Ligados à máquina

Há histórias que passam por nós e quase não damos por elas. Passam a correr, alheadas, alheias, e depressa desaparecem da nossa vista e da nossa memória. Outras agarram-nos com quantas garras e quantos dentes têm, se tiverem, e não descansam enquanto não nos arrastam lá para dentro também. E ainda outras há que nos ficam como que embrulhadas, para mais tarde desembrulharmos a ver o que nos trazem. São talvez as que nos dão mais que pensar.

E foi esse o caso de que vinha aqui falar.

Foi-me contado por um amigo que não via há muito tempo e na altura (lá está) dei-lhe apenas a pouca atenção que me merecia no meio das muitas histórias que tínhamos para rever, das muitas perguntas sobre este e aquele a quem tínhamos perdido a pista nos meandros do passado. E a história foi precisamente sobre um desses: vivia (esse tal) há já algum tempo entre a vida e a morte. O pai estava no hospital, praticamente em estado vegetativo,  sem falar, sem mostrar sinais de vida, inconsciente. Vivia apenas «ligado à máquina», em resumo. A família – dois filhos e afins – mobilizara-se e cumpria agora um calendário de visitas, em rotação. Alguns tinham vindo de fora (o hospital é em Lisboa) – dormiam em casa de um dos irmãos, ou de amigos, comiam onde calhava, desfaziam-se em licenças e desculpas nos empregos e nas escolas, improvisavam uma rotina que sabiam que em breve se mostraria insustentável. Não tardaria muito até alguém começar, ainda a medo, a tentear o terreno («Vocês não acham que se podia…?»). Não  seriam os filhos, claro, mas talvez alguém dos ramos colaterais da família. A verdade é que não havia nenhum fim à vista – as máquinas são eternas, pensava-se à socapa. Uma eternidade a que ninguém ousava, ou não podia, pôr termo, nem eles nem os médicos. 
Nem o pai morria, nem eles viviam.
Isto, mais coisa menos coisa, foi o que me contou o meu velho amigo reencontrado. A história deve ter ficado «embrulhada», como já disse, num recanto da minha memória, à mistura com muitas outras histórias de outros antigos conhecidos de quem falámos nessa altura. E só me voltei a lembrar de tudo agora, há dias, ao ler um texto de Rosalvo Almeida sobre o chamado «Testamento Vital».

Conheço o Rosalvo desde os meus tempos do liceu, leio fielmente as colaborações dele no Público e sigo, se possível ainda mais fielmente, o blogue «Textos e Contextos»  (rosalvoalmeida.blogspot.com) onde ele vai desfiando a meada dos seus variadíssimos interesses, com um foco muito especial nas questões de ética e bioética na prática da medicina. Médico, agora reformado, dedica um grande interesse às questões de vida e de morte que a profissão muitas vezes envolve. As tais questões sempre presentes e quase sempre evitadas, como a eutanásia, o testamento vital, os direitos dos idosos. E recentemente editou a expensas suas e com distribuição gratuita um pequeno opúsculo intitulado «Finitude e Finalidade – reflexões sobre morte, políticas públicas e opções privadas» que constituiu a dissertação de mestrado em saúde pública que defendeu há pouco na Faculdade de Medicina do Porto e onde reuniu alguns dos textos que foi escrevendo sobre esses temas. 

Há dias recebi uma informação sobre um colóquio para debater as questões aí suscitadas e foi então que aquela história do «nem o pai morre, nem os filhos vivem» me voltou a lembrar.
É um dilema que o Rosalvo tem abordado desde sempre e de muitas maneiras, sobretudo ao explicar e defender o testamento vital. Não se trata aqui de eutanásia. Isso – ou seja a antecipação da morte, face a sofrimentos intoleráveis – é coisa que tem de ser feita «presencialmente e conscientemente», assim o exige a legislação em vigor. Do que aqui se trata, isso sim, é das situações em que alguém se encontra incapaz de expressar a sua vontade pessoal sobre os cuidados de saúde que deseja receber, ou não receber, em fim de vida – é isso no fundo o que constitui o chamado «testamento vital» (a que a Lei nº 25/2012 chama Diretivas Antecipadas de Vontade).

E que vem a ser o testamento vital, então? 
Diz a tal Lei: é um documento em que uma pessoa maior de idade manifesta antecipadamente os cuidados de saúde que deseja receber ou não receber numa situação em que se venha a encontrar-se definitivamente impossibilitada de expressar a sua vontade. Esse documento deve ser depositado no Registo Nacional do Testamento Vital (RENTEV), então criado, e é livremente revogável a qualquer momento pelo próprio.

Quem sabe se não teria ficado por aqui o desfecho da história que comecei por contar, do pai que só sobrevive ligado à máquina e dos filhos que  assim se vêem desligados das suas próprias vidas. Há uma data de angústias que seja como for são inevitáveis, para quem se vê confrontado com o abismo da morte de alguém que ama; mas estou convencido de que há também muito sofrimento inútil que se poderia evitar, conhecendo a vontade de quem está impossibilitado de a expressar.
Diz-me o Rosalvo que já fez e registou o testamento dele. 
E eu, que nem sequer sei muito bem a quem hei de deixar um dia as minhas gravatas e as minhas contas offshore, vou pelo menos tratar disto. Um dia destes. Não gosto de recomendar a ninguém nada que não possa querer para mim próprio.

o pedestal de onde caímos

Fomos durante muito tempo o centro do universo. Todos os luzeiros do céu, que iluminavam a Terra, presidiam ao dia e à noite e separavam a luz das trevas e todos os astros, a lua, o sol, tudo girava à nossa volta. E detinha-se o sol no seu curso se Josué assim lho ordenasse, pois que tudo o que fora criado existia sob a dominação do homem. Assim foi durante muito muito muito tempo e provavelmente assim continuaria não fossem as conjeturas de Copérnico, um astrónomo polaco, confirmadas depois pelas observações diretas de Galileu: por mais pesadas que fossem as excomunhões e as prisões da Santa Inquisição, por mais herético que isso fosse, era a Terra que girava à volta do sol e não o contrário.

Não foi nada fácil ao Homem aceitar a evidência deste Mensageiro Sideral e abdicar do seu lugar no centro do universo. Mas ainda que desalojado do seu trono universal, consolava-se com a primazia que continuava a gozar no seio da Criação, feito como fora para encher e dominar a Terra, dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra. Entre todos eles, o homem tinha um lugar à parte. No topo. Distinto de todos os outros animais, o Homem fora criado à imagem e semelhança de Deus, e de certo modo guardava em si uma qualquer centelha dessa divindade.
Assim se acreditou durante muito muito tempo e com isso se alimentava o orgulho e a ideia da supremacia do homem sobre o resto da vida animal do planeta. Até que…

Até aparecer alguém com a ideia de que o homem, afinal, não passava de mais um ramo da imensa e ancestral árvore da vida, partilhando um tronco comum com o resto da Criação. Darwin, e outros cientistas, da época e posteriores, demonstraram com as suas descobertas e observações que tudo aquilo de que nos orgulhávamos e que nos distinguia dos outros animais se devia afinal a um processo de evolução de algumas caraterísticas também presentes nos outros animais. Afinal não devíamos a um especial desígnio do Criador o nosso lugar privilegiado, mas sim a um processo biológico impessoal e independente da nossa vontade. Todos, o homem e o resto da vida animal do planeta descendia de um antepassado comum, todos sujeitos às mesmas leis da evolução. E com isto era desferido o segundo golpe implacável na suposta supremacia humana.

Resignados talvez, mas não vencidos, agarrávamo-nos ainda a um derradeiro reduto da certeza da nossa singularidade e da nossa primazia: éramos apesar de tudo o único ser racional, o único dotado de livre-arbítrio, único dotado de consciência de si mesmo e capaz de decidir de forma consciente.
Mas não. Nem isso. Ou pelo menos não era bem assim: dizia-o Freud que trouxe ao de cima as forças inconscientes que dominam uma boa dose da nossa capacidade de tomar decisões. Freud, e com ele muitos outros, de forma mais ou menos categórica, retirou ao homem essa ilusão de ser puramente racional e totalmente consciente do seu arbítrio. Grande parte da nossa vida mental processa-se antes a um nível profundo inacessível à nossa consciência, regido por medos, desejos e impulsos profundos que nós próprios desconhecemos. Mascaramo-los sob o verniz civilizado das convenções, mas no fundo não passam de racionalizações de pulsões biológicas primitivas (sexuais, de agressão e de outras forças ocultas à nossa consciência) que procuramos passar em contrabando.

Caídos de mais esse pedestal, despejados do centro do cosmos, desalojados do topo da criação, e de nós mesmos assim roubados, víamo-nos despojados da ilusão da racionalidade absoluta que nos garantisse o lugar de supremacia a que julgávamos ter direito, finalmente reduzidos à nossa estreme humanidade, sem nenhuma centelha divina, sem quaisquer outros direitos e privilégios para além daqueles que fôssemos capazes de criar por nós próprios.
Que mais nos poderia ser retirado? Nada!

Nada? Nada, a não ser que apareça no planeta algum tipo de organismo concorrente, que como uma daquelas espécies invasoras que surgem na natureza possa disputar o nosso lugar e até pôr em causa a própria existência da espécie humana.
Não precisa de ser nenhuma guerra dos mundos, travada com alguma espécie vinda dos confins das galáxias como nos filmes de ficção científica. Poderemos inclusive ser nós próprios a criá-lo: máquinas capazes de replicar o que os humanos fazem, como começou por acontecer com as primeiras máquinas inteligentes e os primeiros robôs industriais por exemplo. E mesmo de o fazerem melhor e mais depressa como passou a ser possível a máquinas com capacidades não só de replicação como de adaptação. E mesmo sem a supervisão humana, como começa a acontecer com a chamada Inteligência Artificial (IA). Dotada de uma capacidade de armazenagem de memória ilimitada, com uma capacidade de processar dados à velocidade da luz, com processos de tomada de decisão isentos de emoções – atribuimos-lhe agora a capacidade de aprender melhor e mais depressa do que nós, e de transmitir instantaneamente esse conhecimento a outras máquinas envolvidas no mesmo processo (para nós imprevisível) de aprendizagem. E sem supervisão humana.

Dizemo-nos, para nos tranquilizarmos, que os computadores não têm vontade própria. Os algoritmos em que se baseia a sua tomada de decisões não são mais que uma série de «instruções» determinadas por seres humanos. A «história de terror» que alguns nos contam sobre a tomada do poder pelas máquinas pouco mais é do que uma manobra de desinformação assente na descabida antropomorfização da inteligência artificial. É o que nos vamos dizendo…
Mas… e se não fosse assim? Se, como diz por exemplo Geoffrey Hinton, um prémio Nobel canadiano conhecido pela sua investigação no campo das redes neuronais artificiais, existisse a possibilidade (probabilidade?) de a tecnologia da inteligência artificial se tornar capaz de se aperfeiçoar a si própria sem intervenção humana? É o que pode acontecer através de um processo conhecido como «autoaperfeiçoamento recursivo», ou seja uma capacidade automática (e imparável!!) de investigação e desenvolvimento, que a certa altura poderia, por exemplo, permitir a um único «investigador» dirigir uma «equipa» equivalente a milhões (milhões, note-se bem) de investigadores humanos de topo. Note-se que atualmente a IA produz já 80% do seu próprio código.
Sabendo nós que todo este ciclo de investigação e produção da IA está nas mãos de uns poucos países (governos), e de meia dúzia de empresas (empresários), com interesses e projetos em grande parte contraditórios, como confiar que todo o inimaginável (e maravilhoso, há que dizê-lo) potencial da IA será posto ao serviço da humanidade, de toda a humanidade?

Andei a respigar dados aqui e ali por todos os cantos da internet, a ler pela rama artigos e mais artigos que nem sempre entendia plenamente e para dizer a verdade saí desse labirinto informático com mais dúvidas do que outra coisa. O controlo do desenvolvimento da IA é provavelmente uma ilusão. Não há aqui nenhum travão. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no caso do desenvolvimento da energia nuclear e das armas nucleares, em que ainda funciona (até certo ponto) a dissuasão e a chamada «lógica MAD – Mutual Assured Destruction” (se duas potências têm capacidade para se destruirem totalmente numa retaliação, nenhuma delas tem um incentivo racional para iniciar um conflito). Sem isso, adverte a encíclica “Magnífica Humanidade” escrita por alguém atento a esta questão, matemático de formação e atualmente Papa da Igreja Católica, «Se a técnica passar a ser o critério absoluto, a pessoa humana corre o risco de se ver reduzida a meros dados num processo, a uma peça de uma engrenagem ou a uma mercadoria.»
Seria esse também, depois daqueles que Freud apontou, o derradeiro golpe no narcisismo humano, o último pedestal de onde o homem poderia cair.

uma visita…

Quem esteve cá ontem foi a Lúcia. Trazia uns versos que tinha feito e que queria que eu pusesse aqui. Dizia que tinha a ver com muitas das coisas de que o blogue tem falado e… já agora… Deixou-me (mandou-me) pois os tais versos. Li-os: desconhecia-lhe este tom grave e um tanto sentencioso, longe da ligeireza que lhe vejo no resto da vida. Que havia eu de lhe dizer? Ainda não aprendi a dizer-lhe que não a nada. Aqui ficam, portanto, os versos da Lúcia (Lúcia Lima, como ela quer que eu os assine)

O sobreiro grande

Diziam-me que pelos círculos do tronco se podia saber a idade das árvores.
Mas eu media-a pelas vezes que passava por ele.
Muito cedo, ainda os meus pais dormiam,
pairava uma névoa esgarçada na manhã fria,
eu acordava já alvoroçada para ir ver
as marcas deixadas pelos porcos bravos
que vinham fuçar à volta das raízes, 
coçar-se nas cascas ásperas do sobreiro 
e comer as bolotas que tinham caído durante a noite.
Passei a mão pelo tronco rugoso: Foi a primeira vez 
e foi como se a árvore nascesse para mim.
Outras vezes viriam que iam contando os anos, 
e era assim que sabia a idade dela.
Havia os ramos, as folhas cerradas, a sombra, os pássaros,
mas era aquele arranhar na mão
o que eu sempre mais lembrava.

O sol crestava os fetos e as silvas do caminho
um zumbido surdo à mistura com a cegarrega das cigarras
indistinto sem passar a barreira
dos pensamentos que ali me levavam.
Não sabia se ele lá estaria – promessas de rapazes, dizia eu,
a preparar-me para tudo o que pressentia 
no canto pausado da poupa,
no leve acenar dos caniços ao fundo do campo.
Descalço, à sombra do sobreiro, encostado à casca rugosa
que ainda me mordia a mão e as lembranças,
reconheci-o então, de costas para o carreiro para não me ver chegar,
a esconder a sua agitação.

Moro agora há muito noutro lado, entre gente que mal dá por mim,
longe da casa do sobreiro grande, das noites à janela a espreitar
os segredos dos bichos que só saem pelo escuro.
Há dias veio cá a minha filha trazer-me as mudas de roupa
e notícias desse mundo que mal consegue assomar
à porta já meio fechada da memória
por onde entram e saem as sombras de mortos e vivos,
indistintos uns e outros.
Tinham cortado o sobreiro grande, 
iam lá construir uma coisa nova.
O cepo meio enterrado entre as ervas 
e o entulho das obras confirmava ainda 
com os secretos anéis enfim à mostra
os muitos anos que tinha vivido.
Por entre a névoa que cobre o passado e as memórias
foi como se sentisse ainda a carícia da casca rugosa.

A Mimosa da Graça

Fiquei admirado: gastaram-se (gastámos) quase dois milhões de euros em projetos de erradicação da mimosa e outras espécies invasoras. É muito dinheiro. Mas realmente tinha de ser. As mimosas e outras acácias ocupavam já cerca de 17 mil hectares de terrenos no continente, dois mil deles em áreas protegidas. No Parque Natural do Montesinho, no Gerês, na serra do Açor, em Viana, nas margens do Mondego, tudo se transformava num denso manto dourado ao chegar a primavera. Mal punha pé, ou antes mal lançava raízes num sítio qualquer logo começava a instalar-se, usando todas as armas de que dispõe: cresce rapidamente, produz quantidades enormes de sementes, que permanecem viáveis no solo durante vários anos, formando povoamentos extremamente densos, mesmo em solos muito pobres, mesmo sem intervenção humana. O pior é que o fazem à custa das espécies nativas que vêem o seu crescimento dificultado pela densidade e pelas substâncias segregadas pela mimosa. Que às tantas começaram a invadir os terrenos de cultivo. Foi aí que se começou a tomar a sério o problema. 
Porque até aí não era um problema. Pelo contrário, admiravam-lhe as lindas flores ornamentais, com os seus caraterísticos pompons amarelos que enfeitavam as encostas de Portugal inteiro e faziam a felicidade dos passeios e dos fotógrafos de domingo. Eram apreciadas e procuradas. A moda oitocentista das plantas exóticas abriu-lhe as portas: as primeiras mimosas, importadas da Austrália através de viveiristas europeus, foram plantadas em meados do século dezanove em Lisboa, na Quinta do Lumiar, propriedade dos futuros duques de Palmela. A seguir, o interesse industrial abriu-lhes o caminho para a horticultura comercial: por ser de crescimento rápido, fornecer madeira e lenha, taninos para os curtumes, além de poder ser usada na fixação de solos e consolidação de taludes. Um empresário portuense plantou 600 hectares de acácias e eucaliptos nas suas propriedades orgulhosamente batizadas Nova Austrália e Nova Tasmânia, nos arredores de Abrantes.  E também o Estado via na mimosa um auspicioso factor de desenvolvimento, pelo seu interesse económico e florestal, e desatou a plantá-las no Gerês e em matas públicas do litoral centro. 

O problema (agora já se dizia “ecológico”) que a mimosa trazia consigo só começou a tornar-se evidente nas décadas de 1970 e 1980: os grandes incêndios criavam grandes zonas disponíveis que a mimosa de crescimento rápido colonizava imediatamente. Um estudo feito na serra da Estrela apurou uma densidade de mais de 62 mil sementes por metro quadrado.
A invasão era imparável: o êxodo rural, o abandono dos campos, a redução da agricultura e do pastoreio tradicionais deixava-lhe o terreno livre. E o decreto-lei que finalmente classifica a – dourada, promissora, tão bonita que ela é – mimosa, Acacia dealbata de seu nome completo, só chegou em 1999. O que pode explicar que (apenas nos dois municípios estudados) a área ocupada pela Acacia dealbata tenha aumentado 417% entre 2004 e 2021.

De resto é como no resto: demoramos sempre um certo tempo até nos darmos conta dos problemas.
Que o diga a Mimosa da Graça, uma graciosa leitaria e pastelaria que durante muitos anos serviu a Rua da Graça, em Lisboa, e de que já só resta o singelo portal com suas letras de um gosto quase clássico, à espera do destino que lhe será dado pelo fundo de investimento que já a deve ter comprado e que a há de vender. Talvez os donos não se tenham apercebido que os moradores da rua e da freguesia tinham desandado e já não foram a tempo de responder à nova procura dos brunches, e smoothies e matchas, e sucos de açai e as outras novidades que a boa da leitaria não tinha visto aparecer e instalar-se como gosto dominante. Como as mimosas da história, tinha aparecido por cá uma gente diferente, de gostos diferentes e com dinheiro, que aos poucos foram colonizando as pastelarias que por aí havia, e que agora se chamavam Neighbourhood, Brunch and Bites ou Locals Nomads. As espécies nativas não aguentaram a concorrência, as rendas e os trespasses subiram para totais inalcançáveis pelas modestas leitarias apanhadas a molhar o bolo de arroz no galão (quentinho, se faz favor). Foram sendo corridas. Mas tinha de ser. Não se podia perder este bem-vindo contributo para equilibrar o défice nacional. São milhares e milhares destas mimosas que diariamente são despejadas pelos voos e os cruzeiros ao preço da chuva chegados de todas as partes do mundo. E temos de lhes dar o que eles querem: por eles, mudámos as comidas que comíamos, mudámos os hábitos e costumes que seguíamos e mudámos até a língua que falávamos. Um dia (talvez) virá aí um tardio decreto-lei a moderar a falta de modos da invasão e ocupação, mas entretanto as mimosas vão alastrando, a um ritmo superior aos 417% das suas congéneres vegetais. 

Será que valeu a pena? – hão de um dia perguntar-nos. Não sei. A Leitaria Mimosa da Rua da Graça, em Lisboa, talvez seja uma espécie de resposta.

Relatório e contas de uma criada de servir

mas não é daqui do lugar, pois não? Bem me parecia. Quando me perguntou aquilo a saber quando era o dia de feira, vi logo que não era daqui. Está de férias, pois. Deve estar lá em baixo na quinta. Já me tinham dito que eles agora alugam aquilo nas férias. E fazem bem. Os filhos foram não sei para onde e se calhar já cá não voltam. Ao menos assim sempre alguém olha por aquilo. Mas eu vi logo que devia ser de outros lados. De Lisboa? Olhe, parece que não, mas aqui onde me vê vivi no Porto mais de cinquenta anos. Estive a servir na casa de uns senhores que eram de lá. Mais de cinquenta anos. Vieram-me aqui buscar tinha eu treze anos. Foi o padre que cá estava nessa altura que me arranjou para eu ir. O meu pai não tinha terras e eu era só mais uma boca a comer lá em casa. Fui servir, que remédio. Também depois disso só cá vim por duas vezes. Uma vez foi para enterrar a minha mãe e depois vim enterrar o meu pai. Foi uma rapariga daqui da terra que me foi lá dizer à casa dos senhores. O padre é que mandou por ela o recado para me ir dizer que a minha mãe tinha morrido. Ela também andava a servir lá no Porto. Morava longe de mim, mas o padre disse-lhe que casa é que era onde eu estava a servir. E depois com o meu pai foi na mesma. Os senhores é que me levaram ao comboio e tudo. E disseram-me para ficar o tempo que fosse preciso. Lá isso, eram muito meus amigos. Mas eu é claro que estava eu aqui a fazer? E também depois disso a bem dizer não tinha cá mais ninguém. O meu trabalho era lá e também não os podia deixar assim. Era uma casa com muito trabalho. Tinha mais de quatro quartos. E a sala e a cozinha e essas coisas, claro. Era uma casa rica. No princípio também tinham uma cozinheira, que ia à praça fazer as compras e cozinhava. Mas depois fiquei só eu. A bem dizer fui eu que criei os filhos. Eram duas meninas e um rapaz. Para mim eram como se fosse a minha família. E eles também me tratavam bem, lá isso verdade se diga. A bem dizer não conhecia mais ninguém, nem falava com mais ninguém. A senhora, sim, era quem falava mais comigo. Foi como uma mãe para mim. Foi a minha mestra para tudo. Tudo o que sei aprendi com ela. Sobre o governo da casa e também sobre a vida. Parece que até a falar aprendi com ela. Eu fui para lá tapadinha de todo, era uma pirralhinha de treze anos quando fui para lá, já se sabe. Aprendi tudo com ela. Tirando ela com quem havia eu de falar? Mas eu também sempre fui muito respeitadora e não me ia pôr a falar assim sem mais nem menos com qualquer pessoa. Havia uma mulherzinha na praça que essa é que falava às vezes comigo. Eu ia sempre fazer as compras lá onde ela estava na praça e com o tempo ela foi metendo conversa comigo. Mas era tudo de onde eu era de onde não era, se estava a servir, se tinha mais família, essas coisas. Aquela moça que era de cá também andava a servir no Porto, mas era num sítio mais longe e a bem dizer só a vi daquelas vezes que ela me foi dar o recado para vir enterrar a minha mãe e o meu pai. Que eu me lembre foi só dessas vezes que eu saí da casa dos meus patrões. Saía para ir às compras à praça e para fazer os recados da senhora, já se sabe, mas assim para mais longe não. Fui uma vez ao Senhor de Matosinhos, só dessa vez. Foram as meninas que me empurraram para ir, tens de sair deste buraco, tens de ir ver o rio, tens de ver a cidade, tens de arranjar um namorado e essas coisas que se dizem. Mas eram uma coisas que elas diziam só para me ouvirem e para se meterem comigo. Elas é que me levaram ao elétrico e me compraram o bilhete e tudo. Aquilo de Matosinhos era uma festa muito grande. Havia de tudo, do bom e do melhor. Mas eu mal cheguei já estava mortinha por ir embora. Não sei, era uma coisa que não era muito do meu feitio. Mas é só para dizer que foi só dessa vez que saí assim para mais longe. O Porto é uma cidade muito grande e eu acho que até me metia medo de me perder no meio daquelas ruas todas, com tantos carros e tanta gente a andar de um lado para o outro. Uma vez fui com uma das  meninas, a maior, porque eu tinha de ter cartão e ainda não tinha e ela foi comigo e lá tratou de tudo e eu só tinha de assinar. Ela até ficou admirada por eu saber assinar. Mas eu andei na escola e aprendi. E depois é que ela viu o dia em que eu fazia anos e foi para casa e não se calava a dizer que tinham de fazer uma festa no dia dos meus anos. Para os meninos o que eles queriam era uma festa. E depois lá fizeram. E fizeram um bolo de anos e tudo. E disseram que nesse dia eu não podia fazer nada em casa. Lá isso eram muito bons para mim. A senhora comprou-me um lenço de ramagens, desses como há nas feiras. Mas olhe se quer que lhe diga acho que nunca o cheguei a usar. Está ali direitinho como se fosse novo. Não sei, não sou muito dada a essas coisas. Mas era para dizer que nunca me faltaram com nada. Tratavam-me como se fosse família. A minha prima não gosta de me ouvir dizer isto. És família és família, mas olha lá se eles não te impontaram logo para cá. Ela fala assim, mas também é porque não sabe como eram as coisas naqueles tempo. Eu calo-me porque também preciso dela. E com a perna neste estado também não posso dar ajuda nenhuma no trabalho da casa e assim. Ela também ficou sem ninguém e lá vamos vivendo as duas. Ajudo com alguma coisinha que pus de lado aqueles anos todos. As moças que agora aí trabalham fora a dias ou assim nessas quintas ganham num mês o que eu ganhava num ano por assim dizer. Mas tinha cama e comida e também os meus gastos não eram nenhuns. E em que havia eu de gastar? Mal saía de casa. Era ir à praça, ir aos recados, ir à missa aos domingos e pouco mais. Mas ainda assim fui juntando um bocadinho. A minha prima ri-se de mim e diz que rica família que eles te saíram, olha o que te ficou de uma vida a trabalhar para eles. Família assim, arreda, arreda. Não é por mal. Ela fala assim porque não sabe. E também que haviam eles de fazer? Eles bem queriam ajudar, mas como havia de ser? Lá vontade tinham, mas já lhes chegava ter de olhar pela tia do senhor. Ela vivia lá fechada num quarto. Já não tinha o juizinho todo, com a idade. A bem dizer ninguém sabia que ela lá estava, nem ela saía de lá. Todo o dia ali fechada. Eu é que le dava o comer e limpava as coisas que ela fazia. As meninas iam lá às vezes, mas era mais para a arreliarem e para a ouvirem. Riam-se dos palavrões que ela dizia e da misturada que ela fazia a contar aquelas coisas dela. Não gostava nada de mim, tratava-me mal e chamava-me nomes. Acho que julgava que eu era outra pessoa, não sei quem seria. Aquilo era um martírio para os senhores. Nem podiam convidar ninguém para casa e estarem à vontade. Mas lá isso nunca a puseram fora de casa. A minha prima diz que é porque les calhava bem o dinheirinho e as quintas que estavam em nome dela. Dessas coisas não sei, mas a verdade se diga, lá isso comidinha nunca le faltou. Quando foi disto da perna levaram-me ao médico e chamaram uma enfermeira e tudo para fazer os curativos e tudo. Mas o mal já estava adiantado por causa dos diabetes e não tinham outro remédio e tiveram que me cortar a perna. Aqui pelo joelho, se não parecesse mal até le mostrava. E eles já se sabe, não me podiam ter lá, já se sabe. E foi então que vieram cá falar com a minha prima e combinaram com ela. Depois alugaram uma cadeira de rodas e levaram-me ao comboio e tudo. Foram todos, até o rapaz. Rapaz, é como quem diz, que já está um homem. A minha prima foi-me buscar à vila ao comboio mas teve de arranjar um vizinho que tem uma carroça e ele é que me trouxe para casa a bem dizer ao colo. Ela fica sempre zangada quando se fala nisto e diz que se eles eram assim tão família que bem podiam comprar a cadeira em vez de a alugar. Ela zanga-se muito com estas coisas e está sempre a dizer: quem comeu a carne é que devia rilhar os ossos. Mas isto é uma maneira de falar, já se sabe. No resto, lá isso é muito minha amiga e não me falta com nada. Esta cadeira agora foi um moço daqui que me arranjou. Ele é da Junta e meteu os papéis para me darem a cadeira e depois vieram cá trazê-la e veio uma enfermeira e tudo. Ela às vezes vem cá ver se está tudo bem, mas agora já não é preciso fazer o penso nem nada. Mas sempre é alguém com quem posso falar. Nos dias de bom tempo a minha prima senta-me aqui à beira da porta e é assim que vou vendo quem passa e posso dar dois dedos de conversa. Mas já não conheço ninguém, já se sabe. Saí daqui com treze anos, veja lá bem. Os que eu conhecia que eram do meu tempo já todos se foram. E os que ainda estão vivos pouco melhor estão do que eu e também já mal saem de casa. E quem havia de me vir ver? Não conheço ninguém. E quem se interessa? As meninas prometeram que me vinham ver. Ainda estávamos na estação e elas disseram que depois me vinham ver. Um dia são capazes de aparecer aí, de certeza. Esta gente aqui havia de ficar varada. Agora já são quase doutoras, já se sabe. Mas são muito finas e são uma estampa de mulheres, lá isso verdade se diga. Por aqui nem sonham com uma coisa assim. Gostava de as ver. Mas até agora não vieram.

(as férias também dão para isto: conversa gravada, com adaptações para a escrita, sem as pausas e as interrupções e, com pena minha, sem a pronúncia serrana da “entrevistada”)

escolhas múltiplas

Pensando bem, não há momento nenhum na vida que não traga consigo uma escolha. A cada momento escolhemos: nem que seja se falamos ou não, se saímos, se entramos, se nos sentamos, se olhamos… Tão banais e espontâneas que são tais escolhas, nem damos por que tenhamos escolhido, que decidimos o que quer que fosse.  Tão pouca importância damos às coisas que não nos pedem reflexão, que se alguém as pusesse diante de nós para decidirmos, éramos muito capazes de dizer que venha de lá o diabo e escolha. 
Mas nem todas as escolhas são assim inocentes. 
Logo vêm outras que nos pedem já alguma ponderação. Seja porque põem na balança outras pessoas, seja porque mexem num qualquer mecanismo que nem sempre está à mostra, seja porque se excluem umas às outras, Nesse caso, escolher uma coisa é desde logo não escolher a outra. E por pouco que seja custa-nos renunciar ao que não escolhemos. Divididos como todos somos, também todos nos vemos, apesar de tudo, como inteiros, ensinados a nada de nós excluirmos nas mínimas coisas que fazemos. Muito embora saibamos que é divididos que vivemos, e que somos moldados precisamente por essas muitas escolhas que vamos fazendo e pelas muitas outras que não fazemos. Aliás, se assim não fosse como alimentar a intriga de tantos romances e dramas e filmes e telenovelas e tanta da literatura que nos acompanha nesta breve viagem? Ah, se Adão tivesse decidido não trincar a maçã…
Mas, mesmo assim, divididos e inconformados, vamos aceitando (que remédio!) a nossa condição de viver cortados ao meio, na eterna e inconfessada nostalgia de uma inteireza que deixámos num tempo mítico em que  tudo era perfeito e vivíamos na intimidade dos deuses. Aliás, também eles, agora, todos arrumados em mitos, em religiões, em ensinamentos de influencers e outras maneiras de apaziguarmos aquela mesmíssima sede antiga de que ainda padecemos.

Só que vêm agora as outras escolhas, essas a que não há meio de escapar nem de arrumar em sítio nenhum, onde ficassem quietas, sem nos inquietarem a nós.
Há quem às vezes lhes chame escolhas éticas, que sem interferirem diretamente na nossa vidinha, são, sabemos que são, as que lhe dão sentido. E que nos ligam a tudo o que anda sempre ligado, que o saibamos ou não, que o queiramos ou não. E são as escolhas mais difíceis. Porque nenhuma delas é boa, e porque uma e outra põem em cima da mesa valores que consideramos darem valor à (nossa) vida. E se escolher uma implica renegar a outra? Há quem traga no bolso a fita métrica que lhe permite escolher «a menos má» ou «aquela com que posso viver melhor», e é muito capaz de ser um bom sistema quando se trata de escolher entre uma camisa de algodão e outra de linho. Mas já assim não será quando se trata de escolher o caminho quando não há nenhum caminho traçado. Quando o caminho se faz ao andar.
Ainda agora…
Se tivéssemos de tomar posição na guerra entre o Irão e a América? 
Temos de um lado um regime (teocrático), com milhares de pessoas presas sem julgamento, por razões fúteis ou por ousarem uma mínima sombra de oposição às autoridades; capaz de prender, torturar, estuprar e assassinar os milhares que pedem nas ruas o direito a ter uma vida; capaz de espancar em público as mulheres que os esbirros do regime consideram portar-se ou vestir-se de uma forma que não agrada às leis religiosas. Como aconteceu a Mahsa Amini, presa e espancada pela”polícia da moralidade”, porque o véu que trazia deixava à vista um pouco de cabelo e que morreu passados três dias. 

O Irão é hoje sinónimo de tudo o que há de mais odioso e inaceitável para quem defende a dignidade da vida humana. É por isso sinónimo de um poder que não é limitado por nenhum direito nem nenhuma lei, que mergulhou nas trevas e na repressão um povo e uma cultura que já nos deu As Mil e Uma Noites ( as da Xerazade, do Aladino, do Sindbad, do Ali Babá); de onde nos chegaram os filmes que vimos de Jafar Panahi («Foi só um acidente», «Táxi», «Ursos não há»), ou de Abbas Kiarostami («O sabor da cereja», «Trabalhos de casa» e «Onde fica a casa do meu amigo?»).
Vem de lá agora a América, polícia do mundo e dos seus interesses próprios em risco, pronta a «aniquilar numa noite uma civilização inteira», uma América que com as suas bombas já matou mais de três mil pessoas e arrasou estruturas civis indispensáveis à vida. Ciente da sua supremacia militar e económica, e da sua impunidade, a América põe e dispõe e decide sem controvérsia, sem olhar a meios e sem cuidar dos «danos colaterais». Tudo isto com o mundo a assistir, contendo-se para não exacerbar a ira dos beligerantes, não vá ela virar-se contra os objetores.
De um lado, um poder quase absoluto, fixado nos seus objetivos imperiais, indiferente às mortes e aos danos que pode causar; do outro lado, um poder cego e surdo a qualquer crítica, que estende as suas metástases ao Líbano, ao Iémen, a Gaza, e que ameaça deixar em chamas todo o Médio-Oriente. 

Qual a escolha, se tivéssemos (mas teremos?) de escolher?

às escuras (ainda)

Não tenho andado muito por aqui. Meti-me numa viagem que me levou já pelo Japão, pela América, Coreia do Norte, e até pela China, uma viagem demorada, quase a passo, ao longo de umas quinhentas páginas traduzidas quase passo a passo, e espicaçado pelo chicote de um prazo que não me permite grandes folias nem distrações.
A autora (é uma autora) construiu o romance (é um romance) em capítulos que têm por título o nome de cada um dos personagens, que nos levará pela mão durante essa parte do percurso. Como a luz de uma lanterna, é assim que se vão iluminando aos poucos alguns aspetos parciais da viagem, o que nos vai permitindo começar a desenredar o fio que nos há de conduzir. O que vemos de cada vez é uma parte do cenário, da viagem. Não há uma ordem cronológica, nem estritamente lógica, que é antes vacilante como a luz hesitante de uma lanterna eletrica que seguisse a visão fragmentada dos personagens em quem nos fiamos para nos guiarem através da escuridão, do emaranhado de memórias, de segredos e verdades encobertas que essa escuridão esconde. Como breves iluminações fragmentadas, luzes intermitentes, como um clarão súbito, um flash (cá está!), mas que ofuscam o resto.
É esse o sentido, estou certo disso, da escolha do título em inglês: «Flashlight». Sem artigo, sem preposição, simplesmente: «Flashlight».
Que não sei como hei de traduzir.


Se traduzir fosse simplesmente ir ao dicionário, como também há quem julgue que é (e como faz a IA) estava o caso resolvido: Flashlight é lanterna. É o que dizem todos os dicionários, mesmo que alguns possam acrescentar uma ou outra especificação (de bolso, elétrica, de pilhas…). Mas já se viu, pelo que disse atrás, que essa palavra portuguesa (se fôssemos a escolhê-la) deixaria na escuridão muitos dos sentidos que a palavra inglesa implica. A escolha da autora deixa deliberadamente de lado outras opções, que também existem em inglês (lantern, torch, lamp) se estivesse a falar de «uma fonte de luz alimentada por um combustível inflamável». Não, a escolha é intencional e o que pretende é antes iluminar outros sentidos para que a palavra inglesa aponta. É uma palavra composta: flash (clarão, lampejo, relâmpago, flache)  e light (luz). Escolher lanterna como tradução seria o mesmo que olharmos para o dedo quando nos apontam a lua.

O título quer evidentemente levar-nos para a luz, a luz intermitente, o breve clarão que ilumina (apenas) uma parte do cenário, da viagem, da memória, da verdade. 
E é isso que o título português, a palavra portuguesa, deveria também dizer. Mas qual palavra ou palavras? Não sei. Ou ainda não sei. 
Quem sabe se alguém de entre os que isto lêem não terá uma ideia luminosa (!!) que me possa tirar do escuro em que me vejo? 
Então, venha lá daí essa ideia!

ontem é impossível

Passo por ali muitas vezes e chamou-me a atenção o escrito na parede, em letras nítidas e bem desenhadas: «Amanhã é tarde, ontem impossível». Ninguém me tira da cabeça que o escrevente, ou a escrevente, sei lá, estava a pensar no planeta e na urgência em lhe acudir. Não posso saber. Às tantas não é mais do que um desabafo de algum namorado desavindo. Ou uma última mensagem de alguém à beira de uma decisão irrevogável, assim comunicada a quem passa, ou a alguém que ali devesse passar. Vá-se lá saber.
Mas a mim convém-me que seja um alerta a chamar a atenção para um planeta doente. Sinto que o escrito de algum modo me redime de não ter sido eu a escrevê-lo.

E é verdade, ontem é impossível. 
As ondas de calor frequentes, as secas prolongadas, os incêndios mais intensos, as alterações nos ecossistemas, o aquecimento do Atlântico, tudo isso é de ontem. Tudo isso nos passa diante dos olhos quase diariamente e quase diariamente queremos convencer-nos que a natureza é assim. Que são ciclos naturais. Que não podemos fazer nada a nível pessoal. Que é assim mesmo. 
A nossa capacidade de adaptação (e de irresponsabilização) é quase ilimitada. Não vemos uma relação direta entre nada disso e o resto do que fazemos. E não é fácil renunciar a tudo que torna a vida mais fácil, mais agradável, mais tudo. E também não há ninguém, nenhum médico grave e sisudo, nenhuma autoridade daquelas que só de vê-la nos mete medo que venha aí dizer-nos: ou largas isso já ou isto vai alastrar, vai contaminar tudo e todos e não há salvação. Não há nada disso na natureza, os avisos aparecem dispersos e graduais. E não são dirigidos a ninguém em particular. Toca a todos, que o mesmo é dizer que a ninguém. Com isso podemos nós bem. Alguém acorda a pensar que os ursos polares já não têm gelo para fazerem a vidinha deles? Que as borboletas e as abelhas e outros polinizadores estão a desaparecer?  Que há muitos países que têm já de importar abelhas para os seus pomares? Que a temperatura do planeta continua a aumentar? Todas essas ameaças tremendas nos tocam tanto como a morte de um longínquo mandarim numa China longínqua que nada tivesse a ver com o que fazemos ou decidimos.

Se há alguém que realmente acorda todos os dias a pensar nisso, na subida do nível do mar, na degradação dos ecossistemas, na iminência do desastre, só se for alguém como um dos habitantes de Tuvalu, as antigas ilhas Ellice, no sul da Oceania, hoje sob ameaça de desaparecimento. Os seus menos de dez mil habitantes, sabem que é assim, que vivem num país que não tardará muito a ser inabitável. Mais de 90% já pediram vistos para emigrar. A Austrália criou mesmo um plano legal de relocação da população de Tuvalu através de um visto especial permanente: será o primeiro caso de migração climática programada. O governo de Tuvalu criou mesmo um projeto de «nação digital», para preservar a sua cultura e identidade depois de o país físico desaparecer. 

Mas são os únicos para quem estas coisas são, digamos assim, reais. Ou talvez também os habitantes de Nova Orleães, uma cidade da Louisiana (EUA), provavelmente condenada a ser engolida pela subida do nível do mar dentro de poucas gerações. Começa a falar-se de um plano de realocação da população.
Mas também isso é longe. Também aí o ontem é impossível. Também aí amanhã é tarde.
E do hoje não se fala. Ninguém quer falar. Nem nós, quanto mais.

Um bairro para vir ver

O bairro da Graça em Lisboa é um bom bairro para vir ver. Há o mosteiro de São Vicente, há a feira da ladra, há o convento da Graça (a que os hotéis Sana se aprestam a deitar a garra para o hotelizar); há, aqui perto, o castelo, há muitos miradouros e esplanadas. E o que é bom é para se vir ver.
Também já foi um bom bairro para viver. Tinha lojas que serviam as necessidades dos moradores (e que já se foram, comidas pelos alojamentos locais e as lojas de suvenires), tinha cafés e esplanadas com outras coisas além dos brunches, matchas, açais, suchis e outras especialidades ao gosto que é agora o dominante. Tudo em inglês.
E é pena, haveria lugar para tudo: para turistas e para moradores. Era preciso é que o equilíbrio entre uns e outros não fosse abafado por esta onda avassaladora, que tudo quer e tudo pode. E que não pusesse os moradores a andar daqui para fora que é o que está a acontecer. O bairro não estica e para uns se alojarem, outros terão de se desalojar. As casas não esticam e para uns poderem gozar os seus 2-3 dias de alojamento local, há que desalojar os locais para os bairros da periferia onde (ainda) há casas que não andam nos anúncios da internet.

Mas não há casas na Graça? Livres, disponíveis, para arrendar? Ele haver há, mas…
Vejam-me a Rua da Graça, por exemplo. Uma rua central do bairro, que vai do Largo de Sapadores ao Largo da Graça, até ao nº 164 nos pares; até ao 135 nos ímpares. Rés do chão quase todos ocupados por lojas, provavelmente à espera do ultimato final, como me disse um lojista com quem falei. Alguém que ali passe é isso que vê: lojas, quase todas antigas, restos de um passado em vias de extinção. Mas se algum desses alguéns levantar os olhos acima do rés do chão…
Foi isso que fiz, dei-me ao trabalho de contar as casas, os andares de cima: vazios, emparedados, vidros partidos, janelas eternamente fechadas. Passo por ali pelo menos duas vezes ao dia e não posso deixar de reparar: a rua da Graça está desabitada, está ligada à realidade apenas por esse fiozinho precário das lojas ainda sem guia de marcha e à espera. 
Parto de Sapadores, começo pelos números pares: nº 14 – 3 andares vazios; nº 36-38: 2 andares vazios; nº 68: com 3 andares, dois deles fechados; nº 72-74: primeiro andar fechado; nº 80: prédio com 4 andares em bom estado, todos fechados desde que foi vendido há anos; nº 86-88: farmácia no r/c, para cima todo fechado; nº 90: oculista no r/c, o resto abandonado; nº 94-96: a cair, tudo vazio; nº 110: andares de cima vazios; nº 138-140: andares de cima vazios; nº 152: r/c lojas, os andares entaipados ou antes entijolados; nº 154-158: três andares sem ninguém; nº 164: três andares desabitados. Chego assim ao Largo da Graça. Do lado dos ímpares é a mesma coisa, ou pior, mas fico-me por aqui. Um dia que por aqui passem, levantem os olhos acima do rés e verão.

Nisto – e não me digam que não há coincidências engraçadas – reparo que numa esplanada do largo está sentado o nosso Primeiro Ministro, a tomar o seu açai matinal. Como está, como não está, surpresas e cumprimentos e conto-lhe a contagem que acabara de fazer. Ficou espantadíssimo, não fazia ideia. Perguntou-me se lhe dava licença que apresentasse estes dados no conselho de ministros dessa tarde. Disse logo que sim. Sei muito bem como estes dados concretos, arrancados da realidade, escapam às estatísticas oficiais. E os fundos de investimento, os vistos gold, os artimanhosos das baldas fiscais também não se dão ao trabalho de os comunicarem às autoridades fartíssimas de saber que é assim.
Não sei se o nosso Primeiro estava a falar a sério, aliás, não sei sequer se ali estava. Mas uma coisa é certa: a Rua da Graça é só o sintoma; a doença vai avançada, o bairro morre aos poucos e a terapia adotada apenas agrava os sintomas.
O êxodo (forçado) dos locais é compensado pelo alastramento da turistificação do bairro: lojas para turistas, atrações para turistas, mercados quase diários para turistas. O turismo ocupa praticamente todo o espaço público. Tudo em inglês. 

Num raio de poucas centenas de metros projetam-se três grandes hotéis: o antigo Hospital da Marinha transformado em hotel, já quase concluído; o Convento das Mónicas com a sua quinta está a iniciar as obras que nos deixará com mais um hotel de luxo; o Convento da Graça, ultimamente Quartel da Graça, prepara-se para passar a Hotel Sana, se ninguém parar a senda insana em que está lançado. Falamos de hotéis, mas na realidade é também toda uma dinâmica que se está a alterar, trazendo mais carros, mais turistas, mais tudo o que é estranho a um equilíbrio já de si precário, uma vizinhança, uma história que assim desaparecerá para sempre.

Aqueles andares vazios da Rua Da Graça, são no fundo a parte visível de uma realidade escondida aos nossos olhos: a rua foi sendo vendida aos bocados a investidores que apenas esperam o momento do bom investimento. Temos já um exemplo: há pouco a pastelaria Central da Graça, uma das poucas que escapava à praga dos brunches para turistas, foi posta a andar dali e todo o prédio, de vários andares, foi transformado em Residences de luxo (“O luxo é mais do que um estado de espírito, é um estilo de vida”, diz o anúncio), onde certamente não irá morar nenhum dos locais que daqui são chutados.

A Graça continuará por muito tempo a ser apenas para inglês vir-ver; mas não para o português viver.

Post scriptum: os dados sobre as casas vazias são colhidos da realidade, não são inventados. Posso ter-me enganado num caso ou noutro, mas quanto ao resto basta passar lá e ver. Aquilo do Primeiro Ministro é que não foi bem assim, tenho de admitir. Muito provavelmente confundi o nome ou a pessoa. E é pena, são coisas que os ministros deviam vir-ver.

um poeta a brincar

Era já quase um ritual: ele, o Manel Resende, fazia anos e eu mandava-lhe um poema a fazer de prenda. Faria hoje 78 anos. Não vejo razão nenhuma para descontinuar essa quase tradição. Só que em vez do poema de outro poeta vai aqui um dele, de que provavelmente já se teria esquecido mesmo que por cá andasse. É um poema que escreveu na brincadeira, logo a começar pelo título «Carta em Berso».
Vai já, mas deixem-me antes dos versos explicar um bocadinho o que lhes está por trás.

Durante uns anos o Manuel Resende trabalhou como tradutor na União Europeia, em Bruxelas. Aquilo quase não eram traduções – uns textos áridos, numa escrita de amanuense, onde obviamente não cabiam metáforas nem a bem dizer adjetivos: regulamentos, memorandos, atas, diretivas, documentos para as reuniões com que se construía a Europa, diziam eles. Cada documento retomava um anterior e por isso a maior parte das vezes ao pobre do tradutor não cabia mais que catar as diferenças entre um e outro. Tão assim era que ao pobre do Manuel Resende, que devia ter a cabeça noutro sítio bem diferente, lhe devia parecer que quando o documento lhe chegava às mãos era como se a tradução já estivesse feita antecipadamente. E tão assim lhe parecia que decidiu propor uma mudança de método ao coordenador, ou coordenadora, que lhe destinava a tarefa: que enviasse a tradução que ele, o Manel, lhe mandaria o original. 

Então não haviam os poetas de poder brincar também? Como todos nós, afinal. Claro que sim, brincam pois. Mas em verso, ou, como é o caso, em berso. 
Apareceu-me este divertissement do poeta, que não consta da obra conhecida dele, no meio de uma papelada que andei a arrumar estes dias, e de que já nem me lembrava. E acho que calha bem para lembrar a data.
Mas há na obra do Manuel Resende outros exemplos deste género de humor desconcertante. Estou-me a lembrar de um poema em que ele, numa Grécia a ressumar História e mitos e grandezas, encontra um pastor que desata a falazar do que entendia que aqueles estrangeiros podiam entender, dos alemães, das casas destruídas, do penar, da morte, sem entender que onde eles tinham a ideia, isso sim, era nos figos ali perto que eles queriam roubar.

Nestes bersos, ainda assim, falava de uma coisa menos séria (seria?), e mete uma cotovelada ao Pessoa, a catrapiscar a cumplicidade, para a partida que tinha imaginado pregar . 
Tomem lá do Manel Resende:

Carta em Berso

Ao/À Coordenador/a

Tradutor é fingidor!
Finge tão completamente,
Que vem a ser o autor
Do texto que tem na frente.

E os que lêem o que traduz
Sentem, na versão final,
A bruxuleante luz
Que falta ao original.

Para encurtar, pois, razões
E facilitar-me a vida,
Dás-me já as traduções,
Dou-te o texto de partida.