portugueses para todos os gostos


primeiro vem o eurobarómetro, o organismo que “mede” a opinião pública na União Europeia, e diz-nos que 66% dos portugueses “concordam totalmente” com o apoio à Ucrânia. E logo outra pergunta confirma que 66% (porventura os mesmos da resposta anterior) “concordam totalmente” com a aplicação de sanções económicas à Rússia.
Portugal, como todos os outros países da União, suspendeu as suas exportações para o país agressor. Os russos viram-se de um momento para o outro privados dos nossos petiscos de sardinha de conserva, de vinho do porto, mas também da cortiça , produtos químicos, plásticos, materiais de transporte, metais, produtos minerais e de outros “nichos de oportunidade”, como lhes chama a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. As exportações portuguesas para a Rússia caíram 54,9%.
Caso para dizer: ah, valentes portugueses! Não é para qualquer um pôr o coração e a solidariedade internacionalista à frente de coisas tão mesquinhas como 80,8 milhões de euros, que é quanto as exportações valiam.
Valiam e valem (mais coisa menos coisa, como se verá). Sim, porque o que vale é que coração e carteira não moram no mesmo sítio. E se o coração não nega o apoio à coitada da Ucrânia, invadida e mal paga, logo a carteira arranja maneira de ir ao mesmo por outro lado.
Não é que as exportações para os países vizinhos da Rússia aumentaram 200%? Diz o Público de hoje (27 fevereiro): “De repente, de 2021 para 2023, as exportações portuguesas de produtos químicos para o Quirguistão passaram de apenas 100 euros para mais de 80 mil euros e as vendas de todos os bens nacionais para esse país passaram a ser quase oito vezes maiores do que eram.” Isto deve ser contagioso, porque há uma data de países vizinhos da Rússia ou que são seus fortes parceiros comerciais que de um dia para o outro mereceram aumentos semelhantes nas exportações portuguesas: o Uzbequistão (211,64%) e o Cazaquistão (258,43%), por exemplo. O jornalista que fez a notícia do Público não se ficou pelos dados do Eurobarómetro, foi espreitar as estatísticas do nosso INE e lá estava a contraprova: “O Quirguistão que em 2021 comprava a Portugal bens num valor inferior a 200 mil euros, em 2023 já fazia importações superiores a 1,4 milhões de euros, um aumento de 681,9%)”.
Se for possível contentar ao mesmo tempo o coração e a carteira, não hão de faltar os portugueses (e não só, que nisso não estamos envergonhadamente sós) capazes de servir os dois senhores ao mesmo tempo também. Quem sabe se não estarão até entre os tais 66% das estatísticas do Eurobarómetro. Vá-se lá saber.

One thought on “portugueses para todos os gostos

  1. Zé li o teu texto, já sabia, mas nem sei que te diga .As coisas são feitas de maneira que

    que não há perdas para a Russia que continua a comprar e a descarregar sobre a Ucrânia todas

    as armas que vai continuando a comprar como nada se tivesse passado.

    É um mundo cão este em que vivemos

    kisses

    Mia

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