Um bairro para vir ver

O bairro da Graça em Lisboa é um bom bairro para vir ver. Há o mosteiro de São Vicente, há a feira da ladra, há o convento da Graça (a que os hotéis Sana se aprestam a deitar a garra para o hotelizar); há, aqui perto, o castelo, há muitos miradouros e esplanadas. E o que é bom é para se vir ver.
Também já foi um bom bairro para viver. Tinha lojas que serviam as necessidades dos moradores (e que já se foram, comidas pelos alojamentos locais e as lojas de suvenires), tinha cafés e esplanadas com outras coisas além dos brunches, matchas, açais, suchis e outras especialidades ao gosto que é agora o dominante. Tudo em inglês.
E é pena, haveria lugar para tudo: para turistas e para moradores. Era preciso é que o equilíbrio entre uns e outros não fosse abafado por esta onda avassaladora, que tudo quer e tudo pode. E que não pusesse os moradores a andar daqui para fora que é o que está a acontecer. O bairro não estica e para uns se alojarem, outros terão de se desalojar. As casas não esticam e para uns poderem gozar os seus 2-3 dias de alojamento local, há que desalojar os locais para os bairros da periferia onde (ainda) há casas que não andam nos anúncios da internet.

Mas não há casas na Graça? Livres, disponíveis, para arrendar? Ele haver há, mas…
Vejam-me a Rua da Graça, por exemplo. Uma rua central do bairro, que vai do Largo de Sapadores ao Largo da Graça, até ao nº 164 nos pares; até ao 135 nos ímpares. Rés do chão quase todos ocupados por lojas, provavelmente à espera do ultimato final, como me disse um lojista com quem falei. Alguém que ali passe é isso que vê: lojas, quase todas antigas, restos de um passado em vias de extinção. Mas se algum desses alguéns levantar os olhos acima do rés do chão…
Foi isso que fiz, dei-me ao trabalho de contar as casas, os andares de cima: vazios, emparedados, vidros partidos, janelas eternamente fechadas. Passo por ali pelo menos duas vezes ao dia e não posso deixar de reparar: a rua da Graça está desabitada, está ligada à realidade apenas por esse fiozinho precário das lojas ainda sem guia de marcha e à espera. 
Parto de Sapadores, começo pelos números pares: nº 14 – 3 andares vazios; nº 36-38: 2 andares vazios; nº 68: com 3 andares, dois deles fechados; nº 72-74: primeiro andar fechado; nº 80: prédio com 4 andares em bom estado, todos fechados desde que foi vendido há anos; nº 86-88: farmácia no r/c, para cima todo fechado; nº 90: oculista no r/c, o resto abandonado; nº 94-96: a cair, tudo vazio; nº 110: andares de cima vazios; nº 138-140: andares de cima vazios; nº 152: r/c lojas, os andares entaipados ou antes entijolados; nº 154-158: três andares sem ninguém; nº 164: três andares desabitados. Chego assim ao Largo da Graça. Do lado dos ímpares é a mesma coisa, ou pior, mas fico-me por aqui. Um dia que por aqui passem, levantem os olhos acima do rés e verão.

Nisto – e não me digam que não há coincidências engraçadas – reparo que numa esplanada do largo está sentado o nosso Primeiro Ministro, a tomar o seu açai matinal. Como está, como não está, surpresas e cumprimentos e conto-lhe a contagem que acabara de fazer. Ficou espantadíssimo, não fazia ideia. Perguntou-me se lhe dava licença que apresentasse estes dados no conselho de ministros dessa tarde. Disse logo que sim. Sei muito bem como estes dados concretos, arrancados da realidade, escapam às estatísticas oficiais. E os fundos de investimento, os vistos gold, os artimanhosos das baldas fiscais também não se dão ao trabalho de os comunicarem às autoridades fartíssimas de saber que é assim.
Não sei se o nosso Primeiro estava a falar a sério, aliás, não sei sequer se ali estava. Mas uma coisa é certa: a Rua da Graça é só o sintoma; a doença vai avançada, o bairro morre aos poucos e a terapia adotada apenas agrava os sintomas.
O êxodo (forçado) dos locais é compensado pelo alastramento da turistificação do bairro: lojas para turistas, atrações para turistas, mercados quase diários para turistas. O turismo ocupa praticamente todo o espaço público. Tudo em inglês. 

Num raio de poucas centenas de metros projetam-se três grandes hotéis: o antigo Hospital da Marinha transformado em hotel, já quase concluído; o Convento das Mónicas com a sua quinta está a iniciar as obras que nos deixará com mais um hotel de luxo; o Convento da Graça, ultimamente Quartel da Graça, prepara-se para passar a Hotel Sana, se ninguém parar a senda insana em que está lançado. Falamos de hotéis, mas na realidade é também toda uma dinâmica que se está a alterar, trazendo mais carros, mais turistas, mais tudo o que é estranho a um equilíbrio já de si precário, uma vizinhança, uma história que assim desaparecerá para sempre.

Aqueles andares vazios da Rua Da Graça, são no fundo a parte visível de uma realidade escondida aos nossos olhos: a rua foi sendo vendida aos bocados a investidores que apenas esperam o momento do bom investimento. Temos já um exemplo: há pouco a pastelaria Central da Graça, uma das poucas que escapava à praga dos brunches para turistas, foi posta a andar dali e todo o prédio, de vários andares, foi transformado em Residences de luxo (“O luxo é mais do que um estado de espírito, é um estilo de vida”, diz o anúncio), onde certamente não irá morar nenhum dos locais que daqui são chutados.

A Graça continuará por muito tempo a ser apenas para inglês vir-ver; mas não para o português viver.

Post scriptum: os dados sobre as casas vazias são colhidos da realidade, não são inventados. Posso ter-me enganado num caso ou noutro, mas quanto ao resto basta passar lá e ver. Aquilo do Primeiro Ministro é que não foi bem assim, tenho de admitir. Muito provavelmente confundi o nome ou a pessoa. E é pena, são coisas que os ministros deviam vir-ver.

3 thoughts on “Um bairro para vir ver

  1. Para além desses prédios e andares vazios “à espera” temos os outros “investimentos”: prédios de onde foram despejadas famílias, que foram arranjados, mas que estão vazios há anos. Pertencem a fundos de investimento? A pessoas individuais?

    Liked by 1 person

Deixe uma resposta para António Araújo Cancelar resposta