uma visita…

Quem esteve cá ontem foi a Lúcia. Trazia uns versos que tinha feito e que queria que eu pusesse aqui. Dizia que tinha a ver com muitas das coisas de que o blogue tem falado e… já agora… Deixou-me (mandou-me) pois os tais versos. Li-os: desconhecia-lhe este tom grave e um tanto sentencioso, longe da ligeireza que lhe vejo no resto da vida. Que havia eu de lhe dizer? Ainda não aprendi a dizer-lhe que não a nada. Aqui ficam, portanto, os versos da Lúcia (Lúcia Lima, como ela quer que eu os assine)

O sobreiro grande

Diziam-me que pelos círculos do tronco se podia saber a idade das árvores.
Mas eu media-a pelas vezes que passava por ele.
Muito cedo, ainda os meus pais dormiam,
pairava uma névoa esgarçada na manhã fria,
eu acordava já alvoroçada para ir ver
as marcas deixadas pelos porcos bravos
que vinham fuçar à volta das raízes, 
coçar-se nas cascas ásperas do sobreiro 
e comer as bolotas que tinham caído durante a noite.
Passei a mão pelo tronco rugoso: Foi a primeira vez 
e foi como se a árvore nascesse para mim.
Outras vezes viriam que iam contando os anos, 
e era assim que sabia a idade dela.
Havia os ramos, as folhas cerradas, a sombra, os pássaros,
mas era aquele arranhar na mão
o que eu sempre mais lembrava.

O sol crestava os fetos e as silvas do caminho
um zumbido surdo à mistura com a cegarrega das cigarras
indistinto sem passar a barreira
dos pensamentos que ali me levavam.
Não sabia se ele lá estaria – promessas de rapazes, dizia eu,
a preparar-me para tudo o que pressentia 
no canto pausado da poupa,
no leve acenar dos caniços ao fundo do campo.
Descalço, à sombra do sobreiro, encostado à casca rugosa
que ainda me mordia a mão e as lembranças,
reconheci-o então, de costas para o carreiro para não me ver chegar,
a esconder a sua agitação.

Moro agora há muito noutro lado, entre gente que mal dá por mim,
longe da casa do sobreiro grande, das noites à janela a espreitar
os segredos dos bichos que só saem pelo escuro.
Há dias veio cá a minha filha trazer-me as mudas de roupa
e notícias desse mundo que mal consegue assomar
à porta já meio fechada da memória
por onde entram e saem as sombras de mortos e vivos,
indistintos uns e outros.
Tinham cortado o sobreiro grande, 
iam lá construir uma coisa nova.
O cepo meio enterrado entre as ervas 
e o entulho das obras confirmava ainda 
com os secretos anéis enfim à mostra
os muitos anos que tinha vivido.
Por entre a névoa que cobre o passado e as memórias
foi como se sentisse ainda a carícia da casca rugosa.

2 thoughts on “uma visita…”

  1. Mha costat una mica de llegir. El portugués no és pas tan fàcil com sembla per a un català. Però m’ha agradat. Gràcies, Zé. ________________________________

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