da boca para fora

veio cá o Jean Némar. Chegou afogueado. Que tinha uma boa para me contar, que tinha sido entrevistado, que (já nem me lembro). E contou: andava (ou anda) por aí uma televisão estrangeira a fazer uma reportagem sobre o 25 de abril, o futuro do 25 de abril. Fazem perguntas a quem passa e também calhou ao Jean Némar. E, pateta como é, que lhes foi ele dizer, quando lhe perguntaram como via ele o 25 de abril do futuro? Que o via sentadinho a uma mesa, com uma manta pelos joelhos, a tomar um chazinho e a jogar resignado uma bisca lambida com dois amigos, o 1º de dezembro e o 5 de outubro. E diz um deles: se houvesse mais um sempre se podia jogar a sério. E vai o outro: pode ser que dêem licença de saída ao 25 de novembro e ele apareça por aí e já dava para uma suecada.
E ria-se, o pateta, enquanto me contava isto. Que havia de lhe dizer? O que sempre lhe digo quando se sai com coisas do género: Sempre tens cada uma! Nunca mais ganhas juízo.

Eu sei que ele diz estas coisas, mas é muito capaz de fazer o contrário. É só da boca para fora. Quase que aposto que no dia 25 lá estará a descer a avenida a meu lado junto ao grupo dos ativistas climáticos e das Mães do Clima. Até porque eu também sou uma das mães do clima. E onde eu estou quase sempre está ele também (pelo menos até hoje tem sido assim).
Por outro lado, não vejo mal nenhum em ver estas coisas com algum distanciamento. Antes que tudo se transforme numa azeda romagem de agravados ou numa marcha de tribos aguerridas em disputas de território ou de decibéis, sem lugar para a alegria inicial, inteira e limpa com que o dia nos foi anunciado. Ou (e isso então seria o pior!) antes que se transforme no cerimonial com lugares cativos e discursos previstos (e previsíveis) dos feriados de calendário.

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