Fomos durante muito tempo o centro do universo. Todos os luzeiros do céu, que iluminavam a Terra, presidiam ao dia e à noite e separavam a luz das trevas e todos os astros, a lua, o sol, tudo girava à nossa volta. E detinha-se o sol no seu curso se Josué assim lho ordenasse, pois que tudo o que fora criado existia sob a dominação do homem. Assim foi durante muito muito muito tempo e provavelmente assim continuaria não fossem as conjeturas de Copérnico, um astrónomo polaco, confirmadas depois pelas observações diretas de Galileu: por mais pesadas que fossem as excomunhões e as prisões da Santa Inquisição, por mais herético que isso fosse, era a Terra que girava à volta do sol e não o contrário.
Não foi nada fácil ao Homem aceitar a evidência deste Mensageiro Sideral e abdicar do seu lugar no centro do universo. Mas ainda que desalojado do seu trono universal, consolava-se com a primazia que continuava a gozar no seio da Criação, feito como fora para encher e dominar a Terra, dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem na terra. Entre todos eles, o homem tinha um lugar à parte. No topo. Distinto de todos os outros animais, o Homem fora criado à imagem e semelhança de Deus, e de certo modo guardava em si uma qualquer centelha dessa divindade.
Assim se acreditou durante muito muito tempo e com isso se alimentava o orgulho e a ideia da supremacia do homem sobre o resto da vida animal do planeta. Até que…
Até aparecer alguém com a ideia de que o homem, afinal, não passava de mais um ramo da imensa e ancestral árvore da vida, partilhando um tronco comum com o resto da Criação. Darwin, e outros cientistas, da época e posteriores, demonstraram com as suas descobertas e observações que tudo aquilo de que nos orgulhávamos e que nos distinguia dos outros animais se devia afinal a um processo de evolução de algumas caraterísticas também presentes nos outros animais. Afinal não devíamos a um especial desígnio do Criador o nosso lugar privilegiado, mas sim a um processo biológico impessoal e independente da nossa vontade. Todos, o homem e o resto da vida animal do planeta descendia de um antepassado comum, todos sujeitos às mesmas leis da evolução. E com isto era desferido o segundo golpe implacável na suposta supremacia humana.
Resignados talvez, mas não vencidos, agarrávamo-nos ainda a um derradeiro reduto da certeza da nossa singularidade e da nossa primazia: éramos apesar de tudo o único ser racional, o único dotado de livre-arbítrio, único dotado de consciência de si mesmo e capaz de decidir de forma consciente.
Mas não. Nem isso. Ou pelo menos não era bem assim: dizia-o Freud que trouxe ao de cima as forças inconscientes que dominam uma boa dose da nossa capacidade de tomar decisões. Freud, e com ele muitos outros, de forma mais ou menos categórica, retirou ao homem essa ilusão de ser puramente racional e totalmente consciente do seu arbítrio. Grande parte da nossa vida mental processa-se antes a um nível profundo inacessível à nossa consciência, regido por medos, desejos e impulsos profundos que nós próprios desconhecemos. Mascaramo-los sob o verniz civilizado das convenções, mas no fundo não passam de racionalizações de pulsões biológicas primitivas (sexuais, de agressão e de outras forças ocultas à nossa consciência) que procuramos passar em contrabando.
Caídos de mais esse pedestal, despejados do centro do cosmos, desalojados do topo da criação, e de nós mesmos assim roubados, víamo-nos despojados da ilusão da racionalidade absoluta que nos garantisse o lugar de supremacia a que julgávamos ter direito, finalmente reduzidos à nossa estreme humanidade, sem nenhuma centelha divina, sem quaisquer outros direitos e privilégios para além daqueles que fôssemos capazes de criar por nós próprios.
Que mais nos poderia ser retirado? Nada!
Nada? Nada, a não ser que apareça no planeta algum tipo de organismo concorrente, que como uma daquelas espécies invasoras que surgem na natureza possa disputar o nosso lugar e até pôr em causa a própria existência da espécie humana.
Não precisa de ser nenhuma guerra dos mundos, travada com alguma espécie vinda dos confins das galáxias como nos filmes de ficção científica. Poderemos inclusive ser nós próprios a criá-lo: máquinas capazes de replicar o que os humanos fazem, como começou por acontecer com as primeiras máquinas inteligentes e os primeiros robôs industriais por exemplo. E mesmo de o fazerem melhor e mais depressa como passou a ser possível a máquinas com capacidades não só de replicação como de adaptação. E mesmo sem a supervisão humana, como começa a acontecer com a chamada Inteligência Artificial (IA). Dotada de uma capacidade de armazenagem de memória ilimitada, com uma capacidade de processar dados à velocidade da luz, com processos de tomada de decisão isentos de emoções – atribuimos-lhe agora a capacidade de aprender melhor e mais depressa do que nós, e de transmitir instantaneamente esse conhecimento a outras máquinas envolvidas no mesmo processo (para nós imprevisível) de aprendizagem. E sem supervisão humana.
Dizemo-nos, para nos tranquilizarmos, que os computadores não têm vontade própria. Os algoritmos em que se baseia a sua tomada de decisões não são mais que uma série de «instruções» determinadas por seres humanos. A «história de terror» que alguns nos contam sobre a tomada do poder pelas máquinas pouco mais é do que uma manobra de desinformação assente na descabida antropomorfização da inteligência artificial. É o que nos vamos dizendo…
Mas… e se não fosse assim? Se, como diz por exemplo Geoffrey Hinton, um prémio Nobel canadiano conhecido pela sua investigação no campo das redes neuronais artificiais, existisse a possibilidade (probabilidade?) de a tecnologia da inteligência artificial se tornar capaz de se aperfeiçoar a si própria sem intervenção humana? É o que pode acontecer através de um processo conhecido como «autoaperfeiçoamento recursivo», ou seja uma capacidade automática (e imparável!!) de investigação e desenvolvimento, que a certa altura poderia, por exemplo, permitir a um único «investigador» dirigir uma «equipa» equivalente a milhões (milhões, note-se bem) de investigadores humanos de topo. Note-se que atualmente a IA produz já 80% do seu próprio código.
Sabendo nós que todo este ciclo de investigação e produção da IA está nas mãos de uns poucos países (governos), e de meia dúzia de empresas (empresários), com interesses e projetos em grande parte contraditórios, como confiar que todo o inimaginável (e maravilhoso, há que dizê-lo) potencial da IA será posto ao serviço da humanidade, de toda a humanidade?
Andei a respigar dados aqui e ali por todos os cantos da internet, a ler pela rama artigos e mais artigos que nem sempre entendia plenamente e para dizer a verdade saí desse labirinto informático com mais dúvidas do que outra coisa. O controlo do desenvolvimento da IA é provavelmente uma ilusão. Não há aqui nenhum travão. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no caso do desenvolvimento da energia nuclear e das armas nucleares, em que ainda funciona (até certo ponto) a dissuasão e a chamada «lógica MAD – Mutual Assured Destruction” (se duas potências têm capacidade para se destruirem totalmente numa retaliação, nenhuma delas tem um incentivo racional para iniciar um conflito). Sem isso, adverte a encíclica “Magnífica Humanidade” escrita por alguém atento a esta questão, matemático de formação e atualmente Papa da Igreja Católica, «Se a técnica passar a ser o critério absoluto, a pessoa humana corre o risco de se ver reduzida a meros dados num processo, a uma peça de uma engrenagem ou a uma mercadoria.»
Seria esse também, depois daqueles que Freud apontou, o derradeiro golpe no narcisismo humano, o último pedestal de onde o homem poderia cair.
