Israel, meu remorso

Se nunca foi fácil estar ao lado de Israel, hoje é praticamente impossível.
Porque os tempos mudam? Porque nós mudamos? Porque tudo muda? 
Que Israel mudou não há dúvida. É hoje uma potência nuclear, com um exército poderosíssimo, armado pela maior potência militar do mundo. Nada a ver com a Palestina onde se acolhiam os emigrantes judeus que no princípio do século XIX e princípio do século XX, vindos dos quatro cantos do mundo, começaram a afluir às terras que os seus antepassados tinham habitado há mais de dois mil anos. A Palestina onde chegavam era então, e já desde o século VII, um território com uma população maioritariamente árabe, sob a alçada do Império Otomano e depois, a partir de 1922, governada pela Grã-Bretanha por mandato recebido da Sociedade das Nações. 
A conciliação e a coexistência é impraticável entre os que lá estão e os que chegam. Dois povos a quem o mesmo retalho de terra é prometido, seja por Iavé seja por Lord Balfour,  estão condenados a uma feroz disputa de partilhas. E se um tem tudo a perder; o outro tem tudo a ganhar.
Os judeus têm tudo a ganhar, porque chegam sem nada. Forçados ao exílio desde a destruição de Jerusalém pelos romanos, no princípio da nossa era, espalham-se pelos quatro cantos da terra e de todos esses cantos são escorraçados ao longo dos séculos, perseguidos e discriminados, sem nunca deixarem de sonhar e de idealizar o regresso à terra dos seus antepassados: «Para o ano que vem, em Jerusalém» é como todos os anos se despedem, nos seus encontros rituais e familiares.
Os árabes que habitam o território, esses, pelo contrário têm tudo a perder. Aos poucos vêem as terras que lhes pertenciam desaparecerem nas mãos dos recém chegados, bem organizados, dispondo de meios e de fundos que a eles lhes estão vedados. Os conflitos são frequentes e inevitáveis.

Com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, as perseguições antissemitas aumentam exponencialmente e culminam no horror dos campos de extermínio onde pereceram milhões de judeus. A criação de um Estado para acolher os fugitivos e os sobreviventes deste crime sem nome é bem recebida pela opinião pública europeia e americana, onde existe um sentimento generalizado de que lhes é devido apoio e uma reparação por tamanho sofrimento, talvez um tanto à mistura com algum sentimento de culpa pela cumplicidade com que em muitos países europeus se assistiu e pactuou com os crimes nazis.

Um apoio incondicional? É o que depois se verá ao longo desta verdadeira Guerra dos Cem Anos, que assistirá a muitas mudanças, muitas dúvidas, muitas hesitações, muitas crises de fidelidade.
Porque se Israel mudou, passando de um país que procura sobreviver e impor-se até se tornar na potência belicista que hoje é, também a própria guerra foi mudando de natureza.

A proclamação do Estado de Israel (1948) foi também o início de uma nova fase da guerra que irá pôr à prova o apoio de que até aí gozava. Tratava-se agora sobretudo de criar implantações judaicas nas áreas conquistadas e de impedir o regresso dos árabes expulsos à força (fala-se em 750 mil) e que passam a viver em campos de refugiados. Até hoje.
E quem apoia Israel, quem apoiava a criação de um lar para os refugiados do Holocausto começa a sentir-se assediado por perguntas e dúvidas. E as dúvidas, em breve, vão aumentar ainda mais.
Porque também o caráter da guerra vai sofrer nova mudança e mais controversa.

Desde a chamada Guerra dos Seis Dias (Junho 1967), o conflito, a princípio eminentemente político e territorial, vai tornar-se também religioso. Por um lado, a entrada em cena do Irão neste tabuleiro já de si complicado torna a questão, mais do que causa árabe, também, ou sobretudo, uma causa muçulmana, dominada pelo fanatismo religioso, incapaz de aceitar qualquer solução que não seja a eliminação da parte contrária e a instauração de um Estado palestiniano do mar ao Jordão, onde não haveria lugar para Israel.
Do lado israelita, por seu turno – sobretudo depois da nova vaga de emigrantes, chegados com o termo das restrições à emigração impostas pelo império soviético em derrocada, com uma história que já pouco tem a ver com o Holocausto – a ocupação dos territórios do Grande Israel bíblico prometido por Iavé, do mar ao Jordão, e onde não haveria lugar para um Estdo palestiniano, inspira um tipo de fundamentalismo messiânico, avesso a qualquer solução negociada de compromisso, e que atualmente domina a política israelita.

 Esta dupla politização do religioso, que alimenta uma busca de soluções absolutas sem lugar para a conciliação, acaba por resultar num novo tipo de guerra, onde dominam as ações de violência indiscriminada, a destruição de casas e culturas dos camponeses árabes dos territórios ocupados, as incursões terroristas como a que o Hamas levou a cabo em outubro de 2023, quando atacou uma comunidade israelita, matando a sangue-frio mil e duzentas pessoas e raptando duzentas e cinquenta como reféns. Ainda que se aceite tratar-se de um crime que não podia ficar impune, não é fácil aceitar que a retaliação do exército israelita se tenha tornado por sua vez numa empresa de extermínio generalizado, que não distingue entre culpados e inocentes, entre militantes e civis. As mortes desde a invasão já passam das 40 mil, sendo que mais de dez mil eram crianças e 70% eram mulheres, que dificilmente poderiam ser tomadas por militantes terroristas.
Essa verdadeira limpeza étnica da população palestiniana da Faixa de Gaza assinala um novo passo na política inaceitável do governo israelita, cada vez mais longe do objetivo inicial de libertação dos reféns, o que torna praticamente impossível manter-se ao lado de Israel a quem nunca aceitou tais processos quando eram os judeus os perseguidos.

E perguntamo-nos de novo: que Israel é este? Que caminho escolheu, afinal? E naturalmente hesitamos em segui-lo nessa via.
Longos dias tem cem anos, costuma dizer-se, e é muito o que em cem anos pode mudar. As guerras não têm nada de limpo, mas apesar de tudo sempre foi possível ouvirem-se vozes, de um lado e de outro, mas também em Israel, que nos permitiam pensar numa saída, por mais enviesada que fosse: a solução dos dois Estados, as negociações entre Rabin e Arafat, o meio acordo de Oslo, as mulheres de Jerusalém que se reuniam regularmente com mulheres palestinianas, o movimento Paz Agora que nunca deixou de acreditar numa solução que não obrigasse à ocupação das terras palestinianas nem à opressão de outro povo. 

É verdade, isso, ou foi verdade, mas não é o que agora se ouve em Israel. 

O que agora se ouve em Israel são antes vozes a dizer o oposto, colonos da Cisjordânia ocupada que convocam reuniões para declarar: «Temos de ocupar Gaza, anexar, destruir todas as casas que lá há e construir colonatos.» «Os árabes de Gaza perderam o direito de lá estar. Têm 52 lugares para onde ir no mundo, 52 países muçulmanos. Vão para lá!»
A organização «Nachala» formada por colonos da Cisjordânia ocupada está agora empenhada em ocupar e colonizar o que resta de Gaza. O Governo israelita desmente o plano, mas o certo é que onze dos trinta e sete ministros do atual governo participaram na conferência que lançou o projeto.
Começa-se a temer que aconteça aqui o mesmo que aconteceu com o movimento imparável que ocupou e colonizou a Cisjordânia, contra todos os ventos e marés, impondo-se a quaisquer medidas e leis de contenção, até se tornar num facto consumado. E impune.

A empresa imobiliária Harey Zahav publicou em Dezembro um anúncio premonitório (que mais tarde, face aos protestos que se levantaram, desvalorizou como sendo uma «piada»), mostrando algumas maquetes de novas casas no meio dos escombros ao longo do litoral de Gaza: «Uma casa na praia não é um sonho impossível!», diz o anúncio. Curiosamente (ou não), é também essa a opinião de Jared Kushner, o inefável genro do Presidente americano, entendido em investimentos imobiliários rentáveis, que se mostrou entusiasmado com o «valioso potencial» da beira-mar de Gaza, e foi ao ponto de sugerir que Israel devia remover os civis da zona ao mesmo tempo que «limpa» o território.
Há quem considere que a anexação de Gaza é afinal o verdadeiro plano do exército israelita, com os assassinatos em massa, com os bombardeamentos, as expulsões, os campos de concentração das populações sucessivamente deslocadas. 

E não me está a parecer que haja hoje em Israel vozes suficientemente fortes para se lhe oporem.
E realmente quem haveria de se opor? 
Não certamente os colonos da Cisjordânia, onde, ao que dizem, os interessados são aos milhares. «Já temos seiscentas ou setecentas famílias inscritas», diz a líder do movimento de colonização de Gaza.
Também não, ainda mais certamente, os palestinianos (os que ainda restam) reduzidos às formas mais elementares de sobrevivência, perseguidos e aniquilados do modo mais impiedoso pelo exército israelita.
Nem sequer a imprensa internacional poderá fazer ouvir a voz do jornalismo independente, e dar testemunho próximo deste novo crime, banida que foi de Gaza pela potência ocupante.
No meio disto tudo talvez que a voz mais ouvida em Israel seja afinal a do cantor Hanan Ben Hari e a sua canção de sucesso sobre o «regresso a Gush Katiff», o nome hebraico de Gaza:

«Voltando para Gush Katif
Jogando voleibol na praia
Criando uma Nova Beach
Na costa de Gaza,
A nação de Israel vive!»

E onde andam e que poderão dizer as vozes daqueles que, tendo começado por apoiar a criação de Israel, assistem agora à criação do monstro em que ele se tornou?

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PS: já noutras ocasiões aqui se falou nisto ou em coisa que o valha. Gostava muito que os interessados no tema e que tenham chegado tarde a esta conversa (numa ocasião com mais vagar) fossem dar uma vista de olhos a:

Produto para se dormir tranquilo: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/283
A solução afinal… https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/311
Com os olhos em Gaza: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/404
Esta voz não me sai da cabeça: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/492
A punição de Gaza: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/533
Contai aos vossos filhos: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/615
Dois pesos e duas medidas: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/727

3 thoughts on “Israel, meu remorso

  1. Olá
    Uma nota marginal ao drama retratado, mas que pode ajudar, embora seja sabido:
    – os chamados palestinianos não são árabes, são habitantes da chamada palestina que se converteram ao islamismo. Habitantes da palestina, sejam de religião judaica, seja de religião muçulmana são todos ancestralmente um mesmo povo a que nós chamámos semitas (nesta classificação, os egípcios do norte tb são semitas). Não há ali árabes (um povo da arabia) contra judeus (os que professam o judaísmo), mas “semitas” descendentes de quem ficou e semitas descendentes de quem regressou, cujos antepassados viviam numa zona a que se chamava Judeia.
    – Sobre a chamada diáspora… há historiadores contemporâneos israelitas que dizem possuir informação que lhes permite propor que as pessoas de religião judaica da europa central são na sua maioria resultado de processos de conversão, nada de supostamente étnico os une, mas sim a religião.
    Não sei se isto interessa para alguma coisa. As pessoas que habitavam a palestina e foram levadas para o Egipto não eram judeus porque o judaísmo se constitui no processo de saída do Egipto, com Moisés. Uma confusão.
    Abraço

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  2. Caro Zé

    As tuas palavras calaram-me fundo. Acho que não foram ainda feitas todas as tentativas, abordagens, compromissos e ensaios de paz. Quando era adolescente e via os filmes de guerra havia dentro de mim um eco da língua alemã que a tornava o som da opressão e da violência. Não é que agora ao ouvir a voz do Netaniau tenho o mesmo eco com a língua hebraica. Demorei tempo a libertar-me deste eco e hoje até já falo um bocadinho de alemão. Quanto tempo vou precisar para o hebreu? Julgo que Jesus Cristo falava aramaico mas não conheço o som de tal língua. Abraço. Manuel

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