a primeira baixa

A primeira baixa foi uma pequena cerejeira: quase brava, quase mirrada, há anos que vivia uma vida resignada numa espécie de canteiro diante do que sobrevivia do antigo quartel da Graça. Nada de ramarias frondosas, não havia nela nada de exuberante e mesmo os frutos nunca chegavam a ganhar aquele rubro rutilante das cerejas dos anúncios e dos desenhos das crianças: antes esverdeados, agros, só a passarada dava por esse arremedo de cerejas e, mais por desfastio, lá as ia debicando à falta de melhor.
Mesmo assim, ao vê-la agora mutilada, toscamente decepada, sinto a falta dela, daquela presença apagada, feita da tristeza mansa, vegetal, que se calhar lhe vinha da proximidade com a aridez militar que seca à sua volta tudo o que é vivo.

O Hotel partiu à conquista do Quartel e a pequena cerejeira é assim a sua primeira baixa. 
É uma morte figurada, diria, quase um símbolo e pouco mais. Provavelmente ninguém se lembrará mais dela e se calhar nem a pouca lenha que restou será de algum préstimo para quem quer que seja. 
Talvez que a única memória que dela restará sejam as fotografias com a fachada do Quartel usadas nos cartazes contra a venda do Quartel e do Convento da Graça ao Grupo Sana, donos já de uma série de hotéis na cidade e com uma longa história de voracidade e negociatas que até aos Panama Papers chegou. Mas isso… A quem pedir contas? Os grupos financeiros fazem o que sabem fazer e aquilo para que existem. Se alguma coisa de vital para o comum dos mortais é arrastada nessa voragem, mais valeria ir pedir contas a quem lhes abre as portas, os acordos, as leis. Que é o que tentou fazer (e ainda tenta!) uma parte da juventude daqui do bairro. Organizaram-se num pequeno movimento (“hotel-no-quartel”), promoveram assembleias e reuniões, marchas, comícios e tudo o que havia à mão para tentar acordar a gente do bairro para o que aí vinha. As primeiras assembleias foram bastante concorridas. Apareceu gente, e gente variada, e começaram a formar grupos de trabalho para levar a empresa avante, o protesto pela ocupação desenfreada dos espaços públicos do bairro. Há um grupo que estuda o ângulo jurídico da questão (a concessão à Sana tinha caducado sem que as obras fossem iniciadas); há um grupo de contactos com a Câmara, a Assembleia Municipal, a Junta de Freguesia e todas as outras portas onde seja possível ir bater; há grupos que colam cartazes e procuram informar a população e as associações populares (quase todas em estado comatoso, diga-se aqui entre nós). E ao mesmo tempo iam-se desenhando projetos (mais propriamente sonhos) para a ocupação do quartel uma vez devolvido à população – centro cultural, creche, cinema, teatro, atividades culturais… Todos sabemos como é quando se põe a funcionar esta etérea constante da vida, sobretudo quando tão pouco concreta e definida como neste caso. A frequência foi rareando, a pedalada foi abrandando – porque também essa é uma lei da vida, quando nos é pedido mais do que o normal quinhão da participação numa manifestação, numa petição, na fugaz indignação.

Às portas onde vão bater dizem-lhes o que são capazes de dizer e que é sempre pouco e vago. Todos querem e prometem “dar voz à juventude e aos seus sonhos, às legítimas aspirações das populações, à necessária restituição dos espaços públicos à Pólis para que deles o povo possa usufruir”. Isto tanto é assim na Graça como no resto da vasta desgraça que se abateu sobre Lisboa desde há muito. Mesmo aqui a poucos metros, o que foi o Hospital da Marinha é já uma amostra em estado avançado do Hotel que aí está a ser instalado (com umas cérceas levantadas, com uns acrescentos de pormenor e tal, mas de que ninguém dará conta, porque não há contas a dar a ninguém, essa é que é essa). A poucos passos, começam já as obras para o próximo (gigantesco) projeto de um hotel que irá ocupar o que começou por ser o Convento das Mónicas que foi há muito das religiosas de Santo Agostinho – dedicado a Santa Mónica, daí o nome – e que depois passou a casa de correcção de rapazes, depois a casa de correcção e cadeia das mulheres. Que uma tal dose de clausura e de cadeias venha a redundar em quartos de hotel não deixa de ser uma daquelas ironias da História como a que reservou destino semelhante ao palácio da Casa de Bragança na Baixa de Lisboa que serviu de cenário às torturas e humilhações aí infligidas pela Pide durante anos e anos.
Depois do hotel feito quem se lembrará do que fica para trás? De como foi completamente alterada a dinâmica e o tecido social daquela parte da cidade, dos negócios e negociatas, das informações sigilosas e privilegiadas que para sempre ficarão no segredo daquelas paredes espessas? Uma coisa é certa: tudo será feito na “conformidade das leis, com a auscultação dos legítimos anseios das populações e dos seus representantes” («legitimamente eleitos», imperioso é acrescentar). E se as leis não se ajustarem ao que delas se pretende (já negociado e vendido e concedido que foi o projecto, já transformado em “legítimas expectativas dos investidores”) não hão de faltar por aí escritórios de advogados, facilitadores de negócios, lóbistas mais ou menos creditados, sempre capazes de lhes dar a volta que as há de levar ao sítio (às leis, entenda-se).

Penso nisso ao ler a última convocatória da gente do movimento contra o hotel, a dar contas das últimas ações realizadas, a lançar a ideia de «criar laços com as coletividades do bairro e organizar almoços comunitários conjuntos». E deixa-me isso quase com vergonha da minha falta de fé (e de pedalada!)
E também me faz pensar na triste da cerejeira de que comecei por falar, agora despojo inútil de uma guerra vã, símbolo involuntário da mansa submissão com que tudo isto se passa.

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