Relatório e contas de uma criada de servir

mas não é daqui do lugar, pois não? Bem me parecia. Quando me perguntou aquilo a saber quando era o dia de feira, vi logo que não era daqui. Está de férias, pois. Deve estar lá em baixo na quinta. Já me tinham dito que eles agora alugam aquilo nas férias. E fazem bem. Os filhos foram não sei para onde e se calhar já cá não voltam. Ao menos assim sempre alguém olha por aquilo. Mas eu vi logo que devia ser de outros lados. De Lisboa? Olhe, parece que não, mas aqui onde me vê vivi no Porto mais de cinquenta anos. Estive a servir na casa de uns senhores que eram de lá. Mais de cinquenta anos. Vieram-me aqui buscar tinha eu treze anos. Foi o padre que cá estava nessa altura que me arranjou para eu ir. O meu pai não tinha terras e eu era só mais uma boca a comer lá em casa. Fui servir, que remédio. Também depois disso só cá vim por duas vezes. Uma vez foi para enterrar a minha mãe e depois vim enterrar o meu pai. Foi uma rapariga daqui da terra que me foi lá dizer à casa dos senhores. O padre é que mandou por ela o recado para me ir dizer que a minha mãe tinha morrido. Ela também andava a servir lá no Porto. Morava longe de mim, mas o padre disse-lhe que casa é que era onde eu estava a servir. E depois com o meu pai foi na mesma. Os senhores é que me levaram ao comboio e tudo. E disseram-me para ficar o tempo que fosse preciso. Lá isso, eram muito meus amigos. Mas eu é claro que estava eu aqui a fazer? E também depois disso a bem dizer não tinha cá mais ninguém. O meu trabalho era lá e também não os podia deixar assim. Era uma casa com muito trabalho. Tinha mais de quatro quartos. E a sala e a cozinha e essas coisas, claro. Era uma casa rica. No princípio também tinham uma cozinheira, que ia à praça fazer as compras e cozinhava. Mas depois fiquei só eu. A bem dizer fui eu que criei os filhos. Eram duas meninas e um rapaz. Para mim eram como se fosse a minha família. E eles também me tratavam bem, lá isso verdade se diga. A bem dizer não conhecia mais ninguém, nem falava com mais ninguém. A senhora, sim, era quem falava mais comigo. Foi como uma mãe para mim. Foi a minha mestra para tudo. Tudo o que sei aprendi com ela. Sobre o governo da casa e também sobre a vida. Parece que até a falar aprendi com ela. Eu fui para lá tapadinha de todo, era uma pirralhinha de treze anos quando fui para lá, já se sabe. Aprendi tudo com ela. Tirando ela com quem havia eu de falar? Mas eu também sempre fui muito respeitadora e não me ia pôr a falar assim sem mais nem menos com qualquer pessoa. Havia uma mulherzinha na praça que essa é que falava às vezes comigo. Eu ia sempre fazer as compras lá onde ela estava na praça e com o tempo ela foi metendo conversa comigo. Mas era tudo de onde eu era de onde não era, se estava a servir, se tinha mais família, essas coisas. Aquela moça que era de cá também andava a servir no Porto, mas era num sítio mais longe e a bem dizer só a vi daquelas vezes que ela me foi dar o recado para vir enterrar a minha mãe e o meu pai. Que eu me lembre foi só dessas vezes que eu saí da casa dos meus patrões. Saía para ir às compras à praça e para fazer os recados da senhora, já se sabe, mas assim para mais longe não. Fui uma vez ao Senhor de Matosinhos, só dessa vez. Foram as meninas que me empurraram para ir, tens de sair deste buraco, tens de ir ver o rio, tens de ver a cidade, tens de arranjar um namorado e essas coisas que se dizem. Mas eram uma coisas que elas diziam só para me ouvirem e para se meterem comigo. Elas é que me levaram ao elétrico e me compraram o bilhete e tudo. Aquilo de Matosinhos era uma festa muito grande. Havia de tudo, do bom e do melhor. Mas eu mal cheguei já estava mortinha por ir embora. Não sei, era uma coisa que não era muito do meu feitio. Mas é só para dizer que foi só dessa vez que saí assim para mais longe. O Porto é uma cidade muito grande e eu acho que até me metia medo de me perder no meio daquelas ruas todas, com tantos carros e tanta gente a andar de um lado para o outro. Uma vez fui com uma das  meninas, a maior, porque eu tinha de ter cartão e ainda não tinha e ela foi comigo e lá tratou de tudo e eu só tinha de assinar. Ela até ficou admirada por eu saber assinar. Mas eu andei na escola e aprendi. E depois é que ela viu o dia em que eu fazia anos e foi para casa e não se calava a dizer que tinham de fazer uma festa no dia dos meus anos. Para os meninos o que eles queriam era uma festa. E depois lá fizeram. E fizeram um bolo de anos e tudo. E disseram que nesse dia eu não podia fazer nada em casa. Lá isso eram muito bons para mim. A senhora comprou-me um lenço de ramagens, desses como há nas feiras. Mas olhe se quer que lhe diga acho que nunca o cheguei a usar. Está ali direitinho como se fosse novo. Não sei, não sou muito dada a essas coisas. Mas era para dizer que nunca me faltaram com nada. Tratavam-me como se fosse família. A minha prima não gosta de me ouvir dizer isto. És família és família, mas olha lá se eles não te impontaram logo para cá. Ela fala assim, mas também é porque não sabe como eram as coisas naqueles tempo. Eu calo-me porque também preciso dela. E com a perna neste estado também não posso dar ajuda nenhuma no trabalho da casa e assim. Ela também ficou sem ninguém e lá vamos vivendo as duas. Ajudo com alguma coisinha que pus de lado aqueles anos todos. As moças que agora aí trabalham fora a dias ou assim nessas quintas ganham num mês o que eu ganhava num ano por assim dizer. Mas tinha cama e comida e também os meus gastos não eram nenhuns. E em que havia eu de gastar? Mal saía de casa. Era ir à praça, ir aos recados, ir à missa aos domingos e pouco mais. Mas ainda assim fui juntando um bocadinho. A minha prima ri-se de mim e diz que rica família que eles te saíram, olha o que te ficou de uma vida a trabalhar para eles. Família assim, arreda, arreda. Não é por mal. Ela fala assim porque não sabe. E também que haviam eles de fazer? Eles bem queriam ajudar, mas como havia de ser? Lá vontade tinham, mas já lhes chegava ter de olhar pela tia do senhor. Ela vivia lá fechada num quarto. Já não tinha o juizinho todo, com a idade. A bem dizer ninguém sabia que ela lá estava, nem ela saía de lá. Todo o dia ali fechada. Eu é que le dava o comer e limpava as coisas que ela fazia. As meninas iam lá às vezes, mas era mais para a arreliarem e para a ouvirem. Riam-se dos palavrões que ela dizia e da misturada que ela fazia a contar aquelas coisas dela. Não gostava nada de mim, tratava-me mal e chamava-me nomes. Acho que julgava que eu era outra pessoa, não sei quem seria. Aquilo era um martírio para os senhores. Nem podiam convidar ninguém para casa e estarem à vontade. Mas lá isso nunca a puseram fora de casa. A minha prima diz que é porque les calhava bem o dinheirinho e as quintas que estavam em nome dela. Dessas coisas não sei, mas a verdade se diga, lá isso comidinha nunca le faltou. Quando foi disto da perna levaram-me ao médico e chamaram uma enfermeira e tudo para fazer os curativos e tudo. Mas o mal já estava adiantado por causa dos diabetes e não tinham outro remédio e tiveram que me cortar a perna. Aqui pelo joelho, se não parecesse mal até le mostrava. E eles já se sabe, não me podiam ter lá, já se sabe. E foi então que vieram cá falar com a minha prima e combinaram com ela. Depois alugaram uma cadeira de rodas e levaram-me ao comboio e tudo. Foram todos, até o rapaz. Rapaz, é como quem diz, que já está um homem. A minha prima foi-me buscar à vila ao comboio mas teve de arranjar um vizinho que tem uma carroça e ele é que me trouxe para casa a bem dizer ao colo. Ela fica sempre zangada quando se fala nisto e diz que se eles eram assim tão família que bem podiam comprar a cadeira em vez de a alugar. Ela zanga-se muito com estas coisas e está sempre a dizer: quem comeu a carne é que devia rilhar os ossos. Mas isto é uma maneira de falar, já se sabe. No resto, lá isso é muito minha amiga e não me falta com nada. Esta cadeira agora foi um moço daqui que me arranjou. Ele é da Junta e meteu os papéis para me darem a cadeira e depois vieram cá trazê-la e veio uma enfermeira e tudo. Ela às vezes vem cá ver se está tudo bem, mas agora já não é preciso fazer o penso nem nada. Mas sempre é alguém com quem posso falar. Nos dias de bom tempo a minha prima senta-me aqui à beira da porta e é assim que vou vendo quem passa e posso dar dois dedos de conversa. Mas já não conheço ninguém, já se sabe. Saí daqui com treze anos, veja lá bem. Os que eu conhecia que eram do meu tempo já todos se foram. E os que ainda estão vivos pouco melhor estão do que eu e também já mal saem de casa. E quem havia de me vir ver? Não conheço ninguém. E quem se interessa? As meninas prometeram que me vinham ver. Ainda estávamos na estação e elas disseram que depois me vinham ver. Um dia são capazes de aparecer aí, de certeza. Esta gente aqui havia de ficar varada. Agora já são quase doutoras, já se sabe. Mas são muito finas e são uma estampa de mulheres, lá isso verdade se diga. Por aqui nem sonham com uma coisa assim. Gostava de as ver. Mas até agora não vieram.

(as férias também dão para isto: conversa gravada, com adaptações para a escrita, sem as pausas e as interrupções e, com pena minha, sem a pronúncia serrana da “entrevistada”)

escolhas múltiplas

Pensando bem, não há momento nenhum na vida que não traga consigo uma escolha. A cada momento escolhemos: nem que seja se falamos ou não, se saímos, se entramos, se nos sentamos, se olhamos… Tão banais e espontâneas que são tais escolhas, nem damos por que tenhamos escolhido, que decidimos o que quer que fosse.  Tão pouca importância damos às coisas que não nos pedem reflexão, que se alguém as pusesse diante de nós para decidirmos, éramos muito capazes de dizer que venha de lá o diabo e escolha. 
Mas nem todas as escolhas são assim inocentes. 
Logo vêm outras que nos pedem já alguma ponderação. Seja porque põem na balança outras pessoas, seja porque mexem num qualquer mecanismo que nem sempre está à mostra, seja porque se excluem umas às outras, Nesse caso, escolher uma coisa é desde logo não escolher a outra. E por pouco que seja custa-nos renunciar ao que não escolhemos. Divididos como todos somos, também todos nos vemos, apesar de tudo, como inteiros, ensinados a nada de nós excluirmos nas mínimas coisas que fazemos. Muito embora saibamos que é divididos que vivemos, e que somos moldados precisamente por essas muitas escolhas que vamos fazendo e pelas muitas outras que não fazemos. Aliás, se assim não fosse como alimentar a intriga de tantos romances e dramas e filmes e telenovelas e tanta da literatura que nos acompanha nesta breve viagem? Ah, se Adão tivesse decidido não trincar a maçã…
Mas, mesmo assim, divididos e inconformados, vamos aceitando (que remédio!) a nossa condição de viver cortados ao meio, na eterna e inconfessada nostalgia de uma inteireza que deixámos num tempo mítico em que  tudo era perfeito e vivíamos na intimidade dos deuses. Aliás, também eles, agora, todos arrumados em mitos, em religiões, em ensinamentos de influencers e outras maneiras de apaziguarmos aquela mesmíssima sede antiga de que ainda padecemos.

Só que vêm agora as outras escolhas, essas a que não há meio de escapar nem de arrumar em sítio nenhum, onde ficassem quietas, sem nos inquietarem a nós.
Há quem às vezes lhes chame escolhas éticas, que sem interferirem diretamente na nossa vidinha, são, sabemos que são, as que lhe dão sentido. E que nos ligam a tudo o que anda sempre ligado, que o saibamos ou não, que o queiramos ou não. E são as escolhas mais difíceis. Porque nenhuma delas é boa, e porque uma e outra põem em cima da mesa valores que consideramos darem valor à (nossa) vida. E se escolher uma implica renegar a outra? Há quem traga no bolso a fita métrica que lhe permite escolher «a menos má» ou «aquela com que posso viver melhor», e é muito capaz de ser um bom sistema quando se trata de escolher entre uma camisa de algodão e outra de linho. Mas já assim não será quando se trata de escolher o caminho quando não há nenhum caminho traçado. Quando o caminho se faz ao andar.
Ainda agora…
Se tivéssemos de tomar posição na guerra entre o Irão e a América? 
Temos de um lado um regime (teocrático), com milhares de pessoas presas sem julgamento, por razões fúteis ou por ousarem uma mínima sombra de oposição às autoridades; capaz de prender, torturar, estuprar e assassinar os milhares que pedem nas ruas o direito a ter uma vida; capaz de espancar em público as mulheres que os esbirros do regime consideram portar-se ou vestir-se de uma forma que não agrada às leis religiosas. Como aconteceu a Mahsa Amini, presa e espancada pela”polícia da moralidade”, porque o véu que trazia deixava à vista um pouco de cabelo e que morreu passados três dias. 

O Irão é hoje sinónimo de tudo o que há de mais odioso e inaceitável para quem defende a dignidade da vida humana. É por isso sinónimo de um poder que não é limitado por nenhum direito nem nenhuma lei, que mergulhou nas trevas e na repressão um povo e uma cultura que já nos deu As Mil e Uma Noites ( as da Xerazade, do Aladino, do Sindbad, do Ali Babá); de onde nos chegaram os filmes que vimos de Jafar Panahi («Foi só um acidente», «Táxi», «Ursos não há»), ou de Abbas Kiarostami («O sabor da cereja», «Trabalhos de casa» e «Onde fica a casa do meu amigo?»).
Vem de lá agora a América, polícia do mundo e dos seus interesses próprios em risco, pronta a «aniquilar numa noite uma civilização inteira», uma América que com as suas bombas já matou mais de três mil pessoas e arrasou estruturas civis indispensáveis à vida. Ciente da sua supremacia militar e económica, e da sua impunidade, a América põe e dispõe e decide sem controvérsia, sem olhar a meios e sem cuidar dos «danos colaterais». Tudo isto com o mundo a assistir, contendo-se para não exacerbar a ira dos beligerantes, não vá ela virar-se contra os objetores.
De um lado, um poder quase absoluto, fixado nos seus objetivos imperiais, indiferente às mortes e aos danos que pode causar; do outro lado, um poder cego e surdo a qualquer crítica, que estende as suas metástases ao Líbano, ao Iémen, a Gaza, e que ameaça deixar em chamas todo o Médio-Oriente. 

Qual a escolha, se tivéssemos (mas teremos?) de escolher?

às escuras (ainda)

Não tenho andado muito por aqui. Meti-me numa viagem que me levou já pelo Japão, pela América, Coreia do Norte, e até pela China, uma viagem demorada, quase a passo, ao longo de umas quinhentas páginas traduzidas quase passo a passo, e espicaçado pelo chicote de um prazo que não me permite grandes folias nem distrações.
A autora (é uma autora) construiu o romance (é um romance) em capítulos que têm por título o nome de cada um dos personagens, que nos levará pela mão durante essa parte do percurso. Como a luz de uma lanterna, é assim que se vão iluminando aos poucos alguns aspetos parciais da viagem, o que nos vai permitindo começar a desenredar o fio que nos há de conduzir. O que vemos de cada vez é uma parte do cenário, da viagem. Não há uma ordem cronológica, nem estritamente lógica, que é antes vacilante como a luz hesitante de uma lanterna eletrica que seguisse a visão fragmentada dos personagens em quem nos fiamos para nos guiarem através da escuridão, do emaranhado de memórias, de segredos e verdades encobertas que essa escuridão esconde. Como breves iluminações fragmentadas, luzes intermitentes, como um clarão súbito, um flash (cá está!), mas que ofuscam o resto.
É esse o sentido, estou certo disso, da escolha do título em inglês: «Flashlight». Sem artigo, sem preposição, simplesmente: «Flashlight».
Que não sei como hei de traduzir.


Se traduzir fosse simplesmente ir ao dicionário, como também há quem julgue que é (e como faz a IA) estava o caso resolvido: Flashlight é lanterna. É o que dizem todos os dicionários, mesmo que alguns possam acrescentar uma ou outra especificação (de bolso, elétrica, de pilhas…). Mas já se viu, pelo que disse atrás, que essa palavra portuguesa (se fôssemos a escolhê-la) deixaria na escuridão muitos dos sentidos que a palavra inglesa implica. A escolha da autora deixa deliberadamente de lado outras opções, que também existem em inglês (lantern, torch, lamp) se estivesse a falar de «uma fonte de luz alimentada por um combustível inflamável». Não, a escolha é intencional e o que pretende é antes iluminar outros sentidos para que a palavra inglesa aponta. É uma palavra composta: flash (clarão, lampejo, relâmpago, flache)  e light (luz). Escolher lanterna como tradução seria o mesmo que olharmos para o dedo quando nos apontam a lua.

O título quer evidentemente levar-nos para a luz, a luz intermitente, o breve clarão que ilumina (apenas) uma parte do cenário, da viagem, da memória, da verdade. 
E é isso que o título português, a palavra portuguesa, deveria também dizer. Mas qual palavra ou palavras? Não sei. Ou ainda não sei. 
Quem sabe se alguém de entre os que isto lêem não terá uma ideia luminosa (!!) que me possa tirar do escuro em que me vejo? 
Então, venha lá daí essa ideia!

ontem é impossível

Passo por ali muitas vezes e chamou-me a atenção o escrito na parede, em letras nítidas e bem desenhadas: «Amanhã é tarde, ontem impossível». Ninguém me tira da cabeça que o escrevente, ou a escrevente, sei lá, estava a pensar no planeta e na urgência em lhe acudir. Não posso saber. Às tantas não é mais do que um desabafo de algum namorado desavindo. Ou uma última mensagem de alguém à beira de uma decisão irrevogável, assim comunicada a quem passa, ou a alguém que ali devesse passar. Vá-se lá saber.
Mas a mim convém-me que seja um alerta a chamar a atenção para um planeta doente. Sinto que o escrito de algum modo me redime de não ter sido eu a escrevê-lo.

E é verdade, ontem é impossível. 
As ondas de calor frequentes, as secas prolongadas, os incêndios mais intensos, as alterações nos ecossistemas, o aquecimento do Atlântico, tudo isso é de ontem. Tudo isso nos passa diante dos olhos quase diariamente e quase diariamente queremos convencer-nos que a natureza é assim. Que são ciclos naturais. Que não podemos fazer nada a nível pessoal. Que é assim mesmo. 
A nossa capacidade de adaptação (e de irresponsabilização) é quase ilimitada. Não vemos uma relação direta entre nada disso e o resto do que fazemos. E não é fácil renunciar a tudo que torna a vida mais fácil, mais agradável, mais tudo. E também não há ninguém, nenhum médico grave e sisudo, nenhuma autoridade daquelas que só de vê-la nos mete medo que venha aí dizer-nos: ou largas isso já ou isto vai alastrar, vai contaminar tudo e todos e não há salvação. Não há nada disso na natureza, os avisos aparecem dispersos e graduais. E não são dirigidos a ninguém em particular. Toca a todos, que o mesmo é dizer que a ninguém. Com isso podemos nós bem. Alguém acorda a pensar que os ursos polares já não têm gelo para fazerem a vidinha deles? Que as borboletas e as abelhas e outros polinizadores estão a desaparecer?  Que há muitos países que têm já de importar abelhas para os seus pomares? Que a temperatura do planeta continua a aumentar? Todas essas ameaças tremendas nos tocam tanto como a morte de um longínquo mandarim numa China longínqua que nada tivesse a ver com o que fazemos ou decidimos.

Se há alguém que realmente acorda todos os dias a pensar nisso, na subida do nível do mar, na degradação dos ecossistemas, na iminência do desastre, só se for alguém como um dos habitantes de Tuvalu, as antigas ilhas Ellice, no sul da Oceania, hoje sob ameaça de desaparecimento. Os seus menos de dez mil habitantes, sabem que é assim, que vivem num país que não tardará muito a ser inabitável. Mais de 90% já pediram vistos para emigrar. A Austrália criou mesmo um plano legal de relocação da população de Tuvalu através de um visto especial permanente: será o primeiro caso de migração climática programada. O governo de Tuvalu criou mesmo um projeto de «nação digital», para preservar a sua cultura e identidade depois de o país físico desaparecer. 

Mas são os únicos para quem estas coisas são, digamos assim, reais. Ou talvez também os habitantes de Nova Orleães, uma cidade da Louisiana (EUA), provavelmente condenada a ser engolida pela subida do nível do mar dentro de poucas gerações. Começa a falar-se de um plano de realocação da população.
Mas também isso é longe. Também aí o ontem é impossível. Também aí amanhã é tarde.
E do hoje não se fala. Ninguém quer falar. Nem nós, quanto mais.

Um bairro para vir ver

O bairro da Graça em Lisboa é um bom bairro para vir ver. Há o mosteiro de São Vicente, há a feira da ladra, há o convento da Graça (a que os hotéis Sana se aprestam a deitar a garra para o hotelizar); há, aqui perto, o castelo, há muitos miradouros e esplanadas. E o que é bom é para se vir ver.
Também já foi um bom bairro para viver. Tinha lojas que serviam as necessidades dos moradores (e que já se foram, comidas pelos alojamentos locais e as lojas de suvenires), tinha cafés e esplanadas com outras coisas além dos brunches, matchas, açais, suchis e outras especialidades ao gosto que é agora o dominante. Tudo em inglês.
E é pena, haveria lugar para tudo: para turistas e para moradores. Era preciso é que o equilíbrio entre uns e outros não fosse abafado por esta onda avassaladora, que tudo quer e tudo pode. E que não pusesse os moradores a andar daqui para fora que é o que está a acontecer. O bairro não estica e para uns se alojarem, outros terão de se desalojar. As casas não esticam e para uns poderem gozar os seus 2-3 dias de alojamento local, há que desalojar os locais para os bairros da periferia onde (ainda) há casas que não andam nos anúncios da internet.

Mas não há casas na Graça? Livres, disponíveis, para arrendar? Ele haver há, mas…
Vejam-me a Rua da Graça, por exemplo. Uma rua central do bairro, que vai do Largo de Sapadores ao Largo da Graça, até ao nº 164 nos pares; até ao 135 nos ímpares. Rés do chão quase todos ocupados por lojas, provavelmente à espera do ultimato final, como me disse um lojista com quem falei. Alguém que ali passe é isso que vê: lojas, quase todas antigas, restos de um passado em vias de extinção. Mas se algum desses alguéns levantar os olhos acima do rés do chão…
Foi isso que fiz, dei-me ao trabalho de contar as casas, os andares de cima: vazios, emparedados, vidros partidos, janelas eternamente fechadas. Passo por ali pelo menos duas vezes ao dia e não posso deixar de reparar: a rua da Graça está desabitada, está ligada à realidade apenas por esse fiozinho precário das lojas ainda sem guia de marcha e à espera. 
Parto de Sapadores, começo pelos números pares: nº 14 – 3 andares vazios; nº 36-38: 2 andares vazios; nº 68: com 3 andares, dois deles fechados; nº 72-74: primeiro andar fechado; nº 80: prédio com 4 andares em bom estado, todos fechados desde que foi vendido há anos; nº 86-88: farmácia no r/c, para cima todo fechado; nº 90: oculista no r/c, o resto abandonado; nº 94-96: a cair, tudo vazio; nº 110: andares de cima vazios; nº 138-140: andares de cima vazios; nº 152: r/c lojas, os andares entaipados ou antes entijolados; nº 154-158: três andares sem ninguém; nº 164: três andares desabitados. Chego assim ao Largo da Graça. Do lado dos ímpares é a mesma coisa, ou pior, mas fico-me por aqui. Um dia que por aqui passem, levantem os olhos acima do rés e verão.

Nisto – e não me digam que não há coincidências engraçadas – reparo que numa esplanada do largo está sentado o nosso Primeiro Ministro, a tomar o seu açai matinal. Como está, como não está, surpresas e cumprimentos e conto-lhe a contagem que acabara de fazer. Ficou espantadíssimo, não fazia ideia. Perguntou-me se lhe dava licença que apresentasse estes dados no conselho de ministros dessa tarde. Disse logo que sim. Sei muito bem como estes dados concretos, arrancados da realidade, escapam às estatísticas oficiais. E os fundos de investimento, os vistos gold, os artimanhosos das baldas fiscais também não se dão ao trabalho de os comunicarem às autoridades fartíssimas de saber que é assim.
Não sei se o nosso Primeiro estava a falar a sério, aliás, não sei sequer se ali estava. Mas uma coisa é certa: a Rua da Graça é só o sintoma; a doença vai avançada, o bairro morre aos poucos e a terapia adotada apenas agrava os sintomas.
O êxodo (forçado) dos locais é compensado pelo alastramento da turistificação do bairro: lojas para turistas, atrações para turistas, mercados quase diários para turistas. O turismo ocupa praticamente todo o espaço público. Tudo em inglês. 

Num raio de poucas centenas de metros projetam-se três grandes hotéis: o antigo Hospital da Marinha transformado em hotel, já quase concluído; o Convento das Mónicas com a sua quinta está a iniciar as obras que nos deixará com mais um hotel de luxo; o Convento da Graça, ultimamente Quartel da Graça, prepara-se para passar a Hotel Sana, se ninguém parar a senda insana em que está lançado. Falamos de hotéis, mas na realidade é também toda uma dinâmica que se está a alterar, trazendo mais carros, mais turistas, mais tudo o que é estranho a um equilíbrio já de si precário, uma vizinhança, uma história que assim desaparecerá para sempre.

Aqueles andares vazios da Rua Da Graça, são no fundo a parte visível de uma realidade escondida aos nossos olhos: a rua foi sendo vendida aos bocados a investidores que apenas esperam o momento do bom investimento. Temos já um exemplo: há pouco a pastelaria Central da Graça, uma das poucas que escapava à praga dos brunches para turistas, foi posta a andar dali e todo o prédio, de vários andares, foi transformado em Residences de luxo (“O luxo é mais do que um estado de espírito, é um estilo de vida”, diz o anúncio), onde certamente não irá morar nenhum dos locais que daqui são chutados.

A Graça continuará por muito tempo a ser apenas para inglês vir-ver; mas não para o português viver.

Post scriptum: os dados sobre as casas vazias são colhidos da realidade, não são inventados. Posso ter-me enganado num caso ou noutro, mas quanto ao resto basta passar lá e ver. Aquilo do Primeiro Ministro é que não foi bem assim, tenho de admitir. Muito provavelmente confundi o nome ou a pessoa. E é pena, são coisas que os ministros deviam vir-ver.

um poeta a brincar

Era já quase um ritual: ele, o Manel Resende, fazia anos e eu mandava-lhe um poema a fazer de prenda. Faria hoje 78 anos. Não vejo razão nenhuma para descontinuar essa quase tradição. Só que em vez do poema de outro poeta vai aqui um dele, de que provavelmente já se teria esquecido mesmo que por cá andasse. É um poema que escreveu na brincadeira, logo a começar pelo título «Carta em Berso».
Vai já, mas deixem-me antes dos versos explicar um bocadinho o que lhes está por trás.

Durante uns anos o Manuel Resende trabalhou como tradutor na União Europeia, em Bruxelas. Aquilo quase não eram traduções – uns textos áridos, numa escrita de amanuense, onde obviamente não cabiam metáforas nem a bem dizer adjetivos: regulamentos, memorandos, atas, diretivas, documentos para as reuniões com que se construía a Europa, diziam eles. Cada documento retomava um anterior e por isso a maior parte das vezes ao pobre do tradutor não cabia mais que catar as diferenças entre um e outro. Tão assim era que ao pobre do Manuel Resende, que devia ter a cabeça noutro sítio bem diferente, lhe devia parecer que quando o documento lhe chegava às mãos era como se a tradução já estivesse feita antecipadamente. E tão assim lhe parecia que decidiu propor uma mudança de método ao coordenador, ou coordenadora, que lhe destinava a tarefa: que enviasse a tradução que ele, o Manel, lhe mandaria o original. 

Então não haviam os poetas de poder brincar também? Como todos nós, afinal. Claro que sim, brincam pois. Mas em verso, ou, como é o caso, em berso. 
Apareceu-me este divertissement do poeta, que não consta da obra conhecida dele, no meio de uma papelada que andei a arrumar estes dias, e de que já nem me lembrava. E acho que calha bem para lembrar a data.
Mas há na obra do Manuel Resende outros exemplos deste género de humor desconcertante. Estou-me a lembrar de um poema em que ele, numa Grécia a ressumar História e mitos e grandezas, encontra um pastor que desata a falazar do que entendia que aqueles estrangeiros podiam entender, dos alemães, das casas destruídas, do penar, da morte, sem entender que onde eles tinham a ideia, isso sim, era nos figos ali perto que eles queriam roubar.

Nestes bersos, ainda assim, falava de uma coisa menos séria (seria?), e mete uma cotovelada ao Pessoa, a catrapiscar a cumplicidade, para a partida que tinha imaginado pregar . 
Tomem lá do Manel Resende:

Carta em Berso

Ao/À Coordenador/a

Tradutor é fingidor!
Finge tão completamente,
Que vem a ser o autor
Do texto que tem na frente.

E os que lêem o que traduz
Sentem, na versão final,
A bruxuleante luz
Que falta ao original.

Para encurtar, pois, razões
E facilitar-me a vida,
Dás-me já as traduções,
Dou-te o texto de partida.

comércio local (5)

La Garderie – café, bar
Be Bloom – coisinhas giras
Tapasushi Café – Tapas, Sushi, Take Away
Caffé – Wine Bar
Savoir  Faire – café, brunch
Mobile Clinic – telemóveis e etc.
Curated Store – Coffee & Bubbles, Tattoo Studio
Kimbar – comida coreana
Oakberry Açai
Funerária Bom-Fim

[O comércio local não pára. Sempre a renovar-se, a aparecer e a desaparecer, mas sempre a crescer. Talvez para compensar o desaparecimento definitivo e irremediável das chamadas lojas tradicionais que só interessa(va)m aos nativos, também em vias de extinção, aliás. Só a Funerária resiste: talvez para fazer o enterro disto tudo. Há dias foi-se a última peixaria que havia por estes lados. Mas isto não é de agora. Já antes tinha anotado aqui esta exuberância do comércio local: https://zelima388727646.wordpress.com/2024/01/18/comercio-local-2/, https://zelima388727646.wordpress.com/2023/02/05/comercio-local/, https://ze-lima.blog/2025/06/21/comercio-local-4/]

uma história mal contada

Depois de Vasco da Gama voltar da sua grande viagem não tardou a que os fumos da Índia se espalhassem por todo o Reyno por entre lendas e lérias sobre as terras mirabolantes da canela e da pimenta onde para fazer fortuna quase bastava a quem ousasse a travessia pouco mais que estender as mãos. E com isto crescia a cobiça e os sonhos de tantos que não tardariam a deixar despovoada a nação. E ei-los que partem, novos e velhos, em revoadas sucessivas, que não tardariam a povoar as longes terras que já dos longes de onde iam lhes cheiravam a pimenta e cravo e gengibre e cardamomo e sândalo, tamarindos açafrão, e o ferro, o arroz, os cocos, as pedrarias, as porcelanas, os benjoins, os panos de Kambai, de Chala, de Adém, os sinabafos de Bengala, a que um dia chamarão Bangladeche, o cobre, o azougue, a seda, o almíscar e tudo o que aí chegava de todas as terras da Arábia e que todas as terras do mundo aí iam buscar, e os brocados, os chamalotes e tudo quanto Veneza mandava da Europa, que tão longe afinal lhes ficava.

E como todas as vagas de emigrantes, de todos os tempos e de todos os lugares, espalham-se por toda a parte, pela Pérsia, por todo Industão, do Indo ao Ganges, e pela Indochina. A tudo se agarram e tudo lhes parece a porta por onde deixar a vida sem horizontes que traziam de trás. Hão de vê-los nas imensas extensões dos arrozais, na apanha do abacate e dos mirtilos, ou nos rios e na costa na apanha dos bivalves, ou no comércio das recordações turísticas, das lojas de telemóveis, nas ruas das cidades mais populosas em bicicletas ou no que for, a distribuir comida ao domicílio, em tuk-tuks e em táxis a conduzir turistas pelas curiosidades das cidades que também eles ao mesmo tempo vão descobrindo. Enquanto vão abanando a árvore das patacas que lhes permitirão um dia mandar vir a família que deixaram longe ou voltar abonados com o suficiente para fazer uma casa de alvenaria e comprar uma leira ao vizinho. Até depois aprenderem a língua, os usos e os costumes, até se fundirem na amálgama indistinta que forma a massa indistinta de povos e costumes e línguas que é afinal a comum humanidade a que todos pertencemos.
Chegados aqui, já alguns dos que isto lêem começarão a tropeçar no emaranhado de anacronismos e de tantas piadas fáceis e a pensar que foram levados ao engano. Mas não, que isso logo de início ficou avisado que era esta uma história mal contada. Muitas outras haverá que contarão o mesmo de maneira muito diferente. Com outros pontos acrescentados aos pontos com que a vera História se cose. 

Olhem, por exemplo, o Oliveira Martins, para não ir mais longe. Também ele, na sua História de Portugal (1ª edição, 1879), que passo a citar, se pôs a contar a gesta desses assinalados barões dos anos de mil e quinhentos. E tudo aí muda de tom.

São os mesmos os fumos da Índia, as maravilhas que o Gama traz e conta. E é o mesmo o fascínio e a cobiça e o desejo de lá voltar. Mas desta vez para colher o que o sonho semeou. 
O rei D. Manuel e os seus conselheiros tinham para a Índia um plano só: explorá-la e arrastar para Lisboa, por quaisquer meios, as riquezas do Oriente. E para isso iam agora as naus bem armadas. Partiam à conquista do que tinham descoberto, e que queriam agora trazer para Portugal, para casa. Viriam os rubis e as esmeraldas, a pimenta e a canela. Portugal inteiro embarca para a Índia nas esquadras do Gama e de Cabral.
Ainda antes de chegar à Índia encontram uma nau de mercadores árabes que iam ou voltavam de Meca e que, além da tripulação trazia 240 homens, passageiros com suas mulheres e filhos. «Era isto no dia 1 de outubro de 1502, de que me lembrarei toda a vida!, escreve o piloto horrorizado ao recordar como a nau foi cobardemente incendiada com todo os que continha e morrem desasperados no fogo ou no mar, depois de sacarem mais de 12 mil ducados e pelo menos 10 mil de fazenda, fizemo-la saltar com os passageiros por meio e pólvora».

Era este o visto de entrada e o aviso que os portugueses faziam como que a prevenir do que havia de seguir. 
Chegados à Índia logo foi intimado o rajá a expulsar todos os mouros, também os principais concorrentes no comércio das riquezas locais. Como o rajá recusou, e como ao fundear o capitão apresara um número considerável de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e, amontoados num barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta à recusa do aflito príncipe. Começou logo o bombardeio. A cidade ardia outra vez. As curtas lanças e as setas dos indígenas não podiam medir-se com as granadas (pelouros) despedidas de longe, de bordo das naus.
Tendo (isto mais tarde) o Gama partido da costa de Malabar, deixou por ele Vicente Sodré a tratar da fundação da feitoria. Mas a ele pouco se lhe dava a feitoria e a abandonou para ir ao corso das naus de Meca: era trabalho de mais proveito e menor risco piratear de parceria com a coroa portuguesa nas costas de Adal e da Arábia à embocadura do Mar Vermelho. O produto das naus de Meca pertencia metade ao rei de Portugal, metade às tripulações. Vicente Sodré andava nisto, ao mesmo tempo que Rui Lourenço por sua conta e risco varria a costa de Zanguebar, caçava navios e cobrava tributos aos sultões.
O temível e temido Afonso e Albuquerque (já mais tarde) avançava pelo novo continente no meio de um coro de aflições e mortes, precedido por uma coluna de incêndios, para que ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os ânimos na abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arábia assolando e devastando todos os lugares vassalos do suserano de Ormuz. Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e mutilados, anunciar por toda a parte a fama do seu poder.

Não conto mais, que não é isto leitura amena (mas também nem tudo é assim desta cor tão negra…). É assim que Oliveira Martins resume essa vasta campanha em que entre perigos e guerras esforçados os assinalados barões de quinhentos tanto dilataram a fé e o Império: « A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a pimenta. Eis o principio fundamental, o cuidado superior do rei e dos seus governadores da Índia: D. Manuel perdoava tudo, os crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incêndios e as piratarias, contanto que lhe mandassem o que ele sobretudo ambicionava; curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços de Lisboa e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnífica embaixada.»

Não quero com isto dizer que esteja bem contada a história como Oliverira Martins a conta. Alguns historiadores de tempos mais recentes mostram-se muito críticos em relação ao uso que ele faz das fontes, ao enviesamento dos critérios que segue, aos métodos de investigação (ou da sua inexistência) que segue na sua História. Mas disso não saberia eu falar.
Se aqui o chamei à pedra foi só porque calhou andar a ler precisamente a sua “História de Portugal” que talvez ganhe em brilho literário o que possa perder em rigor científico. E lendo-o ia-me deixando impressionar pelo que têm de diferente as versões que se contam, que contamos, consoante o lado onde se encontra o contador e consoante os que ouvem as histórias.
Há por aí muita história mal contada, é o que é.

Jardim Árabe

Pouco tempo depois de vir morar para esta casa, esteve cá um pintor meu amigo que achou que as paredes estavam muito vazias. O remédio era fácil: Fomos ao atelier dele e eu escolhi um quadro para a sala. Fica aí em exposição, disse ele. Sempre o vêem mais pessoas do que no atelier.
E foi assim que entrou em minha casa o «Jardim Árabe» de Manuel Costa Cabral, o meu amigo pintor.
Aos poucos, com o convívio que assim se criou, o quadro foi-se revelando e  ao mesmo tempo foi revelando os seus segredos. Onde se via a representação de uma jarra azul no meio do verde vibrante da folhagem de um jardim, começavam agora a surgir outras representações possíveis da mesma jarra e da mesma folhagem. Como se o quadro escondesse outro, ou outros igualmente possíveis, que apenas aos poucos se fossem desvendando. Era como se o quadro tivesse sido pintado em diversas camadas sucessivas e cada uma apenas se revelasse ao sabor da luz do dia, ou outra, ou do ângulo com que a luz iluminava o jardim. A representação inicial, de uma pintura que vivia do forte contraste entre as cores criadas pela natureza, várias e moventes, e as cores criadas pelo homem, sólidas e permanentes, passara a ser um jogo entre essas duas figurações: com novas ramagens a emergirem, a virem ao de cima, a multiplicarem-se em vozes e movimentos diferentes. E tudo isso nos parecia possível, e deslumbrante, e novo.
Que é um exagero, dirão alguns. Será, mas foram as palavras que me vieram para explicar a «descoberta» do quadro que há pouco chegara a nossa casa, do maravilhamento que pode acompanhar o convívio próximo com uma obra de arte. Podia ser um livro, talvez – e sinto que aqui mais alguns me acompanharão – ou uma música. Ou até uma pessoa. Há livros que se esgotam numa leitura. Conhecida a intriga, a história, nada mais há a descobrir. Possivelmente nunca mais voltaremos a pegar nele. Outros há, porém, que nos seguem pela vida fora e a cada leitura nos fazem vibrar pelo que redescobrimos e pelo que descobrimos de novo. 
É possível que alguma coisa da fulguração inicial, do maravilhamento da descoberta, se vá atenuando e embotando com o convívio continuado e as emoções latentes despertem agora em assomos, como quando nos lembramos do que, de quem, já fomos. Alguma coisa de nós passou a estar ali. 
Sentíamos que o quadro sempre ali estivera, que se apoderara daquele espaço, e de nós, de certo modo. 

Tínhamos de o comprar, decidimos. Antes que o pintor mudasse de ideias ou o vendesse a outros.
Renunciámos à moradia na Comporta, às férias nas ilhas paradisíacas da agência de viagens e decidimos fazer uma proposta ao pintor. E ele disse que sim, que vendia o quadro, mas que o preço é que não podia ser aquele. E (antes que eu caísse para o lado) concluiu: fica por metade disso e uma bacalhoada em tua casa. E assim foi

Esteve há pouco fora daqui numa exposição retrospetiva da pintura do Manuel Costa Cabral. E, durante um mês, mais do que outra coisa, a parede despida marcava para nós, os que cá vivemos, um vazio maior do que o deixado pelo quadro.
Voltou agora. Mas não veio só: acompanha-o outro quadro (da série «Fonte») que conhecemos na exposição e que convencemos o Manel a vender-nos. Ainda não escolheu a parede onde ficará. Mas já está assente: depois disso haverá uma «vernissage» à séria, com a presença do autor, como os usos mandam. E para ela ficam desde já convidados todos os que isto lêem (Depois receberão as outras informações necessárias, morada, data e programa). Têm é de avisar desde já, que é para sabermos quanto havemos de comprar de tremoços.

a primeira baixa

A primeira baixa foi uma pequena cerejeira: quase brava, quase mirrada, há anos que vivia uma vida resignada numa espécie de canteiro diante do que sobrevivia do antigo quartel da Graça. Nada de ramarias frondosas, não havia nela nada de exuberante e mesmo os frutos nunca chegavam a ganhar aquele rubro rutilante das cerejas dos anúncios e dos desenhos das crianças: antes esverdeados, agros, só a passarada dava por esse arremedo de cerejas e, mais por desfastio, lá as ia debicando à falta de melhor.
Mesmo assim, ao vê-la agora mutilada, toscamente decepada, sinto a falta dela, daquela presença apagada, feita da tristeza mansa, vegetal, que se calhar lhe vinha da proximidade com a aridez militar que seca à sua volta tudo o que é vivo.

O Hotel partiu à conquista do Quartel e a pequena cerejeira é assim a sua primeira baixa. 
É uma morte figurada, diria, quase um símbolo e pouco mais. Provavelmente ninguém se lembrará mais dela e se calhar nem a pouca lenha que restou será de algum préstimo para quem quer que seja. 
Talvez que a única memória que dela restará sejam as fotografias com a fachada do Quartel usadas nos cartazes contra a venda do Quartel e do Convento da Graça ao Grupo Sana, donos já de uma série de hotéis na cidade e com uma longa história de voracidade e negociatas que até aos Panama Papers chegou. Mas isso… A quem pedir contas? Os grupos financeiros fazem o que sabem fazer e aquilo para que existem. Se alguma coisa de vital para o comum dos mortais é arrastada nessa voragem, mais valeria ir pedir contas a quem lhes abre as portas, os acordos, as leis. Que é o que tentou fazer (e ainda tenta!) uma parte da juventude daqui do bairro. Organizaram-se num pequeno movimento (“hotel-no-quartel”), promoveram assembleias e reuniões, marchas, comícios e tudo o que havia à mão para tentar acordar a gente do bairro para o que aí vinha. As primeiras assembleias foram bastante concorridas. Apareceu gente, e gente variada, e começaram a formar grupos de trabalho para levar a empresa avante, o protesto pela ocupação desenfreada dos espaços públicos do bairro. Há um grupo que estuda o ângulo jurídico da questão (a concessão à Sana tinha caducado sem que as obras fossem iniciadas); há um grupo de contactos com a Câmara, a Assembleia Municipal, a Junta de Freguesia e todas as outras portas onde seja possível ir bater; há grupos que colam cartazes e procuram informar a população e as associações populares (quase todas em estado comatoso, diga-se aqui entre nós). E ao mesmo tempo iam-se desenhando projetos (mais propriamente sonhos) para a ocupação do quartel uma vez devolvido à população – centro cultural, creche, cinema, teatro, atividades culturais… Todos sabemos como é quando se põe a funcionar esta etérea constante da vida, sobretudo quando tão pouco concreta e definida como neste caso. A frequência foi rareando, a pedalada foi abrandando – porque também essa é uma lei da vida, quando nos é pedido mais do que o normal quinhão da participação numa manifestação, numa petição, na fugaz indignação.

Às portas onde vão bater dizem-lhes o que são capazes de dizer e que é sempre pouco e vago. Todos querem e prometem “dar voz à juventude e aos seus sonhos, às legítimas aspirações das populações, à necessária restituição dos espaços públicos à Pólis para que deles o povo possa usufruir”. Isto tanto é assim na Graça como no resto da vasta desgraça que se abateu sobre Lisboa desde há muito. Mesmo aqui a poucos metros, o que foi o Hospital da Marinha é já uma amostra em estado avançado do Hotel que aí está a ser instalado (com umas cérceas levantadas, com uns acrescentos de pormenor e tal, mas de que ninguém dará conta, porque não há contas a dar a ninguém, essa é que é essa). A poucos passos, começam já as obras para o próximo (gigantesco) projeto de um hotel que irá ocupar o que começou por ser o Convento das Mónicas que foi há muito das religiosas de Santo Agostinho – dedicado a Santa Mónica, daí o nome – e que depois passou a casa de correcção de rapazes, depois a casa de correcção e cadeia das mulheres. Que uma tal dose de clausura e de cadeias venha a redundar em quartos de hotel não deixa de ser uma daquelas ironias da História como a que reservou destino semelhante ao palácio da Casa de Bragança na Baixa de Lisboa que serviu de cenário às torturas e humilhações aí infligidas pela Pide durante anos e anos.
Depois do hotel feito quem se lembrará do que fica para trás? De como foi completamente alterada a dinâmica e o tecido social daquela parte da cidade, dos negócios e negociatas, das informações sigilosas e privilegiadas que para sempre ficarão no segredo daquelas paredes espessas? Uma coisa é certa: tudo será feito na “conformidade das leis, com a auscultação dos legítimos anseios das populações e dos seus representantes” («legitimamente eleitos», imperioso é acrescentar). E se as leis não se ajustarem ao que delas se pretende (já negociado e vendido e concedido que foi o projecto, já transformado em “legítimas expectativas dos investidores”) não hão de faltar por aí escritórios de advogados, facilitadores de negócios, lóbistas mais ou menos creditados, sempre capazes de lhes dar a volta que as há de levar ao sítio (às leis, entenda-se).

Penso nisso ao ler a última convocatória da gente do movimento contra o hotel, a dar contas das últimas ações realizadas, a lançar a ideia de «criar laços com as coletividades do bairro e organizar almoços comunitários conjuntos». E deixa-me isso quase com vergonha da minha falta de fé (e de pedalada!)
E também me faz pensar na triste da cerejeira de que comecei por falar, agora despojo inútil de uma guerra vã, símbolo involuntário da mansa submissão com que tudo isto se passa.