Não tenho andado muito por aqui. Meti-me numa viagem que me levou já pelo Japão, pela América, Coreia do Norte, e até pela China, uma viagem demorada, quase a passo, ao longo de umas quinhentas páginas traduzidas quase passo a passo, e espicaçado pelo chicote de um prazo que não me permite grandes folias nem distrações.
A autora (é uma autora) construiu o romance (é um romance) em capítulos que têm por título o nome de cada um dos personagens, que nos levará pela mão durante essa parte do percurso. Como a luz de uma lanterna, é assim que se vão iluminando aos poucos alguns aspetos parciais da viagem, o que nos vai permitindo começar a desenredar o fio que nos há de conduzir. O que vemos de cada vez é uma parte do cenário, da viagem. Não há uma ordem cronológica, nem estritamente lógica, que é antes vacilante como a luz hesitante de uma lanterna eletrica que seguisse a visão fragmentada dos personagens em quem nos fiamos para nos guiarem através da escuridão, do emaranhado de memórias, de segredos e verdades encobertas que essa escuridão esconde. Como breves iluminações fragmentadas, luzes intermitentes, como um clarão súbito, um flash (cá está!), mas que ofuscam o resto.
É esse o sentido, estou certo disso, da escolha do título em inglês: «Flashlight». Sem artigo, sem preposição, simplesmente: «Flashlight».
Que não sei como hei de traduzir.
Se traduzir fosse simplesmente ir ao dicionário, como também há quem julgue que é (e como faz a IA) estava o caso resolvido: Flashlight é lanterna. É o que dizem todos os dicionários, mesmo que alguns possam acrescentar uma ou outra especificação (de bolso, elétrica, de pilhas…). Mas já se viu, pelo que disse atrás, que essa palavra portuguesa (se fôssemos a escolhê-la) deixaria na escuridão muitos dos sentidos que a palavra inglesa implica. A escolha da autora deixa deliberadamente de lado outras opções, que também existem em inglês (lantern, torch, lamp) se estivesse a falar de «uma fonte de luz alimentada por um combustível inflamável». Não, a escolha é intencional e o que pretende é antes iluminar outros sentidos para que a palavra inglesa aponta. É uma palavra composta: flash (clarão, lampejo, relâmpago, flache) e light (luz). Escolher lanterna como tradução seria o mesmo que olharmos para o dedo quando nos apontam a lua.
O título quer evidentemente levar-nos para a luz, a luz intermitente, o breve clarão que ilumina (apenas) uma parte do cenário, da viagem, da memória, da verdade.
E é isso que o título português, a palavra portuguesa, deveria também dizer. Mas qual palavra ou palavras? Não sei. Ou ainda não sei.
Quem sabe se alguém de entre os que isto lêem não terá uma ideia luminosa (!!) que me possa tirar do escuro em que me vejo?
Então, venha lá daí essa ideia!

Um texto muito bonito, Zé! E tens razão todas as traduções da seriam de fora ou uma coisa o flash, ou outra coisa, a light Lampejos Candeia Vagalumes… Relampejos?
GostarGostar
Iluminação? Mas parece muito comercial…
GostarGostar
Farol ???
Ana Maria
GostarGostar
Já pensaste no título LUZ HESITANTE? Ou LUZ TRÉMULA? ABRAÇOS
GostarGostar
João Pedro: obrigado pelas sugestões (mas tb ão podia deixar de ser assim: os teus livros (quase todos…) são um bom exemplo de bons títulos, que se ajustam bem ao conteúdo e ajudam a fazer “salivar” o leitor). As sugestões no fundo não andam muito longe do que eu próprio penso. Realmente acho que a solução estará mais em “descobrir” uma paráfrase do que em arranjar uma palavra só (que inevitavelmente irá apontar para a lanterna-objeto em vez de indicar ou indiciar a luz incerta e hesitante que mostra em lampejos a “realidade” que pretende descrever, revelar). Perguntas tu: e a tradução de outras línguas como terá resolvido o problema? O livro é recente, deve estar agora a ser traduzido. Um amigo mmeu alemão que costuma ler este blogue disse-me que a versão alemã saiu em fevereiro. E disse-me que o tradutor ou tradutora resolveu o problema muito simplesmente: o título alemão é… Flashlight!
Afinal estava enganado, o amigo Dieter. Fui agora mesmo confirmar na www e deu nisto: O livro em alemão que sairá em outubro, foi pré-publicado com o título “Leuchtzeichen” (Leucht= luz; zeichen = sinal, sinais). (Faz lembrar os “Sinais de Fogo” do Jorge de Sena…, não é?). Anda lá perto (do que eu procuro).
GostarGostar
Clarão!
GostarGostar
Assim, sem mais contexto, eu optaria por Lampejos.
Beijos, Marta
GostarGostar
Que tal relampejo?
Manuel
GostarGostar