um poeta de visita

Trago aqui de visita o poeta Manuel Resende. Faria hoje (9 março) 76 anos. Em tempos, costumava mandar-lhe um poema a servir de prenda de aniversário; agora, em contrapartida distribuo por aí poemas dele, para o lembrar a uns e para o dar a conhecer a outros.
Manuel Resende escreve de um lugar, sobre o muro que separa dois territórios, de onde pode ver o que fica, o que ficou para trás, as ruínas e as depredações que restam da destruição de muitas das esperanças da humanidade, e de onde pode ver ainda todos os que assim se perderam e vagueiam agora longe de si próprios e do que pensaram como possível; e vê do outro lado as sombras indefinidas de uma outra vida possível, ainda que indistinta, de que apenas entrevê as sombras, algum fulgor. São essas as vidas que vivem no poema, a dos que ficaram do outro lado, porque para o poeta, precisamente, “Eu é um pseudónimo de nós / E nós o pseudónimo disto tudo.”
São muitas as vezes que me vêm à lembrança os versos de um dos poemas de que mais gosto, (do primeiro livro, “Natureza morta com desodorizante”), porque são outras tantas as vezes em que me aparecem como a pequena verdade que resume a nossa humana confusão diante das contradições e desafios e apelos que a História (ou o que lhe faça as vezes) nos propõe. É o poema “Relatório”, dividido em cinco partes, de que esta é a terceira parte.

3.
Somos pequenos animais fabris, comerciais e bancários, mastigando o ferro, a pedra, o plástico, a madeira, o algodão, a lã, o papel.
E Platão, e Aristóteles e Hegel e Kant? Também mastigamos.
E as artes? Também mastigamos;
E as letras também;
E quando vemos um livro, mastigamos; 
Quando vemos um quadro, mastigamos; 
E uma escultura, também mastigamos.
E a cultura, a civilização, a política, as religiões e os Estados, as fronteiras, o café da Brasileira, etc.?
Queremos lá saber! Mastigamos tudo. Engolimos tudo!
Somos uns reis da mastigação, caramba!
E o que mastigamos é como um mar e como um «templo de vivos pilares», é como um viveiro de plantas carnívoras!
Que balança, oscila, palpita, cresce;
Em todos os segundos, de todos os minutos, de todas as horas, de todos os dias, de todos os anos. 
E é calculado, repartido, cortado, embalado, enviado, expedido, por comboios, por cargueiros navais e aéreos, em camionetas, aos ombros, à cabeça, debaixo de braços, em bolsos, ou por telex, telefone, carta, embrulho;
E depois é pesado, medido, cortado de novo, avaliado, peritado, arrolado, encomendado, expedido, comprado e vendido,
A dinheiro,  por vale postal,  por cheque, letras e livranças, à consignação, a firme, à cobrança.

Mas na realidade nada disso é calculado, repartido embalado ou expedido: 
Cresce, palpita, oscila, balança, 
Cresce, cresce, cresce, à nossa volta, à volta dos nossos milhões de olhos e de braços e por entre os nossos milhões de olhos e braços
Como o jacinto de água, como uma floresta de diamantes vivos, como um enxame em torno dum cortiço…
… Cristais em solução saturada …
Tanto trabalho, rapaziada!
Somos humanos,
Sabemos a química da transformação do homem em cacos, em peças de ferro
(E com licença da Santa Madre lgreja, sabemos que não é  o homem que é feito do barro, que o barro é que é feito do homem).
Sonhamos com as mãos, com estas miraculosas mãos de água e cálcio e proteína em movimento, aproximadamente
Pensamos com todo o corpo, beijando tudo, abençoando tudo, quase tudo, como os homens do campo às vezes beijam os campos,
E sentimos com a cabeça isso tudo.

o sapateiro da Graça

Tem muito que se diga, o sapateiro da Graça. O letreiro no vidro da porta não engana: é ali, não há dúvida. Mas a primeira coisa em que se repara, logo ali à porta, é na euforia de cores alegres ali expostas quase a monte, por falta de espaço: Casaquinhos, camisolas, roupinhas de bebé, tudo tricotado e declinado nos mais variados tons. Como dizia o Jean Némar que me acompanha nas minhas andanças pelo bairro: dá vontade de ir daqui fazer meninos só para ter um pretexto para comprar tudo isto. Mas, pergunta-se que estão aqui a fazer os trapinhos no meio de tantos sapatos e sandálias e botas?
Tudo obra da Sra Florinda. Passo por ali pelo menos duas vezes por dia, quando vou passear o cão e sempre a vejo na sua tarefa miúda, as agulhas já quase um prolongamento das mãos. Diz ela: “tenho de fazer alguma coisa, senão endoideço. E também porque gosto.” Vê-se que sim, que é com gosto que o faz.
Pelos gestos e pelos modos vê-se que nem sempre terá sido assim. E não: era funcionária pública (Caixa Geral, creio eu). O pai sempre lhe pedira que “não deixasse morrer a tradição”. E a tradição era a loja de sapateiro, que ele tinha no Chiado, e que já vinha de 1850 de geração em geração. E a Sra Florinda deixou a carreira e tomou conta do negócio, agora já na Graça, dedicada a pôr meias-solas, gáspeas, a reforçar saltos, a inventar palmilhas e tudo o mais que fosse preciso para dar nova vida a sapatos, botas, sandálias e tudo o que o pé pode calçar. Tudo, menos sapatilhas, nem ténis, nem nada que tenha a ver com a nova onda de calçado tipo usa-e-deita-fora, que hoje é o que se vê. E que todos usam. Ninguém põe meias solas nuns ténis – e com isso também chega ao fim o tempo dos sapateiros, pelo menos em grande parte.
O que valeu à tradição familiar da Sra Florinda foi a boa vontade (e também algum gosto) do marido, o sr. Xavier, que não lhe disse que não. E adoptou o novo ofício.
A oficina é um cochicho onde mal cabem duas pessoas, quanto mais se têm de o partilhar com uma catrefada de botas e sapatos distribuídos numa desordem que nos deixa a pensar quantos não se terão perdido na imensa desculpa do “para a semana já estão prontos”. Mas é ali que o Sr Xavier maneja agulhas, colas, formas, máquina de coser e os demais edecetras do ofício. A saúde nem sempre ajuda, também é verdade, mas a maior parte do tempo vejo-o taciturno, metido consigo, a compensar a conversa fácil e bem humorada da mulher. Se quero ver-lhe os olhos brilhar, a cara a iluminar-se, as memórias a correrem sem entraves, é falar-lhe nos carros de corrida, nos ralis, nos autódromos. Porque, por estranho que pareça, este modesto sapateiro da Graça não é outro senão o famoso Xavier Moreira, o “Às dos Alfa Romeo”. Dei por isso numa reportagem que vi na televisão (que hoje se pode ver no YouTube), em que o reconheci. Agora é só dar-lhe o lamiré e logo ele nos sai com as suas antigas glórias, desde que começou a correr com o Álvaro Lamy, a descoberta dos Alfa nas oficinas dos Lanceiros, quando fazia a tropa, as idas a Inglaterra e a Itália para estudar segredos da mecânica, os ralis em Portugal, os acidentes, a equipa com o Sá Nogueira, o título do Nacional de velocidade na classe 2000 em 1977, a formação do Team Xavier e por aí fora.
Nada no cubículo do sapateiro da Graça nos faz pensar em tais glórias hoje em dia. Nada há ali que nos faça pensar na vertigem que em tempos o habitou. Hoje só visível no tal brilhozinho nos olhos quando o levo a desfiar essas memórias.

Salvou a vida a muitos sapatos meus, deu-lhes nova vida. E, afinal, também eu de certo modo o abandonei ao seu mundo de outros tempos. Também eu hoje praticamente só uso ténis e os sapatos estão ali arrumados para durar até não precisar mais deles.

Fico a pensar na maré voraz do usa-e deita-fora que cobre hoje o planeta. Li há pouco que é esse o destino da maior parte (87%, calcula-se) da roupa fabricada na China, no Bangladesh e noutros sítios onde as grandes marcas da moda vão à procura de trabalho escravo. Fabricadas hoje, amanhã já estão fora da moda – é a chamada Fast Fashion – e acabam por ir dar aos grandes monturos de lixo globais, como o do deserto de Atacama, no Chile. Dizem que é o segundo maior do mundo (o primeiro será no Gana, ao que parece): milhares de toneladas de roupa, num aterro que é já visível do espaço. Ali fica a decompor-se. Muito lentamente, porque é quase tudo fibras sintéticas, muito poluentes, mas quase eternas. Sujeitas a incêndios espontâneos não menos poluentes. E que se tornam território de caça de respigadores que vão escolher o que ainda tem valor de troca. E que por vezes os reexportam para os países que antes os descartaram, para serem vendidos em lojas de segunda mão, ou vintage ou lá o que é.
Um mundo bem diferente. Mas é o mundo que habitamos e partilhamos e escolhemos e não sei se poderia ser diferente. Não há remendo, nem meias solas que lhe valha.

portugueses para todos os gostos


primeiro vem o eurobarómetro, o organismo que “mede” a opinião pública na União Europeia, e diz-nos que 66% dos portugueses “concordam totalmente” com o apoio à Ucrânia. E logo outra pergunta confirma que 66% (porventura os mesmos da resposta anterior) “concordam totalmente” com a aplicação de sanções económicas à Rússia.
Portugal, como todos os outros países da União, suspendeu as suas exportações para o país agressor. Os russos viram-se de um momento para o outro privados dos nossos petiscos de sardinha de conserva, de vinho do porto, mas também da cortiça , produtos químicos, plásticos, materiais de transporte, metais, produtos minerais e de outros “nichos de oportunidade”, como lhes chama a Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa. As exportações portuguesas para a Rússia caíram 54,9%.
Caso para dizer: ah, valentes portugueses! Não é para qualquer um pôr o coração e a solidariedade internacionalista à frente de coisas tão mesquinhas como 80,8 milhões de euros, que é quanto as exportações valiam.
Valiam e valem (mais coisa menos coisa, como se verá). Sim, porque o que vale é que coração e carteira não moram no mesmo sítio. E se o coração não nega o apoio à coitada da Ucrânia, invadida e mal paga, logo a carteira arranja maneira de ir ao mesmo por outro lado.
Não é que as exportações para os países vizinhos da Rússia aumentaram 200%? Diz o Público de hoje (27 fevereiro): “De repente, de 2021 para 2023, as exportações portuguesas de produtos químicos para o Quirguistão passaram de apenas 100 euros para mais de 80 mil euros e as vendas de todos os bens nacionais para esse país passaram a ser quase oito vezes maiores do que eram.” Isto deve ser contagioso, porque há uma data de países vizinhos da Rússia ou que são seus fortes parceiros comerciais que de um dia para o outro mereceram aumentos semelhantes nas exportações portuguesas: o Uzbequistão (211,64%) e o Cazaquistão (258,43%), por exemplo. O jornalista que fez a notícia do Público não se ficou pelos dados do Eurobarómetro, foi espreitar as estatísticas do nosso INE e lá estava a contraprova: “O Quirguistão que em 2021 comprava a Portugal bens num valor inferior a 200 mil euros, em 2023 já fazia importações superiores a 1,4 milhões de euros, um aumento de 681,9%)”.
Se for possível contentar ao mesmo tempo o coração e a carteira, não hão de faltar os portugueses (e não só, que nisso não estamos envergonhadamente sós) capazes de servir os dois senhores ao mesmo tempo também. Quem sabe se não estarão até entre os tais 66% das estatísticas do Eurobarómetro. Vá-se lá saber.

nós, os engolidores de espadas

24 de fevereiro, dia mundial dos engolidores de espadas. Verdade. Está aqui o Borda d’Água que não me deixa mentir.
Não me deixa mentir, nem esquecer. É que se há data que se impõe celebrar é esta. Que é o que fazemos, nós, engolidores de espadas honorários. Nós, os que, recusando-se a admitir na nossa dieta de sobrevivência os sapos, a propaganda, as promessas, as verdades inquestionáveis e outras lérias que tantos teimam em querer fazer-nos engolir, dedicamos a nossa veneração a esta nobre arte alternativa.
Tempos houve em que para assinalar a efeméride contava com a cumplicidade complacente do sempre lembrado Manel Resende. Nenhum de nós sócio da Associação Internacional de Engolidores de Espadas (Sword Swallowers Association International), é certo, mas não menos, apesar disso, cumpridores zelosos do pequeno gesto anual de trazer para a memória de hoje todos os faquires, derviches, xamãs e outros engolidores que já muitos muitos anos antes de Cristo mostravam desse modo as boas graças de que gozavam junto lá dos seus deuses (e das suas entranhas, já agora). O nosso ritual não tinha nada de particularmente espetacular, e não metia espadas, nem sequer um canivete suíço – um email para cá, um telefonema para lá e uma piada a condizer, o menos cortante possível, ça va de soi. Agora que o Manel já por cá não anda, sirva-nos este postal como cerimonial de substituição. E partilhe-o quem achar que o caso o merece, certos de que ninguém lhes imporá nenhuma prova de admissão, digo isto porque que já via aí muita hesitação. Compreeendo a reticência, eu que as façanhas mais parecidas de que me posso gabar são as várias endoscopias que tive de fazer até hoje. E, essas, sob anestesia.
O meu título de engolidor de espadas é apenas honorário, já disse. Mas tem-me valido poder jejuar dos muitos sapos que vejo outros aí à volta a ter de engolir. Espero que com proveito, ao menos.

A punição de Gaza

Leio:
“Em Gaza não há eletricidade. Israel bombardeou a única central elétrica que lá havia, e mais de metade do fornecimento de energia ficará cortado durante pelo menos mais um ano. (…) Uma passagem que não deveria ter nenhuma presença israelita continua a ser o meio usado por Israel para pressionar 1,5 milhões de palestinianos. É uma punição coletiva miserável e chocante. (…) Gaza está mais pobre e faminta do que nunca. Para já não falar das mortes, da destruição e do horror. Israel bombardeou, assassinou, destruiu e ninguém o deteve. Nenhuma célula Quassan nenhum túnel secreto justifica um massacre de tal escala. Não se passa dia nenhum sem mortes, a maior parte delas de civis inocentes.
Onde vão os tempos em que ainda havia debate em Israel sobre tais assassinatos? A semana passada no Hospital de Shifa, vi cenas de partir o coração: crianças que tinham perdido pernas e braços, em respiração assistida, paralisadas, estropiadas para o resto da vida. Famílias inteiras foram mortas enquanto dormiam em casa ou se deslocavam de burro ou trabalhavam nos campos. Crianças aterrorizadas, traumatizadas por tudo a que tinham assistido, encolhidas em casa com um horror nos olhos que é difícil descrever em palavras.
A nossa força aérea bombardeia e arrasa “alvos”, por vezes “estruturas”, dizem-nos; nunca casas. Israel exige uma “zona de segurança” em Gaza, e essa segurança é sempre a nossa, só a nossa. Apenas a minha colega Amira Hass, do jornal Haaretz, ousa, com a sua conhecida coragem, chamar aos milhares de recentes sem-abrigo de Gaza – tornados sem abrigo por nós – aquilo que que eles são: “”refugiados”. Refugiados pela segunda e terceira vez na vida deles; apenas Amira Hass ousa chamar-lhes “pessoas deslocadas”. Mas estes deslocados não têm lugar nenhum para onde escapar aos horrores da guerra. (…)
Um jornalista israelita pode ir para a Síria, para o Iraque, para a Arábia Saudita, mas não para Gaza. Foi imposto um completo blackout em Gaza. (…) Gaza tornou-se num território vedado, sem cobertura mediática nem documentação. É esta a liberdade de imprensa israelita.”

Nada disto nos parece novo. E não é. Foi escrito em Setembro do ano de 2006.


Aquilo a que hoje se assiste em Gaza é uma repetição de outras ocupações, outros massacres, outras “limpezas”. Desta vez ainda testemunhadas por jornalistas.
Neste caso, por Gideon Levy, do jornal israelita Haaretz.
Não é fácil para nós, que o lemos longe e em paz, medir a coragem que é preciso a um israelita hoje em dia para conseguir ver e dar testemunho para além das barreiras que lhe são impostas. E vencer os preconceitos e os ódios que o rodeiam. E é preciso notar – antes que se esgrima o “mas” do costume – que Levy não é “antissemita”, não é contra a existência de Israel, não é indiferente nem silencia os crimes cometidos contra Israel. “Considero-me um patriota israelita. Quero ter orgulho do meu país, coisa que cada vez se torna mais difícil para aqueles israelitas que partilham as minhas convicções. Acredito também que apenas aqueles que protestam contra as políticas de Israel – que denunciam a ocupação, o bloqueio e a guerra – são os verdadeiros amigos da nação.”
Há mais de trinta e cinco anos que o faz, que tenta “registar a crescente – e cada vez mais rápida – acumulação de crimes de guerra e de abusos dos direitos humanos” cometidos por Israel. Alguns dos artigos publicados no Haaretz foram mais tarde reunidos num livro (que ele escreveu em hebraico e em inglês): “The Punishment of Gaza” [“A Punição de Gaza”]. O propósito de Levy (nas suas palavras): “Apelo a todos os israelitas que se insurjam – ou pelo menos compreendam o que está a ser perpetrado em nome deles, para que nunca possam ter o direito de alegar: Não sabíamos.”
É esse livro que ando a ler. Fala do que se passou em Gaza entre 2006 e 2009. Mas quase parece que nos fala do que hoje se está a passar. Os mesmos crimes. Pior, talvez.

a crise que não há

temos em breve eleições no condomínio. Andam já todos a brandir argumentos para ficarem com a gerência. Cada partido vai à sua arca de argumentos ou de cassetes e tenta convencer-nos do poder milagroso das receitas que ali tem para cura de todos os males de que padece o prédio comum: paredes a ruir, infiltrações de fora que põem em risco a segurança de todos, empreiteiros corruptos (sempre os contratados pela Administração anterior, naturalmente), condóminos que não pagam as quotas ou que as metem ao bolso (as deles e as dos outros)… Enfim, as maleitas do costume em casa onde o pão é pouco e muitas as razões.

Numa coisa já reparei, ainda assim: não oiço nenhum dos candidatos a falar na questão da chamada “crise climática”, das alterações climáticas. Poderia pensar-se que, sendo esse um problema que nos espreita a longo prazo, e que põe em causa todo o edifício, haveria que definir trabalhos, prazos, calendários para cada Administração daqui até ao limite de 2050 estabelecido internacionalmente pelo Acordo de Paris sobre alterações climáticas. Não se pode deixar tudo para o último ano. As alterações são já hoje bem visíveis.
Poderia pensar-se também que este é um problema central, decisivo. Um problema existencial! E que sem isso de pouco servem as obras parciais, que nos vão permitindo aguentar. Ora um remendo aqui, ora ali, ora nisto, ora naquilo, conforme a ênfase que cada partido dedica ao assunto. Com alguma promessa circunstancial aos que mais berram de momento, e que todos duvidam que possa ser cumprida, mas que pode calar ou acalmar os berros do momento.
Poderia pensar-se, é verdade, mas não se pensa.
Para começar porque é um assunto que não dá muitos votos: não são muitas (e não contam muito em termos eleitorais) as pessoas que consideram isso um problema prioritário. Não estão organizadas em lóbi, nem em sindicato, não têm chaves de cofre nenhum, não contam. E, por outro lado, porque os eleitores em geral não vêem isso como um problema que se reflita no fim-do-mês, que é o mais largo horizonte temporal para as preocupações da maior parte das pessoas. Têm uma vaga consciência de que é uma coisa “que vem aí” (viram nos noticiários as inundações lá fora, os incêndios lá fora, os ursos polares sem o gelo a que estavam habituados, etc. etc., tudo isso e uns senhores cientistas a dizer que). Mas essa consciência é vaga. Já a contabilidade dos euros do fim do mês, ou da balança do poder, ou do acesso aos vaivéns da economia, são bastante mais evidentes. E pesam no bolso. E a verdade é que é com o bolso que se pensa. O resto, os perigos do futuro não são mais que do isso mesmo: do futuro. Para já estamos como naquela história do homem que caiu do cimo do arranha-céus e que na sua queda a cada andar que passa vai dizendo: “Para já está tudo a correr bem!”
É como se a crise climática não existisse – essa é que é a verdade.


Então… e os ativistas climáticos? Não podiam, esses, trazer o clima para a liça? Descomprometidos como são dos meros interesses eleitoralistas, poderiam usar a inventiva, a provocação bem orientada, a capacidade de intervenção que já demonstraram noutras ocasiões e forçar os debatentes a debater. De uma maneira ou outra, afrontando preconceitos e reticências, foram as ações dos ativistas que trouxeram para a praça pública o pouco de debate que por cá se ouviu sobre o problema das alterações climáticas. É um problema global, que diz respeito a todo o planeta, sem atender a fronteiras de nenhum tipo, e por isso não surpreende que o ativismo local apareça associado a movimentações semelhantes noutras paragens. É verdade. Mas poderíamos esperar que fossem capazes de adaptar a sua ação ao calendário local (mesmo sem COPs, ou outros acontecimentos internacionais).

O que não podemos esperar é que os partidos renunciem à sua contabilidade merceeira, das questões imediatas, que dão votos, para desempenhar um papel que mais tarde ou mais cedo serão chamados a assumir. E que para eles será sempre “mais tarde”.
Os chamados “pequenos”, que à partida podem correr mais riscos no campo dos princípios, por contarem com um eleitorado mais consciente da necessidade de pegar em questões mais “marginais” (e, na minha opinião, quase sempre mais próximas do real valor da vida) poderiam ir mais além. Mas não é o que vejo nos debates e nas presenças públicas. Talvez nos programas o façam. Mas… não sei se haverá muita gente a dar-se ao trabalho (eu não dei…) de ir ler o programa, sem se ficar pela versão digestiva servida na praça pública. É aí, não haja dúvidas, que se formam as opiniões. E, quando os eleitores não são do género clubista, que apenas vota no “seu” clube, é precisamente aí, na praça pública, no debate público, que se decidem os votos.
Os partidos “grandes”, esses, que hão de fazer, coitados? Há que dar ao povo o que o povo quer. E ninguém quer problemas que não se possam resolver com promessas, essa é que é essa. Como as pias de água benta à entrada das igrejas, que santificam tudo o que tocam, os partidos limitam-se a usar a ladainha consagrada de “a importância do problema das alterações climáticas, que ninguém pode esquecer nem menosprezar”.
E siga o baile!

E nós a ver navios…

Alguns dos que costumam ler estes desabafos têm-me dito que isto começa a ficar um bocadinho sombrio. Muita tragédia, muitos desastres, guerras, parece tudo pintado de negro. “Mas tu só pensas em desgraças, pá?”
É verdade. Ponho-me a ler o que está para trás e realmente…
Será porque ando longe das ilhas floridas onde toda a gente passa o tempo, cheias das alegrias reservadas aos posts do facebook. E que eu não frequento… O mundo chega-me cada vez mais pelos jornais e a internet e isso de certo modo carrega-lhe as cores… E também porque vou perdendo a inocência que antes me permitia ver as coisas como acontecimentos isolados, a pedir indignação, choque, protesto, mas que se ficava por aí. Como quem se fixa nos sintomas de um mal que intimamente não se quer conhecer, nem sequer nomear. Ainda com a inconfessada crença (utópica…) de que tudo irá ficar bem.
Aos poucos essa fé vai-se perdendo, e vamos ligando as coisas, os sintomas, e o que vemos passa a ser também um sinal daquilo que não vemos, ou do que não queremos ver. Acho que é um pouco isso… Deve ser isso. Ah, se não fosse a realidade, a “ralidade” do Manel Resende, “essa megera sem idade, [que] não tem tempo, e fronteiras, não tem lar”…

Acordo, vou à janela, para ver o rio, a cidade lá em baixo a espreguiçar-se, a preparar-se para o dia. Já que tenho Alfama, tenha também o proveito. Mas logo me surge, enorme, intrusivo, o casco sobranceiro de um daqueles navios de cruzeiro que diariamente se me impõem à vista. Maiores que um quarteirão de Alfama. E o problema é que agora já não me basta o barafustar. Fico também assustado. Para mim, agora, aquilo é mais do que um navio. É uma fábrica de dióxido de enxofre, óxidos de azoto, partículas ultrafinas vomitadas em plumas diáfanas pelos motores que mesmo atracados continuam em funcionamento para alimentarem o enorme consumo de energia da aldeia flutuante. Como aldeias inteiras que viajam de um lado para o outro, cada barco transportando três mil, até seis mil pessoas, para uma breve incursão de algumas horas em cada sítio onde aporta, para uma caça aos suvenires e aos pontos de interesse que aliás já viram no youtube e que o tripadvisor já lhes marcou como “a ver”.
São coisas que não dão para nos animar.
E depois não é só isso. Para mal dos meus pecados, sei agora que há cidades que só permitem a atracagem de barcos que possam ligar-se à eletricidade nos portos (que por isso mesmo dispõem de ligações adequadas. O que Lisboa não tem). Sei que Lisboa era há pouco a cidade europeia que mais cruzeiros recebeu por ano (115). Sei que eles são responsáveis por por um quinto das emissões de óxidos de azoto! E por 3,5 vezes mais emissões de enxofre do que todo o parque automóvel da cidade durante um ano!… Durante um ano inteiro!
O (meu) problema é esse: perdida a inocência que só nos pode vir de desconhecer coisas como estas, passamos a ver nelas também o que elas escondem. E as mais das vezes não é coisa boa.
Já me estragou o dia, o raio do navio.

esta voz não me sai da cabeça

é a voz de uma menina de 6 anos a falar com a mãe ao telefone. Está aterrorizada, presa dentro de um carro. Todos à volta dela estão mortos – o tio, a tia e dois primos.
“Por favor. Sou pequenina. Mamã, tenho fome, tenho frio. Fiz chichi nas pernas. Está a ficar escuro, tenho medo do escuro. Tenho medo. Por favor, vem-me buscar.”
Chama-se Hind (ou chamava-se? Não se sabe). Quando as tropas israelitas mandaram evacuar a zona, a mãe de Hind decidiu seguir a pé para sul, à procura de maior segurança. Pediu ao irmão que levasse no carro a filha mais pequena. Daí a pouco ouviu tiros para os lados por onde eles tinham saído. Depois tocou um telemóvel e uma das primas de Hind que ia no carro disse ao primo que tinham sido atingidos por tanques israelitas. O pai, a mãe e o irmão estavam mortos. “Estou a perder sangue. Estou a morrer. O tanque está aqui ao pé”, disse ela. Depois ouviu-se uma rajada de tiros. Um grito de dor horrível. E depois mais nada. Só a voz do primo: “Está? Está?” Mais nada. Foi então que se ouviu a voz da pequena Hind. Procuraram mantê-la ao telefone. Durante horas. O Crescente Vermelho palestiniano (uma organização semelhante à Cruz Vermelha) ficou a tentar consolá-la, enquanto tentavam receber autorização para a irem buscar. Jornalistas da CNN contactaram as forças israelitas. Deram-lhes as coordenadas do local (31º30’49.4 N; 34º26’13.0 E), mas a resposta do porta-voz do Exército israelita foi apenas: “Não estamos a par do incidente relatado”.

Ao fim de cem dias de guerra, a BBC fala em 24 mil mortos em Gaza. Um número. Gideon Levy, jornalista do jornal israelita Haaretz fala em 5 mil crianças mortas. Um número. Mas aqui há mais do que um número: há um nome. Uma voz. E esta voz agora não me sai da cabeça.

Columbina Clandestina

Vem aí o Carnaval, vem aí a Columbina. Ainda há pouco não sabia o que era. Agora sem dar por isso vejo-me à espera que ela passe, essa vassourada de folia desenfreada que corre o bairro na terça-feira de Carnaval. Coube aos brasileiros daqui, se calhar levados pelas saudades da desbunda carioca, dar o pontapé de saída. E de há uns anos para cá nessa tarde vemos desembocar de uma ponta à outra da Rua da Graça até ao Largo, à volta do coreto, uma maré colorida de pessoas mais ou menos fantasiadas e maquilhadas, umas com mais roupas do que outras, a dançar e a cantar, ao som de bombos, tambores, pandeiros e tudo o que possa servir para marcar o ritmo desta animação toda. Nada a ver com o entrudo português – bisonho, com as suas figuras “tradicionais” codificadas para todo o sempre, com indisfarçáveis relentos machistas. Também nada a ver com os “desfiles carnavalescos” que as Câmaras patrocinam em algumas cidades – bem organizados, arrumadinhos, com uns arremedos de crítica social e política e “carros alegóricos” as mais das vezes a maldisfarçar os intuitos publicitários de quem os paga.
A Columbina é o oposto de tudo isso: estouvada, desorganizada, contagiante, aberta a quem queira despir-se das aparências de todos os dias e a desafiar convenções e estereótipos.

Vi ontem no jornal que também noutros bairros da cidade fazem festas semelhantes, também animadas (sobretudo) pelos brasileiros que cá vivem, também com nomes engraçados e inventivos, também espontâneos e abertos a todos os farristas. Mas parece que este ano há algumas diferenças. Para começar, até a Columbina é já menos clandestina, com direito a cartaz anunciador e tudo. E já a denunciar os primeiros sinais de quem começa a “levar-se a sério”. Em parte porque ao que parece “as autoridades” (a PSP e a Câmara) começaram também a levá-los a sério. O que antes era visto como uma “manifestação” espontânea, que apenas precisava de fazer um pedido de manifestação e anunciar o dia e a hora, é agora classificado como um “evento cultural”, o que exige pedido de licenciamento, pagamento de corte de rua, de patrulhamento, de seguros contra acidentes pessoais, de taxas camarárias… Enfim, uma catrefada de obrigações que levou estes grupos a “cair na real”. Alguns já desistiram. A Columbina Clandestina não (ou ainda não). Cá estará na terça de Carnaval a querer fazer-nos acreditar que as cinzas e o cinzento ainda vêm longe. E há sempre quem acredite ou queira acreditar. Até eu, que não sou nada dado a folias (mas que gosto de ver as pessoas a foliar).

Daqui a alguns domingos teremos aqui outro cortejo: a procissão do Senhor dos Passos. Bastante menos garrido, porém. Muito mais organizado, sob a batuta com séculos de experiência (desde 1586!) da Real Irmandade de Santa Cruz e Passos da Graça, com lugares cativos das autoridades cívicas e religiosas, que aí desfilam compenetradas e todas garbosas, com a inesperada presença dos Cavaleiros da Ordem de Malta, que nem sabia que ainda por cá andavam, ao som da música, séria, lamentosa, soturna de uma banda vinda (por razões que me escapam) de Cascais, acompanhando a imagem sofredora e algo tétrica de um Cristo agonizante carregado pelos membros das confrarias atinentes a deitarem os bofes pela boca fora, e por um séquito de fiéis igualmente arfantes, alguns descalços (por promessa), numa marcha funérea através das colinas de Lisboa, desde São Roque até à Graça.
Será que lá no meio não irá alguma columbina desgarrada a penitenciar-se dos pecados da terça-feira gorda?