras e as projeções com que alimentamos a nossa insegurança.
Há que escavar mais fundo portanto. À descoberta de uma saída para este beco agourento até que dessa arqueologia forçada traga à luz a verdade redentora: o imaginário português está, afinal, a salvo. O imaginário – este aqui do beco – é bastante menos nebuloso, ainda que talvez menos poético: era simplesmente um artífice que esculpia imagens religiosas, tão antigo que já o referia o Registo Paroquial da freguesia dos Anjos de 1603, dizendo de alguém que era “morador à Calçada de Santo André, junto ao imaginário”. Que o beco lhe tenha ficado com o nome, nada de mais natural. Mas que venha agora inquietar-nos com as dúvidas que lança sobre coisas tão certas como o nosso Imaginário, o outro, isso não lhe posso perdoar. E às tantas nem tal lhe consentiriam as regras estritas do Regimento dos Ensambladores, Entalhadores e Imaginários, que pelo menos desde 1549 regia a profissão.

o puro sangue português

anda agora por aí uma gente a falar nos “verdadeiros portugueses”, a clamar que os emigrantes envenenam a pureza do sangue português. O que, desde logo, num país que tem a maior taxa de emigração na Europa, já devia dar que pensar. Mas o que é pior é que há quem lhes dê ouvidos. Talvez os que se consideram como sendo esses tais “verdadeiros portugueses”. O que é uma coisa que me deixa um pouco baralhado, a mim, que poucas ou nenhumas certezas tenho sobre o meu direito a tal Denominação de Origem Certificada. E que nem sequer estou a ver como se há de medir o índice de tal pureza.
A certidão de nascimento de Portugal data de 1143, com o tratado de Zamora em que Afonso VII de Leão e Castela reconhece Portugal como reino independente. Os portugueses, porém, já há muito por cá andavam. Já nas suas veias corria o sangue de muitos povos que por cá tinham passado. Não só os lusitanos e outros iberos, também os túrdulos, os celtas, os galaicos, os góvios, os vetões. Quando andei na escola ensinavam-nos que por cá tinham andado vândalos, alanos, suevos, visigodos, todos eles nos deixando o seu legado de palavras, lendas e genes. Parece que mesmo gregos e fenícios. Sem falar nos romanos e nos mouros que cá se instalaram com mais demora. E de certeza que toda esta gente nos deixou mais do que algumas palavras, mais do que algumas alfaias agrícolas, algumas artes dos metais e da guerra. Além dos destinos que assim se cruzavam, de certeza que algo mais se cruzou também. E que disso ficaram sinais nos genes dos que por cá iam ficando, e que viriam a ser os tais portugueses. Nós.
E outros foram passando, e alguns ficando. O nosso primeiro rei é filho de um borgonhês. E herdeiro de um reino e de um legado genético onde certamente se reflete toda a história que lhe fica para trás. Nada na natureza é de geração espontânea. Todos nós temos ancestrais comuns e todos nos irmanamos nessa herança.

Falo por mim: o meu DNA conta uma história que me liga a uma herança muito distante da decantada “pureza” de que falam os “verdadeiros portugueses” que agora por aí se ouvem. Maioritariamente ibero, é certo, mas também com inúmeras “gotas” de sangue italiano (certamente romano), celta, francês, asquenaze, escandinavo, norte-africano e árabe.
Como sei isso? Sei porque fiz um teste genético. Não é que estivesse particularmente interessado no assunto, foi mais uma questão de curiosidade. A Rita participava num trabalho sobre genética e eu aceitei ser voluntário para o estudo. Todos cá em casa mandámos amostras da nossa saliva e daí a tempos recebemos o relatório. No meu caso como já disse bastante comprometedor para a “pureza portuguesa” das minhas origens. E como não sou evidentemente caso único, é muito provável que todos os que por cá andam tenham saído da mesma costela, mesmo sem remontar aos tempos do pai Adão.


agora tenho um burro

Chama-se Atenor. É conhecido por ser brincalhão. Gosta de deitar a língua de fora a quem se mete com ele.
Ainda não nos conhecemos pessoalmente. Ainda só trocámos fotografias. Mas um dia destes há de ser. Quando eu ganhar coragem para rumar a Miranda, à aldeia de Atenor (voilà!), onde ele mora, no Centro de Valorização do Burro de Miranda.
De há muito que eu dizia que se tivesse onde os meter, gostava de ter um burrinho e uma cabrinha. A Cereja e o Coiote pegaram-me na palavra e como prenda de Natal mandaram-me o Atenor. Para já só a fotografia e um certificado a atestar o laço assim criado entre nós. Ah, e a promessa de me irem dando notícias do burrinho.
Há já uma longa linhagem de burros na família (mesmo sem contar os burros que nós somos ;-): O Coiote conhecia de pequeno o Carocho (na verdade do velho Coronha- ver photo) e a Cereja é amiga do peito do Gilô (na verdade da Constança, do Pegão, no Algarve). Ora eu não sou menos que eles. E agora tenho também eu o Atenor. Hi-han!
A cabrinha talvez fique para melhor ocasião.