São MEC

Anda por aí uma verdadeira novena a São Miguel Esteves Cardoso. Ele são festivais do livro, ele mesas redondas, ele programas de televisão, crónicas alusivas mais ou menos hagiográficas. Só espero que não o canonizem. Ainda. Não é que ele não o mereça. Merece isso e muito mais. O meu medo é que tudo isto faça esquecer, ou substitua a verdadeira homenagem que há que lhe fazer: reconhecer o lugar que lhe compete na nossa cultura atual, seja lá o que isso (a cultura) signifique. São coisas pouco mensuráveis, que nada assinalou de forma solene e pública, um espaço que ele foi ocupando de forma como que sorrateira, como quem não dá por ela, como a de alguém que não liga a essas coisas. E não liga, realmente. Desengravatou a prosa jornalística que por aí grassava, com a mesma inconsciência com que uma criança desfaz o nó da gravata do pai. E com a mesma candura pôs-se a escrever sobre aquelas coisas que ninguém considerava importantes e que no fundo são as que realmente importam: sobre o que fazem, o que dizem, o que pensam os portugueses. Os portugueses sem importância que são no fundo os únicos que se preocupam com as coisas que realmente importam. Estrangeirado como ele é, fala de Portugal e dos portugueses (o que ele também é…) como de um povo e de um país onde está de visita, onde tudo o surpreende, o questiona, e lhe pede uma explicação. E faz de todos nós antropólogos que se estudam a si próprios. E assim se questionam e interrogam. É obra.

Escreve sobre tudo e mais alguma coisa. Retirado para os lados de Colares, roubado dos grandes temas a que a cidade obrigaria, desata a escrever sobre os grandes temas a que obriga a aldeia: e fala-nos dos vizinhos, dos restaurantes onde vai, de encontros ocasionais, dos gatos que lhe invadem o quintal. Fala-nos das moscas que lhe invadem o sossego!! Faz-me lembrar aqueles correspondentes do Diário de Notícias, e que por isso se sentem obrigados a enviar “colaboração”, exilados no cantinho a que (lisboetas!) chamamos “província”, e que nos propõem as suas crónicas sobre cabras de três patas, abóboras que precisam de um carro de mão para irem ao mercado, dos “exóticos” costumes tradicionais da nossa terra. O Mec é de certo modo um correspondente do mundo real, do mundo das pequenas coisas. O nosso.

Claro que tem os seus quês. Quem não os tem? Levado pelo entusiasmo dos dezoito anos que são os seus, contagia-nos com a sua paixão por aparos de caneta mirabolantes, que é preciso encomendar praí de Londres; por toalhas turcas, mas só certas toalhas turcas que ele identifica cuidadosamente, rigorosamente; de sabão de Marselha líquido que tem de se importar em enormes quantidades. Ainda me sobra algum desde a data dessa crónica…

Tudo isto com a maior ingenuidade, a candura de quem fala aos amigos, em conversas sem prazo marcado, dos seus amores (ou antes do seu amor), dos filhos, dos pais, das dorzinhas que vêm e vão, e das outras que vêm e por cá ficam. É essa mesma candura que afinal contamina a escrita e que assim corre espontânea, sem truques, sem habilidades nem artifícios. Aquilo que todos nós, se não fossem os manuais, os senhores (sérios, esses) que regulam as entradas e saídas dos Cânon, todos nós hoje teríamos já compreendido que o Miguel Esteves Cardoso é um grande escritor da nossa língua.

ora nem mais

no meio de uma notícia sobre um espetáculo de Beatriz Batarda, com entrevista, sai-se ela às tantas com uma tirada sobre arte e política, assim:

“Há uma confusão muito grande entre o que é a arte e o activismo, a utilização política da arte ou o gesto político. Ou seja, o que é a arte que imprime um gesto político ou o que é a política a servir-se da arte.”

assim em poucas palavras, no meio de uma conversa que nada indicava que a levasse aqui, fica resumido muito do que se poderia dizer sobre o assunto.

por falar na Luísa…

falei há pouco na Luísa (do livro dela que foi parar à Feira da Ladra). e lembrei-me da exposição dela que fui ver há dias ao Teatro do Bairro com fotografias Photomaton. uma série de pequeníssimas fotografias tiradas durante o mês de janeiro – bocados da vida. da casa, da cabeça dela, que depois retoca com aguarela, aqui e ali, a reavivar as cores esmaecidas do photomaton, a acrescentar um pormenor que achou que ali faltava. coisas bem dela. e estava a ver aquilo (coisa pouca, aí umas vinte e tal fotos), ainda não tinha chegado ninguém, e tudo aquilo, tão simples, tão despretensioso, ocasional, me repetia a ideia que tantas vezes me vem ao ver as as coisas dela (sejam pinturas, desenhos, poemas, e já não digo livros, que isso então já se sabe): como tudo o que ela toca se transforma inesperadamente. Como um estado de graça. Onde outros poriam um relambório de todo o tamanho, uma demonstração, uma exibição, um encaracolado de frase, vem ela e, zás, pega numa palavra e noutra e faz dali um pequena dança, uma cabriola e… voilà.

sic transit…

a Feira da Ladra encontra-se tudo e mais alguma coisa. tudo a trouxe-mouxe. as coisas lado a lado descobrem sentidos inesperados, ironias, surpresas. o último livro da Luísa no meio de uma catrefada de livros que o acaso ali reuniu. E as perguntas que a Feira sempre nos propõe, sem nunca nos dar a resposta (sobretudo quando os vendedores não são os profissionais que também os há): nunca saberemos se o livro foi ali parar porque alguém já o leu e quer agora recuperar uns tostões, se desanimou da leitura e quer desfazer-se do livro, porque lho deram e não sabia que lhe fazer. mas estas perguntas devem ser ainda mais insidiosas para os escritores que derem ali de caras com os seus próprios livros. E pior ainda: um dia encontrei, abandonados no fim da feira, uma data de livros do Joaquim Paço d’Arcos, assinados pelo autor e dedicados a um certo amigo seu. É que nem dados…

uma casa com legenda

junto ao Panteão: uma casa toda grafitada, com desenhos que descrevem os objetos, as plantas, os utensílios que se encontram (se devem encontrar, se podem encontrar) em cada uma das divisões: o bengaleiro à entrada, a mesa posta, os armários, a cama feita, pronta a que alguém nela se deite, uma arca fechada. E é a única coisa fechada: de resto é o que se chama uma casa aberta. aos olhares de fora, à curiosidade, à supresa de quem espreita.

feirinha da ladra

a Ema e a Clarinha foram vender umas coisas para a Feira. Coisas delas: uns elásticos para fazer pulseiras, uns lápis, coisas assim. Instalaram-se no jardim de Santa Clara, fora do recinto da verdadeira Feira da Ladra. Fui lá ver se havia coisas que me pudesse interessar. Uma caixinha de madeira bem gira. Não estava à venda – era para guardar o dinheiro. Uns paus de giz, que poderia usar para desenhar no chão. Não estavam à venda – eram para os desenhos. Então o que podia comprar? Um desenho. Encomendei um desenho. A Clarinha fez um retrato do Chip. Bem giro. Aqui está ele, com a sua cauda encaracolada:

urbi et orbe

é a ocasião da tradicional mensagem de ano novo. este ano saiu-me assim (à falta de melhor):

isto é mais para começar com um abraço. a acreditar que daqui para diante haverá sempre outros mais.Temo-nos visto pouco ultimamente, mas não tem de ser sempre assim. Não vai ser.E depois há isto de 2021 NÃO ser bissexto: por muito mau que venha a ser nunca o será tanto como o anterior. Hoje que está tudo a começar dá para acreditar que sim, que vamos ter direito à nossa merecida dose de alegria, amizade, amor, saúde e todas as outras coisas boas que dão sentido a isto tudo.Pelo menos são estes os meus votos para o novo ano. zé lima


Também há uma prenda, mas diz-me aqui o pessoal que “derivado à situação não sei de quê” não há entregas e que a encomenda tem de ser levantada no local. Bom trabalho deu a fazer: era pena ficar ali a estragar-se. Mas para quem não puder, vai aqui a fotografia (é ali junto aos silos da Nacional, à beira-Tejo…)

Tão assim que nós éramos

às tantas desatamos a reunir-nos, em encontros mais ou menos combinados, sem grandes razões ou porquês. Desta vez dizia-se que era de ex-Bxl. Era para ser na Gulbenkian, estava fechada e fomos a um restaurante ali perto. Caras que conheci em tempos, refeitas pelos anos e por vidas agora estranhas. De quem já pouco sabia. De comum tínhamos algum tempo em que vivemos juntos no mesmo sítio. E dávamos por nós agora como que irmanados por esse passado comum, agora lavado das diferenças, das distâncias reais ou ilusórias de antes. Como estranhos que se aliam em terras estrangeiras. Tudo é agora liso, sem acidenteE como náufrago perdido num vazio de recordações e de referências que havia de fazer? Agarrava-me aos poucos que conhecia ainda, com quem mantinha ainda alguma relação viva. Chama-se a isto conviver. E é bem feito.

Às armas!

Há dias a notícia no telejornal era sobre um novo tipo de tanque que ia ser enviado para a Ucrânia. Esmeraram-se, e havia no estúdio uma maqueta ou lá o que era, à escala, do tal tanque. E o jornalista ou apresentador de serviço gabava a peça: o seu poder mortífero, as capacidades, as habilidades, os etcs que os catálogos dos traficantes de armas usam para as impingirem aos clientes. Tentador. Se não fosse o preço, quem resistiria a comprar um nem que fosse para pôr no quintal para impressionar e atemorizar os vizinhos?

Já dias antes, quando a notícia era um ataque das tropas ucranianas que tinha feito não sei quantas vítimas russas, os jornais discutiam os números fornecidos. Que deviam ser mais, que não menos, achavam. Na guerra mente-se e compete aos jornalistas independentes repor a verdade no sítio, devem estar eles a pensar. E vai cada um de matar mais uns quantos. O apoio à Ucrânia também dá nisto: querer-se que matem mais. Pessoas. Está bom de ver que não é para matar coelhos ou lebres que se mandam tanques para um lado e outro.

E nós? Mesmo sem saber quem será este nós, coçamos a cabeça, sem saber o que dizer ou fazer. Terá algum significado a vida (antes a morte) dos que desaparecem com a notícia? Podemos viver ao lado desta disputa de saber quem mata mais?

Ao mesmo tempo (quase) esboçou-se nos jornais uma polémica sobre a letra do hino. Há quem ache deslocado, despropositado, anacrónico o veemente apelo às armas do hino nacional. Que começou por marchar contra os bretões (ao que li algures) e quando os bretões passaram a ter, também eles, Deus do lado deles, passou a ser “contra os canhões” sem identificação de origem. E agora?

rituais propiciatórios

à meia noite fomos para o terraço e desatámos a bater testos das panelas, tampas de tachos. O largo, que o alojamento local deixou deserto de moradores, alheio à nossa festa. Só a família da Dona Lusitana, à janela, respondeu. Bom ano, bom ano. A Cereja cumpre tudo à risca: passas de uvas, champanhe (com cidra a fazer-lhe as vezes). até vestiu uma coisa nova. E obrigou o Coiote a vestir tb um pijama novo, prenda de Natal.

sem nenhum grande fogo de artifício, viam-se inúmeros pequenos archotes de luz a subir no céu da Outra Banda. Viam-se foguetes de Almada, Barreiro, Seixal e toda aquela correnteza que nos serve de horizonte. Em vez do grande vulcão do fogo com que Lisboa costuma impor-se à vista do mundo, esta miríade de pequenos fogos tornou-se inesperadamente mais humana, mais próxima, piscadelas de olho de vizinhos uns aos outros.

e depois fomos acabar de digerir o polvo à lagareiro que eu tinha feito para o jantar. e o bolo grego que a Cereja tinha feito, pela receita que o João V lhe tinha mandado.

Será que com tudo isto o novo ano nos vai acolher melhor?