Trago aqui de visita o poeta Manuel Resende. Faria hoje (9 março) 76 anos. Em tempos, costumava mandar-lhe um poema a servir de prenda de aniversário; agora, em contrapartida distribuo por aí poemas dele, para o lembrar a uns e para o dar a conhecer a outros.
Manuel Resende escreve de um lugar, sobre o muro que separa dois territórios, de onde pode ver o que fica, o que ficou para trás, as ruínas e as depredações que restam da destruição de muitas das esperanças da humanidade, e de onde pode ver ainda todos os que assim se perderam e vagueiam agora longe de si próprios e do que pensaram como possível; e vê do outro lado as sombras indefinidas de uma outra vida possível, ainda que indistinta, de que apenas entrevê as sombras, algum fulgor. São essas as vidas que vivem no poema, a dos que ficaram do outro lado, porque para o poeta, precisamente, “Eu é um pseudónimo de nós / E nós o pseudónimo disto tudo.”
São muitas as vezes que me vêm à lembrança os versos de um dos poemas de que mais gosto, (do primeiro livro, “Natureza morta com desodorizante”), porque são outras tantas as vezes em que me aparecem como a pequena verdade que resume a nossa humana confusão diante das contradições e desafios e apelos que a História (ou o que lhe faça as vezes) nos propõe. É o poema “Relatório”, dividido em cinco partes, de que esta é a terceira parte.
3.
Somos pequenos animais fabris, comerciais e bancários, mastigando o ferro, a pedra, o plástico, a madeira, o algodão, a lã, o papel.
E Platão, e Aristóteles e Hegel e Kant? Também mastigamos.
E as artes? Também mastigamos;
E as letras também;
E quando vemos um livro, mastigamos;
Quando vemos um quadro, mastigamos;
E uma escultura, também mastigamos.
E a cultura, a civilização, a política, as religiões e os Estados, as fronteiras, o café da Brasileira, etc.?
Queremos lá saber! Mastigamos tudo. Engolimos tudo!
Somos uns reis da mastigação, caramba!
E o que mastigamos é como um mar e como um «templo de vivos pilares», é como um viveiro de plantas carnívoras!
Que balança, oscila, palpita, cresce;
Em todos os segundos, de todos os minutos, de todas as horas, de todos os dias, de todos os anos.
E é calculado, repartido, cortado, embalado, enviado, expedido, por comboios, por cargueiros navais e aéreos, em camionetas, aos ombros, à cabeça, debaixo de braços, em bolsos, ou por telex, telefone, carta, embrulho;
E depois é pesado, medido, cortado de novo, avaliado, peritado, arrolado, encomendado, expedido, comprado e vendido,
A dinheiro, por vale postal, por cheque, letras e livranças, à consignação, a firme, à cobrança.
Mas na realidade nada disso é calculado, repartido embalado ou expedido:
Cresce, palpita, oscila, balança,
Cresce, cresce, cresce, à nossa volta, à volta dos nossos milhões de olhos e de braços e por entre os nossos milhões de olhos e braços
Como o jacinto de água, como uma floresta de diamantes vivos, como um enxame em torno dum cortiço…
… Cristais em solução saturada …
Tanto trabalho, rapaziada!
Somos humanos,
Sabemos a química da transformação do homem em cacos, em peças de ferro
(E com licença da Santa Madre lgreja, sabemos que não é o homem que é feito do barro, que o barro é que é feito do homem).
Sonhamos com as mãos, com estas miraculosas mãos de água e cálcio e proteína em movimento, aproximadamente
Pensamos com todo o corpo, beijando tudo, abençoando tudo, quase tudo, como os homens do campo às vezes beijam os campos,
E sentimos com a cabeça isso tudo.









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