Precisamos é de hotéis. Por mais contraditório que isso pareça, é muito possível que esteja aí a solução para a crise da habitação. E a freguesia onde moro (São Vicente, em Lisboa) poderia neste caítulo vir a servir de exemplo. Pelo menos está a caminho disso.
No Campo de Santa Clara o Hospital da Marinha foi transformado num hotel que não é nada pequeno. Perto dali, em Santa Marinha, está para inaugurar outro hotel, este mais modesto. No antigo Convento das Mónicas, que foi também Cadeia de Mulheres, com a quinta adjacente, iniciaram-se há pouco as obras do que será um grandioso hotel, de seis pisos acima do solo e outros seis abaixo. E há ainda o Convento da Graça, depois Quartel da Graça, que ao que parece foi também contaminado por esta Sarna dos hotéis. E já não falo nos enormes hotéis flutuantes que quase em permanência atracam na fronteira da freguesia.
É muito hotel para um bairro tão pequeno? À primeira vista pode parecer que sim. Mas há que atentar no resto do panorama.
Na Rua da Graça, o eixo central do bairro, são muitas as casas que estão desabitadas, algumas provavelmente devolutas, algumas a cair aos bocados, de portas e janelas entaipadas. Dei-me ao trabalho de as contar: mais de metade estão vazias (mais pormenores em: https://ze-lima.blog/2026/04/10/um-bairro-para-vir-ver/ ). Pelo que me disseram alguns dos lojistas sobreviventes (à espera que a espada do despejo lhes caia em cima) a maior parte delas foram compradas pelos chamados fundos imobiliários, a preços que pareceram interessantes aos antigos proprietários. Para estes fundos imobiliários, que é o nome que em hipocritês se dá à especulação imobiliária, as casas não passam de «ativos» financeiros, comprados para deixar no frigorífico à espera da sua valorização. E a valorização virá precisamente da consequente falta de casas para arrendar. O importante para os fundos é não pôr essas casas no mercado, o que faria aumentar a oferta de casas e portanto baixar o valor das rendas e portanto baixar o valor do investimento nos fundos. Está tudo ligado. E os fundos (anónimos, sem rosto, indiferentes a outras razões que não sejam o lucro dos financiadores) sabem-na toda.
Mas não há penalizações para quem mantém as casas deliberadamente devolutas, fora do mercado? Haver há, mas também há muitíssimas exceções à aplicação das penalizações e muitíssimos escritórios de advogados com muitas maletas e gavetas cheias de excepções. E mesmo que as penalizações fossem aplicadas é possível que a especulação ainda assim continuasse a ser interessante como fonte de lucros que não exigem a criação de bens nenhuns. A Câmara de Lisboa não é muito dada a fornecer dados sobre o assunto, mas mesmo assim o já ultrapassado relatório de 2022 reconhecia que cerca de 80% dos edifícios declarados devolutos estavam nessa situação há mais de 5 anos, e alguns há dez anos ou mais.
Agora vamos lá a ver: a construção de um hotel, e sobretudo de hotelzões como estes de que estamos a falar, é provavelmente precedida por um processo de autorização submetido às autoridades competentes, que imagino que incluirão a Câmara e até o Governo. Esse processo provavelmente analisa fatores como a concentração da oferta hoteleira num espaço limitado, o impacto que terá na dinâmica da vida e da economia local, e outras variáveis bem intencionadas sempre referidas na discursata eleitoral. Um hotel não é só o que resulta da alteração de uso de um antigo quartel ou de uma antiga cadeia, é também a inflação que traz consigo: inflação nos preços da habitação, inflação no trânsito local, inflação na ocupação do espaço público do bairro, inflação da população não residente, que obviamente não participa na vida e na economia dos locais.
Há que ver nisto alguma lógica. Não se administra nem governa uma cidade sem atender à conjugação de fatores variados, sem estudar a forma como as coisa interferem umas com as outras. Isso, pelo menos é o que gostaríamos de poder pensar. Mas é isso que se vê? Tirando os discursos eleitorais ou as entrevistas a fazer o jeito, quando é que ouvimos os decisores da coisa pública a expôrem e ponderarem as razões das decisões?
Um outro exemplo: Autoriza-se o estacionamento de cruzeiros em Alfama, por vezes com uma população superior à do próprio bairro, mas será que se pensou ao mesmo tempo em equipar o terminal de cruzeiros com tomadas elétricas (como faz já grande parte dos portos na Europa) e de proibir a acostagem a navios que não as possam usar? A poluição dos navios ali atracados ao longo de um ano larga dióxido de enxofre numa quantidade entre 2,5 e 3,5 vezes superior à de todos os carros da cidade inteira juntos no mesmo período. A emissão contínua de partículas finas de azoto de um único navio atracado é equivalente ao tráfego contínuo de milhares de automóveis. É que os navios não desligam os motores: mesmo atracados têm de manter em funcionamento os sistemas de ar condicionado e aquecimento para milhares de quartos, cozinhas industriais, lojas, sistemas de tratamento de águas, e os outros numerosos edecetras próprios de uma mini-cidade. As plumas de fumo e de partículas são depois empurradas pelo vento diretamente para o anfiteatro formado pelas casas de Alfama e de São Vicente. E para os pulmões dos moradores, já se sabe.
Que vantagem trarão à cidade estas invasões de milhares e milhares de turistas de um dia, que ainda por cima pouco consomem fora do barco, onde quase tudo foi pago antecipadamente? Ao autorizá-los, calculou-se o limite da sustentabilidade para a cidade? O que nos custa em saúde e bem estar, será que foi tido em conta pelos decisores?
Isto é um exemplo. A juntar ao dos hotéis.
Mais coisa, menos coisa, mais argumento menos argumento (e não me venham com tretas e artigos e alíneas da lei) está visto que as autoridades que autorizam os hotéis são as mesmíssimas que autorizam que as casas se mantenham devolutas. Em que pensam essas autoridades quando autorizam tal concentração? A não ser que estejam a pensar alojar nos hotéis as pessoas desalojadas das casas agora vazias… O que talvez não fosse má ideia e daria razão a quem escreveu no tapume das obras do quartel-hotel «Casas para quê? Precisamos é de mais hotéis!» Embora o tenha escrito em latim para mais facilmente ser entendido por quem ali passa.
