Acabada a guerra de Troia, ao fim de vinte anos, Ulisses voltou a casa. Disfarçado de mendigo, triste e idoso, sobre os ombros lançou o miserável alforge, cheio de buracos, dependurado de uma corda torcida, empunhando um bastão que o porqueiro Eumeu lhe oferecera. Ninguém o reconheceu. Ninguém? «Um cão que ali jazia, arrebitou as orelhas. / Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio / criara… / Ali jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente; / jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas, / Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães. / Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto, / começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas; / só que não tinha já força para se aproximar do dono.»
Aconteceu isto há quase três mil anos e é com estas palavras (aqui citadas na tradução de Frederico Lourenço) que o aedo Homero faz entrar na literatura ocidental o seu primeiro cão e já a decantada fidelidade que lhe há de ficar colada ao pêlo. O cão e a sua proverbial fidelidade nunca deixará desde aí de ser glosada das mais variadas maneiras em parábolas, fábulas e livros de todos os géneros. Tem alimentado as mais estafadas metáforas e serve até de ilustração a marcas comerciais. No cinema então nem se fala: todos conhecem a Lassie, ou o quase humano Inspetor Max, e uma enfiada de outros cães feitos à nossa imagem e semelhança que entretém as tardes de domingo das televisões de todo o mundo. Acabou por ir dar às histórias piegas ou edificantes ou muito fofinhas dos filmes de animação e até à banda desenhada, onde destaco (não posso deixar de o fazer) o meu preferido Ran-Tan-Plan (não confundir com Ri-Tin-Tin!), com quem, à medida que os anos vão passando, cada vez mais me identifico.
Rafeiros ou de raça, vadios, caçadores, cães de circo, cães de combate, reais ou imaginados, seja como for, não hão de faltar cães a saltitar por essa literatura fora e pelos tempos fora. Quase sempre a roer os ossos dos lugares comuns de que se alimentam, quase sempre colados à imagem dos humanos que lhe servem de molde. Assim é o Nero dos «Bichos» que Miguel Torga nos legou na arca de Noé que procurou mobilar com todo o tipo de bicharada – velho e desprezado como o Argos do Ulisses, mas talvez atanazado por menos carraças, e por bem mais chavões e os estafados predicados que acompanham a espécie desde a sua criação. Valha-nos ao menos o O’Neill e a matilha que ele lançou à solta no digamos assim poema feito de cães: «cão ululante, cão coruscante, / cão magro, tétrico, maldito, / a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, / cão disparado: cão aqui, / cão além, e sempre cão». Ainda com um verso para o cão estouvado de alegria, até ao verso final a enxotá-los todos: «Sai depressa, ó cão, deste poema!»
De entre toda a cãozoada literária de que agora me estou a lembrar (e que tenha lido) talvez sejam os cães do Jack London de «O Apelo da Selva» os que (incompletamente) mais escapam à pecha em que cai a maior parte dos escritores de atribuir qualidades e sentimentos humanos aos animais que inventam.
Não é que seja muito diferente do que acontece na chamada vida real. Vemos os cães com olhos humanos e não é estranho que nele projetemos muito daquilo de que somos feitos. Basta ver a maneira como as pessoas falam com eles, como falam deles, os nomes que lhes põem, como os usam para compensar o que sentem ter-lhe sido tirado ou negado e que assim se safam do divã do analista.
Mas nada disso é para aqui chamado. Os cães a que aqui assobiei para a conversa são os dos livros, os inventados. E sobretudo os cães de um livro que traduzi e que deve estar quase quase a aparecer por aí: «Last Days of the Dog-Men» de Brad Watson de quem nunca até agora tinha ouvido falar. E de caminho, também queria falar da Cutelo Edições, que também não conhecia, sem saber o que andava a perder.
É um livro pequeno, de uma centena de páginas, pouco mais, com oito histórias, todas elas com um cão, ou mais, à trela. Quase todas elas envolvem de uma maneira ou de outra os complicados meandros da relação entre homens e cães ou antes, neste caso, o que essa relação reflete. O cão não é, com uma exceção, a personagem principal de nenhum destes contos, servindo as mais das vezes como âncoras emocionais ou testemunhas silenciosas dos humanos que as povoam: quase sempre às voltas com a falta de significado da vida que lhes coube em sorte, de casamentos em vias de dissolução ou convertidos na relação vagamente incestuosa da convivência continuada. Os cães aparecem aqui como que a lembrar a possibilidade de uma vida diferente, mais livre, mais perto da natureza, das exigências elementares. A começar pela charada do título, que eu, à falta de uma solução clarividente, traduzi à letra (convencido, como ainda estou, que é assim que deve ser) : «Últimos Dias dos Cães-Homens».
Ressoa aqui um tom de melancolia, que as histórias confirmam, de uma elegia por um mundo que vive os seus últimos dias, um mundo que seria governado pela lealdade, a simplicidade, o amor ditado mais pelo instinto do que pelos cálculos das vantagens mútuas. Ao mesmo tempo há neste título (talvez) a alusão ao esboroamento de uma realidade, a dos estados do sul da América, perpetuada nos clichés dos seus machos viris e dominadores, agora confusos e desarmados, incapazes de lidar com a mudança, a vulnerabilidade, a intimidade das relações a que os seus comportamentos de outros tempos não conseguem adaptar-se.
Watson encontrou o tom ajustado para nos falar deste universo de solidão mal disfarçada, de falta de comunicação, ou de comunicação imperfeita, que a relação homem-cão testemunha e reflete. Escrito num inglês a que vou chamar demótico, «simples e sem adornos» – assim é a vida de um cão, diz o narrador da história do título. Resulta daqui uma prosa, contida, ritmada, despida de qualquer sentimentalismo. E sem ceder à quase irreprimível tentação de romantizar, de idealizar ou de qualquer outra forma (digo? Vou dizer!) antropomorfizar os cães e o comportamento dos cães que albergou nas suas histórias. Um autor que vale a pena conhecer, digo eu, que aqui o li pela primeira vez.
Vale a pena portanto falar da editora e do editor que antes o descobriu: Cutelo Edições, de Pedro Magalhães. Uma pequena editora de Guimarães com um catálogo que aposta em autores que nem sempre se vêem pelos escaparates pagos das grandes livrarias. Essa foi a primeira boa surpresa que este livro me trouxe: ir encontrar longe do mundo dos best-sellers vendidos para todo o mundo em pacotes (compra-se o que se quer, e sob condição o que não se quer) em feiras do livro-espetáculo, um editor que ainda consegue «descobrir» livros e autores, que arrisca nessas descobertas couro, cabelo e cabedais, sim, que as letras dos bancos não têm nada a ver com as dos livros. São até incompatíveis, as mais das vezes. Em resumo, um editor que lê livros, que lê os seus livros e os discute com os tradutores, uma raridade cada vez mais rara, podem crer os que isto lêem.
O livro deve estar a aparecer por aí. Vale o que pesa, vão por mim.
Há claro o problema de quem é pequeno: não tem muitas maneiras de se pôr em bicos de pés, num mundo em que os livros quando nascem não nascem iguais para todos. Não podem contar com fotografias espampanantes dos autores ou autoras divulgadas nas revistas amigas, ou nos sites amigos, ou nos influencers amigos; não podem contar com a referência deferencial dos comentadores televisivos; não podem contar com a cumplicidade interessada dos jornalistas que fazem vender. Podem contar apenas e tão só com a divulgação feita quase um-a-um pela seita semiclandestina dos leitores de livros. E para os encontrar é preciso ir diretamente à página da editora, que se não me engano, é : https://www.facebook.com/cuteloeditora/?locale=pt_PT
Como a Cutelo está associada à editora Maldoror frequenta também as mesmas livrarias independentes (como a Centésima Página, a Flâneur, a Snob), mas também a Almedina e também certas Fnacs. Espero que consigam encontrá-la e aos seus livros num desses sítios, ou então daqui a pouco nas Feiras do Livro que aí vêm.
Isto já mais parece um passeio com o meu cão: sei onde começo, mas não faço ideia para onde me leva. Comecei na Odisseia e já vou na Feira do Livro… Fiquemos por aqui.

Cão Nosso!
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