Pensando bem, não há momento nenhum na vida que não traga consigo uma escolha. A cada momento escolhemos: nem que seja se falamos ou não, se saímos, se entramos, se nos sentamos, se olhamos… Tão banais e espontâneas que são tais escolhas, nem damos por que tenhamos escolhido, que decidimos o que quer que fosse. Tão pouca importância damos às coisas que não nos pedem reflexão, que se alguém as pusesse diante de nós para decidirmos, éramos muito capazes de dizer que venha de lá o diabo e escolha.
Mas nem todas as escolhas são assim inocentes.
Logo vêm outras que nos pedem já alguma ponderação. Seja porque põem na balança outras pessoas, seja porque mexem num qualquer mecanismo que nem sempre está à mostra, seja porque se excluem umas às outras, Nesse caso, escolher uma coisa é desde logo não escolher a outra. E por pouco que seja custa-nos renunciar ao que não escolhemos. Divididos como todos somos, também todos nos vemos, apesar de tudo, como inteiros, ensinados a nada de nós excluirmos nas mínimas coisas que fazemos. Muito embora saibamos que é divididos que vivemos, e que somos moldados precisamente por essas muitas escolhas que vamos fazendo e pelas muitas outras que não fazemos. Aliás, se assim não fosse como alimentar a intriga de tantos romances e dramas e filmes e telenovelas e tanta da literatura que nos acompanha nesta breve viagem? Ah, se Adão tivesse decidido não trincar a maçã…
Mas, mesmo assim, divididos e inconformados, vamos aceitando (que remédio!) a nossa condição de viver cortados ao meio, na eterna e inconfessada nostalgia de uma inteireza que deixámos num tempo mítico em que tudo era perfeito e vivíamos na intimidade dos deuses. Aliás, também eles, agora, todos arrumados em mitos, em religiões, em ensinamentos de influencers e outras maneiras de apaziguarmos aquela mesmíssima sede antiga de que ainda padecemos.
Só que vêm agora as outras escolhas, essas a que não há meio de escapar nem de arrumar em sítio nenhum, onde ficassem quietas, sem nos inquietarem a nós.
Há quem às vezes lhes chame escolhas éticas, que sem interferirem diretamente na nossa vidinha, são, sabemos que são, as que lhe dão sentido. E que nos ligam a tudo o que anda sempre ligado, que o saibamos ou não, que o queiramos ou não. E são as escolhas mais difíceis. Porque nenhuma delas é boa, e porque uma e outra põem em cima da mesa valores que consideramos darem valor à (nossa) vida. E se escolher uma implica renegar a outra? Há quem traga no bolso a fita métrica que lhe permite escolher «a menos má» ou «aquela com que posso viver melhor», e é muito capaz de ser um bom sistema quando se trata de escolher entre uma camisa de algodão e outra de linho. Mas já assim não será quando se trata de escolher o caminho quando não há nenhum caminho traçado. Quando o caminho se faz ao andar.
Ainda agora…
Se tivéssemos de tomar posição na guerra entre o Irão e a América?
Temos de um lado um regime (teocrático), com milhares de pessoas presas sem julgamento, por razões fúteis ou por ousarem uma mínima sombra de oposição às autoridades; capaz de prender, torturar, estuprar e assassinar os milhares que pedem nas ruas o direito a ter uma vida; capaz de espancar em público as mulheres que os esbirros do regime consideram portar-se ou vestir-se de uma forma que não agrada às leis religiosas. Como aconteceu a Mahsa Amini, presa e espancada pela”polícia da moralidade”, porque o véu que trazia deixava à vista um pouco de cabelo e que morreu passados três dias.
O Irão é hoje sinónimo de tudo o que há de mais odioso e inaceitável para quem defende a dignidade da vida humana. É por isso sinónimo de um poder que não é limitado por nenhum direito nem nenhuma lei, que mergulhou nas trevas e na repressão um povo e uma cultura que já nos deu As Mil e Uma Noites ( as da Xerazade, do Aladino, do Sindbad, do Ali Babá); de onde nos chegaram os filmes que vimos de Jafar Panahi («Foi só um acidente», «Táxi», «Ursos não há»), ou de Abbas Kiarostami («O sabor da cereja», «Trabalhos de casa» e «Onde fica a casa do meu amigo?»).
Vem de lá agora a América, polícia do mundo e dos seus interesses próprios em risco, pronta a «aniquilar numa noite uma civilização inteira», uma América que com as suas bombas já matou mais de três mil pessoas e arrasou estruturas civis indispensáveis à vida. Ciente da sua supremacia militar e económica, e da sua impunidade, a América põe e dispõe e decide sem controvérsia, sem olhar a meios e sem cuidar dos «danos colaterais». Tudo isto com o mundo a assistir, contendo-se para não exacerbar a ira dos beligerantes, não vá ela virar-se contra os objetores.
De um lado, um poder quase absoluto, fixado nos seus objetivos imperiais, indiferente às mortes e aos danos que pode causar; do outro lado, um poder cego e surdo a qualquer crítica, que estende as suas metástases ao Líbano, ao Iémen, a Gaza, e que ameaça deixar em chamas todo o Médio-Oriente.
Qual a escolha, se tivéssemos (mas teremos?) de escolher?
Para viver, não escolhia nenhum. Se tivesse de condenar, a pena mais pesada seria para quem quer o governar o mundo. Abraços e beijinhos.
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subescrevo o comentario anterior
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Há escolhas e escolhas. Umas, feitas no passado longínquo, condicionam a vida de quem escolheu este ou aquele caminho. Anos depois, verificado o erro, o arrependimento é doloroso. Outras, embora feitas, não alteram os acontecimentos, apenas nos entristecem.
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