um canário na mina

ultimamente vejo muitas vezes ursos polares nas notícias. Não propriamente por serem tão bonitos e oferecerem aos fotógrafos da National Geographic e companhia boas capas de revista e boas imagens. Pelo contrário, este interesse inusitado pelos coitados dos ursos deve-se às piores das razões. É que os ursos polares que hoje vemos são talvez os últimos que a humanidade verá.
O ritmo a que o gelo do Ártico está a derreter tem-se acentuado, à medida que a temperatura do planeta sobe. Sem gelo, vão-se as focas dos blocos de gelo, e sem focas os pobres dos ursos ficam sem os alimentos que lhes permitem sobreviver. Há uns que passaram a prolongar os períodos de sono para reduzirem o consumo energético, uma espécie de falsa hibernação estival; outros entram pela terra dentro à procura de ovos, bagas de plantas, carcaças de aves, e o que apanham capaz de enganar a fome, embora com um teor calórico muito inferior ao da alimentação habitual. De nada lhes vale: os cientistas que têm estudado o fenómeno calculam que os ursos polares estão a perder uma média de um quilo por dia durante o verão polar. Muito provavelmente estarão não tarda muito condenados a morrer à fome. E à extinção da espécie.

“OK, os ursos polares desaparecem, é chato, mas que mal vem daí ao mundo?” dirá o bom do Sr. Silva, que só aqui trago para ilustrar essa displicente indiferença que grande parte de nós exibe diante dos males do mundo (com desculpa aos Silvas da vida real, que como todos bem sabemos não são nada assim). E realmente o mundo pode muito bem passar sem ursos polares. As focas não vão ter saudades deles. O mundo continuará a girar imperturbável em torno do seu eixo imaginário à razão de uma volta por cada 24 horas. A vida (isto é, uma parte da vida) continuará igual. A nossa vidinha muito longe do Ártico continuará como se nada fosse.
E o Sr. Silva, e todos os que pensam que daí não vem nenhum mal ao mundo, desde que a sua vidinha possa continuar (quase) inalterada dirão o mesmo se lhe forem falar de todos os outros animais que estão a desaparecer – desde uma grande parte dos insectos (muitos deles polinizadores, de que depende a sobrevivência de muitas plantas) até aos elefantes asiáticos, ao tigre de Bengala, ao atum do Mediterrâneo e outros que vão desaparecendo aos poucos, sem aviso prévio. Tudo bem, para o Sr. Silva, desde que não lhe tirem as vaquinhas no prado e os bifes no prato.
Mas o problema é mais do que isso, e não é só dos ursos: a fusão dos gelos polares, o aumento da temperatura dos mares é apenas um elo num sistema em que tudo está encadeado. A seguir vêm as alterações climáticas que lhes estão associadas, os incêndios desenfreados, as inundações, os tufões e uma data de desastres incontroláveis (como já se vai vendo vendo um pouco, mas muito pouco ainda). E que não páram de aumentar, porque não diminui nenhum dos fatores que as determinam. Ao aumento da temperatura média do planeta, fundamentalmente causado pelo consumo desenfreado dos combustíveis fósseis que alimentam a nossa concepção de progresso e de bem estar, junta-se a desmatação de grandes áreas florestadas, o uso intensivo de pesticidas e de adubos químicos que depois contaminam os lençóis de água subterrâneos. E assim por diante, não quero assustar ninguém, e muito menos o Sr. Silva no seu santo sono feito de ignorância e bonomia. Até ao dia em que o Sr Presidente, ou o Sr Ministro, ou a dura realidade dos factos determinem cortes de água durante dois dias na semana. De três dias, mais tarde. De reservar o consumo de água da rede pública a hospitais e a campos de golfe turísticos indispensáveis à economia local. É que há já aldeias na Europa que são alimentadas por água vinda de fora. Os lençóis de água local estão contaminados e são impróprios para consumo. E mesmo as vaquinhas e os bifes estão comprometidos: com o racionamento da água não há prados verdejantes nem vaquinhas nem bifes, para grande desgosto do Sr. Silva. E, o que acontece com a água, acontece com muitas outras coisas: este processo, sem um travão imediato, levará a inevitáveis cortes de muitos dos consumos em que assenta o nosso estilo de vida atual e de que não parecemos muito dispostos a abdicar. Os dirigentes políticos e os candidatos a dirigentes, parecem também temer as birras dos eleitores, e preferem continuar a dar-lhes (ou pelo menos a prometer-lhes) a sobremesa que eles exigem. Umas generalidades bem intencionadas nos programas, que ficam sempre bem e consolam as consciências inquietas, mas nada de medidas concretas, de prazos, de planos capazes de pôr um travão no processo. E sempre projetos de mais, mais, mais tudo – até não haver mais nada.

De certo modo os ursos polares, uma das primeiras vítimas deste processo de aquecimento global, são o nosso “canário na mina”. Os canários eram usados pelos mineiros das minas de carvão como uma espécie de sinal de alarme. O pobre do canarinho era o primeiro a sofrer as consequências da presença de gases tóxicos, como o monóxido de carbono, totalmente invisível e inodoro. A morte do canário era o sinal para os mineiros fugirem e salvarem a pele.
Assim estão os ursos; e assim servisse o aviso deles para nos levar a procurar uma solução para nós.
Ou melhor: o nosso verdadeiro “canário na mina” são os ativistas climáticos. Que apesar de continuarem a ser atacados e ridicularizados, a ser detidos e levados a julgamento, a ser criticados pelos métodos que usam, continuam a querer chamar a atenção para um problema que no fundo é um problema existencial para o planeta e para nós.
E se em vez de serem criticados fossem ouvidos? Se em vez de atacar o mensageiro, decidíssemos ouvir a mensagem? Os métodos que usam são os métodos do desespero, e de quem não tem outros.
Fazem-me lembrar uma fábula, que li há muito tempo, do escritor chinês Lu Hsun. E que lhes vou contar já a seguir, se prometerem ouvir com atenção e respeitar a lição do grande mestre.
Lu Hsun deixara de escrever, desanimado com a indiferença que via na sociedade, apenas preocupada com o o sucesso material. O seu amigo Chin Hsin-yi procura dissuadi-lo e Lu Hsun explica-lhe as suas razões. Diz ele: “Imagina uma casa de ferro sem janelas, absolutamente indestrutível, com muitas pessoas lá dentro a dormir profundamente, e que em breve morrerão sufocadas. Mas tu sabes que elas, pois que morrem no sono, não sentirão os sofrimentos da morte. Agora imagina que se gritares alto poderás acordar alguns que talvez tenham um sono mais leve, mas fazendo com isso que esses desgraçados sofram a agonia de uma morte inevitável. Achas que estarás a prestar-lhes um bom serviço?”
E então o amigo dele replica: “Mas quem te diz a ti que se acordares alguns deles não há esperança de que possam destruir por dentro a casa de ferro?”
Mais coisa, menos coisa, era assim a fábula de mestre Lu Hsun. E a minha pergunta agora, aos que a leram, é esta: haveremos de mandar calar aqueles que procuram com os seus gritos desesperados acordar-nos do sono em que jazemos inconscientes?

Contai aos vossos filhos…

Há as atrocidades em Gaza e há as fotografias que nos chegam dessa realidade cada vez mais difícil de enfrentar, de testemunhar, daqui do sossego onde estamos. O Exército de Israel não quis, e não quer, autorizar os fotógrafos nem os jornalistas – o que não se vê não existe, terão pensado. Há os jornalistas palestinianos que lá se encontravam – e já foram mortos mais de cem – e assim há apesar de tudo alguns testemunhos que conseguem passar o bloqueio. É neles que em grande parte assenta a consciência que temos da realidade de Gaza. São esses, hoje, os nossos olhos em Gaza.
A fotografia e a guerra formam, na nossa época, uma parelha que tem muito que se lhe diga, mas não uma leitura única. Susan Sontag, uma escritora americana que descreveu, historiou, e tentou explicar a estranha coligação deste estranho casal (a fotografia e os sofrimentos da guerra) no seu livro “Ohando o sofrimento dos outros” (que diga-se de passagem, foi traduzido por mim) diz a certa altura: “As guerras são agora também imagens e sons de sala de estar. A informação sobre o que está a acontecer noutro sítio, a que se dá o nome de «notícias», sublinha o conflito e a violência – If it bleeds, it leads [«Se há baixas, há cachas»], reza a provecta divisa dos tabloides e dos programas noticiosos de 24 horas – que recebem em resposta compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada notícia vai surgindo.”
À indignação junta-se, à sorrelfa, em contrabando, um certo voyeurismo, de que ao mesmo tempo nos envergonhamos, mas para que nos treinam e nos condicionam as tantas imagens que nos chegam a toda a hora de toda a parte. As guerras do nosso tempo estão indelevelmente associadas a imagens que se tornaram ícones, tão familiares que servem de ilustração do sentido que temos do passado recente: o vietcongue assassinado à queima roupa pelo chefe da polícia de Saigão, as cabeças decepadas de guerrilheiros africanos mortos pelos soldados portugueses, as caras da população tutsi esfaceladas a golpes de catana na guerra civil no Ruanda, as decapitações dos reféns do daesh – uma enfiada de imagens no limite do suportável.

À primeira vista, nada disto tem a ver com a fotografia que apareceu ontem nos jornais – uma selfie com as ruínas de Gaza em fundo. Mas tem. Ou pelo menos assim me pareceu, ao olhar para aquelas mulheres sorridentes, envergando a farda do Exército israelita (“o exército mais moral do mundo”, diz a propaganda oficial). Aquela selfie será em breve uma recordação, passará de mão em mão, ou antes de telemóvel em telemóvel, será talvez o testemunho de uma bela amizade entre mulheres-soldado “forjada no ardor da guerra”, como gostam de dizer as legendas dos postais ilustrados. É essa “normalidade”, essa indiferença ao que está em fundo, essa banalização do horror que a mim mais me impressiona e mais me faz temer que poderá não haver esperança.
É como as imagens de Abu Ghraib, a prisão do Iraque onde os soldados americanos tiraram fotografias uns aos outros enquanto torturavam, humilhavam, matavam os presos iraquianos. A militar Sabrina-Harman sorri para a câmara diante do corpo do preso que se calhar acabou de matar ou de ajudar a matar. Para mim, essas fotografias depois partilhadas nas redes sociais entre amigos e familiares, aquele sorriso quase tão ingénuo e orgulhoso como o de um caçador diante de um troféu de caça, falam mais alto, mais claramente do que a veemência de muitas das denúncias dos crimes da América nos países que invade. Não há ali nem sombra da indignação que as fotografias dos jornalistas despertam – mas que ao mesmo tempo são olhadas como se olham as provas de acusação num tribunal, como se apesar de tudo houvesse ali um qualquer viés, uma intenção que o fotografado poderia desmentir. Aqui não: fotógrafo e fotografado têm o mesmo ponto de vista, um ponto de vista onde não há sequer culpa.
É assim também que se tornam ainda mais impressionantes as fotografias tiradas por um guarda alemão do campo de exterminação de Auschwitz-Birkenau, certamente um funcionário exemplar, a julgar pela organização metódica do álbum, pela sobriedade profissional das legendas: · “Chegada de um carregamento” ao cais de Birkenau, “Homens ainda utilizáveis”, “Homens inutilizáveis”, “Mulheres e crianças inutilizáveis”, “Mandados para o campo de trabalho”, e assim por diante (200 fotografias). O álbum foi descoberto depois da guerra, as fotografias datam provavelmente de fins de Maio ou princípios de Junho de 1944. É talvez um dos testemunhos mais crus e mais cruéis do funcionamento da monstruosa máquina de morte nazi. Um testemunho, também neste caso, involuntariamente fidedigno – poderá haver ali um propósito de se vangloriar, de mostrar o bom trabalho que ali se fazia, mas nem sombra de indignação ou de culpa. Como a selfie das militares israelitas ou dos militares americanos em Abu Ghraib.

O álbum do funcionário nazi faz parte de um livro (também neste caso, olha a coincidência!, traduzido por mim), com o título “Contai aos vossos filhos…” (ed. Gótica, 2000). Foi escrita por dois historiadores suecos, integrado no projeto “História Viva” do Governo sueco, para sercvir de base a ações educativas e informativas sobre o Holocausto, realizadas nas escolas. O Governo português da altura (veja-se como os tempos eram outros…) comprou uma parte da edição que foi distribuída gratuitamente em várias escolas.
É importante lembrá-lo hoje, em Portugal, mas também em Israel, na América e em todo o lado onde se queira apagar essa memória, para que não se possa dizer mais tarde, o que o historiador inglês J. P. Stern escreveu no seu testemunho sobre os crimes nazis: “O povo do Reich, ao que parece, sabia tanto (por exemplo, acerca da morte dos seus concidadãos alemães) ou tão pouco (por exemplo, acerca dos seus concidadãos judeus) quanto desejava saber. Aquilo que não sabiam era porque não o queriam saber, por razões óbvias. Mas não querer saber quer sempre dizer saber o suficiente para saber que não se quer saber mais.”

um poeta de visita

Trago aqui de visita o poeta Manuel Resende. Faria hoje (9 março) 76 anos. Em tempos, costumava mandar-lhe um poema a servir de prenda de aniversário; agora, em contrapartida distribuo por aí poemas dele, para o lembrar a uns e para o dar a conhecer a outros.
Manuel Resende escreve de um lugar, sobre o muro que separa dois territórios, de onde pode ver o que fica, o que ficou para trás, as ruínas e as depredações que restam da destruição de muitas das esperanças da humanidade, e de onde pode ver ainda todos os que assim se perderam e vagueiam agora longe de si próprios e do que pensaram como possível; e vê do outro lado as sombras indefinidas de uma outra vida possível, ainda que indistinta, de que apenas entrevê as sombras, algum fulgor. São essas as vidas que vivem no poema, a dos que ficaram do outro lado, porque para o poeta, precisamente, “Eu é um pseudónimo de nós / E nós o pseudónimo disto tudo.”
São muitas as vezes que me vêm à lembrança os versos de um dos poemas de que mais gosto, (do primeiro livro, “Natureza morta com desodorizante”), porque são outras tantas as vezes em que me aparecem como a pequena verdade que resume a nossa humana confusão diante das contradições e desafios e apelos que a História (ou o que lhe faça as vezes) nos propõe. É o poema “Relatório”, dividido em cinco partes, de que esta é a terceira parte.

3.
Somos pequenos animais fabris, comerciais e bancários, mastigando o ferro, a pedra, o plástico, a madeira, o algodão, a lã, o papel.
E Platão, e Aristóteles e Hegel e Kant? Também mastigamos.
E as artes? Também mastigamos;
E as letras também;
E quando vemos um livro, mastigamos; 
Quando vemos um quadro, mastigamos; 
E uma escultura, também mastigamos.
E a cultura, a civilização, a política, as religiões e os Estados, as fronteiras, o café da Brasileira, etc.?
Queremos lá saber! Mastigamos tudo. Engolimos tudo!
Somos uns reis da mastigação, caramba!
E o que mastigamos é como um mar e como um «templo de vivos pilares», é como um viveiro de plantas carnívoras!
Que balança, oscila, palpita, cresce;
Em todos os segundos, de todos os minutos, de todas as horas, de todos os dias, de todos os anos. 
E é calculado, repartido, cortado, embalado, enviado, expedido, por comboios, por cargueiros navais e aéreos, em camionetas, aos ombros, à cabeça, debaixo de braços, em bolsos, ou por telex, telefone, carta, embrulho;
E depois é pesado, medido, cortado de novo, avaliado, peritado, arrolado, encomendado, expedido, comprado e vendido,
A dinheiro,  por vale postal,  por cheque, letras e livranças, à consignação, a firme, à cobrança.

Mas na realidade nada disso é calculado, repartido embalado ou expedido: 
Cresce, palpita, oscila, balança, 
Cresce, cresce, cresce, à nossa volta, à volta dos nossos milhões de olhos e de braços e por entre os nossos milhões de olhos e braços
Como o jacinto de água, como uma floresta de diamantes vivos, como um enxame em torno dum cortiço…
… Cristais em solução saturada …
Tanto trabalho, rapaziada!
Somos humanos,
Sabemos a química da transformação do homem em cacos, em peças de ferro
(E com licença da Santa Madre lgreja, sabemos que não é  o homem que é feito do barro, que o barro é que é feito do homem).
Sonhamos com as mãos, com estas miraculosas mãos de água e cálcio e proteína em movimento, aproximadamente
Pensamos com todo o corpo, beijando tudo, abençoando tudo, quase tudo, como os homens do campo às vezes beijam os campos,
E sentimos com a cabeça isso tudo.

o sapateiro da Graça

Tem muito que se diga, o sapateiro da Graça. O letreiro no vidro da porta não engana: é ali, não há dúvida. Mas a primeira coisa em que se repara, logo ali à porta, é na euforia de cores alegres ali expostas quase a monte, por falta de espaço: Casaquinhos, camisolas, roupinhas de bebé, tudo tricotado e declinado nos mais variados tons. Como dizia o Jean Némar que me acompanha nas minhas andanças pelo bairro: dá vontade de ir daqui fazer meninos só para ter um pretexto para comprar tudo isto. Mas, pergunta-se que estão aqui a fazer os trapinhos no meio de tantos sapatos e sandálias e botas?
Tudo obra da Sra Florinda. Passo por ali pelo menos duas vezes por dia, quando vou passear o cão e sempre a vejo na sua tarefa miúda, as agulhas já quase um prolongamento das mãos. Diz ela: “tenho de fazer alguma coisa, senão endoideço. E também porque gosto.” Vê-se que sim, que é com gosto que o faz.
Pelos gestos e pelos modos vê-se que nem sempre terá sido assim. E não: era funcionária pública (Caixa Geral, creio eu). O pai sempre lhe pedira que “não deixasse morrer a tradição”. E a tradição era a loja de sapateiro, que ele tinha no Chiado, e que já vinha de 1850 de geração em geração. E a Sra Florinda deixou a carreira e tomou conta do negócio, agora já na Graça, dedicada a pôr meias-solas, gáspeas, a reforçar saltos, a inventar palmilhas e tudo o mais que fosse preciso para dar nova vida a sapatos, botas, sandálias e tudo o que o pé pode calçar. Tudo, menos sapatilhas, nem ténis, nem nada que tenha a ver com a nova onda de calçado tipo usa-e-deita-fora, que hoje é o que se vê. E que todos usam. Ninguém põe meias solas nuns ténis – e com isso também chega ao fim o tempo dos sapateiros, pelo menos em grande parte.
O que valeu à tradição familiar da Sra Florinda foi a boa vontade (e também algum gosto) do marido, o sr. Xavier, que não lhe disse que não. E adoptou o novo ofício.
A oficina é um cochicho onde mal cabem duas pessoas, quanto mais se têm de o partilhar com uma catrefada de botas e sapatos distribuídos numa desordem que nos deixa a pensar quantos não se terão perdido na imensa desculpa do “para a semana já estão prontos”. Mas é ali que o Sr Xavier maneja agulhas, colas, formas, máquina de coser e os demais edecetras do ofício. A saúde nem sempre ajuda, também é verdade, mas a maior parte do tempo vejo-o taciturno, metido consigo, a compensar a conversa fácil e bem humorada da mulher. Se quero ver-lhe os olhos brilhar, a cara a iluminar-se, as memórias a correrem sem entraves, é falar-lhe nos carros de corrida, nos ralis, nos autódromos. Porque, por estranho que pareça, este modesto sapateiro da Graça não é outro senão o famoso Xavier Moreira, o “Às dos Alfa Romeo”. Dei por isso numa reportagem que vi na televisão (que hoje se pode ver no YouTube), em que o reconheci. Agora é só dar-lhe o lamiré e logo ele nos sai com as suas antigas glórias, desde que começou a correr com o Álvaro Lamy, a descoberta dos Alfa nas oficinas dos Lanceiros, quando fazia a tropa, as idas a Inglaterra e a Itália para estudar segredos da mecânica, os ralis em Portugal, os acidentes, a equipa com o Sá Nogueira, o título do Nacional de velocidade na classe 2000 em 1977, a formação do Team Xavier e por aí fora.
Nada no cubículo do sapateiro da Graça nos faz pensar em tais glórias hoje em dia. Nada há ali que nos faça pensar na vertigem que em tempos o habitou. Hoje só visível no tal brilhozinho nos olhos quando o levo a desfiar essas memórias.

Salvou a vida a muitos sapatos meus, deu-lhes nova vida. E, afinal, também eu de certo modo o abandonei ao seu mundo de outros tempos. Também eu hoje praticamente só uso ténis e os sapatos estão ali arrumados para durar até não precisar mais deles.

Fico a pensar na maré voraz do usa-e deita-fora que cobre hoje o planeta. Li há pouco que é esse o destino da maior parte (87%, calcula-se) da roupa fabricada na China, no Bangladesh e noutros sítios onde as grandes marcas da moda vão à procura de trabalho escravo. Fabricadas hoje, amanhã já estão fora da moda – é a chamada Fast Fashion – e acabam por ir dar aos grandes monturos de lixo globais, como o do deserto de Atacama, no Chile. Dizem que é o segundo maior do mundo (o primeiro será no Gana, ao que parece): milhares de toneladas de roupa, num aterro que é já visível do espaço. Ali fica a decompor-se. Muito lentamente, porque é quase tudo fibras sintéticas, muito poluentes, mas quase eternas. Sujeitas a incêndios espontâneos não menos poluentes. E que se tornam território de caça de respigadores que vão escolher o que ainda tem valor de troca. E que por vezes os reexportam para os países que antes os descartaram, para serem vendidos em lojas de segunda mão, ou vintage ou lá o que é.
Um mundo bem diferente. Mas é o mundo que habitamos e partilhamos e escolhemos e não sei se poderia ser diferente. Não há remendo, nem meias solas que lhe valha.

portugueses para todos os gostos


primeiro vem o eurobarómetro, o organismo que “mede” a opinião pública na União Europeia, e diz-nos que 66% dos portugueses “concordam totalmente” com o apoio à Ucrânia. E logo outra pergunta confirma que 66% (porventura os mesmos da resposta anterior) “concordam totalmente” com a aplicação de sanções económicas à Rússia.
Portugal, como todos os outros países da União, suspendeu as suas exportações para o país agressor. Os russos viram-se de um momento para o outro privados dos nossos petiscos de sardinha de conserva, de vinho do porto, mas também da cortiça , produtos químicos, plásticos, materiais de transporte, metais, produtos minerais e de outros “nichos de oportunidade”, como lhes chama a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. As exportações portuguesas para a Rússia caíram 54,9%.
Caso para dizer: ah, valentes portugueses! Não é para qualquer um pôr o coração e a solidariedade internacionalista à frente de coisas tão mesquinhas como 80,8 milhões de euros, que é quanto as exportações valiam.
Valiam e valem (mais coisa menos coisa, como se verá). Sim, porque o que vale é que coração e carteira não moram no mesmo sítio. E se o coração não nega o apoio à coitada da Ucrânia, invadida e mal paga, logo a carteira arranja maneira de ir ao mesmo por outro lado.
Não é que as exportações para os países vizinhos da Rússia aumentaram 200%? Diz o Público de hoje (27 fevereiro): “De repente, de 2021 para 2023, as exportações portuguesas de produtos químicos para o Quirguistão passaram de apenas 100 euros para mais de 80 mil euros e as vendas de todos os bens nacionais para esse país passaram a ser quase oito vezes maiores do que eram.” Isto deve ser contagioso, porque há uma data de países vizinhos da Rússia ou que são seus fortes parceiros comerciais que de um dia para o outro mereceram aumentos semelhantes nas exportações portuguesas: o Uzbequistão (211,64%) e o Cazaquistão (258,43%), por exemplo. O jornalista que fez a notícia do Público não se ficou pelos dados do Eurobarómetro, foi espreitar as estatísticas do nosso INE e lá estava a contraprova: “O Quirguistão que em 2021 comprava a Portugal bens num valor inferior a 200 mil euros, em 2023 já fazia importações superiores a 1,4 milhões de euros, um aumento de 681,9%)”.
Se for possível contentar ao mesmo tempo o coração e a carteira, não hão de faltar os portugueses (e não só, que nisso não estamos envergonhadamente sós) capazes de servir os dois senhores ao mesmo tempo também. Quem sabe se não estarão até entre os tais 66% das estatísticas do Eurobarómetro. Vá-se lá saber.

nós, os engolidores de espadas

24 de fevereiro, dia mundial dos engolidores de espadas. Verdade. Está aqui o Borda d’Água que não me deixa mentir.
Não me deixa mentir, nem esquecer. É que se há data que se impõe celebrar é esta. Que é o que fazemos, nós, engolidores de espadas honorários. Nós, os que, recusando-se a admitir na nossa dieta de sobrevivência os sapos, a propaganda, as promessas, as verdades inquestionáveis e outras lérias que tantos teimam em querer fazer-nos engolir, dedicamos a nossa veneração a esta nobre arte alternativa.
Tempos houve em que para assinalar a efeméride contava com a cumplicidade complacente do sempre lembrado Manel Resende. Nenhum de nós sócio da Associação Internacional de Engolidores de Espadas (Sword Swallowers Association International), é certo, mas não menos, apesar disso, cumpridores zelosos do pequeno gesto anual de trazer para a memória de hoje todos os faquires, derviches, xamãs e outros engolidores que já muitos muitos anos antes de Cristo mostravam desse modo as boas graças de que gozavam junto lá dos seus deuses (e das suas entranhas, já agora). O nosso ritual não tinha nada de particularmente espetacular, e não metia espadas, nem sequer um canivete suíço – um email para cá, um telefonema para lá e uma piada a condizer, o menos cortante possível, ça va de soi. Agora que o Manel já por cá não anda, sirva-nos este postal como cerimonial de substituição. E partilhe-o quem achar que o caso o merece, certos de que ninguém lhes imporá nenhuma prova de admissão, digo isto porque que já via aí muita hesitação. Compreeendo a reticência, eu que as façanhas mais parecidas de que me posso gabar são as várias endoscopias que tive de fazer até hoje. E, essas, sob anestesia.
O meu título de engolidor de espadas é apenas honorário, já disse. Mas tem-me valido poder jejuar dos muitos sapos que vejo outros aí à volta a ter de engolir. Espero que com proveito, ao menos.

A punição de Gaza

Leio:
“Em Gaza não há eletricidade. Israel bombardeou a única central elétrica que lá havia, e mais de metade do fornecimento de energia ficará cortado durante pelo menos mais um ano. (…) Uma passagem que não deveria ter nenhuma presença israelita continua a ser o meio usado por Israel para pressionar 1,5 milhões de palestinianos. É uma punição coletiva miserável e chocante. (…) Gaza está mais pobre e faminta do que nunca. Para já não falar das mortes, da destruição e do horror. Israel bombardeou, assassinou, destruiu e ninguém o deteve. Nenhuma célula Quassan nenhum túnel secreto justifica um massacre de tal escala. Não se passa dia nenhum sem mortes, a maior parte delas de civis inocentes.
Onde vão os tempos em que ainda havia debate em Israel sobre tais assassinatos? A semana passada no Hospital de Shifa, vi cenas de partir o coração: crianças que tinham perdido pernas e braços, em respiração assistida, paralisadas, estropiadas para o resto da vida. Famílias inteiras foram mortas enquanto dormiam em casa ou se deslocavam de burro ou trabalhavam nos campos. Crianças aterrorizadas, traumatizadas por tudo a que tinham assistido, encolhidas em casa com um horror nos olhos que é difícil descrever em palavras.
A nossa força aérea bombardeia e arrasa “alvos”, por vezes “estruturas”, dizem-nos; nunca casas. Israel exige uma “zona de segurança” em Gaza, e essa segurança é sempre a nossa, só a nossa. Apenas a minha colega Amira Hass, do jornal Haaretz, ousa, com a sua conhecida coragem, chamar aos milhares de recentes sem-abrigo de Gaza – tornados sem abrigo por nós – aquilo que que eles são: “”refugiados”. Refugiados pela segunda e terceira vez na vida deles; apenas Amira Hass ousa chamar-lhes “pessoas deslocadas”. Mas estes deslocados não têm lugar nenhum para onde escapar aos horrores da guerra. (…)
Um jornalista israelita pode ir para a Síria, para o Iraque, para a Arábia Saudita, mas não para Gaza. Foi imposto um completo blackout em Gaza. (…) Gaza tornou-se num território vedado, sem cobertura mediática nem documentação. É esta a liberdade de imprensa israelita.”

Nada disto nos parece novo. E não é. Foi escrito em Setembro do ano de 2006.


Aquilo a que hoje se assiste em Gaza é uma repetição de outras ocupações, outros massacres, outras “limpezas”. Desta vez ainda testemunhadas por jornalistas.
Neste caso, por Gideon Levy, do jornal israelita Haaretz.
Não é fácil para nós, que o lemos longe e em paz, medir a coragem que é preciso a um israelita hoje em dia para conseguir ver e dar testemunho para além das barreiras que lhe são impostas. E vencer os preconceitos e os ódios que o rodeiam. E é preciso notar – antes que se esgrima o “mas” do costume – que Levy não é “antissemita”, não é contra a existência de Israel, não é indiferente nem silencia os crimes cometidos contra Israel. “Considero-me um patriota israelita. Quero ter orgulho do meu país, coisa que cada vez se torna mais difícil para aqueles israelitas que partilham as minhas convicções. Acredito também que apenas aqueles que protestam contra as políticas de Israel – que denunciam a ocupação, o bloqueio e a guerra – são os verdadeiros amigos da nação.”
Há mais de trinta e cinco anos que o faz, que tenta “registar a crescente – e cada vez mais rápida – acumulação de crimes de guerra e de abusos dos direitos humanos” cometidos por Israel. Alguns dos artigos publicados no Haaretz foram mais tarde reunidos num livro (que ele escreveu em hebraico e em inglês): “The Punishment of Gaza” [“A Punição de Gaza”]. O propósito de Levy (nas suas palavras): “Apelo a todos os israelitas que se insurjam – ou pelo menos compreendam o que está a ser perpetrado em nome deles, para que nunca possam ter o direito de alegar: Não sabíamos.”
É esse livro que ando a ler. Fala do que se passou em Gaza entre 2006 e 2009. Mas quase parece que nos fala do que hoje se está a passar. Os mesmos crimes. Pior, talvez.

a crise que não há

temos em breve eleições no condomínio. Andam já todos a brandir argumentos para ficarem com a gerência. Cada partido vai à sua arca de argumentos ou de cassetes e tenta convencer-nos do poder milagroso das receitas que ali tem para cura de todos os males de que padece o prédio comum: paredes a ruir, infiltrações de fora que põem em risco a segurança de todos, empreiteiros corruptos (sempre os contratados pela Administração anterior, naturalmente), condóminos que não pagam as quotas ou que as metem ao bolso (as deles e as dos outros)… Enfim, as maleitas do costume em casa onde o pão é pouco e muitas as razões.

Numa coisa já reparei, ainda assim: não oiço nenhum dos candidatos a falar na questão da chamada “crise climática”, das alterações climáticas. Poderia pensar-se que, sendo esse um problema que nos espreita a longo prazo, e que põe em causa todo o edifício, haveria que definir trabalhos, prazos, calendários para cada Administração daqui até ao limite de 2050 estabelecido internacionalmente pelo Acordo de Paris sobre alterações climáticas. Não se pode deixar tudo para o último ano. As alterações são já hoje bem visíveis.
Poderia pensar-se também que este é um problema central, decisivo. Um problema existencial! E que sem isso de pouco servem as obras parciais, que nos vão permitindo aguentar. Ora um remendo aqui, ora ali, ora nisto, ora naquilo, conforme a ênfase que cada partido dedica ao assunto. Com alguma promessa circunstancial aos que mais berram de momento, e que todos duvidam que possa ser cumprida, mas que pode calar ou acalmar os berros do momento.
Poderia pensar-se, é verdade, mas não se pensa.
Para começar porque é um assunto que não dá muitos votos: não são muitas (e não contam muito em termos eleitorais) as pessoas que consideram isso um problema prioritário. Não estão organizadas em lóbi, nem em sindicato, não têm chaves de cofre nenhum, não contam. E, por outro lado, porque os eleitores em geral não vêem isso como um problema que se reflita no fim-do-mês, que é o mais largo horizonte temporal para as preocupações da maior parte das pessoas. Têm uma vaga consciência de que é uma coisa “que vem aí” (viram nos noticiários as inundações lá fora, os incêndios lá fora, os ursos polares sem o gelo a que estavam habituados, etc. etc., tudo isso e uns senhores cientistas a dizer que). Mas essa consciência é vaga. Já a contabilidade dos euros do fim do mês, ou da balança do poder, ou do acesso aos vaivéns da economia, são bastante mais evidentes. E pesam no bolso. E a verdade é que é com o bolso que se pensa. O resto, os perigos do futuro não são mais que do isso mesmo: do futuro. Para já estamos como naquela história do homem que caiu do cimo do arranha-céus e que na sua queda a cada andar que passa vai dizendo: “Para já está tudo a correr bem!”
É como se a crise climática não existisse – essa é que é a verdade.


Então… e os ativistas climáticos? Não podiam, esses, trazer o clima para a liça? Descomprometidos como são dos meros interesses eleitoralistas, poderiam usar a inventiva, a provocação bem orientada, a capacidade de intervenção que já demonstraram noutras ocasiões e forçar os debatentes a debater. De uma maneira ou outra, afrontando preconceitos e reticências, foram as ações dos ativistas que trouxeram para a praça pública o pouco de debate que por cá se ouviu sobre o problema das alterações climáticas. É um problema global, que diz respeito a todo o planeta, sem atender a fronteiras de nenhum tipo, e por isso não surpreende que o ativismo local apareça associado a movimentações semelhantes noutras paragens. É verdade. Mas poderíamos esperar que fossem capazes de adaptar a sua ação ao calendário local (mesmo sem COPs, ou outros acontecimentos internacionais).

O que não podemos esperar é que os partidos renunciem à sua contabilidade merceeira, das questões imediatas, que dão votos, para desempenhar um papel que mais tarde ou mais cedo serão chamados a assumir. E que para eles será sempre “mais tarde”.
Os chamados “pequenos”, que à partida podem correr mais riscos no campo dos princípios, por contarem com um eleitorado mais consciente da necessidade de pegar em questões mais “marginais” (e, na minha opinião, quase sempre mais próximas do real valor da vida) poderiam ir mais além. Mas não é o que vejo nos debates e nas presenças públicas. Talvez nos programas o façam. Mas… não sei se haverá muita gente a dar-se ao trabalho (eu não dei…) de ir ler o programa, sem se ficar pela versão digestiva servida na praça pública. É aí, não haja dúvidas, que se formam as opiniões. E, quando os eleitores não são do género clubista, que apenas vota no “seu” clube, é precisamente aí, na praça pública, no debate público, que se decidem os votos.
Os partidos “grandes”, esses, que hão de fazer, coitados? Há que dar ao povo o que o povo quer. E ninguém quer problemas que não se possam resolver com promessas, essa é que é essa. Como as pias de água benta à entrada das igrejas, que santificam tudo o que tocam, os partidos limitam-se a usar a ladainha consagrada de “a importância do problema das alterações climáticas, que ninguém pode esquecer nem menosprezar”.
E siga o baile!

E nós a ver navios…

Alguns dos que costumam ler estes desabafos têm-me dito que isto começa a ficar um bocadinho sombrio. Muita tragédia, muitos desastres, guerras, parece tudo pintado de negro. “Mas tu só pensas em desgraças, pá?”
É verdade. Ponho-me a ler o que está para trás e realmente…
Será porque ando longe das ilhas floridas onde toda a gente passa o tempo, cheias das alegrias reservadas aos posts do facebook. E que eu não frequento… O mundo chega-me cada vez mais pelos jornais e a internet e isso de certo modo carrega-lhe as cores… E também porque vou perdendo a inocência que antes me permitia ver as coisas como acontecimentos isolados, a pedir indignação, choque, protesto, mas que se ficava por aí. Como quem se fixa nos sintomas de um mal que intimamente não se quer conhecer, nem sequer nomear. Ainda com a inconfessada crença (utópica…) de que tudo irá ficar bem.
Aos poucos essa fé vai-se perdendo, e vamos ligando as coisas, os sintomas, e o que vemos passa a ser também um sinal daquilo que não vemos, ou do que não queremos ver. Acho que é um pouco isso… Deve ser isso. Ah, se não fosse a realidade, a “ralidade” do Manel Resende, “essa megera sem idade, [que] não tem tempo, e fronteiras, não tem lar”…

Acordo, vou à janela, para ver o rio, a cidade lá em baixo a espreguiçar-se, a preparar-se para o dia. Já que tenho Alfama, tenha também o proveito. Mas logo me surge, enorme, intrusivo, o casco sobranceiro de um daqueles navios de cruzeiro que diariamente se me impõem à vista. Maiores que um quarteirão de Alfama. E o problema é que agora já não me basta o barafustar. Fico também assustado. Para mim, agora, aquilo é mais do que um navio. É uma fábrica de dióxido de enxofre, óxidos de azoto, partículas ultrafinas vomitadas em plumas diáfanas pelos motores que mesmo atracados continuam em funcionamento para alimentarem o enorme consumo de energia da aldeia flutuante. Como aldeias inteiras que viajam de um lado para o outro, cada barco transportando três mil, até seis mil pessoas, para uma breve incursão de algumas horas em cada sítio onde aporta, para uma caça aos suvenires e aos pontos de interesse que aliás já viram no youtube e que o tripadvisor já lhes marcou como “a ver”.
São coisas que não dão para nos animar.
E depois não é só isso. Para mal dos meus pecados, sei agora que há cidades que só permitem a atracagem de barcos que possam ligar-se à eletricidade nos portos (que por isso mesmo dispõem de ligações adequadas. O que Lisboa não tem). Sei que Lisboa era há pouco a cidade europeia que mais cruzeiros recebeu por ano (115). Sei que eles são responsáveis por por um quinto das emissões de óxidos de azoto! E por 3,5 vezes mais emissões de enxofre do que todo o parque automóvel da cidade durante um ano!… Durante um ano inteiro!
O (meu) problema é esse: perdida a inocência que só nos pode vir de desconhecer coisas como estas, passamos a ver nelas também o que elas escondem. E as mais das vezes não é coisa boa.
Já me estragou o dia, o raio do navio.