Li agora uma notícia que me deixou bastante triste. E preocupado. Talvez porque mete cabras. E as cabras, a par dos burros, fazem parte dos meus bichos tutelares. Fala-nos, a notícia, de um cabreiro siciliano apertado pela seca prolongada que se vê praticamente condenado a entregar ao matadouro as suas duzentas cabras e a largar o ofício de muitas dezenas de anos. Não há água. O último charco que resta é quase só lama. E como ele estão todos os outros pastores. As temperaturas facilmente atingem os 49 graus no verão, os incêndios alastram e destroem a pouca vegeração que resiste. Por volta de 2030, um terço da Sicília será um deserto comparável ao que se vê na Tunísia e na Líbia – é o que diz um professor de ecologia da Universidade da Catânia, citado no artigo.
Nem só de cabras fala a notícia. Mas, a mim, que venho de uma família de cabreiros, foi o que mais me chamou a atenção.
Também lá vem outras coisas, mesmo assim. Vem lá, por exemplo, que a Agência Nacional de Estatística Italiana diz que a produção agrícola de 2023 diminuiu 1,8% devido a causas climáticas, a vinha 17,4 %, a fruta 11,2 %. E isto dá que pensar. Sentimos que a coisa começa a bater-nos à porta. Já não são apenas os ursos polares, lá muito longe, a morrer por falta das presas que o aquecimento afastou para outras bandas.
Não é nada que não soubéssemos (que não saibamos). Há muito que nos avisam, mas com sintomas assim tão patentes? A aumentar a olhos vistos?
E que fazemos nós? O mesmo que fazemos quando a evidência das análises e dos testes que o médico mandou fazer nos mostram que os índices (maus) estão a aumentar. Sacamos de uma explicação qualquer que nos permite continuar a fazer a mesmíssima coisa sem problemas (Ah, isso foi daquele entrecosto que comi, isso está praticamente igual às do mês passado, isso passa com uns comprimidos…). E pensamos também que alguma coisa, algum milagre, alguma excepção, nos há de salvar do que parece inevitável. Como dantes se compravam indulgências que nos poupassem o purgatório dos nossos pecados, nós acreditamos, ou fazemos por acreditar, no poder redentor das meias medidas que nos são propostas: se usamos avião, damos um euro suplementar para pagar a (grande treta da) pegada ecológica, se compramos alguma coisa, preferimos os produtos biológicos, orgânicos, biodegradáveis, naturais, locais, sustentáveis, e outros paliativos, que valem outros tantos grãos de areia com que imaginamos suster a derrocada da barragem que nos anunciam como iminente. Não digo isto por mal, a sério. No fundo, quando não podemos fazer tudo, podemos ao menos fazer o que está ao nosso alcance. Incapazes de conviver com a angústia do inevitável ou com os sentimentos de culpa, reprimimos tudo num cantinho do inconsciente e vivemos a outra vida possível por procuração. Até que um dia o que recalcamos agora regresse a galope para nos assediar.
Estará tudo muito certo, dirão vocês, mas na realidade será possível fazermos alguma coisa? A resposta franca franca, ainda que assustadora, é «não». A verdade é que a solução possível não depende de nós, individualmente considerados. Como diz o nosso bom povo: Evitar o colapso do clima exige uma contração na utilização que a humanidade faz dos recursos naturais; mas o modelo económico em que vivemos, para evitar o seu próprio colapso, exige a sua expansão sem restrições. Destas duas leis contraditórias apenas uma é modificável, e não é a lei da natureza.
Temos um exemplo prático até: quando a economia global desacelerou com as medidas de contenção da pandemia do Covid19, as emissões de CO2 resultantes da queima de combustíveis fósseis baixaram 5%. Mas, em contrapartida, a economia entrou em recessão. E é isso que queremos? Não sendo possível guardar o bolo e também comê-lo, tratamos de o comer. As emissões fósseis continuam a aumentar, as temperaturas da terra continuam a aumentar (a uma média de 0,18 graus por década), os riscos de colapso continuam a aumentar. As metas acordadas internacionalmente para conter esta corrida já não poderão ser alcançadas, deixemo-nos de tretas. É que outras razões se alevantam. Imparáveis. Irrefreáveis. Ainda há pouco, só para falar de um caso exemplar, duas empresas dedicadas ao turismo espacial pertencentes a dois multimilionários, Jeff Bezos e Richard Branson, lançaram, cada uma delas, um foguete turístico que emite por cada um dos seus passageiros o mesmo que nós, os que fazemos parte dos milhares de milhões de não-multimilionários, emitimos durante toda a nossa vida. Por aqui se vê, onde páram as nossas (nossas, uma ova!) prioridades.
Vinha eu falar das cabrinhas sicilianas, coitadas, e acabo a falar de milionários e de combustíveis fósseis… Se bem que… – e não é só o Eduaro Guerra Carneiro a dizê-lo – isto anda mesmo tudo ligado.
Também eu fique muitoi triste!
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Muito interessante. Boa Zé!
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Així anem, cap al col·lapse, com diu l’antropòleg Eudald Carbonell! Els nostres fills i nets ens en poden demanar responsabilitats.
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