infidelidade sem culpa

Tradutor de ofício, dou por mim agora a traduzir… uma tradução. Não é coisa que, à partida, me agrade por aí além, desde já o digo. Mas não havia muito por onde escolher: o livro foi escrito em árabe, a editora não encontrou quem pudesse traduzir o livro a partir do original, e não viu outro recurso que não fosse pegar na versão inglesa. E aqui me têm enfiado neste singular arranjo de dois tradutores com um livro pelo meio, uma espécie de capicua de oficiais do mesmo ofício.
Mas dizia eu que não é coisa muito do meu agrado e explico porquê. 
Ao traduzir um livro, estou de certo modo a propor ao leitor português a leitura que eu faço desse livro. Como se o lesse em voz alta. Procurando repetir as inflexões, o tom, a articulação particular do autor. Como quem, para reproduzir uma qualquer obra, procura recorrer aos mesmos materiais e às mesmas ferramentas que foram usadas no original. Essa fidelidade ao original traduz-se, no caso da tradução, em seguir o mais possível de perto as pegadas deixadas pelo autor, pelo menos aquelas que são transponíveis para a nossa língua – desde o estilo e a linguagem, mais ou menos popular ou mais ou menos erudito, até às inflexões que lhe dá a época ou o lugar, passando por edecetras tão variados como a pontuação ou as particularidades ou tiques de linguagem ou de estilo e outras miudezas do género. 
Mas… e no caso de se tratar da tradução de uma tradução?

Faz-me pensar naquele jogo de crianças em que se diz uma frase ao ouvido de um outro, que ele deve repetir ao ouvido mais próximo, e assim por diante até voltar ao autor da versão original – percebe-se então que muito mudou pelo caminho, alguém tirou ou juntou um ponto ao conto. No caso de uma tradução que não podemos confrontar com o original, como avaliar o que se perdeu pelo caminho? Se é que se perdeu, mas também isso não teremos maneira de o saber.

Enfim, quero eu dizer na minha que no caso da tradução de uma tradução há qualquer coisa que faz com que não me sinta vinculado, ou limitado, pelo mesmo pacto de fidelidade que me ligaria ao autor original.

Mas com a tradução que agora tenho em mãos, deu-se uma coisa curiosa: liberto das peias da fidelidade literal, tudo fluía mais livremente, mais ao jeito da nossa língua, sem quaisquer contorsões ou embaraços. Não é que deixasse de ser a tradução de uma tradução, pois que me sentia apesar de tudo ligado por um laço de lealdade à tradutora que me servia de mediação. Uma confiança igual à do corredor que confia no companheiro de equipa que lhe passa o testemunho. Mas – e é isto talvez mais importante ainda – havia aqui qualquer coisa de inesperadamente diferente: era como se entre a voz da versão inglesa e a voz do original árabe me chegasse ainda uma terceira voz, de uma língua vinda de tempos imemoriais, quando em toda a Terra havia somente uma língua, e era como se sentisse latente essa voz comum a toda a humanidade, uma voz que continuasse a vibrar em todas as línguas faladas, herdeiras dessa comum ancestral, anterior a Babel, anterior à confusão das línguas e à dispersão de todos os habitantes da Terra a que os condenou a fúria do iracundo Iavé da Bíblia. 

Compreendi melhor então o que queria dizer o poeta Herberto Helder ao apresentar o livro O Bebedor Nocturno, onde reuniu alguns poemas de outras culturas e civilizações «mudados» para português: poemas do Antigo Egipto, de poemas aztecas, malgaxes, e de outras civilizações: «Pego no Livro dos Mortos, em inglês ou francês, como se fosse um poema inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu. Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não me sinto infiel. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, sub-repticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol.» Mais do que uma «tradução» ou uma «versão», palavras que aliás evita usar, mais do que a procura de equivalências vocabulares ou de sentidos entre uma língua e outra, HH fala de «significações suspensas, da fascinação dos sons que convergem e divergem» e do «desespero surdo» que domina, não o tradutor, mas o «poliglota», que na desunião dos idiomas busca a unidade improvável. Multiplicando as operações de propiciação da unidade, ele caminha irradiantemente para a dispersão. Descentraliza-se. Existe em estado de Babel.»

E para que se veja no que deu a ousadia herbertiana, deixo-lhes aqui uma bela poesia mexicana de língua nauatle ou azteca, incluída na referida recolha.

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho. 

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece: 

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

4 thoughts on “infidelidade sem culpa

  1. Sim, Herberto é um grande poeta. E, não um grande tradutor (sabemos lá, nem ele, como eram os originais), mas um grande “Mudador para português”, em algo que era sobretudo poesia sua, mais que outra coisa. Ou não. Abraço grande, jc

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  2. Importante reflexão. E tão pertinente a evocação de Herberto.
    Já me calhou tentar traduzir uma tradução. E que bom seria ter podido ler esta crónica na altura. Creio que me teria sentido menos desconfortável nesse «estado de Babel».

    Um abraço do Porto.

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  3. Já me vi nessa situação, mas não a partir de uma língua que me fosse completamente estranha. Vai sair-se bem, tenho a certeza.

    Um abraço

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