conversa no café

Conversavam sobre a guerra
e do que aconteceu a uma família arrastada pela lama
com a casa desfeita pela força da torrente.
Interrompia-os de hora a hora
a voz retumbante de Deus
que ia dando indicações precisas para a construção da Arca.
«O comprimento será de trezentos côvados
e a altura de trinta côvados».
O ruído no café tinha aumentado,
todos falavam ao mesmo tempo
e ninguém conseguiu ouvir o resto
mas era qualquer coisa sobre uma abertura
ao alto com a dimensão de um côvado.
Os homens tinham erguido uma torre imensa
capaz de tocar a fímbria dos céus
e tudo o que construíram se desmoronava
os rios corriam em sentidos inesperados
o fogo consumia árvores seculares.
Nos noticiários falavam de cimeiras
que descreviam com precisão
o tempo de que se dispunha para reverter a fatalidade.
Mas os céus rompiam-se de alto a baixo
fazendo desabar sobre a humanidade
torrentes imparáveis
por entre o fragor dos diques e das barragens que ruíam.
No café mal se ouvia a voz portentosa de Deus.
Alguém perguntava quanto media um côvado.
Uma mulher corria para a saída
voltava-se a perguntar
quem podia construir a Arca
e depois ficou transformada numa estátua de sal.
Ninguém a ouviu
ninguém saberia responder-lhe.

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