ontem é impossível

Passo por ali muitas vezes e chamou-me a atenção o escrito na parede, em letras nítidas e bem desenhadas: «Amanhã é tarde, ontem impossível». Ninguém me tira da cabeça que o escrevente, ou a escrevente, sei lá, estava a pensar no planeta e na urgência em lhe acudir. Não posso saber. Às tantas não é mais do que um desabafo de algum namorado desavindo. Ou uma última mensagem de alguém à beira de uma decisão irrevogável, assim comunicada a quem passa, ou a alguém que ali devesse passar. Vá-se lá saber.
Mas a mim convém-me que seja um alerta a chamar a atenção para um planeta doente. Sinto que o escrito de algum modo me redime de não ter sido eu a escrevê-lo.

E é verdade, ontem é impossível. 
As ondas de calor frequentes, as secas prolongadas, os incêndios mais intensos, as alterações nos ecossistemas, o aquecimento do Atlântico, tudo isso é de ontem. Tudo isso nos passa diante dos olhos quase diariamente e quase diariamente queremos convencer-nos que a natureza é assim. Que são ciclos naturais. Que não podemos fazer nada a nível pessoal. Que é assim mesmo. 
A nossa capacidade de adaptação (e de irresponsabilização) é quase ilimitada. Não vemos uma relação direta entre nada disso e o resto do que fazemos. E não é fácil renunciar a tudo que torna a vida mais fácil, mais agradável, mais tudo. E também não há ninguém, nenhum médico grave e sisudo, nenhuma autoridade daquelas que só de vê-la nos mete medo que venha aí dizer-nos: ou largas isso já ou isto vai alastrar, vai contaminar tudo e todos e não há salvação. Não há nada disso na natureza, os avisos aparecem dispersos e graduais. E não são dirigidos a ninguém em particular. Toca a todos, que o mesmo é dizer que a ninguém. Com isso podemos nós bem. Alguém acorda a pensar que os ursos polares já não têm gelo para fazerem a vidinha deles? Que as borboletas e as abelhas e outros polinizadores estão a desaparecer?  Que há muitos países que têm já de importar abelhas para os seus pomares? Que a temperatura do planeta continua a aumentar? Todas essas ameaças tremendas nos tocam tanto como a morte de um longínquo mandarim numa China longínqua que nada tivesse a ver com o que fazemos ou decidimos.

Se há alguém que realmente acorda todos os dias a pensar nisso, na subida do nível do mar, na degradação dos ecossistemas, na iminência do desastre, só se for alguém como um dos habitantes de Tuvalu, as antigas ilhas Ellice, no sul da Oceania, hoje sob ameaça de desaparecimento. Os seus menos de dez mil habitantes, sabem que é assim, que vivem num país que não tardará muito a ser inabitável. Mais de 90% já pediram vistos para emigrar. A Austrália criou mesmo um plano legal de relocação da população de Tuvalu através de um visto especial permanente: será o primeiro caso de migração climática programada. O governo de Tuvalu criou mesmo um projeto de «nação digital», para preservar a sua cultura e identidade depois de o país físico desaparecer. 

Mas são os únicos para quem estas coisas são, digamos assim, reais. Ou talvez também os habitantes de Nova Orleães, uma cidade da Louisiana (EUA), provavelmente condenada a ser engolida pela subida do nível do mar dentro de poucas gerações. Começa a falar-se de um plano de realocação da população.
Mas também isso é longe. Também aí o ontem é impossível. Também aí amanhã é tarde.
E do hoje não se fala. Ninguém quer falar. Nem nós, quanto mais.

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