Gaza onde não há pão…

Não há como escapar, não há por onde escapar, de uma maneira ou de outra o dia a dia de Gaza em agonia insinua-se no nosso dia a dia. E com isso começamos a entrever a resposta para a pergunta que tantas vezes nos pusemos a propósito de outros tantos crimes igualmente tremendos praticados diante dos olhos de toda a gente: como foi possível? Agora sabemos. Só não sabemos o que havemos de responder quando a pergunta nos for feita a nós. E não poderemos dizer que nada sabíamos. Ainda que a queiramos ignorar, a questão de Gaza vem ter connosco, dia a dia, às vezes da maneira mais inesperada.

Ainda há pouco, numa rua perto de mim. Ia eu a descer da Graça para Lisboa e às tantas reparo em duas meninas dos seus vinte e tal ocupadíssimas a rasgar e a arrancar uns cartazes com que certamente embirravam. Quando me aproximei vi que era um cartaz de uma manifestação pró-Palestina. Não resisti a tentar perceber a razão de tal raiva. Em inglês, disseram: «Somos israelitas». Para elas seria razão bastante e talvez achassem que também para mim o seria. «Mas porquê arrancar os cartazes? Em Israel não há liberdade de expressão?» O que eu fui dizer! Saíram-se com um um «Fuck them all», que não sei como hei de traduzir, mas não deve ser coisa doce. Nesse momento um rapaz que tinha ficado afastado a filmar a ação do comando aproximou-se e disse-lhes «Vamos embora». E foram-se dali com a missão cumprida.

O ódio é uma emoção complexa que não se deslassa com boas palavras, que convoca forças profundíssimas e avassaladoras que dominam por completo os que se deixam possuir por ele. E que ao mesmo tempo arrasa tudo o que lhe surge de permeio. Entre as vagas do mar de ódio justiceiro de Israel e a rocha do ódio cego do Hamas, não há espaço para a vida. Quando tal mar bate em tal rocha quem sofre é quem está de permeio, e que não tem escolha. Gaza não é mais do que o peão de um xadrês que ninguém pode ganhar. Nem parar.

O que há a dizer já foi dito. Seria agora a hora de fazer o que há a fazer. E é daí que nos vem esse sentimento de impotência, de culpa, de indignação e de impotência, de pensar que não podemos, nós, fazer nada.
Pode exigir-se ao Hamas a libertação imediata e incondicional dos reféns cobardemente raptados na incursão de 7 de outubro de 2023. Não é possível pactuar com um crime destes e muito menos aceitar que o resultado desse crime seja agora usado como uma arma. Isso deveria ser indiscutível. Mas poderá discutir-se com o fanatismo cego e surdo?
Pode exigir-se a Israel o fim imediato da matança que o exército prossegue inexorável e indiscriminada contra a população de Gaza. Isso deveria ser indiscutível. Mas poderá discutir-se com tamanha cegueira e surdez ao que há de mais elementar na nossa comum humana condição?

Falei aqui há tempos de uma discussão com uma amiga minha sobre os dois pesos e duas medidas com que normalmente é tratado Israel (https://ze-lima.blog/2024/04/10/dois-pesos-e-duas-medidas/) E de como concordei com ela: Somos mais exigentes com Israel, é verdade. Em nome dos valores que partilhamos (ou dizemos partilhar, e que usamos como argumentos na defesa de Israel). E sobretudo, sobretudo, era o que eu lhe dizia, porque ao criticar Israel tínhamos a noção de que havia a possibilidade de mudar o seu comportamento. Havia a possibilidade de corrigir os seus erros – havia em Israel instâncias, instrumentos capazes de dar ouvidos às críticas. O que não acontece em relação ao Hamas. Havia também em Israel vozes que se levantavam e se faziam ouvir, as vozes dos justos, como dizíamos. 

Havia – mas ainda haverá?
Talvez haja. Ainda há em Israel quem seja capaz de dizer: «Basta. Já matámos o suficiente. Já destruímos o suficiente» e que defenda o direito dos  palestinianos a viver no seu próprio estado, como o fez há pouco Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel antes de Netanyahu, numa entrevista publicada no Expresso (22/8/2025). E quase todas as semanas nas ruas de Telavive tem havido manifestações a exigir o fim da guerra e a demissão de Netanyahu. Serão afinal antissemitas os milhares de israelitas que se manifestam em Telavive, como têm sido consideradas por vários governos cúmplices de interesses inomináveis as inúmeras manifestações em toda a Europa e um pouco por todo o mundo a defender os direitos dos palestinianos? 

Quem ainda hoje questiona o silêncio e a cumplicidade com que grande parte da Europa assistiu às perseguições nazis contra os judeus da Alemanha e da Europa, não pode aceitar o mesmo silêncio e cumplicidade diante dos crimes que se cometem em Gaza. 
Em nosso nome não, há que dizer. 
E há que não nos deixarmos enredar em discussões especiosas sobre que nome dar ao crime: se genocídio, se limpeza étnica, se retaliação desproporcionada, se… O que quer que se lhe chame, é um massacre, uma matança, um crime. Não se trata de uma guerra de palavras entre juristas. Não se trata de um crime que se possa apagar apagando a palavra que o condena.
Isso talvez seja o que acreditam os que andam aí (não sei se serão os do comando que vi a rasgar cartazes…) a apagar as palavras de que não gostam nas paredes de Lisboa.
***
Mais um acrescento: se tiverem ocasião, leiam também um texto aqui publicado há tempos, que parece que não vem a propósito, mas vem : https://ze-lima.blog/2024/02/06/esta-voz-nao-me-sai-da-cabeca/

7 thoughts on “Gaza onde não há pão…

  1. Caro José Lima,
    Concordo inteiramente com as suas palavras sobre a continuação criminosa da destruição de Gaza e da sua população civil.
    Um abraço.
    António


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  2. Comemntário a propósito, um poema:

    Na senda de Josué

    O Livro diz que à passagem de Josué

    ficavam de pé apenas as cinzas e um sapo

    vesgo a cuspir cascas de pevides

    no alto da colina. E o resto são palavras,

    palavras & palavras sem sentido.

    Porque tu não gostas de leite de cabra, ó Israel,

    nem de azeitonas, perdeste-lhe o gosto, à frente

    mandas o Josué, sempre à frente vai o Josué

    das sandálias ferradas, arrasa, cilindra, aplaina,

    limpa as ervas daninhas, estevas, cedros e beduínos.

    Do rio até ao mar. E nem os mortos contas.

    E como contam, pois se já estavam mortos

    quando ele partiu de Kiev e de Brooklyn e de Kiev

    e de Sidney e de Brooklyn, vindo do futuro?

    Nem das laranjas do pomar, nem do peixe

    bíblico, não, de fruta e peixes não queres saber, Israel.

    Só o espaço para ti conta, a terra amarela e seca

    do pergaminho. Para implantares a tua Nova Jerusalém,

    a Europa de vidro e aço.

    E nela te miras e remiras e rejubilas, ó Israel,

    no repetitivo, monótono & assassino resplendor do mundo.

    Cálculo & usura, sangue & arame farpado.

    O tempo, o teu tempo, também o perdeste,

    a cabra magra & o fio de água

    que faz da oliveira e da mão que lhe fala

    o mel prometido e o leite.

    E não devia ser assim, Israel, porque tu és Israel

    e eu li o livro, vi o filme com o Paul Newman

    e as estrelas de Hollywood e sonhava

    ser o pioneiro Sal Mineo no kibbutz.

    E nesse ano vieram os massacres e as guerras

    coloniais das Áfricas & da Ásia e o meu mundo

    partiu-se em dois

    gritos & mortos que nem no sono se calam

    e hoje sou velho e não sei o que seja a paz,

    nem tu, ó Israel, porque nunca a quiseste.

    Carlos Leite

    (Aigina, 6/08/2025)

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  3. Do zé carlos marques, chegou este comentário (mas por email.) Como me reconheço na amargura dele, quis transcrevê-lo aqui também:

    Tens razão. Também eu acordo todos os dias com desgosto de viver num mundo como este.

    O nosso sonho era tão diferente!

    Há muito que este conflito (e outros) tinha revelado a impotência das Nações Unidas, mas agora é o cúmulo.

    Pensando bem, que se poderia esperar quando se pôs o lobo (o conselho de segurança) a guardar o rebanho?

    Espero que continues a escrever tão luminosamente.

    Grande abraço

    E já agora: quem isto ler não deixe de ler também o grande poema que o Carlos Leite mandou como “comentário (mais acima).

    zé lima

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