estive a ler uma entrevista a um fotógrafo. às tantas dizia que tinha chegado à fotografia porque a isso o tinha obrigado o pai, que também era fotógrafo. Digam-me lá agora: qual o entrevistador que resiste a um tal anzol? Não este, pelo menos desta vez. Logo lhe chegou um cheirinho a pai que “inicia”, pai que estimula, pai mestre e se calhar todas as lições exemplares que lhe andam pegadas. “Então, ainda bem que o seu pai o “obrigou” a ser fotógrafo…” E logo o entrevistado, que, pela amostra (mas há mais disto pela entrevista fora) não é muito dado a historinhas edificantes, sai-se com: “Ele não me obrigou, deu-me um enxerto de porrada. E pôs-me na rua e só me deixou entrar quando eu me comprometi a trabalhar com ele. Dormi uma noite à porta de casa.”
marcar o ponto
há aquelas anedotas do gajo que chegava ao emprego, assinava o ponto e ia para o café. voltava ao fim do dia. ou o outro que chegava, punha um casaco nas costas da cadeira (tinha outro de reserva) e ia à vida, sem dar mais cavaco. E há quem pense: e na vida, não é isso mesmo que se passa?
No dia de ontem, ao começar o ano, há quem pense que tudo, todos os gestos, todas as coisas, têm de ter um sinal especial, como que a deixar nelas a marca do que será o resto do ano. Somos assim: pequenos bichos de temores e esperanças arrancados a sabe-se de lá onde. Sem acreditarmos nisso, repetimos os gestos e os rituais em nome de coisas a que não damos nome.
Ao começar o dia, estava a fazer a barba, não sei o que me passou pela cabeça. Chamei o Coiote, besuntei-o com a espuma de barbear e rapei-lhe o buço. Há uma primeira vez que depois recordamos, como que a marcar o território do terreno onde acabámos de entrar e que não sabemos (ainda) o que é. É o que me dizem. Há quem acredite nisso. Que não eu.
nova corrida, nova viagem
