Quem matou Jan Palach?

Por esta altura do ano, em 1968, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia. Foi a maneira mais expedita que os tanques encontraram para pôr termo às veleidades reformistas dos checos que começavam a falar em liberdade de imprensa, de reunião, de expressão, de viagem – aquilo a que depois se chamou «a Primavera de Praga, tudo coisas de que os tanques não gostam. Acabou-se a Primavera; começou a ocupação. 
Os dirigentes checos reformistas, levados à força e em segredo para a União Soviética, assinaram aí um tratado permitindo o “estacionamento temporário” dos tanques soviéticos. Os tanques ficaram, pois, na Checoslováquia, mas agora como convidados. E logo iniciaram um período de Normalização, que implicava uma profunda repressão política, uma purga dos reformistas e o regresso à pureza ideológica que os tanques preferiam à Primavera.
Os checos comuns, singularmente, não perdiam muito tempo em salamaleques com os seus convidados forçados. Por mais mordaças que lhes pusessem, multiplicavam-se em manifestações, manifestos, e outras formas de protesto. Pacíficas, porque sem armas de igual peso, com tanques não se brinca. A força bruta, sem a mínima possibilidade de abertura, de negociação, em breve se traduz em revolta latente e em gestos desesperados.

Em 16 de janeiro de 1969, Jan Palach, um estudante universitário de Praga, imolou-se pelo fogo numa praça central da cidade. Tinha apenas vinte anos.

De tão terminante e irredimível, o gesto dá bem a medida da violência da repressão imposta pelos tanques. Um rapaz até aí anónimo, sem protagonismo político, sem ligações conhecidas a qualquer movimento organizado assinala a recusa dos tanques pelos checos deste modo tão assumidamente radical. Em que ser radical, como alguém antes dissera, «é ir à raiz. E a raiz do homem é o próprio homem.» O que aqui, de uma forma atroz, significava «é o próprio corpo».

A violência desta morte choca-nos, antes de nos questionar, pelo que nela há de inegociável, de sacrificial. Na nossa matriz cultural mais profunda, o corpo, o nosso corpo, é a linha limite da recusa. Todas as formas de protesto, de contestação, de recusa da ordem dominante, em que se recorre ao uso do corpo como arma começam precisamente por se defrontar com a incompreensão e o choque, mesmo daqueles que à partida poderiam estar de acordo com as razões por trás do gesto desesperado. Dizemos: até concordo com o que eles dizem, não posso é aceitar os meios que usam. Concordo com ele, com eles, mas… E é este «mas» o que realmente nos define.
Podemos concordar com uma greve da fome, mas…
Podemos concordar com os ativistas climáticos que põem o seu corpo em jogo, mas… 
Vagamente que seja, sentimos, queremos sentir, que há ali ainda um espaço para a negociação, para a contemporização, para uma chamada à realidade, à nossa realidade…

O que nós gostávamos, o que nós gostávamos mesmo era que houvesse uma qualquer varanda aonde pudéssemos mandar trazer uma bacia de água limpa e, aí, diante de toda a gente, diante do mundo, de nós próprios, pudéssemos lavar as mãos e proclamar a nossa inocência de tanta coisa suja que por aí se pratica em nosso nome.

Vinte anos depois da morte de Jan Palach, em janeiro de 1989, os protestos em Praga subiram de tom, desencadeando o que depois se chamou a «Semana Palach», que despertou o mundo para a situação que se vivia na Checoslováquia, que desfechou o primeiro grande abanão no muro de silêncio que rodeava a sociedade dos tanques, e que viria a soçobrar dez meses mais tarde em Berlim. No resto da Europa, muitos do que antes apoiavam os tanques, começaram a pôr-se em causa, e a pôr em causa esse apoio. Muitos desses movimentos e partidos começaram a esvaziar-se. Ninguém (quase ninguém) queria ser cúmplice.

Em Lisboa, no muro de um quartel que lá havia (hoje uma universidade), também eu, então escrevedor de paredes ainda no ativo, fazia a quem passava a pergunta com que comecei este postal: «Quem matou Jan Palach? Tinha apenas 20 anos».
Mas, bom rapaz que no fundo também sou, para não culpabilizar excessivamente a boa gente que todos nós somos, mais adiante no muro escrevi também: «Não vos inquieteis – é a realidade que se engana». 
Ainda hoje me serve de lema.

comércio local (3)

Neighbourhood (smash burger & beer)
Rose Beauty Club Sosciarelli
Vino Vero
La Matta Ristorante Pizzeria
Le Joyeux Gourmet
Bacaro Natural Wines Handcrafted Beer
Mu Gelato & Caffè
Look Change Saloon
Locals Nomads – Full of Wine
Funerária Bonfim

[Apesar do desaparecimento das mercearias, das peixarias e das padarias, o comércio local continua florescente aqui no bairro. Ninguém se pode queixar de falta de pizzerias – só no Largo da Graça e arredores contei hoje 4 recentes. Mas já antes tinha anotado aqui esta exuberância do comércio local, como se pode ver em: https://zelima388727646.wordpress.com/2024/01/18/comercio-local-2/ e: https://zelima388727646.wordpress.com/2023/02/05/comercio-local/ ]

Vai-se a água… vão-se os burros…

Para chegarmos à praia, atravessamos um campo que quase chega à beira-mar. Nesta altura do ano está coberto dos talos ainda tenros da aveia segada há pouco tempo. E era aí que invariavelmente encontrávamos o Gilô. Preso pela arreata a uma vara espetada no chão, ia pastando um círculo quase perfeito de erva até onde a corda chegasse. Assim que sentia a Cereja por perto, desatava a zurrar e a resfolegar numa saudação em que se adivinhava a amizade e as saudades que sentia depois de um ano de ausência. Muito provavelmente, também a lembrança dos mimos que ela costumava levar-lhe: umas folhas de couve, umas cenouras, restos de fruta. Amigo certo dos nossos verões, portanto, o velho Gilô.
Este ano, ao passarmos pelo campo, munidos das desejadas cenouras, nada de Gilô.
Quando depois encontrei o dono, perguntei-lhe pelo nosso amigo. Eram tristes, as notícias. Como ele contou:

O burro ficou doente. Não conseguia andar.  Mal dava um passo. Não conseguia se alevantar sozinho. Uma vez levantou, mas não conseguia ficar em pé. Eu já estava a chorar e o caraças. Que ia eu fazer? De repente deu-lhe aquilo. Naquele dia começou a ficar  mal. Eu queria pô-lo num terreno ali em cima e ele tremia todo. Levantava-se, bebia água e depois ficava sem se mexer. Dava-me pena, não esperava que o bichinho ficasse ali assim. Foi qualquer coisa que lhe deu de repente. O homem veio aí e disse logo: olha a melhor maneira é dar uma injeção e mata-se e pronto. Tenho muita pena, mas é assim. É que tu vais ter aí o burro a sofrer. A parte aqui deste lado estava toda rasgada, já estava em sangue. E ele disse: não adianta nada. Dá pena. Dar pena, dá, isso dá. E deu-lhe a injeção. Parece que o bicho até chorou. Tinha uma lágrima no olho. Eh pá, fiquei, sei lá… 
E onde vou eu agora buscar outro? O Zé do peixe passou aí e disse-me: Olha, tenho um burro e nem pagas nada. E tenho outro, de outra pessoa, uma estrangeira, mas essa é muito longe. É em Faro. É uma burra, uma burrinha bonita, tem três anos. E este daqui é um macho. Até me fazia jeito, um casal era bom. Ela também o quer oferecer, também. Mas tinha de o ir buscar. Não sei. Há aí o meu amigo Zé, um rapaz que vende aí o peixe. Na quinta-feira ele vem aí e vou falar com ele. Ele tem um atrelado desses que levam cavalos. Mas depois tenho de pagá-lo. Não sei quanto ele leva, só perguntando a ele. O pior é a água. A minha mãe não quer. Disse-me logo: isto está sempre a piorar, a piorar. Eu queria, gosto de ter aí os animais. Agora se arranjasse um casal era bom. Mas a água é que é o principal. Os animais precisam de água. Um burro mama mais água do que as ovelhas. As ovelhas todas juntas, e o burro mama mais água que as ovelhas todas. Logo se vê. Há de haver mais burros. Mas o problema é a água. A água não é suficiente. Dá para as ovelhas beberem, mas… não sei, não sei, tenho medo. Isto, o tempo não anda famoso. A chuva não foi muita. Aqui não choveu nada, nada. Então vejam lá, o meu poço grande já se vê o fundo. Quando eu esgoto leva uns quatro dias a vir acima. Mas não é de repente, é pouco a pouco, pouco a pouco. Comer há com fartura, mas água… O poço dali da vizinha também está muito em baixo. O outro ali, o poço dele está seco. O meu pequeneco, aquele debaixo da amoreira, estava cheio de água, já não tem água nenhuma. Cada vez é menos chuva, cada vez é pior. O problema é esse. Os poços estão a secar. Aquele ali comprou aqueles depósitos grandes. Compra a água a um homem, ele vem cá enchê-los. Mas ele já disse, se isto assim continua não vou poder vender mais. Tenho os meus animais e já tenho pouca água. Os furos também se acabam. A água vai, vai e também desaparece. Ninguém semeia nada. As coisas secam na árvore. As plantas não dão nada. Este ano só pusemos grãos e tremoços. Por isso é que eu digo a muita gente: de que vale gastar dinheiro a fazer furos e depois ficar sem água e sem o dinheiro? Olha, chapéu! Isto, a água, se não chover, desaparece. Isto vai secar tudo, vai morrer tudo, árvores, tudo. Que vou dar ao burro? Comida até há, há aí muito feno, mas a água? E os garrafões da água que a gente bebe estão cada vez mais caros. E a água que a gente compra para dar aos animais não é barata. Às vezes são os bombeiros que trazem, outras vezes é ali um homenzinho que também tem vacas, traz um pipote de três mil litros e enche ali os depósitos. E também não é barato. E tem de se comprar sempre mais. Mas houve ali um dia que… Eu até estranhei. O depósito estava vazio, os três mil litros desapareceram num instante. Ia para regar e nem uma pinga de água? Fiquei todo marafado. A terra estava dura como pedra. Se tivesse vertido água havia de estar encharcada. Alguma coisa foi. Não me digam que a roubaram! Que há quem roube… A mim já me roubaram… havia ali uns molhos de tremoços que eu tinha ali em cima e já mos roubaram E a água são bem  capazes também. Podem roubar… Isto está aqui um problema grave. Não há água nem para nós nem para os animais. Nunca mais choveu como deve ser.

um fósforo no escuro

Pode ser muito enviesado o caminho seguido por um livro até chegar às nossas mãos. Este que ando a ler, por exemplo, chegou-me por causa de uma citação que dele fazia um outro que não sei já qual seria. É este um dos o males de andar a ler vários livros ao mesmo tempo, à espera que algum nos agarre com toda a força que nele haja e (quase) nos obrigue a ler o resto de fio a pavio. Não seria o caso do tal livro agora esquecido, mas que no entanto me deixou às voltas com uma citação de um texto de Javier Marías, um escritor espanhol, que aliás não conhecia, sobre tradução. É um tema que me interessa o suficiente para me levar a procurar o livro do tal Javier Marías e ir ver como defenderia ele a tese que despertou a minha curiosidade e que a citação apenas expunha brevemente.

A ideia que nesse texto se expõe parte do caráter quase sagrado d0s grandes textos da literatura mundial, escritos numa língua que, por força da passagem do tempo, se vai tornando para os leitores atuais cada vez mais distante e incompreensível. E, porque intocáveis, esses textos permanecerão para sempre iguais, na fermoza lingoa em que foorão escriptos. Qualquer variação, por mínima que fosse, seria considerada inaceitável. Em contrapartida, esses mesmos textos poderão ser sucessivamente traduzidos, acompanhando a evolução da língua para a qual são traduzidos sem que com isso deixem de ser os mesmos. Numa comparação usada pelo autor: tal como uma partitura musical que pode ser interpretada infinitas vezes, com uma infinidade de diferentes matizes, velocidades, instrumentos, consoante os intérpretes, sem nunca deixar de ser ela própria. A partitura não muda, mas soa distinta cada vez que é interpretada. Os textos originais, diz ele, são um pouco como as partituras musicais; a tradução um pouco como as diferentes execuções ou interpretações daquilo que de outro modo estaria condenado a ficar silenciado, e a empalidecer com o tempo e convertendo-se aos poucos em hieroglifos crípticos para os descendentes de quem escreveu o irrepetível e intocável e inalterável texto.

Javier Marías usa como exemplo o caso do Don Quijote de la Mancha – tinha que ser! – ou da Montanha Mágica, de Thomas Mann, das Afinidades Electivas, de Goethe, da Metamorfose, de Kafka. A lista limita-se a autores alemães por se tratar de um texto que foi lido pelo autor em Dortmund, Alemanha, na cerimónia de entrega do prémio internacional Nelly Sachs que lhe fora atribuído. Mas não será difícil completá-la com muitos outros livros de muitas outras línguas. Nenhum espanhol ou «hispanohablante», diz ele, aceitaria como início do Quixote outras palavras que não fossem: «En un lugar de La Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor…» Assim como nenhum português, poderíamos nós dizer, aceitaria como início da obra de Bernardim Ribeiro um outro que não fosse: «Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual fosse então a causa d’aquela minha levada,—era eu pequena,—não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de ser o que depois foi.»

A verdade, porém, é que como tudo o que é humano também as línguas sofrem mudanças e  envelhecem. E se esses textos clássicos (e portanto intocáveis e quase sagrados) ainda hoje são lidos são-no em grande parte por «imposição» dos currículos escolares que desse modo pretendem passar às novas gerações o precioso legado dos grandes autores. Só que a linguagem, o vocabulário, mesmo a sintaxe, foram-se tornando para os leitores atuais em grande parte numa verdadeira escrita hieroglífica, apagada pelo tempo e às vezes seguindo carreiros muito diferentes dos iniciais, assumindo novos conteúdos e conotações. Ainda há pouco estive a ver os livros recomendados (e «obrigatórios») para o ensino secundário e pude constatar como o brilho dos textos de Fernão Lopes, de Gil Vicente, do Padre António Vieira, para me ficar por estes exemplos, apenas conseguiam chegar-nos lá da distância dos anos luz de quando foram foram escriptos à custa de uma infinidade de contextualizações, comentários explicativos e notas de pé de página.

Não assim com as traduções – é essa a tese exposta por Javier María. Diz ele: «os alemães do futuro gozarão do privilégio de continuar a ler o Quixote na sua língua alemã do futuro e não numa versão arcaica; tal como nós, os espanhóis, poderemos continuar a ler A Metamorfose ou A Montanha Mágica no nosso espanhol futuro e não num espanhol arcaico.» Por isso se sucedem, se renovam, se atualizam regularmente as traduções dos grande clássicos que, esses, se mantêm eternamente inalterados, intocáveis que são. Falo dos autores clássicos, mas, no fundo, o mesmo se poderia dizer em relação a quaisquer outros livros, qualquer que seja a sua idade. Uma vez escrito, o livro assim se manterá (em princípio) para sempre na sua língua original. E também aqui vale a regra de que cada uma das traduções que dele forem feitas irá acompanhando a evolução da língua da tradução.

Aqui fica, em resumo, a tese sobre a atualidade da tradução, tal como é exposta por Javier Marías, escritor espanhol e também tradutor, num artigo intitulado «Una pobre cerilla», incluído no livro «Literatura y fantasma», que reúne variadíssimos textos seus sobre variadíssimos assuntos. E, se nem todos me mereceram a mesma atenção e apreço, este que aqui deixo resumido foi para mim como o fósforo no escuro (a cerilla do título), que, mais do que iluminar, serve para mostrar a dimensão das trevas que nos rodeiam.

tréguas tribais

Para onde quer que eu vá, os meus passeios com o cão acabam quase inevitavelmente por me levar até ao grande muro que circunda o quartel. Sou um leitor compulsivo e atento das mensagens que ali se vão sucedendo, umas vezes sobrepondo-se às que lá estavam, outras infestando-as com os mais variados riscos e rabiscos. Murais feitos com todos os cuidados são torpedeados com todo o tipo de àpartes, a escorrer tinta e ironia, ou raiva, às tantas. A uma esmerada composição de feministas a jurar «sororiedade» (sic) às 3 Marias, no fraseado elaborado da pieguice bem-pensante do momento, e logo desfeiteada por um «tem juízo» numa garatuja alarve, segue-se um outro mural com slogans de apoio à «Palestina Livre», enxertado de intervenções que desfiguram as imagens das, supõe-se, mulheres palestinianas aí representadas. Ao fim de algum tempo (e já ali está há algum tempo), o mural fica salpicado de rabiscos atabalhoados. Como glosas intercaladas num texto alheio, alguém tentou desfazer o que está dito (e atira com «Terroristas!», que depois será riscado por cima a tinta diferente), enquanto outros deixam o seu apoio à Palestina (e ao Hamas!). No meio disto tudo, ainda sobra espaço para achincalhar o mandão do Miguel, mas recorrendo ao dialeto agora tão em uso entre nós («Miguel, calma, you are so bossy!»).

Fazem-me lembrar, estas trocas públicas de denúncias, de apelos, de insultos, os antigos dazibaos dos maoistas chineses. Não sei se alguém ainda se lembrará: aqueles cartazes pintados ou escritos à mão que infestavam os muros das cidades e das universidades chinesas durante a chamada Grande Revolução Cultural Proletária. Representavam, na opinião dos que detinham o Poder, a opinião pública, livre e sem intermediários, e eram em grande parte o pontapé de saída para as vastas purgas que então se sucediam, com denúncias da atuação «contra-revolucionária», da incompetência ou da corrupção de funcionários locais. Anónimas, sempre. 
Diga-se também que o tosquiador acabou em boa parte por sair tosquiado: os dazibao que então foram consagrados como um direito garantido pela constituição de 1975 começaram, com o virar dos tempos, a ser usados como meio de expressão do movimento por reformas políticas e económicas. Depressa se desfez o que depressa se fizera: os dazibaos são probidos e é abafado o movimento que veio a encontar o seu fim sangrento no massacre da Praça de Tiananmen em 1989.


Claro que nestes dazibaos da Graça, em Lisboa, não há sequer uma sombra disso. Nem estes ataques e denúncias são causa de destituições, prisões ou desterros de quem quer que seja. Lembrei-me disso só pelo que aqui há de confronto espontâneo de opiniões (que não é o mesmo que confronto de ideias, há de notar-se). Ninguém pedirá policiamento ou limites para expediente tão espontâneo e livre, pelo menos enquanto se ficar por aí, pelas opiniões.
Mas não é isso que me leva a falar nos murais da Graça. 
É que o painel que se segue no muro está ali há muito mais tempo do que estes de que falei. E até já apareceu por este blogue há uns tempos. (Para os que chegaram atrasados, pode-se ver, clicando neste link: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/227). Aqui o que se regista, mesmo que involuntariamente, é a contenda surda que se estabeleceu entre duas tribos vizinhas: os da «Resiliência» e os da «Resistência». Quem aí primeiro se instalou foi a Resiliência e, como quem assenta um padrão a assinalar a propriedade de terras estranhas, assinalou o facto com um mural feito com todas as regras da arte, com todos os efes e erres. Mas não é que em poucos dias (ou noites) alguém lhes pôr um travão? Os da Resistência, sejam eles quem forem, vieram pôr os pontos nos is, ou antes o ésse e o tê, que logo muda toda conversa e o entendimento a dar à intervenção. Ainda houve mais uma pequena escaramuça – em que se apagaram e se reescreveram as duas letrinhas teimosas. Mas depois mais nada. Foram-se passando os meses (muitos) e nada. Os murais ao lado vão mudando, vão sendo enxovalhados ou vitoriados, e este aqui: nada. Porquê, não faço ideia. Será assim em obediência a alguma regra, que ignoro, do Código não-escrito dos escrevedores de paredes? Alguém me saberá explicar? Que isto dá que pensar, dá. Pelo menos a quem vagueia por aqui sem nada mais que o ocupe do que estes pequenos nadas de que se alimenta o diário do bairro.

conversa no jardim

Passo aqui os dias, estou sempre sozinho, pois estou. Já não conheço cá ninguém.  Aquela rapaziada dos barcos, morreram todos. Trabalhei lá muito tempo. Estou reformado de lá. Passei muito tempo lá, nos barcos. Havia muita carga antigamente, havia. Agora acabou tudo, acabou esses navios todos. Era cortiça, era carvão, era tudo. Agora vem tudo em contadores. Foi um meu irmão que me arranjou para lá. O meu pai também lá andou. Já não conheci o meu pai. Não me lembro nada dele. Era miúdo ainda. Morreu muito cedo. Também trabalhava aqui no porto de Lisboa. Era o meu irmão, eram dois cunhados meus. Depois ficaram reformados e foram para a província. Tinham lá casa. Eu também tenho lá duas casas. Estão vazias, a cair para o chão. Casas de pedra. Tenho lá uma que gastei uma porrada de contos com ela. Essa é de cimento. Vigas de cimento. Dura para o resto da minha vida. Em agosto vou estar lá um mês ou dois. Era para lá estar, estava lá melhor que aqui. O que é um gajo vai para lá e está lá sozinho. Não tenho lá ninguém. Estava melhor lá no nosso sítio. Temos lá casa. Terrenos há poucos. Vieram uns que andaram lá a comprar aquelas serras todas, a porem vinhas. Andavam lá máquinas a lavrar aquelas serras todas, aquelas barrocas e tudo. As minhas terras nem dadas as querem. Os meus pais tinham batatas, tinham milhos, tinham trigos, tinham umas cavadas ali naquelas baixas, semeavam tudo. Não vendiam, comiam o que criavam, ninguém comprava. Era uma zona que não havia ninguém que comprava nada. Agora os que vêm de fora, compram aqueles sítios, compram aquilo barato. Dantes mal dava para viver. Antigamente trabalhava nas terras, era o tempo da minha mãe, dos meus irmãos. Trabalhava nas fazendas, cavava terra, semeámos batatas, semeámos tudo. Dali da povoação levávamos uma hora a pé. Para ir para aquelas fazendas. Tínhamos lá uma adega, uma casinha e íamos para lá comer e dormíamos lá. Agora lavraram aquelas barrocas, está tudo lavrado. Ainda me deram cem contos por uma fazenda daquelas. Aquilo é só serra. Serras altas. Antigamente não havia estradas. Era só a pé. Era só caminhos. Agora é só estradas. Havia rebanhos de gado. Ovelhas e cabras e cabritos. Era uma vida dura. O meu pai morreu cedo. A minha mãe morreu cedo, praí com uns cinquenta anos. Naquele tempo morria muita gente nova. Passavam muita miséria, coitadas, muita fome. No meu tempo tinha aí trezentos moradores, ainda era muita gente, agora é uma dúzia de gatos, já nem os conheço. Uns morreram, outros… não há lá ninguém do meu tempo. Tinha dois irmão, já morreram os dois. Morreu um e outro apareceu morto lá numa propriedade, enforcado. Enforcou-se. Foi para lá e apareceu lá morto, numa fazenda que lá havia. Foram lá dar com ele morto. Trabalhava aqui nos barcos. Aquilo lá, algum o matou ou o enforcou. Tinha uma gaja, andava só agarrada aos homens, só andava metida era com os velhos. Aquilo lá houve algum gajo, lá o apanhou naquele sítio, lá o apanharam e enforcaram-no. Nunca se descobriu nada. Ela já morreu. Se fosse agora tinha uns cem anos. Eu também já estou velho, já estou com oitenta e seis anos. Morreram todos. Éramos três rapazes e três raparigas. Só uma é que é viva. Está com noventa e cinco anos. Já não sai de casa, coitada. A minha sobrinha está ao pé dela, só tinha aquela filha. A minha sobrinha, coitada, também teve azar.  Estava com dois homens e agora está sozinha, os gajos largaram-na da mão e ficou sozinha.  Esteve sempre junta com dois homens. Também eram lá dos meus sítios. Viviam os três juntos. Ela teve azar. Um, juntou-se com outra gaja, lá a deixou, lá foi embora, nunca mais apareceu. O outro anda lá fora, trabalhava nas obras, lá para a França, para aquelas terras todas. Fazia daquelas chaminés, dos fornos para fazerem pão. Era mais novo que a mim. Ela teve azar. Não fazia mal a ninguém. Não sei lá o que eles faziam. Agora está sozinha. Tem um filho, tem uns cinquenta anos, o filho, já. Também trabalha aqui no porto de Lisboa. A minha sobrinha tem ali uma casa, naquela rua. Gosta daqui da cidade. Ainda é nova, tem uns sessenta anos. Eu estou ao pé dela, estou sozinho e estou ao pé dela. Dou-lhe qualquer coisa, dou-lhe um xis, para o comer. Eu quando vim da terra vim para cá, vim aqui para a Graça, trabalhava num sapateiro. Depois  um cunhado meu é que me arranjou trabalho para ir para essas vinhas no Cartaxo e por aí. Vinham daquelas serras, iam para o Cartaxo, para Vila Franca de Xira, para Santarém, para aquelas quintas. Cheguei a andar por lá. Trabalhava de noite e de dia. Vinha o capataz que arranjava trabalho, ia às terras buscar pessoas para trabalhar. Foi um cunhado meu que me arranjou o trabalho para ir para ali. Já morreu. Já morreram, os meus cunhados. Andava ali muita gente lá dos meus sítios, era gente aos montes. Viviam lá naquelas serras, naquelas barrocas. Havia um manajeiro e que ia buscar pessoal para trabalhar nessas vinhas, ali no Cartaxo e por aí. Tinham casas e tudo para nós.  Acabou tudo, agora acabou tudo. Havia pouco trabalho naqueles tempo, éramos três irmãos, todos os rapazes, vínhamos todos para ali. Dantes no nosso sítio era só cavar as fazendas. Havia uns que eram caçadores. Havia muitos e quando chegava o domingo andava tudo com a arma às costas. Pagavam, não era?, pagavam a licença, tinham de andar com as armas. Eu não. Às vezes levavam-me com eles. Os meus cunhados é que iam. Eram caçadores. Lá no meu sítio naquelas serras havia coelhos, havia perdizes, havia tudo, não é? Acabou tudo. Acabou. Ainda há coelhos, mas já é pouco. Arderam aquelas serras todas, ardeu tudo com o lume. Era só serras ali. Agora acabou tudo, não há trabalho nem nada, Só esses que vêm de fora, da França e assim, compram tudo. Fazem ali as moradas e ficam lá a morar. Lá nos meus sítios há umas vinte pessoas que vieram de fora e fizeram lá casas. Têm vinhas, têm olivais, têm tudo. E eu um dia também vou. Tenho lá uma casa. Aqui a casa tem muitas escadas e custa-me muito a subir. Sou aleijado de uma perna e já me custa subir escadas. Foi um gajo, uma brincadeira. Havia lá na terra uma festa, assim no verão e eu estava na cama e ouvi a música que vinha de lá de muito longe para vir tocar na festa. Vinham a tocar aquelas cornetas. Cheguei lá e vi um rapaz. Eu ia a correr também, ia a passar. Ele tinha um embrulho e meteu lá chumbo e pedras e pólvora e eu ia a passar e apanhou-me numa perna. Eram paródias, a andarem aos tiros. Eu ia a passar e apanhou-me. Os chumbos eram grossos, foi um estouro que eu sei lá. Levaram-me para Coimbra. Passei um ano no hospital.  O que é fiquei aleijado desta perna. Se eu tivesse ficado na cama, não apanhava aquilo. Mas a música vinha a tocar, era da parte da manhã. Vinham a pé para o meu sítio, tocavam aquelas cornetas, aquelas músicas e vinham até àquelas aldeias, Antigamente era assim. Havia muita malta nova. Era a festa do verão. Agora já acabou. Era em agosto. Uns a dançar, a música a tocar, uns a tocar concertina ou harmónica. Acabou a festa. Este ano já não há nada. Juntava-se ali muita malta, vinham daqui, vinham de um lado e doutro. Juntavam-se ali aos montes. Ali por aquelas serras havia muitas terras, muita gente. Mas não havia estradas. Era um deserto. Ali a gente para olhar só tem as serras, aquelas barrocas fundas. Não é como aqui. Aqui olha-se para qualquer lado e vê-se muita coisa. Eu não tenho mais nada que fazer. Venho para aqui para o jardim. Já não há cá ninguém do meu tempo. Apanhei isto na perna e nunca arranjei mulher. Às vezes no verão vamos lá, eu, a minha sobrinha e o filho dela e vamos à vila e compramos tudo para comer. Dantes lá na terra havia aquelas tabernas e vendiam tudo. Mas agora morreram todos. Não há nada. Agora tem de se ir à vila. Já não conheço lá ninguém. E aqui também não. Passo os dias aqui no jardim. Às vezes vou até lá acima à Graça. Ir para onde? Com esta perna tudo me custa. E custa-me subir as escadas. Esta perna não vale. Um dia vou para a terra. Ajusto-me lá com um restaurante e estou lá melhor do que aqui. O que é fico sozinho. Já não os conheço, os de lá. E cá também não. Morreram todos.

mira mira não me toques

Deram-me ontem um vasinho com uma flor. Não estava nada à espera. Embora andasse há muito tempo a namorá-la. Nos meus passeios com o cão passo quase todos os dias por ali – uma escolinha separada da rua por um gradeamento que tem uma espécie de parapeito onde se alinham uns quantos vasos variados. O costume: plantas para todas as estações, desabituadas de mimos e finezas, que resistem a tudo. A tudo menos a passantes cobiçosos, como vou contar. Sardinheiras, cactos ou coisa que o valha, aspidistras, espadas de são jorge, e às vezes alguma surpresa menos habitual. Era o caso: um vasinho com a tal planta de que me agradei, uma coroa de picos eriçados a guardarem umas florzinhas de um vermelho incandescente como nunca vi outro. Não teria a lata de cortar um rebento para mim, claro, mas fiquei de olho nela, à espera de ver alguém a quem o pudesse pedir. Daí a tempos, a plantinha desapareceu. Alguém menos paciente tinha tentado roubá-la. Só os picos, talvez, mas sobretudo a grade estreita tinha travado a mão larápia. Isso disse-me uma senhora Celina com quem finalmente cheguei à fala. Trabalha na cozinha da escola e vai dispensando alguns cuidados às plantas. Deu pela tentativa criminosa e tratou de esconder o vaso dos olhares cobiçosos. Mas prometeu-me que quando chegasse o tempo frio, mais próprio para estes transplantes, me daria um pé de mira-mira-não-me-toques, que assim se chama a planta, disse-me ela. O Professor Google, consultado por mim, confirmou: é esse um dos nomes que dão a esta Euphorbia milii. Mas também: dois-irmãos, bem-casados, duas-amigas ou dois-amigos (por as flores aparecerem normalmente aos pares), ou então não-me-toques, coroa-de-espinhos, coroa-de-cristo ou martírios (logo se percebe porquê, basta olhar para os picos). Menos ingénuo, o nome científico tem uma origem mais mundana: vem-lhe do barão Pierre-Bernard Milius, governador da atual Ilha Reunião, que trouxe de lá algumas destas plantas para o Jardim Botânico de Bordéus em 1821. Vá-se lá ver as voltas que o mundo dá…
Mas, o que eu estava a contar: ia eu ontem a passar na escolinha e chamou-me a Senhora Celina. Tinha preparado um vasinho com um pé de mira-mira para me dar. E já cá está, ao pé das outras flores que com o passar do tempo tenho trazido para casa dos meus passeios pelos baldios e terrenos vagos para onde o cão me arrasta. Flores silvestres que não sei como invadem o mais ínfimo pedacinho de terra que haja à mostra no meio do betão e da calçada. Coisa linda de se ver, diga-se, para os olhos dos camponeses exilados que bem vistas as coisas todos nós somos. Foi assim que aos poucos fui enfiando nos vasos do terraço inteiras campinas de outros sítios: papoilas, ainda que pouco dadas a emigrações forçadas, e que por isso se recusam muitas vezes a pegar; pampilhos, sempre todos lampeiros a instalar-se aonde quer que os levem; e capuchinhas, e tomilho, e o que mais calhar. Até – das minhas preferidas – soagens. Trouxe este ano algumas, embora só um pezinho se tenha resignado ao degredo, sempre com um ar um pouco contrafeito, como um estorninho perdido do bando, habituado que está às planuras por onde a soagem alastra em extensões compactas. É feito de soagens, o manto púrpura que na primavera cobre as campinas por esse Alentejo fora. O meu terraço não é já se sabe a planície alentejana, mas sempre me serve de lembrança desse deslumbramento, e com isso me absolve de assim a ter roubado à companhia das suas iguais.

as cabrinhas da Sicília

Li agora uma notícia que me deixou bastante triste. E preocupado. Talvez porque mete cabras. E as cabras, a par dos burros, fazem parte dos meus bichos tutelares. Fala-nos, a notícia, de um cabreiro siciliano apertado pela seca prolongada que se vê praticamente condenado a entregar ao matadouro as suas duzentas cabras e a largar o ofício de muitas dezenas de anos. Não há água. O último charco que resta é quase só lama. E como ele estão todos os outros pastores. As temperaturas facilmente atingem os 49 graus no verão, os incêndios alastram e destroem a pouca vegeração que resiste. Por volta de 2030, um terço da Sicília será um deserto comparável ao que se vê na Tunísia e na Líbia – é o que diz um professor de ecologia da Universidade da Catânia, citado no artigo. 
Nem só de cabras fala a notícia. Mas, a mim, que venho de uma família de cabreiros, foi o que mais me chamou a atenção. 
Também lá vem outras coisas, mesmo assim. Vem lá, por exemplo, que a Agência Nacional de Estatística Italiana diz que a produção agrícola de 2023 diminuiu 1,8% devido a causas climáticas, a vinha 17,4 %, a fruta 11,2 %. E isto dá que pensar. Sentimos que a coisa começa a bater-nos à porta. Já não são apenas os ursos polares, lá muito longe, a morrer por falta das presas que o aquecimento afastou para outras bandas.
Não é nada que não soubéssemos (que não saibamos). Há muito que nos avisam, mas com sintomas assim tão patentes? A aumentar a olhos vistos?
E que fazemos nós? O mesmo que fazemos quando a evidência das análises e dos testes que o médico mandou fazer nos mostram que os índices (maus) estão a aumentar. Sacamos de uma explicação qualquer que nos permite continuar a fazer a mesmíssima coisa sem problemas (Ah, isso foi daquele entrecosto que comi, isso está praticamente igual às do mês passado, isso passa com uns comprimidos…). E pensamos também que alguma coisa, algum milagre, alguma excepção, nos há de salvar do que parece inevitável. Como dantes se compravam indulgências que nos poupassem o purgatório dos nossos pecados, nós acreditamos, ou fazemos por acreditar, no poder redentor das meias medidas que nos são propostas: se usamos avião, damos um euro suplementar para pagar a (grande treta da) pegada ecológica, se compramos alguma coisa, preferimos os produtos biológicos, orgânicos, biodegradáveis, naturais, locais, sustentáveis, e outros paliativos, que valem outros tantos grãos de areia com que imaginamos suster a derrocada da barragem que nos anunciam como iminente. Não digo isto por mal, a sério. No fundo, quando não podemos fazer tudo, podemos ao menos fazer o que está ao nosso alcance. Incapazes de conviver com a angústia do inevitável ou com os sentimentos de culpa, reprimimos tudo num cantinho do inconsciente e vivemos a outra vida possível por procuração. Até que um dia o que recalcamos agora regresse a galope para nos assediar.

Estará tudo muito certo, dirão vocês, mas na realidade será possível fazermos alguma coisa? A resposta franca franca, ainda que assustadora, é «não». A verdade é que a solução possível não depende de nós, individualmente considerados. Como diz o nosso bom povo: Evitar o colapso do clima exige uma contração na utilização que a humanidade faz dos recursos naturais; mas o modelo económico em que vivemos, para evitar o seu próprio colapso, exige a sua expansão sem restrições. Destas duas leis contraditórias apenas uma é modificável, e não é a lei da natureza.
Temos um exemplo prático até: quando a economia global desacelerou com as medidas de contenção da pandemia do Covid19, as emissões de CO2 resultantes da queima de combustíveis fósseis baixaram 5%. Mas, em contrapartida, a economia entrou em recessão. E é isso que queremos? Não sendo possível guardar o bolo e também comê-lo,  tratamos de o comer. As emissões fósseis continuam a aumentar, as temperaturas da terra continuam a aumentar (a uma média de 0,18 graus por década), os riscos de colapso continuam a aumentar. As metas acordadas internacionalmente para conter esta corrida já não poderão ser alcançadas, deixemo-nos de tretas. É que outras razões se alevantam. Imparáveis. Irrefreáveis. Ainda há pouco, só para falar de um caso exemplar, duas empresas dedicadas ao turismo espacial pertencentes a dois multimilionários, Jeff Bezos e Richard Branson, lançaram, cada uma delas, um foguete turístico que emite por cada um dos seus passageiros o mesmo que nós, os que fazemos parte dos milhares de milhões de não-multimilionários, emitimos durante toda a nossa vida. Por aqui se vê, onde páram as nossas (nossas, uma ova!) prioridades.

Vinha eu falar das cabrinhas sicilianas, coitadas, e acabo a falar de milionários e de combustíveis fósseis… Se bem que… – e não é só o Eduaro Guerra Carneiro a dizê-lo – isto anda mesmo tudo ligado.

pombos, pardais e outros mais

Para os mais curiosos de entre os que me ouvem, trago aqui uma sugestão que é capaz de pelo menos os divertir: um dia em que lhes calhe passar pela Praça do Comércio em Lisboa reparem no curioso comportamento dos pombos que por ali andam a fazer pela vida. A maior parte deles voarão por ali às voltas, à cata de algum resto de pão ou de piquenique à beira-rio; haverá alguns empoleirados na cabeça ou nos ombros de Viriato, de Vasco da Gama, de Nuno Álvares ou de outros dos gloriosos antepassados que ladeiam o Arco da praça e que eles vão impunemente cagando enquanto fazem pose para os turistas; haverá outros ainda descansadamente poisados em cima do Triunfo e da Fama que jazem aos pés da estátua real.  O que ninguém verá é nenhum dos pombos ousar cometer o mesmo ultraje contra El-Rei e o seu cavalo. Poderão voejar por perto, poisar no elefante ou mesmo no cavalo e nos despojos de guerra que se distribuem pela a base do pedestal, mas nunca por nunca em cima de Sua Majestade e do seu cavalo. E porquê? perguntarão então os curiosos. Não por respeito pela realeza ou pelas glórias da Pátria. Senão, veja-se a estátua de Dom João I ali ao pé na Figueira ou a de Camões um pouco mais acima: ambas castigadas pelos pombos insolentes, tisnadas pelos excrementos e o verdete. Não; a solução do mistério está lá no topo, naquelas víboras eriçadas que as patas do cavalo esmagam impiedosamente, como se fossem (e era isso que se pretendia que fossem) os inimigos de El-Rei. Geneticamente condicionados para temerem cobras e víboras, os pombos põem-se logo ao largo mal as avistam, ainda por cima erguidas em ameaça, prontas a atacar, nem que seja figuradas em efígie.
Já estou a ver os olhares incrédulos de uns quantos e até alguns sorrisos de mofa, a fazer-me lembrar os soslaios irónicos dos funcionários da Câmara quando eu lá ia ao gabinete do vereador dos espaços públicos expôr as minhas teorias e as minhas propostas de defesa dos monumentos da cidade. A senhora que me atendia não queria por certo desfazer nas boas intenções e na boa vontade da iniciativa cívica, mas via-se que a fé dela era pouca, apenas compensada pela bonomia do sorriso a mostrar que sim-senhor agora que já o ouvi já posso dispor-me a nunca mais pensar no assunto. Mas aí voltava eu à carga: que o princípio até tinha outras aplicações, que basta pensar nas silhuetas de aves de rapina coladas nas vedações das auto-estradas (transparentes, mas sólidas) a evitar à passarada miúda um choque  quase de certeza fatal – a ideia é a mesma: usar o medo dos inimigos ancestrais como arma de dissuasão. E argumentava ainda com os custos que carregam os orçamentos da Câmara com a compra de peças eriçadas de picos a impedir que os pombos pousem nas fachadas de igrejas e palácios, venenos de todo o género, limpezas regulares, eletrificação, pombais contraceptivos e outras estratégias de insucesso até aqui usadas. Nada demovia a vereadora. Devia pensar que as víboras que eu propunha, nem que fossem de barro (desde que em pose agressiva!) haveriam de encher Lisboa de uma bicheza de estética pelo menos discutível. E talvez temesse também o ridículo a que se sujeitaria se a experiência não resultasse, o que na ideia dela era o mais certo, estou eu em crer. Dizia-lhe então que podia estudar-se uma cercadura esteticamente aceitável de onde espreitassem as cobras, invisíveis para quem olhasse cá de baixo, desde que visíveis para os pombos que as sobrevoam. Dizia-lhe que podia fazer uma expriência discreta, nem que fosse nas varandas da Câmara… De nada valeu.


E bem moderadas que elas eram as minhas medidas.  Ainda bem que não fui ao ponto de propor os remédios do Presidente Mao para livrar os chineses, a agricultura chinesa, da praga dos pardais que lhes levavam pelo menos quatro quilos de cereal por ano cada um deles. Não esteve com meias medidas, o Grande Timoneiro e Educador da Classe Operária (e Camponesa, já agora): atirou para os campos milhões de chineses, homens mulheres e crianças, armados de tachos, bombos, paus e tudo o que pudesse fazer barulho e impedir os pombos de pousar. Assim foram eliminados milhões e milhões de aves de todo o género: os que não morriam logo no ninho ou nos ovos, morriam por exaustão, impedidos de pousar e descansar com aquele alarido dia e noite. O pior foi o que se seguiu: o extermínio dos pássaros, e o desequilíbrio ambiental que se seguiu, que aumentou exponencialmente o número de insectos, gafanhotos, lagartos e outras pragas que a passarada continha dentro dos limites que a Natureza aceitava. E daí: destruição dos cultivos, diminuição drástica das colheitas, falta de alimentos e… Fome! O Camarada Mao mandou então importar pássaros da União Soviética, para combater o excesso de insectos que destruíam as sementeiras. Mas já era tarde de mais. Outras causas terá havido a ajudar, mas considera-se hoje (os historiadores ocidentais pelo menos) que esta campanha anti-pardais foi uma das principais causas da Grande Fome Chinesa que matou entre 20 e 50 milhões de pessoas no período de 1959-1961.

O que hoje temos por cá, diga-se já agora, poderá não ser a «Campanha contra as Quatro Pragas» do Grande Educador chinês, mas não deixa de andar lá por perto: o uso intensivo de pesticidas, a desmatação maciça, a destruição de habitats naturais, a agricutura intensiva, as alterações climáticas e mais uns quantos édecetras do género, estão a causar, entre outras coisas, uma diminuição generalizada das abelhas e de outros polinizadores (e portanto a diminuição das colheitas, a escassez de alimentos, a ruptura da cadeia alimentar). Talvez não passe ainda de uma sombra da verdadeira imagem do que se anuncia, mas as sombras chinesas maoistas talvez devessem dar-nos mais que pensar.

As minhas propostas de defesa dos monumentos e da arquitetura urbana não iam tão longe, apesar de tudo. Pregar um susto aos pombos iconocolastas é coisa que, estou eu em crer, não mereceria grandes condenações nem sequer a São Francisco de Assis, patrono insuspeito na matéria.  Mas embateram (as propostas) contra a indiferença da vereação (e mais uns quantos sorrisos irónicos e talvez algum «lá vem o dos pombos» murmurado entre dentes pelos funcionários da recepção). 
Mas também há quem diga que não é bem assim… E que há medidas mais… enfim, mais «sensatas», dirão esses e outros que tais.
Quanto a isso, peço meças!

e precisamos de heróis?

Já ao longe se esfumam as palmas, os discursos, as fanfarras do 10 de Junho, o dia em que o país premeia com reconhecimento e alarde os seus heróis, mas continuo ainda assim sem atinar no que celebramos ao certo em tais heróis e em tais festejos. Tempos houve em que a guerra era o principal fornecedor de heróis, e todos os anos os víamos desfilar por entre o som tremendo das tubas e de um clangor sem fim, estropiados e garbosos, até ao estrado oficial a oferecer às medalhas o peito que antes tinham oferecido às balas. Eram outros tempos, enfim.
Sem guerras a alimentar o contingente, quem nos nossos dias dará ouvidos às injunções dos nossos egrégios avó? Quem são hoje os grandes homens a quem reconhecemos essa acrisolada capacidade de exprimir os anseios do nosso tempo e de os traduzir em ação? (Homens e mulheres, lembram-me daqui do lado, que também nisto haja igualdade.)
Hoje, se condecoramos militares, fazemo-lo em segredo, sem festejos nem alarido. Condecoramos em vez deles os empresários mais valiosos, às vezes ainda a limpar à pressa a bava que as últimas multas por corrupção lhes custaram. É evidente que os feitos e os méritos e os serviços prestados à Pátria são hoje mais comezinhos, mais pacíficos e mais contabilizáveis. E ainda bem, digo eu, que, no que toca a guerras e a heróis, prefiro, já agora, celebrar o bombeiro voluntarioso que hoje trava a única guerra que ainda faz sentido.

Nas grandes narrativas da Grécia antiga, o herói encarnava a contradição entre as leis da cidade, o conformismo das massas obedientes, representadas no coro, que somos todos nós, e o gesto de rebeldia, de afirmação de uma outra lei, que o povo talvez pressinta, sem porém ousar afirmá-la.  Os heróis são, no fundo, aqueles que explicitam a vontade latente do seu tempo e que a realizam, tornando-se noutros tantos símbolos que dão unidade às narrativas mais ou menos míticas (e políticas), que exprimem esses novos tempos. É neles, nos valores que representam, que os povos se revêem. E se foram já os guerreiros, os aventureiros, os caudilhos, e depois os gestores, os construtores de impérios, negreiros e usurários tantas vezes, são hoje talvez futebolistas, influencers, fadistas ou recordistas do Guiness. Se ontem fomos os primeiros a chegar maritimamente à Índia com Vasco da Gama, hoje batemos o recorde Guiness da maior feijoada no tabuleiro da Ponte Vasco da Gama (15.000 pessoas e uma mesa com 5.050 metros de comprimento!)
Heróis há muitos, portanto. Sobretudo se vistos de longe. Porque de perto logo hão de surgir as fissuras no pedestal, os pés de barro da estátua, quantas vezes a mesquinhez, o cálculo, que o escrutínio da História, das redes sociais e do contraditório da atenção pública, não deixam passar em branco. Nos tempos em que não havia redes sociais, mas havia criados, e criados de quarto ainda por cima, houve alguém (Napoleão para uns, Voltaire para outros) que famosamente sentenciou: “Ninguém é herói para o seu criado de quarto”. 
Cada um terá, afinal, o seu panteão pessoal, que mobilará a seu gosto com os heróis que melhor condigam com os seus valores e as suas propensões. Para um o peito mais medalhado, para outro o melhor marcador do campeonato.

Por mim, fico-me por um panteão bem mais modesto, que reservo, mais que a heróis, em que não me revejo, a gestos que posso admirar e que para mim representam o que há em nós de mais incontaminado pelo cálculo e pela soberba.
Aproveito a deixa para aqui falar em dois deles, dos que mais me lembro.
Em primeiro lugar, o homem de Tiananmen, o homem dos tanques de Tiananmen, de quem não se sabe ainda hoje o nome, nem se está vivo ou morto. Talvez que esta falta de outros elementos, tornem ainda mais perfeita a fusão entre a sua identidade e o seu gesto – quando nada mais sabemos, ele passa a ser para nós esse puro gesto. Isolado, com um saco de plástico na mão, como se voltasse das compras, ou viesse de alguma tarefa quotidiana insignificante, um homem coloca-se diante dos tanques do exército chinês que na noite de 4 para 5 de junho de 1989 massacraram centenas (há quem diga milhares) de estudantes e outros populares que se lhes juntaram para protestar contra a falta de democracia, de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa.
O segundo lugar nna minha admiração reservo-o a Rachel Corrie, uma ativista americana de 24 anos que foi assassinada por uma retroescavadora blindada do Exército israelita quando procurava opor-se à demolição de casas palestinianas em Rafá, na Faixa de Gaza. Tinha ido para Gaza como membro de um projeto de geminação entre Rafá e a cidade dela na América. Uma vez aí, juntou-se aos ativistas do Movimento Internacional de Solidariedade que procuravam evitar por meios não-violentos a destruição de casas palestinianas em que o Exército israelita estava (e está) empenhado como “punição coletiva” dos que se opunham à ocupação. Nesse dia, 16 de Março de 2003, Rachel apesar de envergar um colete de cores vivas, para ser visível, foi esmagada pela retroescavadora que fazia a demolição. O porta-voz do “exército mais ético do mundo” (é o que diz Israel) declarou que a morte de Rachel Corrie se devera a um “acidente lamentável”, por o operador da retroescavadora não a ter visto. Na noite da morte de Rachel foram assassinados nove palestinianos em Gaza (entre eles uma criança de 4 anos e um homem de 90 anos, talvez dois “perigosos terroristas”). Esses não mereceram sequer desculpa nenhuma. Possivelmente por o “acidente” nestes casos não ter sido considerado “lamentável”.