o sapateiro da Graça

Tem muito que se diga, o sapateiro da Graça. O letreiro no vidro da porta não engana: é ali, não há dúvida. Mas a primeira coisa em que se repara, logo ali à porta, é na euforia de cores alegres ali expostas quase a monte, por falta de espaço: Casaquinhos, camisolas, roupinhas de bebé, tudo tricotado e declinado nos mais variados tons. Como dizia o Jean Némar que me acompanha nas minhas andanças pelo bairro: dá vontade de ir daqui fazer meninos só para ter um pretexto para comprar tudo isto. Mas, pergunta-se que estão aqui a fazer os trapinhos no meio de tantos sapatos e sandálias e botas?
Tudo obra da Sra Florinda. Passo por ali pelo menos duas vezes por dia, quando vou passear o cão e sempre a vejo na sua tarefa miúda, as agulhas já quase um prolongamento das mãos. Diz ela: “tenho de fazer alguma coisa, senão endoideço. E também porque gosto.” Vê-se que sim, que é com gosto que o faz.
Pelos gestos e pelos modos vê-se que nem sempre terá sido assim. E não: era funcionária pública (Caixa Geral, creio eu). O pai sempre lhe pedira que “não deixasse morrer a tradição”. E a tradição era a loja de sapateiro, que ele tinha no Chiado, e que já vinha de 1850 de geração em geração. E a Sra Florinda deixou a carreira e tomou conta do negócio, agora já na Graça, dedicada a pôr meias-solas, gáspeas, a reforçar saltos, a inventar palmilhas e tudo o mais que fosse preciso para dar nova vida a sapatos, botas, sandálias e tudo o que o pé pode calçar. Tudo, menos sapatilhas, nem ténis, nem nada que tenha a ver com a nova onda de calçado tipo usa-e-deita-fora, que hoje é o que se vê. E que todos usam. Ninguém põe meias solas nuns ténis – e com isso também chega ao fim o tempo dos sapateiros, pelo menos em grande parte.
O que valeu à tradição familiar da Sra Florinda foi a boa vontade (e também algum gosto) do marido, o sr. Xavier, que não lhe disse que não. E adoptou o novo ofício.
A oficina é um cochicho onde mal cabem duas pessoas, quanto mais se têm de o partilhar com uma catrefada de botas e sapatos distribuídos numa desordem que nos deixa a pensar quantos não se terão perdido na imensa desculpa do “para a semana já estão prontos”. Mas é ali que o Sr Xavier maneja agulhas, colas, formas, máquina de coser e os demais edecetras do ofício. A saúde nem sempre ajuda, também é verdade, mas a maior parte do tempo vejo-o taciturno, metido consigo, a compensar a conversa fácil e bem humorada da mulher. Se quero ver-lhe os olhos brilhar, a cara a iluminar-se, as memórias a correrem sem entraves, é falar-lhe nos carros de corrida, nos ralis, nos autódromos. Porque, por estranho que pareça, este modesto sapateiro da Graça não é outro senão o famoso Xavier Moreira, o “Às dos Alfa Romeo”. Dei por isso numa reportagem que vi na televisão (que hoje se pode ver no YouTube), em que o reconheci. Agora é só dar-lhe o lamiré e logo ele nos sai com as suas antigas glórias, desde que começou a correr com o Álvaro Lamy, a descoberta dos Alfa nas oficinas dos Lanceiros, quando fazia a tropa, as idas a Inglaterra e a Itália para estudar segredos da mecânica, os ralis em Portugal, os acidentes, a equipa com o Sá Nogueira, o título do Nacional de velocidade na classe 2000 em 1977, a formação do Team Xavier e por aí fora.
Nada no cubículo do sapateiro da Graça nos faz pensar em tais glórias hoje em dia. Nada há ali que nos faça pensar na vertigem que em tempos o habitou. Hoje só visível no tal brilhozinho nos olhos quando o levo a desfiar essas memórias.

Salvou a vida a muitos sapatos meus, deu-lhes nova vida. E, afinal, também eu de certo modo o abandonei ao seu mundo de outros tempos. Também eu hoje praticamente só uso ténis e os sapatos estão ali arrumados para durar até não precisar mais deles.

Fico a pensar na maré voraz do usa-e deita-fora que cobre hoje o planeta. Li há pouco que é esse o destino da maior parte (87%, calcula-se) da roupa fabricada na China, no Bangladesh e noutros sítios onde as grandes marcas da moda vão à procura de trabalho escravo. Fabricadas hoje, amanhã já estão fora da moda – é a chamada Fast Fashion – e acabam por ir dar aos grandes monturos de lixo globais, como o do deserto de Atacama, no Chile. Dizem que é o segundo maior do mundo (o primeiro será no Gana, ao que parece): milhares de toneladas de roupa, num aterro que é já visível do espaço. Ali fica a decompor-se. Muito lentamente, porque é quase tudo fibras sintéticas, muito poluentes, mas quase eternas. Sujeitas a incêndios espontâneos não menos poluentes. E que se tornam território de caça de respigadores que vão escolher o que ainda tem valor de troca. E que por vezes os reexportam para os países que antes os descartaram, para serem vendidos em lojas de segunda mão, ou vintage ou lá o que é.
Um mundo bem diferente. Mas é o mundo que habitamos e partilhamos e escolhemos e não sei se poderia ser diferente. Não há remendo, nem meias solas que lhe valha.

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