mas não é daqui do lugar, pois não? Bem me parecia. Quando me perguntou aquilo a saber quando era o dia de feira, vi logo que não era daqui. Está de férias, pois. Deve estar lá em baixo na quinta. Já me tinham dito que eles agora alugam aquilo nas férias. E fazem bem. Os filhos foram não sei para onde e se calhar já cá não voltam. Ao menos assim sempre alguém olha por aquilo. Mas eu vi logo que devia ser de outros lados. De Lisboa? Olhe, parece que não, mas aqui onde me vê vivi no Porto mais de cinquenta anos. Estive a servir na casa de uns senhores que eram de lá. Mais de cinquenta anos. Vieram-me aqui buscar tinha eu treze anos. Foi o padre que cá estava nessa altura que me arranjou para eu ir. O meu pai não tinha terras e eu era só mais uma boca a comer lá em casa. Fui servir, que remédio. Também depois disso só cá vim por duas vezes. Uma vez foi para enterrar a minha mãe e depois vim enterrar o meu pai. Foi uma rapariga daqui da terra que me foi lá dizer à casa dos senhores. O padre é que mandou por ela o recado para me ir dizer que a minha mãe tinha morrido. Ela também andava a servir lá no Porto. Morava longe de mim, mas o padre disse-lhe que casa é que era onde eu estava a servir. E depois com o meu pai foi na mesma. Os senhores é que me levaram ao comboio e tudo. E disseram-me para ficar o tempo que fosse preciso. Lá isso, eram muito meus amigos. Mas eu é claro que estava eu aqui a fazer? E também depois disso a bem dizer não tinha cá mais ninguém. O meu trabalho era lá e também não os podia deixar assim. Era uma casa com muito trabalho. Tinha mais de quatro quartos. E a sala e a cozinha e essas coisas, claro. Era uma casa rica. No princípio também tinham uma cozinheira, que ia à praça fazer as compras e cozinhava. Mas depois fiquei só eu. A bem dizer fui eu que criei os filhos. Eram duas meninas e um rapaz. Para mim eram como se fosse a minha família. E eles também me tratavam bem, lá isso verdade se diga. A bem dizer não conhecia mais ninguém, nem falava com mais ninguém. A senhora, sim, era quem falava mais comigo. Foi como uma mãe para mim. Foi a minha mestra para tudo. Tudo o que sei aprendi com ela. Sobre o governo da casa e também sobre a vida. Parece que até a falar aprendi com ela. Eu fui para lá tapadinha de todo, era uma pirralhinha de treze anos quando fui para lá, já se sabe. Aprendi tudo com ela. Tirando ela com quem havia eu de falar? Mas eu também sempre fui muito respeitadora e não me ia pôr a falar assim sem mais nem menos com qualquer pessoa. Havia uma mulherzinha na praça que essa é que falava às vezes comigo. Eu ia sempre fazer as compras lá onde ela estava na praça e com o tempo ela foi metendo conversa comigo. Mas era tudo de onde eu era de onde não era, se estava a servir, se tinha mais família, essas coisas. Aquela moça que era de cá também andava a servir no Porto, mas era num sítio mais longe e a bem dizer só a vi daquelas vezes que ela me foi dar o recado para vir enterrar a minha mãe e o meu pai. Que eu me lembre foi só dessas vezes que eu saí da casa dos meus patrões. Saía para ir às compras à praça e para fazer os recados da senhora, já se sabe, mas assim para mais longe não. Fui uma vez ao Senhor de Matosinhos, só dessa vez. Foram as meninas que me empurraram para ir, tens de sair deste buraco, tens de ir ver o rio, tens de ver a cidade, tens de arranjar um namorado e essas coisas que se dizem. Mas eram uma coisas que elas diziam só para me ouvirem e para se meterem comigo. Elas é que me levaram ao elétrico e me compraram o bilhete e tudo. Aquilo de Matosinhos era uma festa muito grande. Havia de tudo, do bom e do melhor. Mas eu mal cheguei já estava mortinha por ir embora. Não sei, era uma coisa que não era muito do meu feitio. Mas é só para dizer que foi só dessa vez que saí assim para mais longe. O Porto é uma cidade muito grande e eu acho que até me metia medo de me perder no meio daquelas ruas todas, com tantos carros e tanta gente a andar de um lado para o outro. Uma vez fui com uma das meninas, a maior, porque eu tinha de ter cartão e ainda não tinha e ela foi comigo e lá tratou de tudo e eu só tinha de assinar. Ela até ficou admirada por eu saber assinar. Mas eu andei na escola e aprendi. E depois é que ela viu o dia em que eu fazia anos e foi para casa e não se calava a dizer que tinham de fazer uma festa no dia dos meus anos. Para os meninos o que eles queriam era uma festa. E depois lá fizeram. E fizeram um bolo de anos e tudo. E disseram que nesse dia eu não podia fazer nada em casa. Lá isso eram muito bons para mim. A senhora comprou-me um lenço de ramagens, desses como há nas feiras. Mas olhe se quer que lhe diga acho que nunca o cheguei a usar. Está ali direitinho como se fosse novo. Não sei, não sou muito dada a essas coisas. Mas era para dizer que nunca me faltaram com nada. Tratavam-me como se fosse família. A minha prima não gosta de me ouvir dizer isto. És família és família, mas olha lá se eles não te impontaram logo para cá. Ela fala assim, mas também é porque não sabe como eram as coisas naqueles tempo. Eu calo-me porque também preciso dela. E com a perna neste estado também não posso dar ajuda nenhuma no trabalho da casa e assim. Ela também ficou sem ninguém e lá vamos vivendo as duas. Ajudo com alguma coisinha que pus de lado aqueles anos todos. As moças que agora aí trabalham fora a dias ou assim nessas quintas ganham num mês o que eu ganhava num ano por assim dizer. Mas tinha cama e comida e também os meus gastos não eram nenhuns. E em que havia eu de gastar? Mal saía de casa. Era ir à praça, ir aos recados, ir à missa aos domingos e pouco mais. Mas ainda assim fui juntando um bocadinho. A minha prima ri-se de mim e diz que rica família que eles te saíram, olha o que te ficou de uma vida a trabalhar para eles. Família assim, arreda, arreda. Não é por mal. Ela fala assim porque não sabe. E também que haviam eles de fazer? Eles bem queriam ajudar, mas como havia de ser? Lá vontade tinham, mas já lhes chegava ter de olhar pela tia do senhor. Ela vivia lá fechada num quarto. Já não tinha o juizinho todo, com a idade. A bem dizer ninguém sabia que ela lá estava, nem ela saía de lá. Todo o dia ali fechada. Eu é que le dava o comer e limpava as coisas que ela fazia. As meninas iam lá às vezes, mas era mais para a arreliarem e para a ouvirem. Riam-se dos palavrões que ela dizia e da misturada que ela fazia a contar aquelas coisas dela. Não gostava nada de mim, tratava-me mal e chamava-me nomes. Acho que julgava que eu era outra pessoa, não sei quem seria. Aquilo era um martírio para os senhores. Nem podiam convidar ninguém para casa e estarem à vontade. Mas lá isso nunca a puseram fora de casa. A minha prima diz que é porque les calhava bem o dinheirinho e as quintas que estavam em nome dela. Dessas coisas não sei, mas a verdade se diga, lá isso comidinha nunca le faltou. Quando foi disto da perna levaram-me ao médico e chamaram uma enfermeira e tudo para fazer os curativos e tudo. Mas o mal já estava adiantado por causa dos diabetes e não tinham outro remédio e tiveram que me cortar a perna. Aqui pelo joelho, se não parecesse mal até le mostrava. E eles já se sabe, não me podiam ter lá, já se sabe. E foi então que vieram cá falar com a minha prima e combinaram com ela. Depois alugaram uma cadeira de rodas e levaram-me ao comboio e tudo. Foram todos, até o rapaz. Rapaz, é como quem diz, que já está um homem. A minha prima foi-me buscar à vila ao comboio mas teve de arranjar um vizinho que tem uma carroça e ele é que me trouxe para casa a bem dizer ao colo. Ela fica sempre zangada quando se fala nisto e diz que se eles eram assim tão família que bem podiam comprar a cadeira em vez de a alugar. Ela zanga-se muito com estas coisas e está sempre a dizer: quem comeu a carne é que devia rilhar os ossos. Mas isto é uma maneira de falar, já se sabe. No resto, lá isso é muito minha amiga e não me falta com nada. Esta cadeira agora foi um moço daqui que me arranjou. Ele é da Junta e meteu os papéis para me darem a cadeira e depois vieram cá trazê-la e veio uma enfermeira e tudo. Ela às vezes vem cá ver se está tudo bem, mas agora já não é preciso fazer o penso nem nada. Mas sempre é alguém com quem posso falar. Nos dias de bom tempo a minha prima senta-me aqui à beira da porta e é assim que vou vendo quem passa e posso dar dois dedos de conversa. Mas já não conheço ninguém, já se sabe. Saí daqui com treze anos, veja lá bem. Os que eu conhecia que eram do meu tempo já todos se foram. E os que ainda estão vivos pouco melhor estão do que eu e também já mal saem de casa. E quem havia de me vir ver? Não conheço ninguém. E quem se interessa? As meninas prometeram que me vinham ver. Ainda estávamos na estação e elas disseram que depois me vinham ver. Um dia são capazes de aparecer aí, de certeza. Esta gente aqui havia de ficar varada. Agora já são quase doutoras, já se sabe. Mas são muito finas e são uma estampa de mulheres, lá isso verdade se diga. Por aqui nem sonham com uma coisa assim. Gostava de as ver. Mas até agora não vieram.
(as férias também dão para isto: conversa gravada, com adaptações para a escrita, sem as pausas e as interrupções e, com pena minha, sem a pronúncia serrana da “entrevistada”)









