[…]

Há quem diga que poesia e bons sentimentos não dão em bons casamentos. E quem diz bons sentimentos diz boas causas, acrescentam outros. E eu fico-me a pensar no que diriam então os que assim sentenciam de um poeta que conheci há dias.
Encontrei-o numa página do «Guardian» (https://www.theguardian.com/books/article/2024/sep/02/poem-of-the-week-by-fady-joudah), que depois me levou a uma busca pelos escaninhos e veredas da net para descobrir o resto.
E o resto começa por ter a ver com a «circunstância» do poeta, que depois de uma maneira ou de outra se refletem na sua poesia. Árabe, filho de refugiados palestinianos, criado na Lìbia e na Arábia Saudita, a viver na América, médico dos Serviços de Urgência, voluntário dos Médicos sem Fronteiras em África – tudo marcas que traçam um intrincado de fidelidades e de heranças nem sempre compatíveis.

O último livro de Joudah é de certo modo uma ilustração do dilema assim suscitado: poeta que pressentimos originalmente de vocação lírica, chamado pela profissão e pelas «circunstâncias» a responder ao apelo que lhe chega da cruel realidade da Palestina ocupada. Nem sempre é pacífico este convívio entre poesia e intervenção política. É o próprio poeta a reconhecer o terreno minado que isso representa e as dificuldades em contorná-lo. Como diz numa entrevista, «tenta desesperadamente fazê-lo sem condescendência ou falsas simplificações». Esta profissão de fé, porém, coloca-o na ténue fronteira que a separa das armadilhas do «sentimentalismo narcisista», do sensacionalismo das causas da atualidade, ou da tentação de transformar o poema em panfleto ou artigo de opinião. Joudah procura escapar à armadilha, com as metáforas a que recorre, a presença da natureza, mesmo desfigurada ou mera memória de um tempo limpo do passado, a música latente nas elipses que usa para remontar ao que significa (para todos nós, afinal) ser humano. Muito do que ele diz está assim no que não é dito, apenas indiciado.

A começar pelo título do livro: nenhuma palavra ou frase, simplesmente três pontos dentro de parênteses retos […], a lembrar um pictograma (é o poeta quem o diz). E como qualquer pictograma, também ele sujeito a leituras ambíguas ou múltiplas – há quem veja aqui uma alusão a alguma coisa que é suprimida ou omitida. Ou censurada. Quem se ativer mais ao simbolismo gráfico do pictograma, poderá nele ver, por exemplo, um espaço fechado, uma casa destruída com pessoas lá dentro, a cela de uma prisão. 

Há um poema – com o título […], comum, aliás, a outros poemas– tão inesperadamente como uma bomba que tivesse deflagrado, sem preâmbulos (a bomba já explodiu, a casa já desabou),  começa pela conjunção «e» («E, de repente, uma menina»). Não precisamos de saber que a cena evocada se passa em Gaza entre escombros, não é disso que o poema trata diretamente: é antes o assombro e a alegria de uma menina ao deparar com os que a salvam de entre as ruínas; e logo, da mesma forma elíptica e repentina, o medo de se ver só e para sempre separada do mundo onde até aí viveu protegida e amada.

Não são muitos os casos de autores em que a poesia sobrevive ao ser filtrada pela atualidade e as referências políticas diretas. Para melhor decidirem, os leitores poderão tentar ler os poemas procurando «ignorar» as circunstâncias concretas (ou supostas) em que eles surgiram. Idealmente, o que passou pelo «filtro», que reteve o que antes havia de meramente circunstancial, constituirá o essencial da poesia de Fady Joudah.
Para ajudar neste teste, incluo aqui dois dos poemas do livro.

[…]

e de repente uma menina recebe uma ovação

dos seus salvadores,
tudo homens ajoelhados e deitados no chão

limpando os escombros obra de outros homens
com suas mãos nuas,
desfigurados pela poeira
como fantasmas.

Todos os desastres são naturais
incluindo este,
porque os homens são naturais.

Os salvadores dizem-lhe
que ela é incrível, poderosa,
e por uma fração de segundo, antes do peso

do desaparecimento da sua família
a afundar, ela sorri,

como uma criança
que viveu sete anos acima do solo
a receber elogios.

[…]


Vós que me tirastes de minha casa
sois cegos para o vosso passado
que nunca vos larga. 
Cegos para o que me é feito
a mim agora por vós.
Um agora, dilatório, desgastante, 
de modo que o crime
é das alterações climáticas e não um massacre,
de modo que o presente nunca tem fim.
Mas eu estou mais perto de vós
do que vós de vós próprios, e isto, meu amigo inimigo,
é a definição de distância.
Oh, não fiqueis indignados.
Vêde o vídeo. Vou enviar-vos o link
da limpeza que fazeis de mim membro a membro
atirado para a rua onde se marcha onde 
a minha catástrofe no presente
não tem ainda a dimensão do vosso passado:
É este o muro
contra o qual lançais os vossos dados?
Falo no sentido etimológico. 
Não me importa que as balanças pendam para o vosso lado, 
não é o que conta para mim. Tenho um coração  que apodrece,
resiste, e espera. Tenho genes,
como os vossos, que não observam 
a «Pirâmide de Danos».
Dizei, vós que me despejais de minha casa,
que também desalojastes os meus pais
e os pais deles das casas deles:
Que tal a vista da minha janela?
Qual o sabor do meu sal?
Deverei eu condenar-me um pouco
para que possais perdoar-vos
no meu corpo? Oh, como amais
o meu corpo, a minha casa.

Tradutor – Mediador

Ao que me dizem da editora (Relógio d’Água), está por pouco a saída de um livro do Salinger que eu traduzi. Para quem não conhece este autor, terá nessa altura uma boa amostra do que a casa gasta. São duas noveletas, bastante diferentes entre si, e cada qual com a sua dose do génio que aflora noutras obras dele – estou-me a lembrar de «À espera no Centeio» ou dos «Nove Contos», também traduzidos por mim. Este que agora aí vem – com o título «Carpinteiros, levantai alto a cumeeira e Seymour, uma introdução» – é a tradução que resulta da profunda revisão de uma versão feita antes para outra editora. E é uma maravilha! O livro, esclareço. E esclareço porque quando digo isto, o Jean Némar (língua afiadíssima, como bem se sabe) comenta sempre do lado: «Há quem diga que o original também não está nada mal…» (as reticências são minhas; quando ele o diz, são substituídas por um risinho de mofa que eu dispensaria).

Mas que se segue, a primeira parte («Carpinteiros….») é uma história divertidíssima que começa por arrancar dentro de um táxi, que depois fica bloqueada pelo desfile de uma incrível banda de escuteiros ou coisa que o valha e acaba por se refugiar no apartamento do seu narrador (Buddy Glass). No táxi, além da história e do seu narrador, segue também o que poderia ser uma peça de inventário do tipo de personagens que povoam o universo do Salinger: uma dama de honor de um quase casamento, de feitio belicoso e autoritário, que depressa se impõe ao resto da tripulação; o marido dela, a disfarçar a submissão com um arremedo de ironia e falso humor; uma senhora, amiga da quase noiva do quase casamento, afixando um «sorriso que só lhe faltava ser canonizado»; e ainda um velhote minúsculo de chapeú alto e fraque, surdo como uma porta, que há de acabar esquecido e depois desaparecido do tal apartamento, sem que o narrador, e nós com ele, faça a menor ideia do destino que levou. Não conto mais, para não roubar a surpresa aos que ainda não leram a história. E também porque ainda (e sobretudo!) quero falar da segunda parte do livro: «Seymour, uma introdução»

Este… este quê? Conto? Novela? Texto inclassificável? Não sei como se sairão desta os especialistas da especialidade de dar um nome às coisas, e que achem nisso alguma vantagem. Nanja eu. Seja o que for, é mais uma maravilha de entre as maravilhas com que sempre podemos contar no que nos vem deste autor. Chegados aqui, haverá quem note uma qualquer parcialidade nas minhas palavras, pecado de que eu, aliás, pecador me confesso. 

Também aqui, o narrador é o mesmo Buddy Glass da primeira parte do livro e é seu declarado intento fazer uma tal apresentação do irmão, Seymour, que seja dele uma descrição tão completa e fiel e viva que torne possível, no final, enviá-la para publicação na revista simplesmente entregando-lhe (isso mesmo, à descrição!) «um bilhete de comboio e talvez uma sanduíche para o caminho e qualquer coisa quente num termos, e pronto»!
Na verdade, assistimos – literalmente, assistimos – nós leitores, à escrita do retrato de Seymour.  Tão fiel e pormenorizado quanto o projeto de Buddy o exige: assim, é-nos descrito por meio de vários capítulos, um para o nariz, um para as sobrancelhas, outro para o cabelo, e por aí diante, com divagações e circunlóquios recheados de histórias, de episódios, de relatos do passado e do presente que aos poucos vão fazendo surgir, em três dimensões – pelo menos três – e ao vivo o irmão Seymour em pessoa. Tudo isto numa escrita vertiginosa, exuberante, jubilosa: num processo que nos permite «ver» o escritor no seu trabalho, pelo menos quando o que temos diante dos olhos é um escritor apaixonado pelo seu tema, pelo seu objeto, pelo seu projeto, e possuído pelo génio (ou o demónio) da escrita. As frases encadeiam-se num emaranhado esfuziante de histórias, de divagações, de circunvoluções, para logo se dispersarem em novas derivações, em novas frases – parentéticas, subordinadas, explicativas – numa verdadeira girândola exultante, que é no que dá o puro prazer da escrita. A tal ponto que o autor, subliminarmente consciente, do barroquismo da construção, da profusão de parênteses e apartes, às tantas decide comprometidamente oferecer ao leitor por suas próprias mãos um «despretensioso raminho de parênteses temporãos: (((( )))).» Que ali ficam a embelezar a página, para sua desculpa e para nosso contentamento.

Coube-me em sorte, pelo menos em parte, a vertigem dessa euforia e disso tentei dar mostras equivalentes na versão portuguesa. Os leitores aí estão que poderão julgar. Tenho para mim, que cabe ao tradutor de certo modo um papel de mediador entre as duas versões do mesmo livro e partilhar e tentar comunicar ao leitor da sua língua a alma, o que vai na alma do autor que tem em mãos. E usar, para tanto, os mesmos materiais, os mesmos recursos que foram convocados pelo original – desde o nível de linguagem, o registo do vocabulário, e até a pontuação, sempre que possível. E se o que nos vem ter à mão é um trabalho em talha dourada, barroco ou rococó que seja, pois seja também essa a nossa oficina. 

A tal propósito, vem-me à ideia, um pouco a contrario, um outro autor que também traduzi (Erri de Luca) e que de certo modo será o oposto do Salinger no que à escrita diz respeito. Aqui, ao contrário da exuberância de Salinger, o que temos é uma obra quase artesanal, estreme, feita à mão. Um estilo cru, seco, reduzido ao mínimo de tudo o que possa ser redundante ou excessivo. E, para retomar o que atrás dizia, caberá aqui ao tradutor cortar nos materiais e nas ferramentas, aproximar-se o mais possível desse minimalismo. Quem souber apreciar o que há de belo e radical na simplicidade de uma cantarinha ou de uma infusa artesanal, saberá também ver na singeleza da escrita de um autor como Erri de Luca como ela está próxima do que há de mais elementar e essencial na natureza e no espírito humano. E como, ao mesmo tempo, isso não o impedirá, de ver o que há de magnífico numa criação de Monteverdi ou de Bach, só dois exemplos, aqui chamados para levar a água a este meu moinho. 

Falei ali atrás, para expor os desafios levantados à tradução de dois autores tão diferentes, das diferenças na escrita entre os dois. Na escrita, disse eu, mas poderia também dizer, na vida e nas escolhas de vida que fizeram, e que acaba por deixar marcas no que escrevem e como escrevem. Nada de tão diferente, quase radicalmente oposto, entre os dois. O que em Salinger se respira do mundo intelectual, quase aristocrático, abastado e displicente do meio culto e artístico de Nova Iorque, não tem nada a ver com o que nos conta Erri De Luca, que nasce para a escrita tardiamente, na idade madura, depois de ter trabalhado como operário nas oficinas da Fiat, em Turim, e mais tarde, emigrado, na construção civil em França. Um escritor comprometido com a luta dos mais desfavorecidos, como o eufemismo costuma dizer, que aparece ao longo da vida alistado em várias movimentações políticas, e sempre de forma interveniente e pragmática. Uma vez em que lhe telefonei, atendeu a mãe dele, que me disse que ele tinha ido para a Jugoslávia (era no tempo da guerra de 1993-99) como camionista integrado numa caravana de ajuda reunida pela solidariedade internacional.

Ia agora falar de um outro livro que traduzi há pouco, que ainda não foi publicado (e não sei se o será…) e que pensava usar como mais uma fábula sobre a nobre arte da tradução. Mas a conversa já vai longa e acho que vai ficar para a próxima. Uma coisa de cada vez, como vocês dizem, ao chegarem ao décimo parágrafo destes desabafos a choverem no molhado.

O Anjo da História

Só mais tarde, em casa, reparei na imagem, na fotografia que tinha tirado há pouco na rua. Como que vista do avesso, parecia-me agora falar de outra coisa (de outras coisas) que antes estivesse oculta. A chamada realidade tem destas coisas: vemos nela o que estamos desde sempre ensinados a ver. E com base nesse logro construímos a história que lhe dará significado, para a podermos arrumar, catalogar num dos cacifos em que dividimos a vida que vivemos. Fora do contexto, fora dessa realidade, digamos assim, ficamos entregues a imagens puras, ainda sem um sentido atribuído. Como se tivéssemos de ler uma tapeçaria vista do avesso, onde reconhecemos os contornos, mas pouco mais. Com muito menos se construíram fábulas e teorias do conhecimento, deixem-me que lhes diga.
E, assim, era como se tivesse agora entre mãos uma imagem nova.

Os cartazes (ou coisa que o valha), improvisados, feitos de cartões de embalagens. Não têm (ou não se vê) nada escrito. Pessoas sem rosto, graves e silenciosas. Correm as ruas da cidade, de muitas cidades, do mundo até. Avisam-nos de um perigo ou de uma ameaça que nós ignoramos, ou fazemos por ignorar. À nossa ignorância ou indiferença respondem com alarme redobrado. Cortam-nos o caminho, obrigam a parar a circulação da rotina tranquilizante. Ocupam os símbolos da depredação, algemam-se aos portões a  vedar o acesso, como que para nos obrigarem a parar, a pensar no significado desses lugares e símbolos. Respondemos com invectivas e protestos – quando a mensagem não agrada, que se faz? Mata-se o mensageiro. Queremo-los longe de nós, estes mensageiros agourentos.

De costas, parece que olham o passado, tudo o que ficou para trás. No que nós vemos uma cadeia de acontecimentos que deram forma ao mundo que habitamos, vêem eles uma esteira de destroços, de escombros de guerras várias, de desastres avassaladores. Como o Anjo da História sabem como é já impossível despertar os mortos e reconstituir o que se destruiu. Um vento impetuoso sopra sobre o mundo e impele-o irresistivelmente para o futuro, que na imagem lhes está atrás, enquanto, à sua frente, a pilha de destroços cresce para os céus. A esta tempestade chamamos nós progresso. 
Com muito menos, deixem-me só acrescentar, houve já quem construísse muitas teses sobre a filosofia da História.

É para isso que nos querem alertar estes que aqui fazem o papel de Anjo da História. Dizer-nos que «ainda é possível parar», mas que há que fazer alguma coisa. É isso que nos querem dizer. E vemos como o desespero deles cresce, como as ações e os gestos deles se tornam cada vez mais instantes diante da nossa indiferença. Diremos que não é propriamente indiferença – que é preciso viver e que a vida é «assim».
Se bem que – deixem também que vos diga – no fundo saibamos todos muito bem do que estão eles a falar, quando nos questionam, nas ruas por esse mundo fora, a avisar-nos de que está a chegar o tempo aprazado.  
«O tempo provisoriamente adiado aparece já no horizonte. Vêm aí dias mais duros.»

Porque sim!

Estava-se mesmo a ver. Eu não dizia que a Resistência era capaz de não se deixar ficar? 
Pois não ficou. Dias depois do contra-ataque da Resiliência aí estão eles com as suas duas letrinhas – S e T – de um vermelho vibrante a dobrar a língua aos ocultos antagonistas.
Uma guerra que promete arrastar-se, portanto. 

Desde o dia já distante em que a Resiliência se apresentou ao mundo com a sua mensagem pespegada no muro do quartel do bairro. [https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/227 ], depois do interregno de umas tréguas tacitamente declaradas [ https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/996 ] e do contra-ataque de uma Resiliência abespinhada diante do que provavelmente considerava ser já impertinência [ https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/1129 ], os dois ignotos contendores voltaram a terçar armas. No caso, pincéis e tinta.

Uma guerra quase pacífica, portanto, sem estandartes nem fanfarras, nem sequer insultos. E onde não há baixas! À laia de divisa, uma única palavra: Resiliência para uns, Resistência para outros.
Não há aqui, que se saiba, sombra de qualquer disputa territorial, religiosa, ou sequer política. Quando muito, alguma velada querela sobre duas filosofias, duas maneiras de encarar a vida.

E talvez seja essa a única guerra que valerá a pena travar, digo eu. Sobretudo se tão calada como esta a que o bairro assiste. Olhando para todas as outras que por aí lavram, as dúvidas não podem ser muitas.

Testemunhas do duelo, sem tomar partido, ficamos talvez a magicar na escolha em questão, que nem dilema chega a ser, tão próximas nos parecem as duas propostas. Num dos postais aqui publicados sobre o assunto, houve um leitor (Rosalvo Almeida) que destrinçou num comentário as diferenças, as definições possíveis, as eventuais razões para nos inclinarmos para um ou outro lado. Mas está-me a parecer que nem assim se derreteu a nossa indecisão. Por mim, que por feitio as mais das vezes tendo mais para a resiliência, não deixa de me atrair o que há de descarado, de insubmisso, naquela recusa vibrante com que as duas letrinhas da Resistência parecem estar a querer pôr um pauzinho na engrenagem. Se tivesse mesmo de escolher (e não tenho) não sei se no último momento não acabaria por ir por aí.

Isso sabem-no eles, decerto, os duelistas do muro. A haver aqui algum propósito, será esse, talvez, o de nos porem a meditar na alternativa. Se calhar.
Porque, a não ser assim, haverá lugar para perguntarmos, nós que só o acaso (ou o cão à solta) levou a testemunhar esta batalha mural: Porquê? Porquê tal teima?

E estou certo de que a resposta seria, à uma, tanto de Resilientes como de Resistentes, a mesma: Porque sim!

Israel, meu remorso

Se nunca foi fácil estar ao lado de Israel, hoje é praticamente impossível.
Porque os tempos mudam? Porque nós mudamos? Porque tudo muda? 
Que Israel mudou não há dúvida. É hoje uma potência nuclear, com um exército poderosíssimo, armado pela maior potência militar do mundo. Nada a ver com a Palestina onde se acolhiam os emigrantes judeus que no princípio do século XIX e princípio do século XX, vindos dos quatro cantos do mundo, começaram a afluir às terras que os seus antepassados tinham habitado há mais de dois mil anos. A Palestina onde chegavam era então, e já desde o século VII, um território com uma população maioritariamente árabe, sob a alçada do Império Otomano e depois, a partir de 1922, governada pela Grã-Bretanha por mandato recebido da Sociedade das Nações. 
A conciliação e a coexistência é impraticável entre os que lá estão e os que chegam. Dois povos a quem o mesmo retalho de terra é prometido, seja por Iavé seja por Lord Balfour,  estão condenados a uma feroz disputa de partilhas. E se um tem tudo a perder; o outro tem tudo a ganhar.
Os judeus têm tudo a ganhar, porque chegam sem nada. Forçados ao exílio desde a destruição de Jerusalém pelos romanos, no princípio da nossa era, espalham-se pelos quatro cantos da terra e de todos esses cantos são escorraçados ao longo dos séculos, perseguidos e discriminados, sem nunca deixarem de sonhar e de idealizar o regresso à terra dos seus antepassados: «Para o ano que vem, em Jerusalém» é como todos os anos se despedem, nos seus encontros rituais e familiares.
Os árabes que habitam o território, esses, pelo contrário têm tudo a perder. Aos poucos vêem as terras que lhes pertenciam desaparecerem nas mãos dos recém chegados, bem organizados, dispondo de meios e de fundos que a eles lhes estão vedados. Os conflitos são frequentes e inevitáveis.

Com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, as perseguições antissemitas aumentam exponencialmente e culminam no horror dos campos de extermínio onde pereceram milhões de judeus. A criação de um Estado para acolher os fugitivos e os sobreviventes deste crime sem nome é bem recebida pela opinião pública europeia e americana, onde existe um sentimento generalizado de que lhes é devido apoio e uma reparação por tamanho sofrimento, talvez um tanto à mistura com algum sentimento de culpa pela cumplicidade com que em muitos países europeus se assistiu e pactuou com os crimes nazis.

Um apoio incondicional? É o que depois se verá ao longo desta verdadeira Guerra dos Cem Anos, que assistirá a muitas mudanças, muitas dúvidas, muitas hesitações, muitas crises de fidelidade.
Porque se Israel mudou, passando de um país que procura sobreviver e impor-se até se tornar na potência belicista que hoje é, também a própria guerra foi mudando de natureza.

A proclamação do Estado de Israel (1948) foi também o início de uma nova fase da guerra que irá pôr à prova o apoio de que até aí gozava. Tratava-se agora sobretudo de criar implantações judaicas nas áreas conquistadas e de impedir o regresso dos árabes expulsos à força (fala-se em 750 mil) e que passam a viver em campos de refugiados. Até hoje.
E quem apoia Israel, quem apoiava a criação de um lar para os refugiados do Holocausto começa a sentir-se assediado por perguntas e dúvidas. E as dúvidas, em breve, vão aumentar ainda mais.
Porque também o caráter da guerra vai sofrer nova mudança e mais controversa.

Desde a chamada Guerra dos Seis Dias (Junho 1967), o conflito, a princípio eminentemente político e territorial, vai tornar-se também religioso. Por um lado, a entrada em cena do Irão neste tabuleiro já de si complicado torna a questão, mais do que causa árabe, também, ou sobretudo, uma causa muçulmana, dominada pelo fanatismo religioso, incapaz de aceitar qualquer solução que não seja a eliminação da parte contrária e a instauração de um Estado palestiniano do mar ao Jordão, onde não haveria lugar para Israel.
Do lado israelita, por seu turno – sobretudo depois da nova vaga de emigrantes, chegados com o termo das restrições à emigração impostas pelo império soviético em derrocada, com uma história que já pouco tem a ver com o Holocausto – a ocupação dos territórios do Grande Israel bíblico prometido por Iavé, do mar ao Jordão, e onde não haveria lugar para um Estdo palestiniano, inspira um tipo de fundamentalismo messiânico, avesso a qualquer solução negociada de compromisso, e que atualmente domina a política israelita.

 Esta dupla politização do religioso, que alimenta uma busca de soluções absolutas sem lugar para a conciliação, acaba por resultar num novo tipo de guerra, onde dominam as ações de violência indiscriminada, a destruição de casas e culturas dos camponeses árabes dos territórios ocupados, as incursões terroristas como a que o Hamas levou a cabo em outubro de 2023, quando atacou uma comunidade israelita, matando a sangue-frio mil e duzentas pessoas e raptando duzentas e cinquenta como reféns. Ainda que se aceite tratar-se de um crime que não podia ficar impune, não é fácil aceitar que a retaliação do exército israelita se tenha tornado por sua vez numa empresa de extermínio generalizado, que não distingue entre culpados e inocentes, entre militantes e civis. As mortes desde a invasão já passam das 40 mil, sendo que mais de dez mil eram crianças e 70% eram mulheres, que dificilmente poderiam ser tomadas por militantes terroristas.
Essa verdadeira limpeza étnica da população palestiniana da Faixa de Gaza assinala um novo passo na política inaceitável do governo israelita, cada vez mais longe do objetivo inicial de libertação dos reféns, o que torna praticamente impossível manter-se ao lado de Israel a quem nunca aceitou tais processos quando eram os judeus os perseguidos.

E perguntamo-nos de novo: que Israel é este? Que caminho escolheu, afinal? E naturalmente hesitamos em segui-lo nessa via.
Longos dias tem cem anos, costuma dizer-se, e é muito o que em cem anos pode mudar. As guerras não têm nada de limpo, mas apesar de tudo sempre foi possível ouvirem-se vozes, de um lado e de outro, mas também em Israel, que nos permitiam pensar numa saída, por mais enviesada que fosse: a solução dos dois Estados, as negociações entre Rabin e Arafat, o meio acordo de Oslo, as mulheres de Jerusalém que se reuniam regularmente com mulheres palestinianas, o movimento Paz Agora que nunca deixou de acreditar numa solução que não obrigasse à ocupação das terras palestinianas nem à opressão de outro povo. 

É verdade, isso, ou foi verdade, mas não é o que agora se ouve em Israel. 

O que agora se ouve em Israel são antes vozes a dizer o oposto, colonos da Cisjordânia ocupada que convocam reuniões para declarar: «Temos de ocupar Gaza, anexar, destruir todas as casas que lá há e construir colonatos.» «Os árabes de Gaza perderam o direito de lá estar. Têm 52 lugares para onde ir no mundo, 52 países muçulmanos. Vão para lá!»
A organização «Nachala» formada por colonos da Cisjordânia ocupada está agora empenhada em ocupar e colonizar o que resta de Gaza. O Governo israelita desmente o plano, mas o certo é que onze dos trinta e sete ministros do atual governo participaram na conferência que lançou o projeto.
Começa-se a temer que aconteça aqui o mesmo que aconteceu com o movimento imparável que ocupou e colonizou a Cisjordânia, contra todos os ventos e marés, impondo-se a quaisquer medidas e leis de contenção, até se tornar num facto consumado. E impune.

A empresa imobiliária Harey Zahav publicou em Dezembro um anúncio premonitório (que mais tarde, face aos protestos que se levantaram, desvalorizou como sendo uma «piada»), mostrando algumas maquetes de novas casas no meio dos escombros ao longo do litoral de Gaza: «Uma casa na praia não é um sonho impossível!», diz o anúncio. Curiosamente (ou não), é também essa a opinião de Jared Kushner, o inefável genro do Presidente americano, entendido em investimentos imobiliários rentáveis, que se mostrou entusiasmado com o «valioso potencial» da beira-mar de Gaza, e foi ao ponto de sugerir que Israel devia remover os civis da zona ao mesmo tempo que «limpa» o território.
Há quem considere que a anexação de Gaza é afinal o verdadeiro plano do exército israelita, com os assassinatos em massa, com os bombardeamentos, as expulsões, os campos de concentração das populações sucessivamente deslocadas. 

E não me está a parecer que haja hoje em Israel vozes suficientemente fortes para se lhe oporem.
E realmente quem haveria de se opor? 
Não certamente os colonos da Cisjordânia, onde, ao que dizem, os interessados são aos milhares. «Já temos seiscentas ou setecentas famílias inscritas», diz a líder do movimento de colonização de Gaza.
Também não, ainda mais certamente, os palestinianos (os que ainda restam) reduzidos às formas mais elementares de sobrevivência, perseguidos e aniquilados do modo mais impiedoso pelo exército israelita.
Nem sequer a imprensa internacional poderá fazer ouvir a voz do jornalismo independente, e dar testemunho próximo deste novo crime, banida que foi de Gaza pela potência ocupante.
No meio disto tudo talvez que a voz mais ouvida em Israel seja afinal a do cantor Hanan Ben Hari e a sua canção de sucesso sobre o «regresso a Gush Katiff», o nome hebraico de Gaza:

«Voltando para Gush Katif
Jogando voleibol na praia
Criando uma Nova Beach
Na costa de Gaza,
A nação de Israel vive!»

E onde andam e que poderão dizer as vozes daqueles que, tendo começado por apoiar a criação de Israel, assistem agora à criação do monstro em que ele se tornou?

___________

PS: já noutras ocasiões aqui se falou nisto ou em coisa que o valha. Gostava muito que os interessados no tema e que tenham chegado tarde a esta conversa (numa ocasião com mais vagar) fossem dar uma vista de olhos a:

Produto para se dormir tranquilo: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/283
A solução afinal… https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/311
Com os olhos em Gaza: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/404
Esta voz não me sai da cabeça: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/492
A punição de Gaza: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/533
Contai aos vossos filhos: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/615
Dois pesos e duas medidas: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/727

a Resiliência contra-ataca

Já aqui falei em tempos da guerra surda que se trava num dos muros do meu bairro, entre resistentes e resilientes, sejam lá quem eles forem.
(os que chegaram atrasados: podem refrescar a memória clicando neste link: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/227 e neste: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/996).

Não se ficou por aqui, esta singular contenda. Reparei hoje que a Resiliência contra-atacou: com  o mesmo rigor e premeditação com que começou, foi-se aos vestígios que ainda resistiam dos seus desaforados antagonistas e apagou-os, meticulosamente, até que deles nada mais restasse. Demorou o seu tempo. Talvez que os meios e as técnicas que usa não consintam o improviso e a precipitação de uns rabiscos apressados. Tudo ali é rigor, precisão, cuidado. Nada às três pancadas. Ou talvez se tivesse metido de permeio a indecisão de algum – digo isto porque presumo que são vários, que há ali a congregação de vários talentos e tarefas – que às tantas se tivesse perguntado qual era o ponto de tudo aquilo.
Não sei. E também não tenho meio de o saber.

Olho para isto com o mesmo fascínio e o mesmo espanto com que poderia assistir a uma polémica entre, digamos, partidários do livre-arbítrio e partidários do determinismo, travada a golpes de pincel e brocha num muro qualquer que por aí houvesse. Que litigantes são estes? Qual o pomo da discórdia, afinal? A força das ideias, a força das nuances de uma mesma ideia? E que se mediria como, pergunta-se? E quem se procura convencer, a eles próprios, a nós que assistimos do passeio a intervalos de dias ou semanas? Será este o desenlace de uma disputa travada noutro foro em que outras razões se tivessem esgotado? Não faço ideia, mas não deixa de me agradar a ideia de que se possam discutir ideias de forma tão desapaixonada.

E agora? Será que os da Resistência se vão ficar por aqui? Não lhes dará para se atirarem ao que talvez vejam como uma cisma, uma perrice, e queiram novamente virar o bico ao prego em duas pinceladas, trás, trás, uma para o s outra para o t? Contestar a Resiliência e retocá-la desse modo em Resistência?

 E nós, que assistimos a tudo da neutralidade dos acasos para onde nos arrastam os afazeres ou os passeios com o cão, que poderemos dizer? Abismados, incapazes de nos pronunciarmos, perguntamos: Resistência ou Resiliência perante o quê ou quem?
Que diríamos se em vez disto alguém desatasse a escrever por aí «alecrim» e logo outro alguém lhe sobrepusesse «manjerona»? Haveríamos de nos sentir interpelados a tomar partido em tal guerra?
Não sei. Para já, fico à espera de «novos desenvolvimentos» como dizem na têvê.

O próximo a morrer

Não é coisa que se veja todos os dias. Viu-se no sábado: os bairros negros desceram à cidade, ocuparam a Avenida, gritaram abertamente o que noutros dias fica lá longe, onde não chegam sequer os autocarros, nesses bairros onde não há pão, não há sossego. Vieram desse mundo para onde a Cidade os foi empurrando aos poucos. Aos muitos, aliás. Trazia-os a revolta contra a morte de um seu igual – Odair Moniz, fique o nome – assassinado pela polícia. 
Pediam uma vida justa – era o que se lia nas bandeiras que traziam – que é uma maneira de dizer casas para viver, transportes, trabalho. E uma vida sem medo.

Houve quem se juntasse à maré, a engrossar essa vaga com a voz de quem que não aceita que a opressão se faça em seu nome, ou com a sua cumplicidade pelo silêncio. E era quase estranho que não se sentisse ódio, ou vingança, nessa voz pela Avenida fora. Os cartazes eram improvisados, espontâneos, diria rabiscados à pressa, sem a marca das grandes organizações. Pedia-se justiça. E uma vida justa, sem medo. Às tantas, a meu lado vejo um homem com um letreiro e uma pergunta: «Serei o próximo?» Mais que todo o resto, foi o que mais me marcou, e ainda não me saiu da cabeça. Pensar que alguém no seu próprio país – que é também o meu – tenha de viver com esse medo.
Não é só ele, outros sentem o mesmo. Vi uma t-shirt com uma lista de nomes (o último o de Odair Moniz).

Talvez tenha sido isso mesmo que sentiu o ucraniano Ihor durante a sua última noite nas instalações policiais no Aeroporto de Lisboa, quando há mais de quatro anos, em 2020, chegou a Lisboa. Foi-lhe vedada a entrada por falta de visto de trabalho. E foi encontrado morto no dia seguinte: algemado, manietado com fita gomada, espancado a murro, pontapés e um bastão. Deixado sem assistência quase dez horas, deitado de barriga para baixo. Aconteceu o que tinha de acontecer: as costelas desfeitas pelas fraturas vão comprimindo os pulmões, torna-se impossível respirar. Foi isso que o matou. Se bem que a versão dos guardas fosse diferente: primeiro, ataque cardíaco seguido de crise de epilepsia; depois, (outra versão) encontrado morto na rua, como escreveram na ficha de entrada no Instituto de Medicina Legal. Um deles falsifica o auto de óbito (sem referir violências, claro); outro assina-o. Os superiores, todos, desde a responsável direta até ao Ministro, todos quiseram «saber o menos possível, ver o menos possível, ouvir o menos possível», como resumiu uma jornalista que escreveu sobre o caso (Fernanda Câncio). Na verdade, só o médico legista não embarcou na tese da «morte natural». E também uma testemunha anónima que alertou a PJ para o crime. Só mais de sete dias depois se soube que o emigrante ucraniano Ihor Homenyuk tinha sido assassinado no Centro de Detenção da polícia de estrangeiros no aeroporto de Lisboa, quando se acabaram as versões, e já não era possível encobrir mais o caso.

É do medo de uma morte assim que fala o homem do cartaz a meu lado. Da morte e do encobrimento do crime, das versões torcidas da polícia, das artimanhas dos advogados dados a artimanhas. O jornalista Rui Gustavo e o ilustrador Nuno Saraiva, que apresentaram no Expresso o relato da agonia de Ihor, dizem que no fim da primeira fase do julgamento, em que foram apresentadas as provas condenatórias, o advogado Sá Fernandes, que representava os guardas, terá dito: «A conclusão de que foram os nossos clientes a agredir a vítima não está demonstrada.» E, como é sabido, as vítimas mortas não falam.
Quem falará por elas?
Devíamos ser todos nós. Mas nem sempre estamos para aí virados. Ou alertados. Ou… sei lá.

Dois anos mais tarde dá-se a invasão russa da Ucrânia, terra de Ihor. Mais de cinco milhões para fugirem aos bombardeamentos russos e à guerra procuram asilo noutros países. Também em Portugal. E vimos os portugueses a abrirem-lhes as portas e os braços, a acolherem-nos com casas e apoios, a prepararem escolas para receber as crianças. Mesmo sem vistos de entrada, mesmo sem vistos de trabalho. Simples humanidade, a de quem se sabe igual para além dos credos, da pele, do escalão do IRS, das fronteiras.

Não devia ser sempre assim?

Não é. E o homem do cartaz sabe que não é. E sabe que pode ser (tem medo de poder ser) o próximo.

Histórias à la carte

Os chamados jogos de salão são o passatempo ideal para as pessoas que não têm muito mais que fazer e que às tantas são apanhadas desprevenidas sem televisão ou sem telemóvel ou sem outras distrações do género. A lembrar serões na província, entre primos, entre amigos acampados, uma maneira de passar o tempo que todos acabam por achar divertida depois de a terem rebaixado como coisa de outras eras. É sempre assim e sempre assim foi, desde que o mundo é mundo ou pelo menos desde há quatro mil anos desde que foram inventados no Egipto ou na Mesopotâmia. Um dos jogos mais populares, no meu tempo, era um a que chamávamos «das histórias». O desafio era inventarmos uma história, usando os elementos que nos eram fornecidos. Pegava-se num baralho especial que se dispunha em três montinhos: havia o montinho das personagens, havia o dos locais e havia um terceiro dos adereços. A inspiração viria talvez dos contos de fadas porque as personagens eram sempre reis e rainhas, e príncipes e feiticeiras e ladrões e outros da mesma laia. Os locais tanto podiam ser castelos como choupanas, grutas, montanhas aldeias… Os adereços eram a condizer: ceptros, cordas (de enforcar!), varinhas mágicas e quejandos. Hoje, poderíamos sem risco atualizar isso tudo – o resultado final seria o mesmo. E o resultado, a conclusão, a que chegávamos invariavelmente, era que todas as imaginações convocadas, cruzando de mil maneiras que fosse todos aqueles variados elementos acabavam por nunca desaguar muito longe do que víamos ou líamos em tudo quanto há de livros e revistas, filmes, telenovelas, lendas e até na vida real.

Há quem diga que, no que toca à imaginação e às histórias, nada há de novo desde a mitologia grega e os mitos bíblicos. Isto na frente ocidental; no Oriente, em África, nesses mundo que não habitamos se calhar a conversa é outra. Mas aqui é assim, realmente. É lá que tudo vai dar. E a literatura afinal não foge à regra: mais ou menos mastigado, tudo vai dar a esse ventre original onde as primeiras histórias foram paridas.  

Se bem que para cada um de nós há (houve) sempre uma primeira vez. O que hoje é repetição, foi já ontem a revelação maravilhosa, o encanto da surpresa. E que hoje se calhar buscamos ainda em cada história. Na aldeia da minha infância, onde não havia livros, havia um homem que trazia a criançada colada a ele sempre com a promessa (nunca cumprida!) de nos ler a história do João Soldado. Não sei sequer se ele tinha realmente tal livro, ou sequer se saberia ler, mas bastava a promessa, tal era a nossa sede de maravilhas. E de histórias. E é esse seguramente o anzol mais eficaz ainda hoje, e pela vida fora, que nos leva a pegar num livro ou a ver um filme. Uma história bem contada, aí está o segredo que nos faz sair de nós.

Quando começamos a ler, depois de nos livrarmos dos embaraços do b-a-bá, tudo é novo, tudo é uma revelação. E devoramos livros, que para nós são acima de tudo histórias. E que virão a ser o mundo comum que todos herdámos – feitos de uma massa cada vez mais indeterminada onde, se fôssemos a ver (mas não vamos), haveríamos de reconhecer restos dos irmãos Grimm, do Emílio Salgari, das aventuras dos cinco, das coleções que regularmente se vão editando com os melhores contos de,  ou as melhores histórias de. Lembro-me que li de enfiada com o mesmo assombro com que ouviria a verdade revelada todos os livros do Júlio Verne e de um autor tremendo de histórias tremendas de quem hoje ainda sei o nome (Hall Caine), ainda que nada mais saiba. Até que um dia…

Até que um dia chegou à aldeia a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian – umas carrinhas Citroën armadas de estantes carregadinhas de livros que podíamos levar para casa e ler. E de graça. Foi uma fartura! Devo ter apanhado aí a minha primeira indigestão de neo-realismo, de que ainda hoje padeço as sequelas. Tudo servia, ia tudo raso. E os bibliotecários ajudavam à missa: lá iam detetando os nossos gostos e depois orientando as leituras. Era muito capaz de entre eles andar o Luís Pacheco, que anos depois, muitos anos depois, percebi que por essa altura devia andar a sacar o seu nas bibliotecas e precisamente a passear o seu esplendor por essa aldeias de Braga, a idólatra. Fosse ele ou não fosse, a verdade é que no meio desta fartura de histórias – e quando começava já talvez a pressentir-lhes os vezos, as manhas e as saídas, as voltas e reviravoltas que por variadas que sejam não conseguem esconder-nos que a música é a mesma – houve um deles que me meteu nas mãos um livro com a recomendação «lê este e diz-me depois o que achaste». E foi um abanão. Foi a maneira como a meus olhos começou a nascer a ideia de que mais do que a história havia o modo como a história era contada. Que se calhar é a melhor maneira de se explicar a alguém o que a literatura vem a ser no fundo. O livro era o «Rumor Branco», de Almeida Faria. Não é certamente, digo-o hoje, o melhor livro dele, mas para alguém nascido numa aldeia sem livros, nem nada do que lhes anda associado, foi o vislumbrar de um mundo onde até aí, foi o que senti, nunca tinha posto o pé.

Há que o dizer, porém: perceber que há nos livros um mundo que existe para além daquilo a que chamamos o enredo, ou a intriga, nada tira ao prazer de ler uma história bem contada, seja um bom policial, seja um livro de aventuras. Li ao meu filho o Harry Potter quase todo, as Crónicas de Narnia, as Aventuras dos Cinco, alguns pela primeira vez, quase com o mesmo fascínio com que ele as ouvia.

E sabem o que ando agora a ler? Aliás, a reler pela terceira ou quarta vez? A maravilhosa maravilha de um livro quase sem história, ou que a ter história é coisa que se conta já em poucas palavras: um homem muito muito rico, vive em Paris, rodeado de todos os confortos e satisfações que a fortuna e a civilização podem proporcionar. Que, depois de um certo encanto inicial, tudo é para ele tédio, tédio, e «uma maçada», como ele diz. E que às tantas, empurrado por um motivo inesperado, tem de se deslocar por uns tempos às terras rudes de Portugal, de onde lhe vinham os antepassados e a fortuna. E que se surpreende ao deparar com um mundo mais autêntico, esse mundo rústico e quase primitivo bem diferente da sumptuosidade e do fastio dos salões de Paris. É só isso, no fundo, a história daquela personagem. Acontece é que, compreendemo-lo finalmente, a personagem principal do livro, se assim podemos dizer, é antes a língua portuguesa, é essa maneira maravilhosa de usar uma história, por mais banal que seja, para despertar um mundo que existe em nós, ignorado ou adormecido, e que só por obra dessas palavras mágicas pudesse vir à tona. Isso a que, à falta de melhor palavra, chamamos às vezes poesia, às vezes literatura. O Jean Némar, rapaz dado a estas coisas, é que costuma dizer, com uma verve que eu lhe invejo, que a diferença entre um (bom) contador de histórias e um (bom) escritor é como a que existe entre os movimentos de uma ginasta e os de uma bailarina. Se numa vemos o rigor, a forma como tudo se coordena, se constrói, se organiza para o efeito final, antecipadamente anunciado; é na bailarina que descobrimos a graça, a leveza, e como tudo nos arrasta para uma dimensão em que, mais do que ver, adivinhamos o que está para além do que vemos e que sentimos despertar em nós, sem que soubéssemos sequer que aí existia. E que livro é esse, afinal? perguntarão os que ainda não adivinharam. O livro chama-se «A Cidade e as Serras» e o autor Eça de Queirós.

viagem através de um país de chuva

De comboio, rumo ao Norte, dir-se-ia que viajamos pelas traseiras do país. Desenhadas longe dos centros urbanos, dos monumentos, das grandes praças emblemáticas, dos postais ilustrados, as linhas férreas esgueiram-se antes por entre os campos, as bouças e cercados que formam a manta de retalhos desta paisagem. Uma ou outra pequena vila, estâncias de veraneio das burguesias citadinas, com villas e palacetes de uma elegância rebuscada e falsa, hoje reabilitada e tida como estimável, a arremedar chalés de outras paragens e outros climas. Mas de resto o que há são os retalhos dos talhões e courelas caseiras. Adivinha-se que será quase tudo formado por pequenas propriedades, medidas a palmo e tratadas com desvelo por quem pouco mais terá. Lameiros chamados à vida pelas últimas chuvadas, milharais descorados a prepararem-se para as forragens de inverno; hortas repolhudas ao lado de umas nesgas de olival onde se aconchegam seis ou sete oliveiras esventradas, talvez centenárias. Nada que se pareça com os infindos quilómetros de Oliveira da Serra marca registada, que nos acompanham ao longo da estrada de Beja – uma paisagem de um verde monocórdico que só poderá fazer as delícias de alguma praga fastidiosa que aí venha Europa fora a saborear a uniformidade biológica. Aqui não: a cada passo, uma cor diferente, uma árvore diferente, um cultivo diferente. E muito embora perceba o que há nisto de contrário à racionalidade da produção, à rentabilização dos recursos, ao emparcelamento dos economistas, é isto que eu prefiro, que me alegra o olhar, e me traz à ideia não um próspero proprietário rural, uma florescente empresa multinacional a medir a terra em euros, mas vários, muitos, pequenos donos de courelas e quintais a tratar de tudo com desvelo, como se disso dependesse (e às vezes dependerá) o pão que terá sobre a mesa. Talvez que o que digo seja também uma visão condenada à extinção, uma vida que já se despede de nós assediada pelas propostas irrecusáveis de empresas insaciáveis, à cata de terra e de terrenos. É o que vamos também pressentindo, anunciado por manchas de eucaliptos verdejantes e prósperos, tão cerrados que quase nos admiramos que não tenham ainda inspirado o êxodo maciço dos coalas australianos acossados pelos incêndios devastadores que por aí lavram.

Por este rendilhado do caminho, vê-se que o comboio aqui apareceu num mundo já traçado, já habitado por obstáculos que era preciso contornar, limitado por uma variedade de pendências que lhe iam traçando o rumo. Nada que se pareça com as linhas férreas que surgem nas terras sem dono, ou purgadas dos antigos donos sem direito à palavra. Assim no Oeste americano, num país desenhado por políticos e agrimensores num gabinete central onde se iam planejando as linhas e as cidades do futuro. «À medida que a linha avançava no terreno, ia largando para a vida cidades nascentes a intervalos de vinte quilómetros mais ou menos» – cito um livro extraordinário sobre a colonização do Oeste americano, que Hollywood haveria depois de exportar em mitos povoados de índios e cowboys. Os que costumam ler estes meus desabafos já devem estar a antecipar a falsa modéstia com que vou contrabandeando os livros que traduzo. É o caso. Um dos que mais gozo me deu traduzir, que eu quis intitular «Terra Má», literalmente do original «Bad Land», mas que a editora não deixou. Ficou «Terra Madrasta»…  e também não está mal. O autor Jonathan Raban faz uma viagem pelas extensas pradarias do atual Montana e reconstitui a espantosa odisseia da emigração europeia, da distribuição de terras, do cultivo da imensidão de uma terra praticamente estéril. O futuro mapa do território é antes de mais uma criação das companhias de caminho de ferro, «tão arbitrária como a descrita no Génesis. A companhia dizia: Faça-se aqui uma cidade; e a cidade fazia-se», com ruas apenas delimitadas por estacas e cordas, um mero esqueleto onde ainda nada existia. Mas haveria de existir. Cidades futuras que pouco mais tinham ainda do que o nome que lhes era dado: perguntava-se aos diretores e administradores da Companhia o nome dos filhos e assim se batizava o futuro. Um diretor tinha duas filhas, Isabel e May: a cidade viria a chamar-se Ismay, fundindo os dois nomes. Outras seriam Mildred, Lorraine e por aí fora ao sabor do capricho de decisões igualmente arbitrárias. Ou fruto do acaso: «Um qualquer dia de 1908, alguém com um mapa aberto em cima da secretária achou que já era tempo de fazer outra cidade e rabiscou o mapa. Talvez o nome da cidade seja o da pessoa com quem calhou estar a falar. Há uma cidade algures em Milwaukee Road que ficou com o nome de um jornalista que calhou ir na carruagem presidencial quando o diretor Albert J. Earling andava numa das suas passeatas a distribuir nomes».

Não aqui. Aqui, viajamos linha fora e, ao invés desses improvisos prosaicos e desinspirados ou da mania de batizar terras e edifícios com os nomes das celebridades do dia como agora é de moda, é todo um desfiar de histórias passadas, de lendas, de nomes a lembrar coisas bem mais antigas: pode ser Esmoriz, a lembrar os tempos da Reconquista; pode ser Mogofores, onde a bruxa Moga fazia desaparecer as pessoas; pode ser Albergaria dos Doze, ou Setil, ou Braço de Prata, ou Lamarosa, ou Vermoil… Não dá logo vontade de ir rebuscar livros e almanaques (ou mais expeditamente a Wikipédia) e trazer ao de cima as histórias que o nome sugere?

Com os nomes é assim: há o que dizem em voz alta e o que apenas sussurram e mal se ouve. Muitas vezes com uma história a querer espreitar. O nome deste texto, por exemplo: foi roubado ao José Carlos Marques. A minha viagem de comboio fez-me lembrar um «livrinho» dado à luz (nem ouso dizer publicado, ou editado) em 1968, intitulado «despedida e viagem através de um país de amigos e de chuva». São onze ou doze páginas, em pequenas tiras de papel, agrafadas, datilografadas, talvez com cópias a papel químico (alguém se lembrará desta maravilha da alta técnica pré-fotocópia?), com uma tiragem de 6 exemplares 6, também uma discretíssima homenagem ao O’Neill. Mais tarde foi incluído pelo autor numa recolha de poesia inédita, sob o pseudónimo Aurélio Porto, desta vez num «livro a sério» (sempre são 570 páginas!). Mas o tal livrinho da viagem é formado por onze pequeníssimos poemas, de uma ou duas linhas, apontamentos fugazes, imagens breves, como que entrevistas através das janelas de um comboio em movimento, a deixar-nos um travo enternecido e acidulado como de um fruto saboreado gomo a gomo.

com mortes, mas sem mortos

Haverá aí alguém que não tenha já lido «O Mandarim»? E alguém se lembrará ainda do que leu? 
Lembro eu, então, resumindo muito resumidamente: conta-nos um certo Teodoro, amanuense do ministério do Reino, o caso que com ele se deu de às tantas, inopinadamente, ter diante de si a possibilidade de herdar os infindáveis cabedais de um remoto mandarim chinês à sua morte. Morte essa que estava nas mãos do Teodoro determinar: bastaria para isso abanar uma campainha que logo ali apareceu à sua disposição. E ao soar desse ti-li-tim o remoto mandarim soltaria um suspiro final e o modesto amanuense, então a viver num quarto de hóspedes, com os miseráveis vinte mil reis mensais do seu estipêndio, veria a seus pés mais ouro do que o que poderia sonhar a ambição de um avaro. Ousaria ele tocar a campainha? Ousaria matar, lá muito longe, o mandarim de quem nada sabia, nem poderia saber? 
Pois ousou, sim senhor. E o livro é o relato do que então se seguiu.

Conto isto aqui, assim resumidamente, mas não é do livro que queria falar. Aliás, duvido que mereça a cera que com ele se pudesse gastar. Numa prosa com muito de pomposo e de indigesto, o bacharel narrador, que mais parece ter-se escapado do expediente do escritório de algum Alves & Cª, gasta metade das pouco mais de cem páginas da novela a rebolar-se na vida de depravação e de luxo que a herança lhe valeu, tal como a teria fantasiado a imaginação medíocre e frustrada de um manga de alpaca que tivesse acabado de devorar as descrições miríficas da «Salambô» ou das «Tentações de Santo Antão» que Lisboa andaria nessa altura a descobrir. E a outra metade passa-as a perseguir uma redenção impossível numa busca insana do finado mandarim, numa China improvável, feita de clichés e de apropriações e contrafações da literatura francesa da época. Tudo isto servido num pastiche, com seus peculiares modismos e bordões, do estilo inconfundível do escritor Eça de Queirós, seu contemporâneo. Não seria certamente esta noveleta inconsequente que haveria de lhe valer o lugar no Panteão Nacional, que aliás nem a família saberá ao certo se ele o haveria de desejar.

O que me leva a trazer para aqui o Mandarim é antes, e mais precisamente, o problema digamos que filosófico que ele nos coloca com aquela interpelação estranha, rebrilhando em negrito: «Tocarás tu a campainha? De um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, a um ti-li-tim da campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando a teus pés!»
É importante aquele pormenor da morte que podemos imaginar sem dor, longe da vista, anónima. Nada das mortes sanguinolentas à espadeirada ou de escopeta à queima-roupa. Nada do horror e da culpa associados ao crime violento ou à morte infligida por nossa mão. Tudo se passa de modo asseado, sem confrontos, sem remordimentos, sem transtornos de stress pós-traumático.
Tão importante isso é que os profissionais das profissões da morte se dedicam há séculos a aperfeiçoar o método: já hoje é possível matar, e matar em massa até, sem ter de confrontar o assassino com a sua vítima, com a realidade real da morte matada. Este aqui, premindo um botão, que descarrega a bomba que matará centenas, milhares de desprevenidos no lugar errado no momento errado. Aquele ali, despejando um tapete espesso de napalm que aumenta a persistência incendiária de algum composto petrolífero e deixa aldeias inteiras feitas em fumo num abrir e fechar de olhos. Ainda outro acolá simplesmente clicando a opção «ativar» no programa informático que fará explodir um, centenas, milhares de telemóveis, ou pagers, ou outro meio de comunicação aparentemente inócuo.
Um progresso na arte de matar sem culpa, ao que se vê. 

A utilização da aviação na guerra foi um primeiro passo. Decisivo. Uma alternativa económica sem necessidade de manter vastas guarnições permanentemente no ativo. Logo após a sua criação, a Royal Air Force foi utilizada pela Grã-Bretanha nas chamadas «operações de controlo aéreo» das suas possessões no Médio Oriente, que lhe tinham cabido como despojos do desmembrado Império otomano a seguir à Primeira Grande Guerra. A tática elaborada por um comandante de esquadrão recomendava bombardeamentos contínuos, dia e noite, de casas, searas e gado, sobre as aldeias iraquianas. Eficaz. Dizia um jovem chefe de esquadrão: «Agora os árabes e os curdos sabem que em quarenta e cinco minutos uma aldeia completa pode ser totalmente aniquilada e um terço dos seus habitantes mortos por quatro ou cinco máquinas que não constituem nem um alvo para eles, nem oportunidade de glória como guerreiros, nem reais possibilidades de fuga». Note-se: são as máquinas que matam, não homens já. 
Era só o início do sistema de morte em massa e anónima.

Veio o Vietname, vieram as guerras coloniais da Europa, e aí o remédio indicado para as guerrilhas do inimigo eram os bombardeamentos indiscriminados, o napalm, as bombas de deflagração retardada. Não vamos falar sequer de Hiroxima e Nagasaki – o culminar do método da morte sem culpa, infligida de longe, anonimamente, a milhares e milhares de pessoas sem rosto, sem nome, sem presença, que nunca virão assediar o sono dos assassinos.
Mesmo assim, haverá quem lamente o desperdício – e falará de métodos ainda mais sofisticados – e menos impopulares entre os eleitores! – que tornarão possível matar vítimas selecionadas, já não à toa, usando métodos igualmente «anónimos». 

O exército israelita (a sua Unidade 8200, shmone matayim em hebraico, comparável à National Security Agency americana) criou uma base de dados, alimentada pelo programa «Lavanda» de inteligência artificial, que em pouco tempo, reunindo dados de variadas proveniências, conseguiu identificar trinta e sete mil alvos potenciais, com supostas ligações ao Hamas, para servirem de apoio à campanha de bombardeamentos em Gaza. Diz um dos agentes dos serviços de informações do exército, num relato de que dá notícia o jornal inglês «The Guardian» que eles, os utilizadores do Lavanda, tinham mais fé num «mecanismo estatístistico» do que num soldado, que poderia ser influenciado pela sede de vingança. «Todos nós ali, eu incluído – diz um dos autores do testemunho – tínhamos perdido alguém no 7 de outubro. Mas a máquina fazia tudo friamente. E isso tornava as coisas mais fáceis. Eu não perdia mais do que 20 segundos com cada um dos alvos nesta fase, e eram dezenas deles por dia. A mais valia  que eu acrescentava como humano era zero, não passava de uma espécie de carimbo de aprovação. Poupava-se uma data de tempo.» 

Mesmo assim, havia o risco, praticamente inevitável, de apanhar alguns civis inocentes, o que poderia suscitar algumas objeções morais ou legais a alguns militares. O Exército israelita sabe isso («é o exército mais ético do mundo», não se cansa de o lembrar) e, como esclarecem as fontes do artigo do Guardian, o Exército antes de o bombardeamento ser autorizado, no caso de certos alvos, aplicava algumas regras que apenas pré-autorizavam um certo número de mortes de civis. Diziam as tais fontes citadas pelo Guardian que durante as primeiras semanas da guerra era permitido matar 15 ou 20 civis nos ataques a militantes dos níveis mais baixos, que poderiam ser realizados com munições não-dirigidas, conhecidas como «bombas estúpidas» [dumb bombs], capazes de destruir casas inteiras com os ocupantes que lá se encontrassem no momento. «Não vale a pena estar a gastar bombas caríssimas com pessoas sem importância. É muito caro para o país e há muita falta delas.» No caso de altos dirigentes do Hamas, poderia atingir-se um número superior a cem mortes autorizadas [de civis]. «Tínhamos uma tabela para saber quantos civis poderiam ser mortos no caso de um comandante de brigada, de um comandante de batalhão e assim por diante», diz uma das fontes citadas. Outras fontes dizem que o número foi variando ao longo do tempo e houve casos em que não eram autorizadas mais do que 5 mortes de civis. 

O Exército de Israel, (o mais ético do mundo, como se auto-define) ao tomar conhecimento da publicação destes testemunhos emitiu uma declaração afirmando que as suas operações eram levadas a cabo de acordo com as regras internacionais da proporcionalidade. E esclarecia ainda que as chamadas «dumb bombs» constituem armas normais, que são usadas pelos pilotos israelitas de uma maneira que assegura «um elevado grau de precisão». E além do mais, garante um dos autores do relatório citado, «os sistemas de informação não passam de meros instrumentos usados pelos analistas do processo de identificação de alvos». 

Aqui para nós, não estou muito convencido de que o esclarecimento lave o Lavanda de algumas objeções ou acalme os escrúpulos de alguns com mais dúvidas quanto aos padrões do exército mais ético do mundo. Ou que apague todas as questões suscitadas pela publicação do testemunho destes seis membros do serviço de informações, todos eles envolvidos nos sistemas de Inteligência Artificial usados para identificar membros do Hamas e da Jihad Islâmica, a que o Guardian teve acesso e que foram originalmente comunicados ao jornalista Yuval Abraham que os utilizou na publicação israelo-palestiniana +972 e em Local Call, um site independente de notícias em língua hebraica.

Tudo isto nos deixa a pensar que não andaremos muito longe da guerra limpa, assética, eficaz como nos anúncios dos inseticidas mata-baratas e percevejos. E mais perto andaremos ainda se a isto juntarmos a informação da Amnistia Internacional sobre o sistema de recolha de dados biométricos de palestinianos, posto em prática pelo Exército israelita («O Exército mais ético do mundo», não nos esqueçamos), recorrendo a programas de reconhecimento facial (com nomes tão evocativos como Lobo Vermelho, Lobo Azul e Alcateia), efetuado sem consentimento, nas passagens dos pontos de controlo na Cisjordânia ocupada, acumulando deste modo uma vastíssima base de dados de palestinianos que, se em mãos menos éticas, poderia ser usada para restringir a liberdade de movimentos ou para exercer uma vigilância coletiva sobre as populações das áreas ocupadas.

Há quem se preocupe com tudo isto. E há quem ache que vai nisto uma enorme economia de esforços e de meios, uma guerra ao mesmo tempo eficaz e económica, o sonho dos fazedores de guerras que se deparam com o número sempre crescente de populações renitentes em se oferecerem para o supremo sacrifício pela Pátria. Quem há de resistir à tentação? Quem não faria soar o ti-li-tim fatal que lhes assegurasse a morte remota de todos, mandarins ou não, que se lhes opusessem?

Estou como diz o autor d’«O Mandarim», que conclui assim o seu relato: «Ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra de má argila, meu semelhante e meu irmão!»
E na verdade ninguém nos diz que não seja (ainda hoje) a cada um de nós que ele se dirige.