pombos, pardais e outros mais

Para os mais curiosos de entre os que me ouvem, trago aqui uma sugestão que é capaz de pelo menos os divertir: um dia em que lhes calhe passar pela Praça do Comércio em Lisboa reparem no curioso comportamento dos pombos que por ali andam a fazer pela vida. A maior parte deles voarão por ali às voltas, à cata de algum resto de pão ou de piquenique à beira-rio; haverá alguns empoleirados na cabeça ou nos ombros de Viriato, de Vasco da Gama, de Nuno Álvares ou de outros dos gloriosos antepassados que ladeiam o Arco da praça e que eles vão impunemente cagando enquanto fazem pose para os turistas; haverá outros ainda descansadamente poisados em cima do Triunfo e da Fama que jazem aos pés da estátua real.  O que ninguém verá é nenhum dos pombos ousar cometer o mesmo ultraje contra El-Rei e o seu cavalo. Poderão voejar por perto, poisar no elefante ou mesmo no cavalo e nos despojos de guerra que se distribuem pela a base do pedestal, mas nunca por nunca em cima de Sua Majestade e do seu cavalo. E porquê? perguntarão então os curiosos. Não por respeito pela realeza ou pelas glórias da Pátria. Senão, veja-se a estátua de Dom João I ali ao pé na Figueira ou a de Camões um pouco mais acima: ambas castigadas pelos pombos insolentes, tisnadas pelos excrementos e o verdete. Não; a solução do mistério está lá no topo, naquelas víboras eriçadas que as patas do cavalo esmagam impiedosamente, como se fossem (e era isso que se pretendia que fossem) os inimigos de El-Rei. Geneticamente condicionados para temerem cobras e víboras, os pombos põem-se logo ao largo mal as avistam, ainda por cima erguidas em ameaça, prontas a atacar, nem que seja figuradas em efígie.
Já estou a ver os olhares incrédulos de uns quantos e até alguns sorrisos de mofa, a fazer-me lembrar os soslaios irónicos dos funcionários da Câmara quando eu lá ia ao gabinete do vereador dos espaços públicos expôr as minhas teorias e as minhas propostas de defesa dos monumentos da cidade. A senhora que me atendia não queria por certo desfazer nas boas intenções e na boa vontade da iniciativa cívica, mas via-se que a fé dela era pouca, apenas compensada pela bonomia do sorriso a mostrar que sim-senhor agora que já o ouvi já posso dispor-me a nunca mais pensar no assunto. Mas aí voltava eu à carga: que o princípio até tinha outras aplicações, que basta pensar nas silhuetas de aves de rapina coladas nas vedações das auto-estradas (transparentes, mas sólidas) a evitar à passarada miúda um choque  quase de certeza fatal – a ideia é a mesma: usar o medo dos inimigos ancestrais como arma de dissuasão. E argumentava ainda com os custos que carregam os orçamentos da Câmara com a compra de peças eriçadas de picos a impedir que os pombos pousem nas fachadas de igrejas e palácios, venenos de todo o género, limpezas regulares, eletrificação, pombais contraceptivos e outras estratégias de insucesso até aqui usadas. Nada demovia a vereadora. Devia pensar que as víboras que eu propunha, nem que fossem de barro (desde que em pose agressiva!) haveriam de encher Lisboa de uma bicheza de estética pelo menos discutível. E talvez temesse também o ridículo a que se sujeitaria se a experiência não resultasse, o que na ideia dela era o mais certo, estou eu em crer. Dizia-lhe então que podia estudar-se uma cercadura esteticamente aceitável de onde espreitassem as cobras, invisíveis para quem olhasse cá de baixo, desde que visíveis para os pombos que as sobrevoam. Dizia-lhe que podia fazer uma expriência discreta, nem que fosse nas varandas da Câmara… De nada valeu.


E bem moderadas que elas eram as minhas medidas.  Ainda bem que não fui ao ponto de propor os remédios do Presidente Mao para livrar os chineses, a agricultura chinesa, da praga dos pardais que lhes levavam pelo menos quatro quilos de cereal por ano cada um deles. Não esteve com meias medidas, o Grande Timoneiro e Educador da Classe Operária (e Camponesa, já agora): atirou para os campos milhões de chineses, homens mulheres e crianças, armados de tachos, bombos, paus e tudo o que pudesse fazer barulho e impedir os pombos de pousar. Assim foram eliminados milhões e milhões de aves de todo o género: os que não morriam logo no ninho ou nos ovos, morriam por exaustão, impedidos de pousar e descansar com aquele alarido dia e noite. O pior foi o que se seguiu: o extermínio dos pássaros, e o desequilíbrio ambiental que se seguiu, que aumentou exponencialmente o número de insectos, gafanhotos, lagartos e outras pragas que a passarada continha dentro dos limites que a Natureza aceitava. E daí: destruição dos cultivos, diminuição drástica das colheitas, falta de alimentos e… Fome! O Camarada Mao mandou então importar pássaros da União Soviética, para combater o excesso de insectos que destruíam as sementeiras. Mas já era tarde de mais. Outras causas terá havido a ajudar, mas considera-se hoje (os historiadores ocidentais pelo menos) que esta campanha anti-pardais foi uma das principais causas da Grande Fome Chinesa que matou entre 20 e 50 milhões de pessoas no período de 1959-1961.

O que hoje temos por cá, diga-se já agora, poderá não ser a «Campanha contra as Quatro Pragas» do Grande Educador chinês, mas não deixa de andar lá por perto: o uso intensivo de pesticidas, a desmatação maciça, a destruição de habitats naturais, a agricutura intensiva, as alterações climáticas e mais uns quantos édecetras do género, estão a causar, entre outras coisas, uma diminuição generalizada das abelhas e de outros polinizadores (e portanto a diminuição das colheitas, a escassez de alimentos, a ruptura da cadeia alimentar). Talvez não passe ainda de uma sombra da verdadeira imagem do que se anuncia, mas as sombras chinesas maoistas talvez devessem dar-nos mais que pensar.

As minhas propostas de defesa dos monumentos e da arquitetura urbana não iam tão longe, apesar de tudo. Pregar um susto aos pombos iconocolastas é coisa que, estou eu em crer, não mereceria grandes condenações nem sequer a São Francisco de Assis, patrono insuspeito na matéria.  Mas embateram (as propostas) contra a indiferença da vereação (e mais uns quantos sorrisos irónicos e talvez algum «lá vem o dos pombos» murmurado entre dentes pelos funcionários da recepção). 
Mas também há quem diga que não é bem assim… E que há medidas mais… enfim, mais «sensatas», dirão esses e outros que tais.
Quanto a isso, peço meças!

e precisamos de heróis?

Já ao longe se esfumam as palmas, os discursos, as fanfarras do 10 de Junho, o dia em que o país premeia com reconhecimento e alarde os seus heróis, mas continuo ainda assim sem atinar no que celebramos ao certo em tais heróis e em tais festejos. Tempos houve em que a guerra era o principal fornecedor de heróis, e todos os anos os víamos desfilar por entre o som tremendo das tubas e de um clangor sem fim, estropiados e garbosos, até ao estrado oficial a oferecer às medalhas o peito que antes tinham oferecido às balas. Eram outros tempos, enfim.
Sem guerras a alimentar o contingente, quem nos nossos dias dará ouvidos às injunções dos nossos egrégios avó? Quem são hoje os grandes homens a quem reconhecemos essa acrisolada capacidade de exprimir os anseios do nosso tempo e de os traduzir em ação? (Homens e mulheres, lembram-me daqui do lado, que também nisto haja igualdade.)
Hoje, se condecoramos militares, fazemo-lo em segredo, sem festejos nem alarido. Condecoramos em vez deles os empresários mais valiosos, às vezes ainda a limpar à pressa a bava que as últimas multas por corrupção lhes custaram. É evidente que os feitos e os méritos e os serviços prestados à Pátria são hoje mais comezinhos, mais pacíficos e mais contabilizáveis. E ainda bem, digo eu, que, no que toca a guerras e a heróis, prefiro, já agora, celebrar o bombeiro voluntarioso que hoje trava a única guerra que ainda faz sentido.

Nas grandes narrativas da Grécia antiga, o herói encarnava a contradição entre as leis da cidade, o conformismo das massas obedientes, representadas no coro, que somos todos nós, e o gesto de rebeldia, de afirmação de uma outra lei, que o povo talvez pressinta, sem porém ousar afirmá-la.  Os heróis são, no fundo, aqueles que explicitam a vontade latente do seu tempo e que a realizam, tornando-se noutros tantos símbolos que dão unidade às narrativas mais ou menos míticas (e políticas), que exprimem esses novos tempos. É neles, nos valores que representam, que os povos se revêem. E se foram já os guerreiros, os aventureiros, os caudilhos, e depois os gestores, os construtores de impérios, negreiros e usurários tantas vezes, são hoje talvez futebolistas, influencers, fadistas ou recordistas do Guiness. Se ontem fomos os primeiros a chegar maritimamente à Índia com Vasco da Gama, hoje batemos o recorde Guiness da maior feijoada no tabuleiro da Ponte Vasco da Gama (15.000 pessoas e uma mesa com 5.050 metros de comprimento!)
Heróis há muitos, portanto. Sobretudo se vistos de longe. Porque de perto logo hão de surgir as fissuras no pedestal, os pés de barro da estátua, quantas vezes a mesquinhez, o cálculo, que o escrutínio da História, das redes sociais e do contraditório da atenção pública, não deixam passar em branco. Nos tempos em que não havia redes sociais, mas havia criados, e criados de quarto ainda por cima, houve alguém (Napoleão para uns, Voltaire para outros) que famosamente sentenciou: “Ninguém é herói para o seu criado de quarto”. 
Cada um terá, afinal, o seu panteão pessoal, que mobilará a seu gosto com os heróis que melhor condigam com os seus valores e as suas propensões. Para um o peito mais medalhado, para outro o melhor marcador do campeonato.

Por mim, fico-me por um panteão bem mais modesto, que reservo, mais que a heróis, em que não me revejo, a gestos que posso admirar e que para mim representam o que há em nós de mais incontaminado pelo cálculo e pela soberba.
Aproveito a deixa para aqui falar em dois deles, dos que mais me lembro.
Em primeiro lugar, o homem de Tiananmen, o homem dos tanques de Tiananmen, de quem não se sabe ainda hoje o nome, nem se está vivo ou morto. Talvez que esta falta de outros elementos, tornem ainda mais perfeita a fusão entre a sua identidade e o seu gesto – quando nada mais sabemos, ele passa a ser para nós esse puro gesto. Isolado, com um saco de plástico na mão, como se voltasse das compras, ou viesse de alguma tarefa quotidiana insignificante, um homem coloca-se diante dos tanques do exército chinês que na noite de 4 para 5 de junho de 1989 massacraram centenas (há quem diga milhares) de estudantes e outros populares que se lhes juntaram para protestar contra a falta de democracia, de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa.
O segundo lugar nna minha admiração reservo-o a Rachel Corrie, uma ativista americana de 24 anos que foi assassinada por uma retroescavadora blindada do Exército israelita quando procurava opor-se à demolição de casas palestinianas em Rafá, na Faixa de Gaza. Tinha ido para Gaza como membro de um projeto de geminação entre Rafá e a cidade dela na América. Uma vez aí, juntou-se aos ativistas do Movimento Internacional de Solidariedade que procuravam evitar por meios não-violentos a destruição de casas palestinianas em que o Exército israelita estava (e está) empenhado como “punição coletiva” dos que se opunham à ocupação. Nesse dia, 16 de Março de 2003, Rachel apesar de envergar um colete de cores vivas, para ser visível, foi esmagada pela retroescavadora que fazia a demolição. O porta-voz do “exército mais ético do mundo” (é o que diz Israel) declarou que a morte de Rachel Corrie se devera a um “acidente lamentável”, por o operador da retroescavadora não a ter visto. Na noite da morte de Rachel foram assassinados nove palestinianos em Gaza (entre eles uma criança de 4 anos e um homem de 90 anos, talvez dois “perigosos terroristas”). Esses não mereceram sequer desculpa nenhuma. Possivelmente por o “acidente” nestes casos não ter sido considerado “lamentável”.

um mundo paralelo

A ocupação não figura nos impressos dos Censos, mas são muitas as pessoas que no nosso país se ocupam a poetar. É certo que é coisa que não se dá por ela a olho nu, mas isso é porque vivem num mundo paralelo. Um mundo feito de revistas que de tão discretas se diriam quase clandestinas, de publicações online que só os seus iguais conhecem e partilham entre si, em modestas edições de autor, plaquetes de tiragens paroquiais, e outras tantas maneiras de lançar urbi et orbi as suas mensagens na garrafa que tiverem mais à mão. Quem os ouvirá? É a isso que ninguém saberá responder. Uns aos outros? Nem isso? Onde está, como se configura, o muro insubstancial que separa esse mundo paralelo do mundo da gente comum, quer dizer do leitor comum ? 
Na sua grande parte desconhecidos, ignorados fora desse círculo iniciático, mal surgem à luz do dia em momentos mais ou menos consagrados – convocados por alguma data, alguma efeméride, algum evento “cultural” onde se considere que a poesia não poderia deixar de figurar. As grandes editoras apenas “apostam” nos nomes conhecidos, nos poetas que já fizeram o caminho obscuro das edições de autor ou das pequenas editoras que não têm o mercado como critério único, normalmente de editores que amam tanto a poesia como os próprios poetas.
O percurso não é raro. Poetas como Manuel António Pina, como Fernando Assis Pacheco, para referir apenas dois que aprecio particularmente, começaram assim, em edições quase domésticas, para amigos e conhecidos, em folhetos às vezes simplesmente copiografados e agrafados, antes de a Crítica ou a Academia (e as Editoras) os irem resgatar ao que atrás chamei o mundo paralelo da poesia.
É como se houvesse uma espécie de limbo, de um Purgatório depurador por onde tenham de passar para conseguirem ascender acima do muro intangível que rodeia esse mundo onde a poesia ensaia o seu voo. E onde, antes disso, poucas vezes temos mais do que alguns versos (bons versos às vezes, grandes versos menos vezes), temos (ai!) rimas, temos muita verdade, muita realidade, muito sentimento, muito, mas raramente a chama que apenas poderia arder nos interstícios que a chamada realidade esconde. E que as palavras, só por si, não conseguem revelar, manietadas como estão pela instrumentalização a que a linguagem está sujeita pelas convenções da retórica ou das referências ao real.
A poesia, no fundo, reside precisamente naquilo que as palavras escondem.

Foi o que me veio à cabeça ao ler um livrinho (pouco mais de 50 páginas) que acabou de me chegar às mãos, intitulado “Um dia serei humano”, de João Cardoso Vilhena, um poeta que, precisamente, apenas conhecia desse “mundo paralelo” das revistas de poesia e dos sites ou blogues de poesia da internet. A impressão que me deu, ao pensar no caminho feito pelo autor desde os poemas iniciais que eu conhecia, foi a de um romper de amarras, do emergir de uma voz própria, do fulgor de “qualquer coisa” que se tenha soltado dos constrangimentos da linguagem comum. Como se tivesse rompido uma casca onde estivera a crescer e a amadurecer, é já nitidamente uma poesia que se libertou dos “tecidos que enformam as coisas” (cito um poema do livro) e “escapa à malha do pano e do nome / que como natural vem cosido às coisas.”
A editora (Uruatau) é brasileira, mas pelo que me disseram o livro será lançado em breve (e posto à venda, suponho) na Livraria Snob (Trav. Sta Quitéria, 32A, em Lisboa) no dia 29 de junho, às 6 da tarde. Para quem andar por esses lados, acho que vale a deslocação, como se diz para os restaurantes. E deixo um dos poemas do livro para amostra:

Anti-platónico

Essa amena ilusão familiar
de que o corpo é habitado 
por um pensar em movimento 
ora para fora ora para dentro

Ou circulando num interior que  
não vemos mas cremos amplo 
quartos salas sótãos e caves 
onde nem sempre descemos

Como não acreditar que o que pensa 
é só carne víscera carcaça 
o que em nós há de mais animal

Que o próprio corpo se pensa 
e vigia que o amador e a coisa 
amada são um só ser que espia.

É assim!


Numa vida feita de rotinas e de hábitos, como é a vida de quase todos nós, tirando os influencers, os frequentadores do Insta e a Gente das revistas, vem um momento em que nos assalta um qualquer tropeço que sobressalta todo esse quase ritual. Há qualquer coisa que se rompe, que agora se cola ao que era costumeiro e dado por seguro. E que as mais das vezes não é coisa boa.
E cada vez que o tropeço ocorre traz consigo a lembrança do que era antes e a guinada dolorosa do que agora é. Note-se que tanto pode ser uma dorzinha na perna que afinal não passou, como pode ser a invasão turística com que o nosso passeio no bairro agora se defronta. São coisas dessas, capazes de envenenar a vida com a sua repetição incessante e inevitável. E que vivemos com irritação, com fúria, com desespero mesmo. Até que vem outro momento – decisivo, decidido, crucial – em que, à falta de botões, dizemos para os nossos fechos éclair: “Pronto, é assim!” E com este Assim determinamos que o que antes era uma embirração, um tropeço, uma mazela, é, passa a ser, doravante, uma parte de todo o resto. Não como uma forma de resignação, de acomodação à má fortuna, mas antes como uma espécie de metamorfose, de onde emergimos renascidos, um novo ser, ou uma nova realidade, que ignora o legado do sofrimento ou do cansaço de antes, como uma pele antiga que se larga ao abandono.
Sei que nem tudo será muito claro para todos neste arrazoado, mas é assim.
Quem havia de explicar bem isto era mas é a Luísa Costa Gomes. Com uma diferença, já se sabe: o que aqui há de pesado, de tortuoso, e até de rebuscado, é o tanto que nela sobra de leveza e de graça. Disse “explicar”, mas não é sequer isso. As coisas com ela não se explicam, simplesmente acontecem. E no mundo que ela cria ou reinventa, e para onde seremos irreprimivelmente arrastados, nada nos há de parecer inverosímil ou improvável, porque é essa a lógica do mundo que a escritora nos inventou. Não pela força de alguma demonstração silogística, mas pela evidente necessidade inerente a esse mundo inventado. E tudo se harmoniza e se completa com a mesma simplicidade que vemos nas escamas de um peixe – cada palavra a exigir a próxima e a responder à anterior, nada a mais e nada a menos. Sem pespontos a denunciar a armação, tal como nada de visível liga as escamas do peixe, aos nosso olhos lisa e única. O brilho que recobre a pele unida, sem hiatos, vem-lhe aqui, na prosa, da graça e da leveza da escrita. Veja-se por exemplo o conto “O Salto de Master Campbell” do livro “Contos outra vez”. Não o escolho por ser uma espécie de ilustração do meu “É assim”, que tão laboriosamente procurei ilustrar, mas também não se pode dizer que lhe seja completamente estranho.
É a história de um ator famoso que tinha por hábito – um tanto inesperado para a assistência – entrar em palco com um salto a pés juntos para a boca de cena, ao mesmo tempo que fazia estalar as mãos nas coxas e arreganhava para o público os dentes todos – e isto qualquer que fosse o papel a representar, esclarece a autora, que aliás estive a citar até aqui. E vem depois o historial desse gesto tão inusitado. O que fora um percalço sucedido ao ator, o Master Campbell do título, ao tropeçar na espada que empunhava ao entrar em cena, tornou-se depois por sua decisão numa espécie de marca do seu génio, ao ser assumido como deliberado, estudado e repetido nas suas atuações. Um pouco como o “É assim”, que antes tentei acima esforçadamente impingir como receita para muitos dos tropeços que nos embaraçam os dias. Só que, como já disse, exposto como é no conto, torna-se também “na síntese do melhor de todos os saltos”. É o que faz o génio. É assim.

O Assim


Gosto do assim. Soa quase como uma palavra mágica, de tão breve, tão cheia de possibilidades. É que realmente cabe lá tudo: desde o que não sabemos até ao que não queremos dizer. Dizemos “assim”, e está tudo dito. E entendido. Muito útil o assim, portanto.
Há quem recorra ao Assim logo de entrada, com um “É Assim:”peremptório, acolitado dos dois pontos de introito como uma garantia de objetividade, de fidelidade ao sucedido. “É assim:” – dizem. E tudo o que se segue desde logo é dado por certo e fidedigno.
E pode também ser usado no fim, um “E é assim” que encerra terminante e quase notarial, o que para sempre ficará como registo da pura e dura verdade dos factos.
E o efeito sucedâneo do Assim? Isso nem se fala! Só para dar um exemplo: nos tempos em que havia palavras que as senhoras não podiam (ou não deviam) dizer, o Assim era a salvação do enrascanço. Eram tempos em que as amáveis trocas de monólogos com cavalheiros amáveis, de nomes tão confiáveis como Alexandre, ou O’Neill, por exemplo, eram discretamente expurgadas de tais palavras interditas; idos tempos em que os sonhos das mais discretas senhoras podiam surgir mobilados de coisas tão remotas como zeppelins ou charutos ou outras coisas igualmente estranhas, como aqueles antigos relógios de sala de onde ao bater das horas podia emergir tudo o que há de mais inesperado. E se ao contar o sonho que tivera, uma senhora tropeçava numa qualquer palavra dessas que as convenções lhe vedavam, lá vinha o Assim em socorro da pobre senhora, a salvá-la do embaraço, sem palavras para descrever o que vira, o que o sonho lhe pusera à mostra: “Era uma coisas em forma de… Assim”. E ficava dito. E entendido pelo cavalheiro. Que já podia então amavelmente fazer-se desentendido.
Tal é o poder do Assim – enorme como se vê. Por isso mesmo, há que usá-lo com parcimónia. Em doses exageradas pode facilmente transformar-se num assim-assim. E já não é a mesma coisa…

Jogos com fronteiras

O texto, que agora aqui dou a ler foi hoje publicado num site sobre questões ligadas à tradução e seus profissionais (https://www.colectivodetradutoresliterarios.com/). Embora tivesse como intenção servir de exemplo da dificuldade que espera o tradutor quando lhe incumbe, mais do que traduzir o que as palavras dizem, traduzir o que elas escondem, acho que também pode ter uma leitura mais lata sobre a pesada herança que pesa sobre a nossa língua.

As palavras (a linguagem, a língua) são muito traiçoeiras, costuma dizer-se. Torcidas para um lado podem dizer o contrário do que diriam torcidas para o outro lado. E frequentemente o mais importante é percebermos o que ocultam, ou dissimulam.
É disso que aqui se fala.
Em tempos que já lá vão, andava eu por longes terras, deu-se o caso de ir encalhar num emprego de ambiente internacional, com colegas de vários países da Europa. À hora do café acontecia muitas vezes pormo-nos a trocar galhardetes com os clichés, frases feitas e preconceitos, uns mais inocentes do que outros, com que cada país brindava sobretudo os vizinhos mais chegados (et pour cause, diziam os franceses). Cada qual achava que a sua língua era obviamente a mais clara, a mais elegante, a mais “civilizada”. As outras eram “una algarabía”, era “hablar chino”, era “baragouiner”. Se não entendem alguma coisa, os holandeses dizem “dat komt mij Spanish voor”, os portugueses dizem “isso para mim é chinês”, os franceses dizem “parler comme une vache espagnole” (literalmente, “falar como uma vaca espanhola”. O que poderia soar como qualquer coisa vagamente surrealista, não fosse dar-se o caso de ser uma deformação de “parler comme un basque espagnol”, foneticamente bastante semelhante, mas que significa antes “falar como um basco espanhol”).
Já se sabe que todos afinavam pelo mesmo diapasão. E o que fica dito sobre as línguas que cada um falava, repetia-se no mesmo tom em relação à educação (sempre má, a dos outros), as relações com o dinheiro, com o sexo, etc., etc.  Um dia um norueguês levou para a tertúlia um mapa da Europa desenhado por ele com os países identificados por clichés, todos bastante correntes ainda hoje (nas rábulas da televisão, nas conversas de café, e noutros altos lugares da cultura elevada que na Europa se pratica). Devo reconhecer que lhe achei uma certa piada, ainda assim.

É possível que este género de expressões e palavras chauvinistas vá perdendo aos poucos a peçonha com que nasceram, à medida que se vai atenuando a memória das guerras e das atrocidades que em muitos casos lhes deram origem. Terão hoje um valor quase comparável aos mexericos entre vizinhos de condomínio, e pouco mais são do que curiosidades linguísticas enterradas em dicionários de idiomatismos.
Permanecem, porém – e é disso que aqui se trata – como cicatrizes mal saradas de velhas feridas. Assim como permanece sob outras formas o que lhes está na base: a recusa e o rebaixamento daquilo ou de quem é diferente. Pode mudar o contexto que lhes deu origem, mas as mesmas palavras envenenadas – bougnol, nègre, boche, youpin, gachupine, mouro, frogg, jerry, monhé, pakkie, terrone, e outras que me recuso a escrever – palavras a ressumar desprezo ou ódio, estão sempre prontas a reaparecer em novos contextos, novos antagonismos, reais ou imaginados, seja contra os emigrantes, ou os refugiados, ou contra os “estranhos” ou estrangeiros.
Poderá pensar-se que as palavras não matam ninguém, como por vezes se diz. Mas seria esquecer que, usadas como armas de arremesso, não é difícil passarem à acção, ao desejo de eliminar “a diferença”, com leis que banem manifestações culturais e mesmo a indumentária de quem é “diferente”, com a destruição de símbolos identitários, com as discriminações contra atitudes ou a aparência consideradas contrárias à “norma”, e até com perseguições a minorias.


Se nos dedicarmos a um exercício de “arqueologia linguística” dessas expressões, é possível que muitas delas vão desaguar nas muitas guerras e invasões com que a Europa se foi dilacerando e desmembrando. Costuma dizer-se que a Europa é uma manta de farrapos que nos ficou como despojo de guerra. E é. De muitas guerras – cada guerra, cada novo retalho. Os tratados e as alianças urdidos pela relação de forças da altura lá foram cosendo ou alinhavando novos países e fronteiras, disfarçando (mal) velhos rancores, humilhações e antagonismos. Mas que, no entanto, como tudo o que é recalcado, vêm ao de cima sempre que arranjam maneira de contornar as inibições que a hipocrisia diplomática lhes impõe. Fazem-no frequentemente sob a forma de preconceitos e estereótipos que achincalham ou menosprezam os vizinhos do outro lado da fronteira. Os tratados podem ter posto termo às guerras, invasões, cruzadas, colonizações, mas a ferida continua latente. Sob as roupagens de idiomatismos, frases feitas – verdadeiros lapsos de língua que involuntariamente trazem à luz palavras ou sentimentos inibidos – a parte oculta dos antigos ódios manifesta-se em assomos xenófobos ou racistas contra os inimigos de ontem, que vivem do outro lado da fronteira, que têm uma cor de pele ligeiramente diferente, ou que professam outra religião . Os visados, aliás, quando podem, quase sempre, pagam na mesma moeda.
Ingleses e franceses são um exemplo clássico deste pingue-pongue de velhos rancores desde a conquista da ilha bretã por Guilherme da Normandia (1066). Podem já não descambar numa Guerra dos Cem Anos (1337-1453), nem numa Guerra dos Sete Anos (1756-1763), mas sobrevive em expressões de desprezo como “to take the French leave” (despedir-se à francesa), a que os franceses ripostam com uma expressão equivalente, “filler à l’anglaise”. A memória das invasões ficou muitas vezes retida em expressões que designam os males que os invasores trazem consigo, como a sífilis, que em diversas línguas é batizada com nomes como “o mal francês” (para os italianos), o “mal italiano” (para os franceses), “o mal português” (na Índia), o “mal cristão” (entre os otomanos).
A língua é quase sempre o último reduto desses ódios recalcados. As palavras são de certo modo um espelho da sociedade, e o racismo e a xenofobia são ainda hoje os herdeiros dessas palavras que ferem, que podem mesmo matar. E que sobrevivem até aos dias de hoje, mesmo quando há muito se esfumaram as razões históricas que lhes deram origem.

Deixem-nos dormir, p.f.

Já aqui falei há tempos numa fábula escrita pelo escritor chinês Lu Hsun (ou Lu Xun, não sei bem), mas vou contá-la outra vez para os que chegaram mais tarde. De certo modo, é também um atalho para falar no que aqui me traz.
É assim:
para explicar ao seu amigo  Chin Hsin-yi  as razões que o levavam a abandonar a escrita, desanimado com a indiferença que via na sociedade, apenas preocupada com o o sucesso material, Lu Hsun conta-lhe uma fábula:  “Imagina uma casa de ferro sem janelas, absolutamente indestrutível, com muitas pessoas lá dentro a dormir profundamente, e que em breve morrerão sufocadas. Mas tu sabes que elas, pois que morrem no sono, não sentirão os sofrimentos da morte. Agora imagina que se gritares alto poderás acordar alguns que talvez tenham um sono mais leve, mas fazendo com isso que esses desgraçados sofram a agonia de uma morte inevitável. Achas que estarás a prestar-lhes um bom serviço?” E então o amigo dele replica: “Mas quem te diz a ti que se acordares alguns deles não há esperança de que possam destruir por dentro a casa de ferro?”
Serve-me a fábula de atalho para chegar à questão (atual) das alterações climáticas, das catástrofes que arrastam consigo e dos esforços (em grande parte vãos) dos chamados ativistas climáticos para nos acordarem para os perigos que ameaçam a sobrevivência da nossa espécie e do sistema de que ela depende.

O que eles dizem (e o que diz a chamada Ciência, e dizem os dados do programa Copernicus e grita lá das Nações Unidas o pobre do António Guterres em todas as línguas que se esforça por saber) tem qualquer coisa de uma lei elementar da física: se atirarmos para a atmosfera mais dióxido de carbono, o planeta aquece e se o planeta aquece desencadeamos uma série de fenómenos meteorológicos que são muito capazes de trazer consigo uma data de chatices para as quais não estamos muito bem preparados, sejam elas inundações, incêndios incontroláveis, tufões, vagas de calor insuportáveis, destruição de colheitas, extinção de muitas espécies, e os variadíssimos édecetras de que todos já ouvimos falar. E dizem mais: se calhar não era má ideia – em vez de estarmos à espera que essas chatices se tornem incontroláveis, como já começa a acontecer – não era má ideia, dizem eles, travar o processo do aquecimento do globo. Como? O caminho mais direto seria o de pôr termo ao consumo de combustíveis fósseis (carvão, petróleo), por mais que isso pese ao nosso conforto e aos lucros das grandes petrolíferas.
Os tais ativistas dizem isto, mais coisa menos coisa, com um argumentário mais ou menos elaborado. E que dizemos nós, em troca? O que normalmente se ouve por aí vai do: “não há nada a fazer, são coisas que sempre existiram,” até ao “podia estar de acordo com o que eles dizem, mas não com a maneira como o fazem”. É que as movimentações dos ativistas muitas vezes deixam as pessoas chateadas, com os seus cortes de estradas, as suas marchas lentas, as ocupações de instalações e essas coisas um pouco disruptivas que se vêem na televisão e que fazem com que as pessoas cheguem atrasadas a casa e ao início do jogo ou da novela.
E também não estamos habituados a este novo tipo de contestação, tão diferente dos movimentos revolucionários dos bons velhos tempos. Estes, agora, não visam instaurar um novo tipo de sociedade, não aspiram a ser os novos governantes ou mandantes, não invocam nenhuma filosofia capaz de explicar toda a realidade, e toda a História, e toda a sociedade. E ainda por cima usam processos não hierárquicos nas tomadas de decisão, sem Eus nem chefes, e apontam para objetivos que as pessoas (pessoas razoáveis, como nós) consideram inalcançáveis, ou irrealistas, ou… nem sei o quê. Mas que querem eles, afinal? desabafamos então. Como dantes desabafavam os que se viam confrontados com movimentos tão inorgânicos como estes que se lançavam a tomar Bastilhas, a derrubar Muros de Berlim, ou a exigir o voto para as mulheres, outros tantos objetivos irrealistas e inalcançáveis.
Ninguém sabe bem o que se lhes há de fazer. E não encontramos outra resposta que não seja a do costume em casos destes, quando não queremos dar ouvidos às questões com que nos confrontam: mandamos a polícia, que é o que temos mais à mão e entregamo-los aos tribunais parados no tempo sem se aperceberem que o mundo porém se move, eppur si muove, como dizia o outro.

Bem, o atalho da fábula acabou por vir dar aqui, que era o que eu ia a dizer: é hoje o julgamento do João e dos outros dois detidos na Visita de Estudo ao Ministério do Ambiente, no já distante mês de novembro. Sugiro aos que chegaram atrasados e não sabem do que se trata que vão ler o artigo “Encaminhados ao solo” (https://zelima388727646.wordpress.com/2024/03/14/nas-maos-da-justica/), publicado neste blogue em 14 de março – se estiverem interessados, claro. Mas olhem que é uma boa amostra das boas maneiras com que a polícia atua quando não sabe como há de atuar.
Vamos lá ver o que sai dali (do julgamento, quero eu dizer). Talvez que o juiz do julgamento consiga ouvir o juiz da fase preliminar quando escreveu que “resulta clara a insuficiência de indícios que permitam concluir pela verificação do crime de ofensa à integridade física dos agentes”. Haja esperança.
Disse também o sábio do Lu Hsun, que ando agora a descobrir: “Não se pode dizer que a esperança existe, nem que não existe. É como os estradas que atravessam a terra. Porque, na verdade, a terra não tinha estradas no início, mas quando muitos homens passam por um caminho, a estrada faz-se.”
Mas para isso há que nos pormos ao caminho, claro.

o que lá não está

Ver o que lá não está é uma arte. Uma arte com uma longa tradição, com suas leis não escritas e seus inúmeros praticantes, uns mais profissionais do que outros, desde humildes pastorinhos errando por ermos e grutas até senhores engravatados e doutorados errando pelos seus próprios erros. E o “lá” onde se podem ver as coisas que lá não estão, esse está por todo o lado. Na política, na religião, na cartomancia, quase por definição. Mas também em sítios muito mais inesperados. Ainda há pouco li a notícia de uma senhora da televisão que viu Nossa Senhora nuns sapatos de 490 euros! E explicitou o preço, não fôssemos nós pensar que a Senhora lhe aparecia nuns quaisquer tamancos.
Mas se há campo onde a arte de ver-o-que-lá-não-está prospera e tem inúmeros cultores e fiéis, é o campo da arte. Desde quando em tempos remotos alguém nos explicou que aquilo que vemos não passa de uma sombra da realidade projetada no fundo da caverna onde vivemos começou também a nossa dedicação à arte de ver-o-que-lá-não-está, a ver pelas sombras que lá estão a realidade que lá não está. E foi muito o que aprendemos desde então. Aquilo que vemos, o que temos diante dos olhos, só aparentemente é claro ou compreensível, ao que nos dizem: na verdade o seu real sentido só poderá surgir depois de devidamente desvendado por quem sabe. Seja o intérprete de sonhos, seja o sumo sacerdote, seja o crítico literário autorizado, são eles que vão rebuscar os sentidos ocultos do poema, do texto, do criptograma que é a literatura em geral.
Dirá a Sulamita do Cântico dos Cânticos: “Como são doces as tuas carícias / Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva; / há mel e leite sob a tua língua…” – e no nosso ingénuo entendimento as palavras dela só podem significar o que ela está a dizer. É o que lá está. Mas há de sempre vir o Exegeta e explicar-nos o que lá não está: que o poema erótico que nós lá víamos é na verdade “o principal veículo para exprimir uma antiga concepção bíblica da experiência religiosa, sobretudo como uma relação amorosa com Deus.”
O que lemos em Kafka, para dar outro exemplo, é apenas o sentido expresso, esse que nós entendemos, que esconde o mais importante, o que nos é negado, o seu sentido latente, e, esse, só acessível à arte de ver-o-que-lá-não-está.
Deixamos de ler o poema que o poeta escreveu, o texto que o escritor escreveu, para tentarmos decifrar o que eles não escreveram. E o que se diz da literatura pode dizer-se de outras artes. Quantas vezes não nos interrogamos, ao ler a crítica de alguns filmes, se teremos visto o mesmo filme. Na música então nem se fala…
Tratando-se de uma canção, ou de uma ópera, ainda vá que não vá, as palavras apesar de tudo dizem alguma coisa a que não é fácil torcer o sentido. Mas quando não é assim? Quando a música é o que se ouve, é tudo o que há? Mesmo assim, haverá quem se negue ao simples, ao puro prazer de ouvir, de sentir, para procurar antes “um sentido” para a música, que porém é só música e não outra coisa qualquer.
Lembro-me de uns programas que havia na televisão dos tempos a preto e branco em que o grande maestro Leonard Bernstein “explicava”, “ensinava”, as criancinhas a ouvir música. Lembro-me (e já lá vão umas boas décadas!) do programa em que ele transformava a abertura do Gulherme Tell numa cavalgadas desenfreada em que o xerife perseguia o bandido, e que mestre Bernstein ia ilustrando com os adequados movimentos da música. Nunca mais consegui ouvir o bom do Rossini sem ouvir o malfadado xerife aos tiros por ali fora. Se calhar a mesma sina que acometeu os miúdos (e graúdos) que em Portugal “aprenderam” a ouvir a música dita clássica à custa das cábulas que lhe impingiram com uma série chamada “Brincando aos Clássicos”. Com as melhores intenções do mundo, servia-se aos miúdos uns quantos enlatados de Mozart, Beethoven, Offenbach e sei lá quem mais, embrulhados em canções enternecidamente didáticas que definitivamente roubavam à música o seu mistério, a sua inteireza inicial e pura. Provavelmente muitos desses meninos, que mais tarde dirão talvez que “nasceram para a música” graças a esses discos, nunca mais conseguirão ouvir a belíssima sonata para piano nº 11 em lá maior de Mozart sem que se lhe sobreponha iniludivelmente a letra infame de um “Zás trás pás, com a espada / já venço sete malvados!” e outras barbaridades que dão cabo do Mozart em três movimentos.

Faz-me pena pensar nisso. E sei que é difícil resistir à tentação de querer ver aqui “o muito que têm de positivo” tantas boas intenções. Resisto à tentação, mesmo assim. Com tantas boas intenções, o que se dá com uma mão, está-se a negar com todas as outras mãos que temos de ter se quisermos dar – realmente dar – alguma coisa parecida com a descoberta do prazer da música a quem não aprendeu ainda a ver nas coisas o que lá não está.
Digo isto enquanto ouço a belíssima música de um compositor tunisino, Anouar Brahem, de seu nome. Neste caso, uma combinação de alaúde, piano e acordeão, tão surpreendente, como surpreendente é a maravilha que daí resulta. E é com muitas hesitações que deixo aqui o título do disco – “Le pas du chat noir” – só pelo medo de que ao ouvi-lo desatem para aí a imaginar passinhos delicados de gatinhos felpudos, ou enigmáticos, ou, sei lá, poéticos, e outras coisas que lá não estão. E que seria a maneira mais segura de fechar os ouvidos ao que lá está.

E a piscina, pá?

já lá vamos, à piscina, mas primeiro preciso de dar uma voltinha aqui por um outro assunto que fica a meio caminho.
Uma das coisas que mais falta faz entre nós, concluí eu ao voltar de uma ausência de vários anos por outras terras, é a vocação para atuarmos coletivamente. Protestamos, refilamos, repontamos, mas normalmente ficamo-nos por aí. Há um problema a resolver ou um projeto, cria-se um grupo e como primeira tarefa desata-se logo a ver como se há de arranjar financiamento para aguentar a coisa. Sem lugar para a ideia de as pessoas se quotizarem para pagar as despesas – para pagar o maestro, se um coral; o treinador, se um grupo de ioga; o mestre se um grupo de observação de aves, etc etc. Sem fundos, o grupo acaba por ir ao fundo. E não se fala mais nisso. Ou então nem se chega à fase da organização. São boas ideias que por aí se ficam. Muitas das movimentações que por cá se lançaram nestes últimos tempos vieram-nos de fora. E por isso mesmo pouco duraram. Por falta de raízes. Movimentos como erupções intensas, emotivas, às vezes até com algum grau de violência ou de disrupção, mobilizando milhares e milhares de pessoas em estruturas espontâneas e com sistemas de organização extremamente maleáveis, em resposta a problemas ou anseios sentidos por essas pessoas. Assim que me lembre, do pé para a mão, temos as greves climáticas (nascido da greve de uma menina sueca de poucos anos), os movimentos anti-racistas (black lives matter, por exemplo), os gilets jaunes, em França, ocupy wall street em Nova Iorque, movimentos de solidariedade com outros povos (Ucrânia, Palestina) e outros de todas as cores e para todas as tendências. As réplicas dessas erupções nem sempre se fazem sentir noutros quadrantes ou quando isso acontece depressa definham por se parecerem mais com uma moda surgida da imitação, do que como resposta a uma necessidade real.
Quando procuramos as razões dessa falta de “vitalidade cívica”, como diz o nosso bom povo, normalmente vamos dar à prolongada ditadura salazarista que cortava ou punia a iniciativa popular espontânea, incutindo ao mesmo tempo na grei um espírito de desconfiança em tudo o que não viesse de cima. Desconfiança (ou falta de confiança em nós) que ainda não nos largou. E este “cima” tanto pode ser o estado e a burocracia oficial como os partidos e outras organizações de massas que tendem a controlar e a usar de forma instrumental as movimentações mais espontâneas.
Aqui no meu bairro, para não ir buscar um exemplo mais longe, iniciou-se há tempos uma pequena movimentação para pedir a abertura (reabertura) das duas únicas piscina públicas que temos por perto. Falo de piscinas, mas já se sabe que o exemplo se pode multiplicar por muitas mais coisas em falta. E talvez mais importantes. Muita boa gente, mas sobretudo muitas crianças, estão há uma data de tempo sem piscinas e sem aulas de natação por razões que nunca tiveram nenhuma explicação razoável (porque o empreiteiro não sei quê, porque as obras afinal não sei quantos; enfim, trapalhadas de um lado e desculpas mal paridas do outro). Houve uma reunião no jardim. Sintomaticamente a maior parte dos participantes eram estrangeiros (se calhar por não sofrerem da mesma maleita anti-associativa). Houve uma manifestação, uma ida à Assembleia Municipal, tudo o que se podia fazer sem ser a ocupação das instalações da Junta ou da Câmara.
E as “autoridades”? Os nossos eleitos?
Os nossos eleitos são feitos à nossa imagem e semelhança, essa é que é essa. E nada do que não dê direito a foguetório, a celebrações, a contratos financiados pela Europa ou quem lhe faça as vezes, também não lhes merece mais do que as evasivas, as meias explicações ou o mui digno silêncio dos Eleitos. Neste caso, passado mais de um ano, continuamos sem resposta e sem piscina. A nossa boa gente, habituadíssima a ser assim tratada, se calhar já se desabituou do luxo das piscinas públicas e talvez que todos – sem Índias e Áfricas e oceanos a chamar por nós – comecemos também a duvidar da utilidade de aprender a nadar. Não há mais a quem pedir contas e já só as paredes se lembram de tal coisa.

no meu tempo…

No meu tempo é que era bom, há quem diga. Tudo era bom, barato, seguro, garantido. Na leitaria, o digno reformado perora: no tempo dele, sim, ainda havia respeito, não é como agora. O que há agora é pais e professores, derrotados na vã guerra dos telemóveis, vencidos mas não convencidos, a refilarem e a convencerem-se que no tempo deles não havia disso (Um “isso” que inclui telemóveis, jogos, filmes, etc.) mas havia livros. Livros a sério, não desses que agora há. No tempo deles, porque no tempo dos outros – que é hoje, que é o nosso – ninguém lê. E, antes que a acusem, a escola estrebucha e põe os putos a ler O memorial do convento e outros livros igualmente recomendáveis. Que os putos acham uma estucha, quase tão grande como a estucha que foi para mim ter de ler As viagens na minha terra, com a mesma idade deles. Zás! Pronto, já me atiraram a primeira pedra. Não me acertou felizmente e por isso apresso-me a dizer que é, esse livro, hoje, um dos garretts de que mais gosto, o que mais gosto, até.
Ninguém lê, pois. Mas só no ano passado foram editados em Portugal 13 milhões de livros! Ou, por outros números, e é isto que dá a medida das coisas: 187 milhões de euros em caixa.
Por isso vamos lá espreitar por outro lado: muitos livros, muita massa, sim, mas que livros? E para quem vai essa massa toda? Em Portugal, por exemplo, o livro mais vendido do ano, com 135 mil exemplares esgotados ao longo de 18 edições a fio, não foi uma obra de ficção, como já estava a aí a salivar o JRS, mas sim um livro baseado em factos reais, acontecidos. Mesmo! O título é “O céu existe mesmo” e é a história de um menino de 4 anos que foi operado de urgência e que aproveitou o tempo em que esteve inconsciente para ir até ao céu (mesmo!) e voltou de lá a contar como viu Jesus e o bisavô e o Diabo a tentar entrar no céu e os anjos a impedir-lhe o acesso e mais uns pormenores que não são para aqui chamados. Os livros de ficção, no entanto (talvez porque não se baseiam em factos assim tão mesmo reais), não venderam tanto. A obra de Alexandra Solnado, que inclui bestsellers como o “Há mil anos que não te via”, também escreve do Além, mas neste caso com a vantagem de ter os livros ditados pessoalmente por Jesus Cristo, é outra das mais vendidas, anda à volta dos 300 mil exemplares, em Portugal e no Brasil. É caso para se dizer que os nossos romancistas deviam ir passar umas temporadas lá acima a ver se conseguem passar além da meia dúzia que vendem. Mas – atenção! – isso também é se escolherem o céu certo (o de Jesus e da Virgem Maria, como o céu deste menino. Não é garantido o mesmo resultado no caso de um céu de Iavé ou de Alá ou de Krishna ou mesmo da Cientologia, se é que eles têm lá disso).
Não é viagem que esteja ao alcance de qualquer um. Acho eu. E os editores americanos sabem que é assim. Dos 58 mil títulos editados num ano, 90 por cento venderam menos de 2 mil exemplares. Num país com mais de 330 milhões de habitantes, é pouco, convenhamos. Mais: 50 por cento venderam menos do que uma dúzia de exemplares. Pouquíssimo. Não quero empastelar a leitura com dados e estatísticas, porque não é por aqui que me quero ficar, mas os mais curiosos poderão ir buscá-las a um artigo muito interessante que um amigo me enviou e que está na internet: No one buys books, de Elle Griffin. Esta senhora Griffin explica também que, não sendo por aí que elas se governam, as grandes editoras assentam a estratégia em livros com sucesso garantido: livros escritos (ou então “escritos”) por celebridades. Dos 370 milhões de dólares que a Penguin Random House, uma das “cinco grandes”, contabiliza, 200 milhões vão para pagamentos de adiantamentos a celebridades. Tanto pode ser a Amy Schumer, como a Michelle Obama, como o Bruce Springsteen: é dinheiro contado, à partida. Até porque as celebridades dispõem, também à partida, de um séquito de milhares e milhares de seguidores nas redes sociais, têm estruturas próprias a tratar da publicidade, das ligações aos médias, etc. etc. A maior “livraria do mundo” (A Amazon) dispõe de 50 milhões de livros disponíveis (uma boa livraria convencional, note-se, disporá quando muito de uns 50 mil) e dispõe também – o que mais importa – de um algoritmo que decide o que aparecerá em primeira linha, o que será sugerido, o que será promovido diante dos olhos incautos do leitor em busca de livros online. As grandes editoras (americanas) estão a aprender a fazer o mesmo, ou seja, a aprender o caminho mais fácil de chegar aos leitores, ou pelo menos ao bolso deles.

Mas então onde estão esses leitores? E que livros são esses 13 milhões que se vendem em Portugal? Nem Deus o sabe, Ele, que sabe tantas coisas e que inventa outras tantas. Há quem diga que se distribuem entre os livros de autores “queridos” e queridos do público, como o Chagas, ou o Minh’alma (o mais vendido em 2020: 96 mil exemplares). Há os livros “históricos”, com reconstituições “históricas” sem qualquer sombra de investigação histórica como a que os historiadores se dão ao trabalho de fazer e que provavelmente resultaria em livros muito menos interessantes para o gosto educado pelas séries televisivas e os filmes “de época”, com os seus clichés consagrados. Há os livros de receitas de todos os chefes e subchefes dos programas de culinária, os livros de receitas para ser feliz no amor, para ser feliz no casamento, para ser feliz no trabalho, para ser feliz em tudo, para ser rico, para ser magro, para ser belo, para ser.
Será já uma grossa fatia a juntar à dos livros escritos ou mandados escrever por personalidades famosas da televisão ou da sociedade, e aos livros anunciados ou recomendados pelos colunistas, os influencers, e todas essa tropa mercenária da sagrada missão da educação do gosto. Livros que não nos obriguem a puxar muito pela cabeça, isso é importante. Conheço muito boa gente que a última coisa que leram mais parecida com literatura foi a saga do Harry Potter. Daí partiram com a bagagem suficiente de fantasia, de imaginação, de criatividade, que é a que ainda hoje lhes basta. E que no fundo é o que as pessoas procuram. Não são os livros, não é a leitura – isso é só uma das formas de matar a mesma fome. E quem tem fome vai ao mais imediato, nem que seja a pizza congelada ou o hamburguer plastificado. E a outra fome terá as séries da televisão, as novelas televisivas, os livros de ler-e-deitar-fora, com “uma história para relaxar”, como dirão alguns em jeito de alibi. E que é um bom alibi, aliás, para aquilo que não é crime nenhum.

Alguém que não quero agora citar dizia que em literatura há os contadores de histórias e os escritores. Normalmente, uns e outros, ficarão implacavelmente arrumados nos tais da “meia dúzia” de exemplares da estatísticas. Fraca consolação será saberem que Miguel Cervantes não foi além dos 300 exemplares na primeira edição do seu Dom Quixote de la Mancha, uma triste figura que ainda hoje alimenta a nossa mesma fome de magia, de imaginação, de criação. Como o faz um bom contador de histórias desde tempos imemoriais em todas as latitudes. A história bem contada traz consigo emoções que nos são familiares, ou em que nos reconhecemos, despertam sentimentos que partilham a nossa comum humanidade. E que a formam, às vezes. E lhe dão forma, outras. Há histórias que se tornaram mitos, que deram alma a nações, a povos. Muita da literatura que hoje se publica em Portugal, uma boa parte até, são livros de bons contadores de histórias.
Mas, no dizer do tal, o escritor é ainda outra coisa.
Ando a ler um livro de Almeida Faria, “A Paixão”. É aliás a terceira vez que o leio – e a quem isso surpreenda direi que o faço do mesmo modo que ouço vezes sem conta certas músicas que para mim vão dar ao mesmo sítio, à mesma fome de mistério. Aqui, a história não é mais do que um pretexto para nos arrastar para um universo que sem este livro não existiria, um mundo criado pela escrita, feito de palavras, e onde a história é apenas como que um guia para a viagem onde nos embrenhamos impensadamente. Um mundo que nos desperta emoções e sentimentos muito mais indefinidos, desconhecidos, que mal emergem do inconsciente. E perturbadores. E que a cada leitura se renovam, descobrem novas veredas que a cada vez se parecem mais com os caminhos da nossa própria alma, à falta de melhor palavra, do que até com os caminhos que a história do livro percorre. É o que faz um escritor. E é essa (talvez) a magia maior da literatura.
O que tem isso a ver com o resto, com os tais noventa e picos por cento dos livros das estatísticas, isso já não sei, que não sou deste tempo.