Já ao longe se esfumam as palmas, os discursos, as fanfarras do 10 de Junho, o dia em que o país premeia com reconhecimento e alarde os seus heróis, mas continuo ainda assim sem atinar no que celebramos ao certo em tais heróis e em tais festejos. Tempos houve em que a guerra era o principal fornecedor de heróis, e todos os anos os víamos desfilar por entre o som tremendo das tubas e de um clangor sem fim, estropiados e garbosos, até ao estrado oficial a oferecer às medalhas o peito que antes tinham oferecido às balas. Eram outros tempos, enfim.
Sem guerras a alimentar o contingente, quem nos nossos dias dará ouvidos às injunções dos nossos egrégios avó? Quem são hoje os grandes homens a quem reconhecemos essa acrisolada capacidade de exprimir os anseios do nosso tempo e de os traduzir em ação? (Homens e mulheres, lembram-me daqui do lado, que também nisto haja igualdade.)
Hoje, se condecoramos militares, fazemo-lo em segredo, sem festejos nem alarido. Condecoramos em vez deles os empresários mais valiosos, às vezes ainda a limpar à pressa a bava que as últimas multas por corrupção lhes custaram. É evidente que os feitos e os méritos e os serviços prestados à Pátria são hoje mais comezinhos, mais pacíficos e mais contabilizáveis. E ainda bem, digo eu, que, no que toca a guerras e a heróis, prefiro, já agora, celebrar o bombeiro voluntarioso que hoje trava a única guerra que ainda faz sentido.
Nas grandes narrativas da Grécia antiga, o herói encarnava a contradição entre as leis da cidade, o conformismo das massas obedientes, representadas no coro, que somos todos nós, e o gesto de rebeldia, de afirmação de uma outra lei, que o povo talvez pressinta, sem porém ousar afirmá-la. Os heróis são, no fundo, aqueles que explicitam a vontade latente do seu tempo e que a realizam, tornando-se noutros tantos símbolos que dão unidade às narrativas mais ou menos míticas (e políticas), que exprimem esses novos tempos. É neles, nos valores que representam, que os povos se revêem. E se foram já os guerreiros, os aventureiros, os caudilhos, e depois os gestores, os construtores de impérios, negreiros e usurários tantas vezes, são hoje talvez futebolistas, influencers, fadistas ou recordistas do Guiness. Se ontem fomos os primeiros a chegar maritimamente à Índia com Vasco da Gama, hoje batemos o recorde Guiness da maior feijoada no tabuleiro da Ponte Vasco da Gama (15.000 pessoas e uma mesa com 5.050 metros de comprimento!)
Heróis há muitos, portanto. Sobretudo se vistos de longe. Porque de perto logo hão de surgir as fissuras no pedestal, os pés de barro da estátua, quantas vezes a mesquinhez, o cálculo, que o escrutínio da História, das redes sociais e do contraditório da atenção pública, não deixam passar em branco. Nos tempos em que não havia redes sociais, mas havia criados, e criados de quarto ainda por cima, houve alguém (Napoleão para uns, Voltaire para outros) que famosamente sentenciou: “Ninguém é herói para o seu criado de quarto”.
Cada um terá, afinal, o seu panteão pessoal, que mobilará a seu gosto com os heróis que melhor condigam com os seus valores e as suas propensões. Para um o peito mais medalhado, para outro o melhor marcador do campeonato.
Por mim, fico-me por um panteão bem mais modesto, que reservo, mais que a heróis, em que não me revejo, a gestos que posso admirar e que para mim representam o que há em nós de mais incontaminado pelo cálculo e pela soberba.
Aproveito a deixa para aqui falar em dois deles, dos que mais me lembro.
Em primeiro lugar, o homem de Tiananmen, o homem dos tanques de Tiananmen, de quem não se sabe ainda hoje o nome, nem se está vivo ou morto. Talvez que esta falta de outros elementos, tornem ainda mais perfeita a fusão entre a sua identidade e o seu gesto – quando nada mais sabemos, ele passa a ser para nós esse puro gesto. Isolado, com um saco de plástico na mão, como se voltasse das compras, ou viesse de alguma tarefa quotidiana insignificante, um homem coloca-se diante dos tanques do exército chinês que na noite de 4 para 5 de junho de 1989 massacraram centenas (há quem diga milhares) de estudantes e outros populares que se lhes juntaram para protestar contra a falta de democracia, de liberdade de expressão e de liberdade de imprensa.
O segundo lugar nna minha admiração reservo-o a Rachel Corrie, uma ativista americana de 24 anos que foi assassinada por uma retroescavadora blindada do Exército israelita quando procurava opor-se à demolição de casas palestinianas em Rafá, na Faixa de Gaza. Tinha ido para Gaza como membro de um projeto de geminação entre Rafá e a cidade dela na América. Uma vez aí, juntou-se aos ativistas do Movimento Internacional de Solidariedade que procuravam evitar por meios não-violentos a destruição de casas palestinianas em que o Exército israelita estava (e está) empenhado como “punição coletiva” dos que se opunham à ocupação. Nesse dia, 16 de Março de 2003, Rachel apesar de envergar um colete de cores vivas, para ser visível, foi esmagada pela retroescavadora que fazia a demolição. O porta-voz do “exército mais ético do mundo” (é o que diz Israel) declarou que a morte de Rachel Corrie se devera a um “acidente lamentável”, por o operador da retroescavadora não a ter visto. Na noite da morte de Rachel foram assassinados nove palestinianos em Gaza (entre eles uma criança de 4 anos e um homem de 90 anos, talvez dois “perigosos terroristas”). Esses não mereceram sequer desculpa nenhuma. Possivelmente por o “acidente” nestes casos não ter sido considerado “lamentável”.


Precisamos. Muito.
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