Era já quase um ritual: ele, o Manel Resende, fazia anos e eu mandava-lhe um poema a fazer de prenda. Faria hoje 78 anos. Não vejo razão nenhuma para descontinuar essa quase tradição. Só que em vez do poema de outro poeta vai aqui um dele, de que provavelmente já se teria esquecido mesmo que por cá andasse. É um poema que escreveu na brincadeira, logo a começar pelo título «Carta em Berso».
Vai já, mas deixem-me antes dos versos explicar um bocadinho o que lhes está por trás.
Durante uns anos o Manuel Resende trabalhou como tradutor na União Europeia, em Bruxelas. Aquilo quase não eram traduções – uns textos áridos, numa escrita de amanuense, onde obviamente não cabiam metáforas nem a bem dizer adjetivos: regulamentos, memorandos, atas, diretivas, documentos para as reuniões com que se construía a Europa, diziam eles. Cada documento retomava um anterior e por isso a maior parte das vezes ao pobre do tradutor não cabia mais que catar as diferenças entre um e outro. Tão assim era que ao pobre do Manuel Resende, que devia ter a cabeça noutro sítio bem diferente, lhe devia parecer que quando o documento lhe chegava às mãos era como se a tradução já estivesse feita antecipadamente. E tão assim lhe parecia que decidiu propor uma mudança de método ao coordenador, ou coordenadora, que lhe destinava a tarefa: que enviasse a tradução que ele, o Manel, lhe mandaria o original.
Então não haviam os poetas de poder brincar também? Como todos nós, afinal. Claro que sim, brincam pois. Mas em verso, ou, como é o caso, em berso.
Apareceu-me este divertissement do poeta, que não consta da obra conhecida dele, no meio de uma papelada que andei a arrumar estes dias, e de que já nem me lembrava. E acho que calha bem para lembrar a data.
Mas há na obra do Manuel Resende outros exemplos deste género de humor desconcertante. Estou-me a lembrar de um poema em que ele, numa Grécia a ressumar História e mitos e grandezas, encontra um pastor que desata a falazar do que entendia que aqueles estrangeiros podiam entender, dos alemães, das casas destruídas, do penar, da morte, sem entender que onde eles tinham a ideia, isso sim, era nos figos ali perto que eles queriam roubar.
Nestes bersos, ainda assim, falava de uma coisa menos séria (seria?), e mete uma cotovelada ao Pessoa, a catrapiscar a cumplicidade, para a partida que tinha imaginado pregar .
Tomem lá do Manel Resende:
Carta em Berso
Ao/À Coordenador/a
Tradutor é fingidor!
Finge tão completamente,
Que vem a ser o autor
Do texto que tem na frente.
E os que lêem o que traduz
Sentem, na versão final,
A bruxuleante luz
Que falta ao original.
Para encurtar, pois, razões
E facilitar-me a vida,
Dás-me já as traduções,
Dou-te o texto de partida.

Muito obrigado, meu caro Zé Lima. Um grande abraço Zé Paulo
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QUerido Amigo Bela amizade. No teu blogue não é fácil o gostar: deriva para coisas . Não vou até ao fim. Abraço
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Obrigado!
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