Está tudo bem!

Está tudo bem. Deixaram de se ver nas ruas os protestos e as manifestações dos ativistas climáticos. A Greta Thunberg anda a pregar por outras paróquias. As cimeiras dos maiores poluidores do planeta tomaram várias decisões (meramente facultativas, aliás) que adiaram o fim do mundo para data a comunicar mais tarde. E nós?  Nós também, como os aldeões da fábula, cansados de acorrer aos enganosos alertas contra o lobo, vamo-nos deixando ficar pelo nosso cantinho, com a boa consciência do nosso lixo reciclado e das compras em lojas de segunda mão.
Está tudo bem então?
Não, não está e nós sabemos bem que não está. O problema aqui é outro e é com esse que temos de lidar antes do mais. Os sucessivos anúncios do fim do mundo, a lista de catástrofes com que somos bombardeados regularmente mais não faz que aumentar o nosso vago vago sentimento de culpa e de impotência. A impressão que nos fica é que diante da magnitude do problema o pouco que está ao nosso alcance não resolve nada. Pode acalmar o nosso sentimento de culpa, mas não resolve nada de forma sensível. E daí a nossa inação, o que – dirá a psicologia básica – pode ser uma reação absolutamente natural diante de um perigo avassalador, como a do animal paralisado, sem capacidade de resposta, diante do predador.

Gostaria agora de citar uma crónica que li há dias, mas francamente já me esqueci do autor. Contava ele que estava no aeroporto com o filho pequeno a tomarem uma limonada por uma palhinha. Aproveitava para uma lição sobre a ecologia, a sustentabilidade, as boas práticas que devíamos adoptar: ao usarem uma palhinha de papel (e não de plástico) estavam a salvar o planeta. E então, como que assaltado por uma súbita iluminação, o cronista deu por si a pensar: eu aqui com esta treta das palhinhas de papel e a seguir vou apanhar um avião que polui mais do que não sei quantas mil palhinhas durante não sei quantos anos. E penitenciava-se da hipocrisia que via na situação.
Não eu. Não é que não perceba a ironia daquilo, mas acho também que é uma boa ilustração da realidade em que vivemos, da dualidade entre a nossa incapacidade para individualmente resolvermos problemas de nível planetário, por um lado, mas também, por outro lado, o que há de motivador e de afirmação de princípio ao adotarmos comportamentos que se traduzam num contributo, ínfimo que seja, para a solução. Reciclar o lixo, preferir materiais pouco poluentes, adotar formas de energia amigas do ambiente, e todo o resto do rosário do catecismo amigo do ambiente, é capaz de ser uma boa maneira de afirmar a nossa disponibilidade para ir mais longe. Se tiver de ser, quando tiver de ser.  Como quem diz: não é por saber que vou voltar a sujar-me que vou adeixar de tomar banho.

Não é com isso (ou só com isso, vá lá) que o aquecimento global deixa de existir. Sabemos que não. Sobre isso não haja dúvidas: 99% dos cientistas empenhados no estudo das alterações climáticas afirmam-no unânimes: O planeta continua a aquecer e as alterações climáticas são causadas pela ação humana. É um facto. Não é uma opinião, como a do outro que acha que tudo isto são fake news. E a Europa está a aquecer  a um ritmo que é o dobro do dos outros continentes. Também é um facto.
O aquecimento rápido traduz-se em mais mortes por razões climáticas, períodos de seca mais prolongados, incêndios incontrolados, etc. etc. E – também inquestionavelmente – só há um remédio para o mal: o corte no excesso de emissões de  dióxido de carbono, gerado sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, que intensificam o efeito de estufa, principal motor da aceleração das alterações climáticas a que estamos a assistir.
Aquilo a que hoje estamos a assistir é uma espécie de trailer com as cenas principais do do filme anunciado: o aquecimento provoca a fusão do gelo polar, que normalmente refletiria de volta para o espaço uma grande parte da luz do sol. O mesmo se passa com a cobertura de neve de uma grande parte da Europa (atualmente 30% inferior à área coberta no princípio do século, aproximadamente o equivalente à área combinada da França, Itália, Suíça e Áustria). O resto já se sabe: subida do nível dos oceanos, erosão das áreas costeiras, inundações… O diabo! Quando começarmos a ter verões com 40 e tal graus vai ser pior.

Também podem ser coisas menos vistosas, mas que não deixam de fazer mossa. Ainda esta semana li a notícia de uma aldeia norueguesa que ficou sem água potável. A fusão do gelo ártico, não muito longe dali, deixou à mostra o solo rico em pirite, manganésio e outros metais pesados, causando a contaminação dos lençóis de água. Até encontrarem melhor solução, tiveram de instalar um tanque de água purificada, filtrada por uma cervejeira local, onde os residentes podem ir abastecer-se.
Não é muito prático. Mas foi o que se arranjou.
Aqui ainda não chegamos a tanto. E mesmo com seca ainda vai dando para regar os campos de golfe. E para acolhermos os cruzeiros de três a seis mil turistas por dia (mais fóssil), e aumentar os aeroportos para recebermos mais turistas (e mais fóssil). Mas… alguém vai deixar de andar de carro, ou de avião, ou… essas coisas que tanto nos simplificam a vida agora, só porque nos dizem que a vão complicar mais tarde?

One thought on “Está tudo bem!”

  1. Posso ser singular, mas não me sinto absolutamente nada culpada pelas alterações climáticas. Sei muito bem quem são os culpados. É contra eles que devemos unir-nos. Quanto aos plásticos, são cinco companhias. Quanto aos aviões, é não ir, como tu.

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