Quem matou Jan Palach?

Por esta altura do ano, em 1968, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia. Foi a maneira mais expedita que os tanques encontraram para pôr termo às veleidades reformistas dos checos que começavam a falar em liberdade de imprensa, de reunião, de expressão, de viagem – aquilo a que depois se chamou «a Primavera de Praga, tudo coisas de que os tanques não gostam. Acabou-se a Primavera; começou a ocupação. 
Os dirigentes checos reformistas, levados à força e em segredo para a União Soviética, assinaram aí um tratado permitindo o “estacionamento temporário” dos tanques soviéticos. Os tanques ficaram, pois, na Checoslováquia, mas agora como convidados. E logo iniciaram um período de Normalização, que implicava uma profunda repressão política, uma purga dos reformistas e o regresso à pureza ideológica que os tanques preferiam à Primavera.
Os checos comuns, singularmente, não perdiam muito tempo em salamaleques com os seus convidados forçados. Por mais mordaças que lhes pusessem, multiplicavam-se em manifestações, manifestos, e outras formas de protesto. Pacíficas, porque sem armas de igual peso, com tanques não se brinca. A força bruta, sem a mínima possibilidade de abertura, de negociação, em breve se traduz em revolta latente e em gestos desesperados.

Em 16 de janeiro de 1969, Jan Palach, um estudante universitário de Praga, imolou-se pelo fogo numa praça central da cidade. Tinha apenas vinte anos.

De tão terminante e irredimível, o gesto dá bem a medida da violência da repressão imposta pelos tanques. Um rapaz até aí anónimo, sem protagonismo político, sem ligações conhecidas a qualquer movimento organizado assinala a recusa dos tanques pelos checos deste modo tão assumidamente radical. Em que ser radical, como alguém antes dissera, «é ir à raiz. E a raiz do homem é o próprio homem.» O que aqui, de uma forma atroz, significava «é o próprio corpo».

A violência desta morte choca-nos, antes de nos questionar, pelo que nela há de inegociável, de sacrificial. Na nossa matriz cultural mais profunda, o corpo, o nosso corpo, é a linha limite da recusa. Todas as formas de protesto, de contestação, de recusa da ordem dominante, em que se recorre ao uso do corpo como arma começam precisamente por se defrontar com a incompreensão e o choque, mesmo daqueles que à partida poderiam estar de acordo com as razões por trás do gesto desesperado. Dizemos: até concordo com o que eles dizem, não posso é aceitar os meios que usam. Concordo com ele, com eles, mas… E é este «mas» o que realmente nos define.
Podemos concordar com uma greve da fome, mas…
Podemos concordar com os ativistas climáticos que põem o seu corpo em jogo, mas… 
Vagamente que seja, sentimos, queremos sentir, que há ali ainda um espaço para a negociação, para a contemporização, para uma chamada à realidade, à nossa realidade…

O que nós gostávamos, o que nós gostávamos mesmo era que houvesse uma qualquer varanda aonde pudéssemos mandar trazer uma bacia de água limpa e, aí, diante de toda a gente, diante do mundo, de nós próprios, pudéssemos lavar as mãos e proclamar a nossa inocência de tanta coisa suja que por aí se pratica em nosso nome.

Vinte anos depois da morte de Jan Palach, em janeiro de 1989, os protestos em Praga subiram de tom, desencadeando o que depois se chamou a «Semana Palach», que despertou o mundo para a situação que se vivia na Checoslováquia, que desfechou o primeiro grande abanão no muro de silêncio que rodeava a sociedade dos tanques, e que viria a soçobrar dez meses mais tarde em Berlim. No resto da Europa, muitos do que antes apoiavam os tanques, começaram a pôr-se em causa, e a pôr em causa esse apoio. Muitos desses movimentos e partidos começaram a esvaziar-se. Ninguém (quase ninguém) queria ser cúmplice.

Em Lisboa, no muro de um quartel que lá havia (hoje uma universidade), também eu, então escrevedor de paredes ainda no ativo, fazia a quem passava a pergunta com que comecei este postal: «Quem matou Jan Palach? Tinha apenas 20 anos».
Mas, bom rapaz que no fundo também sou, para não culpabilizar excessivamente a boa gente que todos nós somos, mais adiante no muro escrevi também: «Não vos inquieteis – é a realidade que se engana». 
Ainda hoje me serve de lema.

7 thoughts on “Quem matou Jan Palach?

  1. Boa reflexão sobra a terrível tirania do mas, Mas não o mas o que nos permite sobreviver como indivíduos, embora nos leve à morte como humanidade…?

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  2. Querido Zé,

    Sinto sempre muito prazer quando leio os teus textos. São sempre interessantes, num estilo que eu gosto.

    Li à minha mãe alguns. 🙂 Ela continua internada, em situação grave, mas estabilizada e com grande apoio da equipa médica e da família. É uma valente.

    Um forte abraço.

    Chico

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