uma história mal contada

Depois de Vasco da Gama voltar da sua grande viagem não tardou a que os fumos da Índia se espalhassem por todo o Reyno por entre lendas e lérias sobre as terras mirabolantes da canela e da pimenta onde para fazer fortuna quase bastava a quem ousasse a travessia pouco mais que estender as mãos. E com isto crescia a cobiça e os sonhos de tantos que não tardariam a deixar despovoada a nação. E ei-los que partem, novos e velhos, em revoadas sucessivas, que não tardariam a povoar as longes terras que já dos longes de onde iam lhes cheiravam a pimenta e cravo e gengibre e cardamomo e sândalo, tamarindos açafrão, e o ferro, o arroz, os cocos, as pedrarias, as porcelanas, os benjoins, os panos de Kambai, de Chala, de Adém, os sinabafos de Bengala, a que um dia chamarão Bangladeche, o cobre, o azougue, a seda, o almíscar e tudo o que aí chegava de todas as terras da Arábia e que todas as terras do mundo aí iam buscar, e os brocados, os chamalotes e tudo quanto Veneza mandava da Europa, que tão longe afinal lhes ficava.

E como todas as vagas de emigrantes, de todos os tempos e de todos os lugares, espalham-se por toda a parte, pela Pérsia, por todo Industão, do Indo ao Ganges, e pela Indochina. A tudo se agarram e tudo lhes parece a porta por onde deixar a vida sem horizontes que traziam de trás. Hão de vê-los nas imensas extensões dos arrozais, na apanha do abacate e dos mirtilos, ou nos rios e na costa na apanha dos bivalves, ou no comércio das recordações turísticas, das lojas de telemóveis, nas ruas das cidades mais populosas em bicicletas ou no que for, a distribuir comida ao domicílio, em tuk-tuks e em táxis a conduzir turistas pelas curiosidades das cidades que também eles ao mesmo tempo vão descobrindo. Enquanto vão abanando a árvore das patacas que lhes permitirão um dia mandar vir a família que deixaram longe ou voltar abonados com o suficiente para fazer uma casa de alvenaria e comprar uma leira ao vizinho. Até depois aprenderem a língua, os usos e os costumes, até se fundirem na amálgama indistinta que forma a massa indistinta de povos e costumes e línguas que é afinal a comum humanidade a que todos pertencemos.
Chegados aqui, já alguns dos que isto lêem começarão a tropeçar no emaranhado de anacronismos e de tantas piadas fáceis e a pensar que foram levados ao engano. Mas não, que isso logo de início ficou avisado que era esta uma história mal contada. Muitas outras haverá que contarão o mesmo de maneira muito diferente. Com outros pontos acrescentados aos pontos com que a vera História se cose. 

Olhem, por exemplo, o Oliveira Martins, para não ir mais longe. Também ele, na sua História de Portugal (1ª edição, 1879), que passo a citar, se pôs a contar a gesta desses assinalados barões dos anos de mil e quinhentos. E tudo aí muda de tom.

São os mesmos os fumos da Índia, as maravilhas que o Gama traz e conta. E é o mesmo o fascínio e a cobiça e o desejo de lá voltar. Mas desta vez para colher o que o sonho semeou. 
O rei D. Manuel e os seus conselheiros tinham para a Índia um plano só: explorá-la e arrastar para Lisboa, por quaisquer meios, as riquezas do Oriente. E para isso iam agora as naus bem armadas. Partiam à conquista do que tinham descoberto, e que queriam agora trazer para Portugal, para casa. Viriam os rubis e as esmeraldas, a pimenta e a canela. Portugal inteiro embarca para a Índia nas esquadras do Gama e de Cabral.
Ainda antes de chegar à Índia encontram uma nau de mercadores árabes que iam ou voltavam de Meca e que, além da tripulação trazia 240 homens, passageiros com suas mulheres e filhos. «Era isto no dia 1 de outubro de 1502, de que me lembrarei toda a vida!, escreve o piloto horrorizado ao recordar como a nau foi cobardemente incendiada com todo os que continha e morrem desasperados no fogo ou no mar, depois de sacarem mais de 12 mil ducados e pelo menos 10 mil de fazenda, fizemo-la saltar com os passageiros por meio e pólvora».

Era este o visto de entrada e o aviso que os portugueses faziam como que a prevenir do que havia de seguir. 
Chegados à Índia logo foi intimado o rajá a expulsar todos os mouros, também os principais concorrentes no comércio das riquezas locais. Como o rajá recusou, e como ao fundear o capitão apresara um número considerável de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e, amontoados num barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta à recusa do aflito príncipe. Começou logo o bombardeio. A cidade ardia outra vez. As curtas lanças e as setas dos indígenas não podiam medir-se com as granadas (pelouros) despedidas de longe, de bordo das naus.
Tendo (isto mais tarde) o Gama partido da costa de Malabar, deixou por ele Vicente Sodré a tratar da fundação da feitoria. Mas a ele pouco se lhe dava a feitoria e a abandonou para ir ao corso das naus de Meca: era trabalho de mais proveito e menor risco piratear de parceria com a coroa portuguesa nas costas de Adal e da Arábia à embocadura do Mar Vermelho. O produto das naus de Meca pertencia metade ao rei de Portugal, metade às tripulações. Vicente Sodré andava nisto, ao mesmo tempo que Rui Lourenço por sua conta e risco varria a costa de Zanguebar, caçava navios e cobrava tributos aos sultões.
O temível e temido Afonso e Albuquerque (já mais tarde) avançava pelo novo continente no meio de um coro de aflições e mortes, precedido por uma coluna de incêndios, para que ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os ânimos na abjecção. Assim ia ao longo da costa da Arábia assolando e devastando todos os lugares vassalos do suserano de Ormuz. Em Karayât (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e mutilados, anunciar por toda a parte a fama do seu poder.

Não conto mais, que não é isto leitura amena (mas também nem tudo é assim desta cor tão negra…). É assim que Oliveira Martins resume essa vasta campanha em que entre perigos e guerras esforçados os assinalados barões de quinhentos tanto dilataram a fé e o Império: « A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do domínio português, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a pimenta. Eis o principio fundamental, o cuidado superior do rei e dos seus governadores da Índia: D. Manuel perdoava tudo, os crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incêndios e as piratarias, contanto que lhe mandassem o que ele sobretudo ambicionava; curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paços de Lisboa e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnífica embaixada.»

Não quero com isto dizer que esteja bem contada a história como Oliverira Martins a conta. Alguns historiadores de tempos mais recentes mostram-se muito críticos em relação ao uso que ele faz das fontes, ao enviesamento dos critérios que segue, aos métodos de investigação (ou da sua inexistência) que segue na sua História. Mas disso não saberia eu falar.
Se aqui o chamei à pedra foi só porque calhou andar a ler precisamente a sua “História de Portugal” que talvez ganhe em brilho literário o que possa perder em rigor científico. E lendo-o ia-me deixando impressionar pelo que têm de diferente as versões que se contam, que contamos, consoante o lado onde se encontra o contador e consoante os que ouvem as histórias.
Há por aí muita história mal contada, é o que é.

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