veio cá o Jean Némar. Chegou afogueado. Que tinha uma boa para me contar, que tinha sido entrevistado, que (já nem me lembro). E contou: andava (ou anda) por aí uma televisão estrangeira a fazer uma reportagem sobre o 25 de abril, o futuro do 25 de abril. Fazem perguntas a quem passa e também calhou ao Jean Némar. E, pateta como é, que lhes foi ele dizer, quando lhe perguntaram como via ele o 25 de abril do futuro? Que o via sentadinho a uma mesa, com uma manta pelos joelhos, a tomar um chazinho e a jogar resignado uma bisca lambida com dois amigos, o 1º de dezembro e o 5 de outubro. E diz um deles: se houvesse mais um sempre se podia jogar a sério. E vai o outro: pode ser que dêem licença de saída ao 25 de novembro e ele apareça por aí e já dava para uma suecada. E ria-se, o pateta, enquanto me contava isto. Que havia de lhe dizer? O que sempre lhe digo quando se sai com coisas do género: Sempre tens cada uma! Nunca mais ganhas juízo.
Eu sei que ele diz estas coisas, mas é muito capaz de fazer o contrário. É só da boca para fora. Quase que aposto que no dia 25 lá estará a descer a avenida a meu lado junto ao grupo dos ativistas climáticos e das Mães do Clima. Até porque eu também sou uma das mães do clima. E onde eu estou quase sempre está ele também (pelo menos até hoje tem sido assim). Por outro lado, não vejo mal nenhum em ver estas coisas com algum distanciamento. Antes que tudo se transforme numa azeda romagem de agravados ou numa marcha de tribos aguerridas em disputas de território ou de decibéis, sem lugar para a alegria inicial, inteira e limpa com que o dia nos foi anunciado. Ou (e isso então seria o pior!) antes que se transforme no cerimonial com lugares cativos e discursos previstos (e previsíveis) dos feriados de calendário.
Hoje é só para dar os parabéns ao burrinho meu afilhado. Não queria deixar passar em branco a data. Sempre são 19 aninhos! De qualquer modo, não fosse eu esquecer-me (Impossível!!) a associação que olha pelos burrinhos em Miranda também me mandou um postalinho a zurrar-me bem a tempo o imperdoável que seria deixar passar tão feliç anibersairo (em mirandês, pois então! que é assim que por aquelas banda se fala e se zurra). Quem me dera poder lá ir com um braçado de cenouras frescas para o Atenor (de seu nome – não porque eu, seu padrinho, lho tenha dado, mas porque assim se chama a aldeia onde nasceu). Facilmente me vejo a passear com ele pela arreata (não teria coragem de lhe impor o meu peso e o dos meus trabalhos, que são muitos) pelos caminhos de Atenor e das aldeias vizinhas, que não conheço e que por isso posso imaginar verdejantes, floridas e acolhedoras, como por aqui não há. Que demoradas conversas não haveríamos de ter, o Atenor e eu, por esses caminhos onde ninguém passa, tirando um ou outro pastor pastorinho à procura de uma ovelha que se transviou na serra, algum burrito Platero que se esqueceu do dono, algum mirandum fugido das guerras que por lá possam existir, e que eu estou em crer que não, que não existem, que tudo ali há de ser sossego e lonjura. Isso é o que eu digo, e imagino, aqui ensarilhado nas mil armadilhas que o turismo e o alojamento local armaram à minha porta.
Gaza, ainda. Com a passagem do tempo, os números vão substituindo as palavras ao descrever a realidade. 22 mil mortos (70% mulheres e crianças), 5 mil desaparecidos, do lado palestiniano. Cerca de 1500 mortos do lado israelita. Um milhão e meio (85% da população) de deslocados em Gaza. 23 (de 36) hospitais destruídos; 104 escolas arrasadas. Sem falar na falta de água, de alimentos, de eletricidade. Os números têm este efeito: de embotar as emoções, de esconder a realidade ( a ralidade, “essa megera sem idade, sem tempo, sem fronteiras”, dizia o Manuel Resende. E sem rosto, sem nome, acrescento eu agora). Um sobressalto, quase inesperado, quando aparece alguém com um nome, um rosto. Quando, por exemplo, ouvimos a gravação em direto do assassinato de uma menina de 6 anos (chamava-se Hind), morta a tiro pelos tanques do exército israelita (tanques!!) quando estava bloqueada dentro de um carro, no meio dos cadáveres da família. Ou quando há dias o exército israelita matou sete membros de uma organização internacional que distribuía comida à população. O itinerário e o local dos carros em que seguiam tinha sido comunicado ao Exército. Tinham nome: John Chapman, James Henderson, James Kirby, Lalzawmi (Zomi) Frankcom, Jacob Flickinger, Damian Sobol, Saif Issam Abu Taha. É só então que a guerra, a fome, a miséria, os crimes, ganham para nós alguma realidade. E é por isso que, antes que tudo isso, que esses nomes, se diluam no mar dos números cada vez mais avassalador (e anestesiante) há coisas que é preciso ficarem ditas. Para que a Terra não esqueça.
Há que falar no crime sem nome, na chantagem despudorada, do Hamas ao continuar a reter os reféns do ataque que desencadeou esta guerra (mais um episódio de uma guerra antiga). Sujeitos a todo o tipo de torturas, de humilhações morais, físicas e sexuais, esses reféns tornaram-se para o Hamas em “moeda de troca” numa negociação com assassinos dos dois lados. Não podemos pactuar com isso. Não se pode resgatar um crime com outro crime. Há que falar também na implacável máquina de morte instaurada pelo Exército israelita: a concentração forçada da população, refém no seu próprio país; os ataques a pessoas indefesas; as destruições de hospitais, escolas, infraestruturas e de tudo o que faz falta a um mínimo de dignidade na vida. Para onde irão os deslocados, se nem casa já tem para onde voltar? E nenhum “Exodus” os levará para refúgio nenhum. Os crimes do Hamas não podem ser usados para Israel invocar imunidade para os seus próprios crimes contra uma população indefesa. Nem sequer – é terrível dizer isto, mas há que o dizer contra tudo e todos. Agora – nem sequer as perseguições de que foi vítima ao longo da História, deveriam permitir a Israel invocar imunidade para os crimes que agora comete contra uma população indefesa. Aqueles que em tempos defenderam o direito do povo judeu a uma pátria, os que viram no novo país, na cultura comunitária dos kibbutzim, um sinal de paz para o futuro, são os mesmos que hoje não se podem calar diante da infâmia a que assistem.
Há tempos, uma amiga (judia, por acaso) com quem discutia a situação em Israel – por altura do assassinato de Yitzhak Rabin – dizia haver dois pesos e duas medidas na opinião europeia. Ela dizia “double standards”, mas vem a dar no mesmo. Concordei com ela. Somos mais exigentes com Israel. Em nome dos valores que partilhamos (ou dizemos partilhar, e que usamos como argumentos na defesa de Israel). E sobretudo, sobretudo, era o que eu lhe dizia, porque ao criticar Israel tínhamos a noção de que havia a possibilidade de mudar o seu comportamento. Havia a possibilidade de corrigir os seus erros – havia em Israel instâncias, instrumentos capazes de dar ouvidos às críticas. Havia também em Israel vozes que se levantavam e se faziam ouvir, as vozes dos justos, como dizíamos. Havia – mas ainda haverá?
O Coiote fez 18 anos. Não é uma data qualquer. Para muita gente – e acho que também ele via assim a coisa – é uma espécie de marco que assinala a emancipação dos laços (leia-se das peias) da família e, diz quem sabe, a integração no grupo social, a aquisição do status de adulto. Há sociedades inclusive que marcam a data com cerimónias e rituais de iniciação emblemáticos E acho que também o Coiote, de certo modo, sentiu que havia que festejar o dia de uma maneira que não fosse simplesmente mudar a folha do calendário. Nas sociedades tradicionais, os rituais incluíam uma data de coisas que hoje nos pareceriam gratuitas, bizarras, e até cruéis. Desde longas vigílias ao frio ou ao calor extremos, provas de resistência a torturas e castigos físicos, tatuagens simbólicas, escarificações no rosto ou noutras partes do corpo e, pelo menos para os machos, várias provas a mostrar a força, a potência, a virilidade exigidas pelo papel dos adultos nessas sociedades. Não é o caso, obviamente. O Coiote já se contentava com uma g’anda festa com os membros da tribo, onde não houvesse lugar para pais nem outros adultos de controlo. O único problema era esse precisamente: como pôr os pais fora de casa e ficar dono do território, livre de regras e de limites. Estamos na quaresma, e daí a ideia: porque não os impontar para Braga, para as solenidades da Semana Santa, suas soleníssimas procissões, seus farricocos e fogaréus? E como brinde visitavam a tia Lurdes, com seus rissois e frango guisado, suas compotas e doces vários. E ainda um passeio a Guimarães, restaurada, alindada e renovada e com chuva que não pára. E lá vou eu e a Cereja a cumprir a penitência. Só que… procissões nem vê-las, canceladas pelo mau tempo. Ninguém queria ver os Cristos agonizantes a correr pelas ruas inundadas nos seus magníficos andores, anjinhos mordomos e autoridades civis e militares a correr sem decoro, sem pompa e sem a gravidade cerimonial da praxe. Os farricocos, com menos compostura a defender, ainda palmilharam a cidade (de manhã) descalços, com aquele sinistro balandrau que os cobre da cabeça aos pés, só com uns buracos para os olhos, a agitar as matracas, esperando que o ruído estrepitoso que elas fazem pudesse convencer os bons cristãos a irem ao confesso e a prepararem a chegada do Senhor Ressuscitado. Este ano, nada disso. Nem Cristo foi dado por morto, nem foi enterrado na macabra Procissão do Enterro do Senhor que deveria percorrer a cidade, arrastando pelo chão os varais dos mordomos e dos pálios, único som a romper o silêncio da cidade às escuras, não fossem as risadas e a animação nas esplanadas dos turistas. Tudo isto para grande desânimo da meia Galiza que tinha invadido a cidade à espera da anunciadíssima encenação do santíssimo horror e agonia de Cristo. Guimarães não nos saiu melhor: uma chuva persistente que nos roubou as exclamações de admiração e de louvor que haveria de nos merecer o centro reabilitado e renovado e restaurado por um daqueles fundos comunitários europeus que tornam qualquer cidade num brinquinho, sem lugar para janelas de alumínio ou portas que não obedeçam ao desenho protocolado, nem para quaisquer outras fantasias de proprietários menos adeptos do como-era-dantes. Tudo limpo, ordenado, impecável, ideal para postais ilustrados e para filmes de época. A pedir meças a Óbidos ou Bruges, quanto a mim. Quem aproveitou foi a Cereja: ficou a saber tudo sobre os bordados de Guimarães (a não confundir com os de Braga ou de Viana, apesar de exatamente iguais). Aqui é o bordado de crivo, o canotilho, o ponto pé de flor e outras minudências exemplificadas pela dona da loja onde fomos calhar (ou encalhar, porque a inundação lá fora assim implicava). E, entretanto, o Coiote? Conhecendo-o como o conheço, a ele e à sua tribo, uns quarenta galfarros e galfarras, estava a vê-los a passar aqueles dois dias e noites em serena meditação sobre o sentido da vida e as responsabilidades que a maturidade traz consigo, entre jejuns e veladas de armas diante da imagem veneranda do Santo Condestável ou de outro Galaaz que melhor calhasse. Ou então não. Pode muito bem ser que em vez de vigílias e jejuns tenham passado o tempo em desbunda desbragada entre ganzas e música em altos berros, sustentados a massa de atum ou de salsichas, regada a cervejolas (jolas, no dialeto local) e sangria . Antes isso, que não é todos os dias que se faz 18 anos. E quando eu e a Cereja voltámos tínhamos a casa arrumada, a cheirar a lavada de fresco e um recado na porta à nossa espera.
Há coisas que leio que me dão a entender que haverá quem ande já a precaver-se (e a nós todos) de algum fim do mundo que por aí venha. São tantas as ameaças que pesam sobre nós e sobre o planeta que é mais que certo que há boas razões para esses alguéns tomarem tais precauções. Um pouco como a Arca que, no mito do Dilúvio, Noé construiu para pôr a salvo o que seria depois necessário para recomeçar o mundo que estava prestes a desaparecer.
Acho que todos conhecem a história: Em tempos que já lá vão, uns bons cinco séculos antes da nossa era, o iroso Deus da Bíblia “arrependeu-se de ter criado o homem cujos pensamentos e desejos tendiam sempre e unicamente para o mal”. Decidiu então eliminar da face da terra o ingrato que tinha criado. Abriu uma excepção para o bom do Seu servo Noé, que apesar de ir já nos seus seiscentos anos de vida (ou por causa disso mesmo) estava isento de tais pecados. Mandou-lhe então construir uma Arca de madeiras resinosas, com tais e tais medidas, e que nela embarcasse a família, os trapinhos e um casal de cada espécie de animais. Noé assim fez e logo “nesse dia se romperam todas as fontes do grande abismo e abriram-se as cataratas do céu”. Choveu torrencialmente durante quarenta dias sobre a Terra e as águas cobriram todas os altos montes existentes debaixo dos céus. Depois tudo iria recomeçar de novo. Haverá alguma verdade no mito bíblico. A arqueologia, a paleontologia e o estudo da distribuição das espécies no planeta na era moderna parecem confirmar isso mesmo: que nessa época terá ocorrido um fenómeno com as caraterísticas descritas na Bíblia nessa zona do globo, ou mais precisamente na região da Mesopotâmia. Aliás, é o que nos conta também uma outra (belíssima!) narrativa, mais antiga, e que possivelmente serviu de base ou de inspiração ao autor do livro do Génesis da Bíblia: “A Epopeia de Gilgamesh”. Também aqui se fala num dilúvio, no aniquilamento da espécie humana, na construção de uma Arca com tais e tais medidas e conformação. De diferente, é que em vez do iracundo Iavé bíblico quem aqui decidiu o aniquilamento da humanidade foram os cinco deuses senhores das terras entre o Tigre e o Eufrates – Ea, Anu, Enlil, Ninurta, e Ennugi. Mas acontece que tal secreta decisão foi secretamente revelada por Ea a Utnapishtim, instando-o a construir a tal Arca antes que se abrissem as barreiras das grandes profundidades. Outra diferença: no mito mesopotâmico, a Arca deveria abrigar não só todas as espécies de animais domesticados e bravios, como também todos os artefactos e utensílios que o homem tinha criado, coisa de que Iavé não curou. Nem uns nem outro, porém, pensou em preservar as sementes de onde pudesse surgir um futuro Jardim do Éden.
Quem pensa nisso, já nos nossos tempos, é por exemplo o Sr. Raul Rodrigues, em Ponte do Lima, bem longe das paragens da Terra Prometida ou do atual Iraque. Sem se dar à canseira de construir Arca nenhuma, decidiu por sua mão começar a remendar o mundo que via desaparecer a olhos vistos. Começou pelas maçãs (se calhar por achar que algum dia alguma futura Eva iria precisar delas para recomeçar a história do princípio). Conheci-o numa reportagem de Edgardo Pacheco no jornal Público. Aí se conta que este professor da Escola Superior Agrária de Ponte do Lima se dedica no campo da escola a plantar ou enxertar as árvores que recolhe em passeios pelos campos, por terrenos abandonados, onde quer que ouça falar de maçãs que já não há. Já lá tem mais de cem variedades regionais. O repórter fala de maçãs como a maçã sangarinha, porta da loja, canela, perna de pisco, verdeal, camoesa verde, camoesa de Coura, de Lanheses, riscadinha da Feira, melápio, espriega e tantas outras que nos deixam a pensar no que andamos a perder. Digam lá há quanto tempo não metem o dente numa bela maçã camoesa. Ou numa maçã da porta da loja. Ou numa maçã da boa vontade. Ou outras belas maçãs portuguesas como a maçã do caco, a maçã de espelho, a maçã de guerra, a maçã de pé comprido, a maçã de três em conca, a maçã do adro, a maçã galega, para me ficar por aqui. A invasão das golden delicious, ou das starking ou das granny smith ou das pink lady, vindas da Nova Zelândia, do Chile e sei lá de onde mais foi-nos roubando os sabores da variedade. Claro que são ideais para a produção em larga escala, e são extremamente rentáveis e têm o calibre exigido pelo mercado europeu e mundial, além de terem belas cores e de não saberem a nada. Mas, como pode acontecer às mais belas maçãs, têm também um bicho a roê-las: são muito mais frágeis e expostas a doenças que nem sempre é fácil debelar. Há epidemias vegetais que só podem ser combatidas através do recurso a espécies resistentes. No futuro a humanidade poderá vir a ter necessidade das plantas autóctones e das suas caraterísticas. E se nessa altura elas já não existirem? Se calhar foi também nisso que pensou o Sr. Raul Rodrigues e, como ele, outros que tais no Centro de Experimentação Agrária de Tavira onde está reunida uma das maiores coleções de árvores de fruto do país, com um por assim dizer Banco Genético de centenas de variedades de espécies de fruteiras. Só de alfarrobeiras há 44 espécies. E há citrinos e castas de vinha, romãzeiras, amendoeiras, macieiras, recuperadas do sotavento ao barlavento algarvios, agora distribuídos pelos 29 hectares do Centro.
São muitas as maçãs (e as frutas) a desaparecer e poucos os “arqueólogos” a trazê-las à vida. O problema é que nada disto se faz sem fundos, como se adivinha. E os fundos públicos estão mais virados para as espécies com bons calibres e boas cores para o mercado. E como dar continuação ao estudo, à caraterização e à preservação deste material genético para as gerações futuras? Pois, lá está: apesar da boa vontade e da carolice de alguns, falta pessoal, faltam meios, faltam fundos e (sobretudo!) falta uma política nacional que nos prepare para o pequeno Dilúvio que as alterações climáticas já trazem na barriga. Sem Deus nenhum que nos dê aviso prévio e instruções precisas para a construção da Arca, somos nós que temos de pensar nisso. Não sei se haverá muitos ministros a ler este blogue. Se calhar não. E é pena. Porque podia levar daqui algumas boas ideias. Enquanto ainda servem para alguma coisa. O Dilúvio que aí vem pode muito bem ser apenas o fim do mundo tal como o conhecemos E esse não desaparece; vai desaparecendo, vai-se extinguindo. E é que não estou a ver Arca que nos valha.
Estive agora a falar com o Jean Némar. Tinha lido o postal sobre os pintainhos, tinha ficado impressionado, tinha perdido o apetite e tinha umas coisas para me dizer. E o que ele me disse foi que achava que havia aqui demasiadas guerras, demasiados massacres, demasiadas nuvens negras sobre o planeta inteiro, que já de si não anda muito desanuviado. Dizia ele: “Ó homem, mas tu não verás mais nada senão desgraças? Não tens mais nada de que falar?” E tenho, por acaso tenho. E para não me virem mais com essa, hoje vou falar de flores. Das que eu mais gosto, que são essas que andam por aí à solta e não se vendem nas floristas. Nos meus passeios pelo bairro e arredores, passo às vezes por descampados onde o meu cão gosta de ir cheirar as novidades e os recados que os amigos dele lhe deixam e onde proliferam estas flores despretensiosas. Já tenho trazido muitas para casa, que depois planto em vasos. Papoilas, as minhas preferidas, mas também soagens, pampilhos, borragens, o que estiver à mão, consoante as estações. Não se têm queixado muito da mudanças de ares, talvez por estarem um bocadinho fartas do isolamento em que viviam e do cheiro dos escapes. Uma soagem que cá tive cresceu tanto tanto que ainda estou para perceber a razão de tal mistério. Não é só nos descampados. Também as ruas começam a dar sinal da primavera que aí está a chegar. Alinham-se ao longo dos passeios, contra as paredes para fugir aos carros e às pisadelas e formam quase uma guarda de honra para nós que passamos. Há quem se insurja, que ache isto uma pouca vergonha, uma prova do desleixo da junta de freguesia ou da Câmara. Não sei porquê. As ruas ficam muito mais bonitas, um ajardinamento improvisado e ao gosto de cada estação. Não são nenhum empecilho para quem vai no passeio e até as abelhas aproveitam. Veja-se este friso de dentes-de-leão que surpreendi na rua aqui perto, por onde passo tantas vezes. Despontaram de um dia para o outro, a seguir às chuvadas que tivemos a semana passada. E logo trataram de mostrar o que valem, que é pouco o tempo que lhes é dado antes que qualquer lufada de vento lhes leve as cabecinhas diáfanas a semear a sua sementinha por tudo quanto é sítio. Tão leves, tão voláteis e tão volúveis que há também quem lhes chame “amor de homem”. Pronto, aqui fica. Para não dizerem que não falei de flores.
Não sei se quem me lê terá visto uma reportagem que passou há dias na televisão. Para minha desgraça, eu vi. Vejo pouca televisão, mas às vezes depois do jantar ponho-me a zapar pelos canais fora. Azar meu, há uma qualquer pontaria oculta nisto que me leva mais vezes do que as que eu gostaria para cenas e filmes que depois ficam a assediar-me o sono. Foi o caso. Era uma reportagem sobre a criação de galinhas poedeiras e o trágico fim dos pintainhos machos que elas geram. Mal os pintainhos saem da casca, antes de terem tempo de ir direitos à ração como lhes estava a apetecer, sai-lhes. ao caminho um senhor especialista em sexação (raio de profissão!), capaz de distinguir pintainhos de pintainhas e que trata de separar o destino de cada qual: eles para um lado elas para outro. Elas para uma vida feliz de poedeiras como a mãe, que vão pôr imensos ovos para o mercado e para criar mais galinhas poedeiras e por aí fora. Eles é que não: eles (e aqui peço às pessoas mais sensíveis que passem para o parágrafo seguinte) eles são atirados para uma espécie de liquidificador onde são sujeitos a um processo a que na indústria da especialidade chamam “maceração” que é a maneira como não se deve dizer atirados vivos para uma amálgama de pintos, penas, ovos inférteis e cascas de ovos para serem triturados. A pasta sanguinolenta que daí resulta é depois tratada e desidratada. Há quem use isso como fertilizante; outros (e acho que em Portugal são destes) transformam essa papa numa farinha proteica que depois usam como ração para cães e gatos. Eu sei que dá vontade de passar já-já a vegetariano, e ir daqui assaltar aviários para libertar os pintainhos tão fofinhos condenados a morte tão macaca. Os dos aviários defendem-se com um ar falsamente compungido e dizem que essa é a maneira de não desperdiçar nada (e são dezenas de milhar de pintainhos por mês, em Portugal; e sete mil milhões por ano no resto do mundo) e também de evitar uma subida de cerca de 50% nos preços dos frangos caso se renunciasse à prática. Será que haveria assim tanta gente capaz de renunciar ao seu belo frango no churrasco a preços acessíveis se lhe dissessem que com isso salvava a vida (querem lá saber, eles que os vão comer!) dos desgraçados dos pintaínhos?
Mas claro que não gostamos de saber estas coisas, nós, que somos pessoas sensíveis, daquelas que não matam galinhas (embora comam as galinhas que outros matam). E logo nos luz o olhinho compassivo ao sabermos que na Suíça a tal sexação está proibida – os avicultores estão obrigados a adquirir um espectrofotómetro, que é a designação popular para as máquinas de fazer a distinção sexual ainda no ovo. Com essa prática bem mais humanizada o pintainhos deixam de ser tão desumanamente trucidados e são humanamente liquidados ainda antes de nascer. É o que se faz também na Alemanha e na França. Mas haverá alternativa, mais bioética, digamos assim, que nos poupe aos escrúpulos que um bom frango na púcara se prepara para nos impor cada vez que nos é proposto no menu do restaurante de que nos recomendaram a especialidade? Sim, por exemplo os dois grandes gigantes da produção de frangos e de ovos, a Coop Suíça e a Coop Itália, permitem que todos os pintainhos da galinhas poedeiras, sem distinção de cor, raça ou género, possam nascer e crescer. Embora com distintos destinos, claro: elas para serem poedeiras; eles (embora cresçam menos que pintainhos das galinhas para carne) para crescerem livres da trituração e acabarem antes daí a uns mesitos no prato ou na púcara de uma data de restaurantes.
Tudo isto me deixou a pensar numa data de coisas. Algumas é fácil de imaginar quais serão e prefiro não falar mais nisso. Mas depois pensei também que o abandono e a proibição da prática da trituração adoptada em França, Alemanha e outros países europeus, vencendo a resistência da indústria avícola não se deve provavelmente aos corações mais sensíveis dos deputados ou dos governantes desses países. Para a decisão dos parlamentos e dos governos ter sido possível foi preciso, primeiro, que tivessem tomado conhecimento do horror da tal maceração ou sequer para saberem da existência de tal prática; foi preciso, em segundo lugar, estarem preparados para vencer a resistência que forçosamente seria levantada pelos avicultores e agricultores – e sabemos como eles não são nada bons de assoar e como funcionam à base de argumentos mais palpáveis do que os bons sentimentos. O governo francês, por exemplo, foi ao ponto de subsidiar 40% do preço dos tais espectrofotómetros. E chegamos ao ponto onde eu queria chegar: para vencer a resistência da indústria dos frangos e dos ovos – que todo o bom deputado e governante logo traduz em números de votos e em verbas orçamentais – teve de intervir uma força maior a acenar-lhes com um maço de votos ainda mais gordo e mais poderoso. Teve de haver gente que se mobilizou para lhes mostrar o hediondo daquelas práticas, para fazer lóbi e petições e mobilizar a opinião pública. Se querem saber a verdade, são coisas como estas que podem ainda fazer-nos alimentar alguma esperança na Humanidade: que haja pessoas que se movam por tais causas sem que as mova o cálculo económico ou político ou a sede de poder (os pintainhos não votam, nem vão organizar nenhuma homenagem pública de agradecimento). E quem diz pintainhos, diz ursos polares ou baleias ou linces ou qualquer outro destes nossos companheiros de aventura num planeta onde viemos calhar sei lá como).
PS: queria pôr na foto apenas as galinhas, para se apreciar a estreita camaradagem que existe entre elas. Talvez até estreita de mais, dirão elas. Mas este senhor pôs-se no meio e ficou na foto também. Espero que não leve a mal.
É amanhã o julgamento dos ativistas climáticos implicados na manifestação de 24 de novembro diante do Ministério do Ambiente. Um deles é o João. Não posso dizer que não estou preocupado. Estou, mas não muito, devo dizer. Era capaz de estar mais preocupado se ele fosse de todo indiferente às questões que ali o levaram. Se um tipo aos 17 anos, que é quantos ele tem, não pensar que pode mudar o mundo e que quer mudar o mundo, isso significaria que se dá por vencido ainda antes de o mundo lhe cair em cima. E nunca mais terá nenhuns dezassete anos que possa merecer. Agora vão a julgamento, acusados de serem “autores, na forma consumada, de um crime de desobediência punido pelo Código Penal”. Foram ainda acusados de violência contra agentes da polícia, mas na fase preliminar concluiu-se que “resulta clara a insuficiência de indícios que permitam concluir pela verificação do crime de ofensa à integridade física”. As testemunhas (dos polícias) “não conseguiram identificar os agentes visados e ofendidos pela suposta violência, nem concretizar quais as zonas do corpo dos agentes ofendidos ou qual a concreta atuação perpetrada por cada arguido em concreto”. Também basta olhar para o arguido João e comparar com o cabedal dos polícias que o prenderam para ver que. Da parte da polícia, diz o auto de notícia da PSP, os manifestantes “apenas foram agarrados e encaminhados ao solo, tendo o suspeito João Lima sofrido umas ligeiras escoriações na mão e joelhos resultado do encaminhamento ao solo e da resistência que o mesmo efectuou contra a detenção.” Apenas isso…
Estive na manifestação. Ainda no Largo de Camões, ponto de partida, fui falar com um grupo de polícias que lá estava a controlar a situação, para lhes perguntar o que tinham previsto e planeado. Uma agente disse-me que não devia haver problemas de nenhuma espécie, a manifestação era pacífica e estava autorizada. Quando arrancámos, tinha a meu lado uma senhora com um carrinho de bebé, que ela certamente não pensava atiçar contra os agentes da Ordem. Para que se saiba: o carrinho levava realmente um bebé (não se vá pensar que servia para esconder quaisquer granadas ou bombas de terroristas facinorosos). Eu ia acompanhado pelo meu fiel Chip, um podenguito respeitável, mas também respeitador (não se vá pensar que era algum mastim de dentuça afiada, treinado para atacar as forças da ordem. Não é). Dali ao Ministério do Ambiente são umas centenas de metros. Não vi ninguém com facas ou pistolas, nem pedras, nem paus, nem outras armas de arremesso. Alguns manifestantes levavam disfarçadamente uns tubos que pensavam usar para se algemarem contra a porta do Ministério e assim fazerem um protesto simbólico e visível. Como? Enfiam os braços dentro do tubo, impedindo desse modo que os prendam um a um; isso só seria possível serrando os tubos, o que é também uma manobra arriscada mesmo para polícias, se não quiserem causar ferimentos graves. Dois ou três polícias à paisana (espero que se tenham identificado, mas não vi nada disso) interpelaram e revistaram alguns manifestantes e apreenderam um cartão navegante, um telemóvel, vários produtos de higiene, uma tarja com os dizeres “Nosso futuro acima do lucro fácil?” e algumas outras perigosas armas similares. O problema veio depois, ao virar para a Rua do Século onde se situa o Ministério: tínhamos à espera uma barreira dupla de polícia de choque, com todo o equipamento anti-motim, capacetes, bastões, escudos e um ar bastante mal encarado. Percebia-se que aquilo era bem mais do que o necessário para um “dispositivo policial ajustado, de forma a garantir a proteção do direito de reunião, liberdades e garantias de quem se manifesta”, como disse há dias a PSP a propósito de uma outra manifestação (a dos simpatizantes do partido Chega diante da CML). Decidi passar ao lado da barreira. O meu canito, os meus (já poucos) cabelos brancos e o meu aspeto visivelmente bastante pós-adolescente devem ter convencido os polícias de que eu era um morador da zona transviado no meio da confusão. Deixaram-me passar. Do lado de lá (junto ao Ministério, onde a manifestação afinal não chegou) deparei com um aparato policial que estava longe de imaginar quando saímos do Largo de Camões: várias carrinhas, polícia de intervenção, UEP, GOE (Grupo de Operações Especiais), além de carros para levar os detidos. Intimidante. Feitas as contas, havia provavelmente mais polícias do que manifestantes, que não deviam ir além de 40 ou 50. No meio disto tudo, aproxima-se de mim a agente da PSP com quem eu tinha falado no Largo de Camões: vinha-me pedir desculpa por me ter dado uma informação errada, também ela não fazia ideia do que ali nos esperava. Que havia eu de dizer? Depois vi chegar os três detidos, algemados, com as escoriações resultantes de terem sido “encaminhados ao solo” (!!!), conduzidos com toda a ternura de que são capazes aqueles latagões, mesmo com os movimentos embaraçados por todo o arsenal que trazem em cima do coiro. Tentei informar-me de qual a esquadra para onde os levavam. “Saia mas é daqui, se não quer ir também!”, foi a resposta do polícia de choque, provavelmente usando o jargão consagrado na corporação para falar com os civis circunstantes. E foi assim. Seguiu-se a detenção na esquadra, o interrogatório, os autos e essas coisas já da intimidade das esquadras e tribunais. E amanhã é o julgamento. Espero que não demore muito, até porque amanhã é o dia do João fazer o jantar. E não escapa à faxina, lá por ter sido vítima de “encaminhamento ao solo” (como diz a polícia no seu singelo linguajar, para não dizer brutalidades como “atirado ao chão”…). Temos uma polícia civilizada, como se vê.
ultimamente vejo muitas vezes ursos polares nas notícias. Não propriamente por serem tão bonitos e oferecerem aos fotógrafos da National Geographic e companhia boas capas de revista e boas imagens. Pelo contrário, este interesse inusitado pelos coitados dos ursos deve-se às piores das razões. É que os ursos polares que hoje vemos são talvez os últimos que a humanidade verá. O ritmo a que o gelo do Ártico está a derreter tem-se acentuado, à medida que a temperatura do planeta sobe. Sem gelo, vão-se as focas dos blocos de gelo, e sem focas os pobres dos ursos ficam sem os alimentos que lhes permitem sobreviver. Há uns que passaram a prolongar os períodos de sono para reduzirem o consumo energético, uma espécie de falsa hibernação estival; outros entram pela terra dentro à procura de ovos, bagas de plantas, carcaças de aves, e o que apanham capaz de enganar a fome, embora com um teor calórico muito inferior ao da alimentação habitual. De nada lhes vale: os cientistas que têm estudado o fenómeno calculam que os ursos polares estão a perder uma média de um quilo por dia durante o verão polar. Muito provavelmente estarão não tarda muito condenados a morrer à fome. E à extinção da espécie.
“OK, os ursos polares desaparecem, é chato, mas que mal vem daí ao mundo?” dirá o bom do Sr. Silva, que só aqui trago para ilustrar essa displicente indiferença que grande parte de nós exibe diante dos males do mundo (com desculpa aos Silvas da vida real, que como todos bem sabemos não são nada assim). E realmente o mundo pode muito bem passar sem ursos polares. As focas não vão ter saudades deles. O mundo continuará a girar imperturbável em torno do seu eixo imaginário à razão de uma volta por cada 24 horas. A vida (isto é, uma parte da vida) continuará igual. A nossa vidinha muito longe do Ártico continuará como se nada fosse. E o Sr. Silva, e todos os que pensam que daí não vem nenhum mal ao mundo, desde que a sua vidinha possa continuar (quase) inalterada dirão o mesmo se lhe forem falar de todos os outros animais que estão a desaparecer – desde uma grande parte dos insectos (muitos deles polinizadores, de que depende a sobrevivência de muitas plantas) até aos elefantes asiáticos, ao tigre de Bengala, ao atum do Mediterrâneo e outros que vão desaparecendo aos poucos, sem aviso prévio. Tudo bem, para o Sr. Silva, desde que não lhe tirem as vaquinhas no prado e os bifes no prato. Mas o problema é mais do que isso, e não é só dos ursos: a fusão dos gelos polares, o aumento da temperatura dos mares é apenas um elo num sistema em que tudo está encadeado. A seguir vêm as alterações climáticas que lhes estão associadas, os incêndios desenfreados, as inundações, os tufões e uma data de desastres incontroláveis (como já se vai vendo vendo um pouco, mas muito pouco ainda). E que não páram de aumentar, porque não diminui nenhum dos fatores que as determinam. Ao aumento da temperatura média do planeta, fundamentalmente causado pelo consumo desenfreado dos combustíveis fósseis que alimentam a nossa concepção de progresso e de bem estar, junta-se a desmatação de grandes áreas florestadas, o uso intensivo de pesticidas e de adubos químicos que depois contaminam os lençóis de água subterrâneos. E assim por diante, não quero assustar ninguém, e muito menos o Sr. Silva no seu santo sono feito de ignorância e bonomia. Até ao dia em que o Sr Presidente, ou o Sr Ministro, ou a dura realidade dos factos determinem cortes de água durante dois dias na semana. De três dias, mais tarde. De reservar o consumo de água da rede pública a hospitais e a campos de golfe turísticos indispensáveis à economia local. É que há já aldeias na Europa que são alimentadas por água vinda de fora. Os lençóis de água local estão contaminados e são impróprios para consumo. E mesmo as vaquinhas e os bifes estão comprometidos: com o racionamento da água não há prados verdejantes nem vaquinhas nem bifes, para grande desgosto do Sr. Silva. E, o que acontece com a água, acontece com muitas outras coisas: este processo, sem um travão imediato, levará a inevitáveis cortes de muitos dos consumos em que assenta o nosso estilo de vida atual e de que não parecemos muito dispostos a abdicar. Os dirigentes políticos e os candidatos a dirigentes, parecem também temer as birras dos eleitores, e preferem continuar a dar-lhes (ou pelo menos a prometer-lhes) a sobremesa que eles exigem. Umas generalidades bem intencionadas nos programas, que ficam sempre bem e consolam as consciências inquietas, mas nada de medidas concretas, de prazos, de planos capazes de pôr um travão no processo. E sempre projetos de mais, mais, mais tudo – até não haver mais nada.
De certo modo os ursos polares, uma das primeiras vítimas deste processo de aquecimento global, são o nosso “canário na mina”. Os canários eram usados pelos mineiros das minas de carvão como uma espécie de sinal de alarme. O pobre do canarinho era o primeiro a sofrer as consequências da presença de gases tóxicos, como o monóxido de carbono, totalmente invisível e inodoro. A morte do canário era o sinal para os mineiros fugirem e salvarem a pele. Assim estão os ursos; e assim servisse o aviso deles para nos levar a procurar uma solução para nós. Ou melhor: o nosso verdadeiro “canário na mina” são os ativistas climáticos. Que apesar de continuarem a ser atacados e ridicularizados, a ser detidos e levados a julgamento, a ser criticados pelos métodos que usam, continuam a querer chamar a atenção para um problema que no fundo é um problema existencial para o planeta e para nós. E se em vez de serem criticados fossem ouvidos? Se em vez de atacar o mensageiro, decidíssemos ouvir a mensagem? Os métodos que usam são os métodos do desespero, e de quem não tem outros. Fazem-me lembrar uma fábula, que li há muito tempo, do escritor chinês Lu Hsun. E que lhes vou contar já a seguir, se prometerem ouvir com atenção e respeitar a lição do grande mestre. Lu Hsun deixara de escrever, desanimado com a indiferença que via na sociedade, apenas preocupada com o o sucesso material. O seu amigo Chin Hsin-yi procura dissuadi-lo e Lu Hsun explica-lhe as suas razões. Diz ele: “Imagina uma casa de ferro sem janelas, absolutamente indestrutível, com muitas pessoas lá dentro a dormir profundamente, e que em breve morrerão sufocadas. Mas tu sabes que elas, pois que morrem no sono, não sentirão os sofrimentos da morte. Agora imagina que se gritares alto poderás acordar alguns que talvez tenham um sono mais leve, mas fazendo com isso que esses desgraçados sofram a agonia de uma morte inevitável. Achas que estarás a prestar-lhes um bom serviço?” E então o amigo dele replica: “Mas quem te diz a ti que se acordares alguns deles não há esperança de que possam destruir por dentro a casa de ferro?” Mais coisa, menos coisa, era assim a fábula de mestre Lu Hsun. E a minha pergunta agora, aos que a leram, é esta: haveremos de mandar calar aqueles que procuram com os seus gritos desesperados acordar-nos do sono em que jazemos inconscientes?
Há as atrocidades em Gaza e há as fotografias que nos chegam dessa realidade cada vez mais difícil de enfrentar, de testemunhar, daqui do sossego onde estamos. O Exército de Israel não quis, e não quer, autorizar os fotógrafos nem os jornalistas – o que não se vê não existe, terão pensado. Há os jornalistas palestinianos que lá se encontravam – e já foram mortos mais de cem – e assim há apesar de tudo alguns testemunhos que conseguem passar o bloqueio. É neles que em grande parte assenta a consciência que temos da realidade de Gaza. São esses, hoje, os nossos olhos em Gaza. A fotografia e a guerra formam, na nossa época, uma parelha que tem muito que se lhe diga, mas não uma leitura única. Susan Sontag, uma escritora americana que descreveu, historiou, e tentou explicar a estranha coligação deste estranho casal (a fotografia e os sofrimentos da guerra) no seu livro “Ohando o sofrimento dos outros” (que diga-se de passagem, foi traduzido por mim) diz a certa altura: “As guerras são agora também imagens e sons de sala de estar. A informação sobre o que está a acontecer noutro sítio, a que se dá o nome de «notícias», sublinha o conflito e a violência – If it bleeds, it leads [«Se há baixas, há cachas»], reza a provecta divisa dos tabloides e dos programas noticiosos de 24 horas – que recebem em resposta compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada notícia vai surgindo.” À indignação junta-se, à sorrelfa, em contrabando, um certo voyeurismo, de que ao mesmo tempo nos envergonhamos, mas para que nos treinam e nos condicionam as tantas imagens que nos chegam a toda a hora de toda a parte. As guerras do nosso tempo estão indelevelmente associadas a imagens que se tornaram ícones, tão familiares que servem de ilustração do sentido que temos do passado recente: o vietcongue assassinado à queima roupa pelo chefe da polícia de Saigão, as cabeças decepadas de guerrilheiros africanos mortos pelos soldados portugueses, as caras da população tutsi esfaceladas a golpes de catana na guerra civil no Ruanda, as decapitações dos reféns do daesh – uma enfiada de imagens no limite do suportável.
À primeira vista, nada disto tem a ver com a fotografia que apareceu ontem nos jornais – uma selfie com as ruínas de Gaza em fundo. Mas tem. Ou pelo menos assim me pareceu, ao olhar para aquelas mulheres sorridentes, envergando a farda do Exército israelita (“o exército mais moral do mundo”, diz a propaganda oficial). Aquela selfie será em breve uma recordação, passará de mão em mão, ou antes de telemóvel em telemóvel, será talvez o testemunho de uma bela amizade entre mulheres-soldado “forjada no ardor da guerra”, como gostam de dizer as legendas dos postais ilustrados. É essa “normalidade”, essa indiferença ao que está em fundo, essa banalização do horror que a mim mais me impressiona e mais me faz temer que poderá não haver esperança. É como as imagens de Abu Ghraib, a prisão do Iraque onde os soldados americanos tiraram fotografias uns aos outros enquanto torturavam, humilhavam, matavam os presos iraquianos. A militar Sabrina-Harman sorri para a câmara diante do corpo do preso que se calhar acabou de matar ou de ajudar a matar. Para mim, essas fotografias depois partilhadas nas redes sociais entre amigos e familiares, aquele sorriso quase tão ingénuo e orgulhoso como o de um caçador diante de um troféu de caça, falam mais alto, mais claramente do que a veemência de muitas das denúncias dos crimes da América nos países que invade. Não há ali nem sombra da indignação que as fotografias dos jornalistas despertam – mas que ao mesmo tempo são olhadas como se olham as provas de acusação num tribunal, como se apesar de tudo houvesse ali um qualquer viés, uma intenção que o fotografado poderia desmentir. Aqui não: fotógrafo e fotografado têm o mesmo ponto de vista, um ponto de vista onde não há sequer culpa. É assim também que se tornam ainda mais impressionantes as fotografias tiradas por um guarda alemão do campo de exterminação de Auschwitz-Birkenau, certamente um funcionário exemplar, a julgar pela organização metódica do álbum, pela sobriedade profissional das legendas: · “Chegada de um carregamento” ao cais de Birkenau, “Homens ainda utilizáveis”, “Homens inutilizáveis”, “Mulheres e crianças inutilizáveis”, “Mandados para o campo de trabalho”, e assim por diante (200 fotografias). O álbum foi descoberto depois da guerra, as fotografias datam provavelmente de fins de Maio ou princípios de Junho de 1944. É talvez um dos testemunhos mais crus e mais cruéis do funcionamento da monstruosa máquina de morte nazi. Um testemunho, também neste caso, involuntariamente fidedigno – poderá haver ali um propósito de se vangloriar, de mostrar o bom trabalho que ali se fazia, mas nem sombra de indignação ou de culpa. Como a selfie das militares israelitas ou dos militares americanos em Abu Ghraib.
O álbum do funcionário nazi faz parte de um livro (também neste caso, olha a coincidência!, traduzido por mim), com o título “Contai aos vossos filhos…” (ed. Gótica, 2000). Foi escrita por dois historiadores suecos, integrado no projeto “História Viva” do Governo sueco, para sercvir de base a ações educativas e informativas sobre o Holocausto, realizadas nas escolas. O Governo português da altura (veja-se como os tempos eram outros…) comprou uma parte da edição que foi distribuída gratuitamente em várias escolas. É importante lembrá-lo hoje, em Portugal, mas também em Israel, na América e em todo o lado onde se queira apagar essa memória, para que não se possa dizer mais tarde, o que o historiador inglês J. P. Stern escreveu no seu testemunho sobre os crimes nazis: “O povo do Reich, ao que parece, sabia tanto (por exemplo, acerca da morte dos seus concidadãos alemães) ou tão pouco (por exemplo, acerca dos seus concidadãos judeus) quanto desejava saber. Aquilo que não sabiam era porque não o queriam saber, por razões óbvias. Mas não querer saber quer sempre dizer saber o suficiente para saber que não se quer saber mais.”
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