os ativistas são uns chatos. (Ou não?)

De há uns tempos para cá as conversas à minha volta não demoram muito a ir dar às questões ambientais e à crise climática. E aos ativistas, claro. (Tenho um cá em casa!). Não é sempre com simpatia que se fala deles, pelo contrário. Há, muitas vezes, latente, uma raivinha contra estes chatos que insistem em nos querer acordar no meio do melhor dos sonos. Nós sossegadinhos, no quentinho dos lençóis e vêm eles aos gritos, de megafone em riste, sacudir-nos, lembrar-nos que se faz tarde, que temos de. E que é do nosso melhor interesse. Marcámos o dia e a hora. Agora há que passar à prática. Não bastam as boas intenções.
Nós sabemos que no fundo eles têm razão, mas…
Quando a mensagem não nos agrada, voltamo-nos contra o mensageiro. 


Verdade se diga, os ativistas nunca foram muito apreciados. Os ativistas “climáticos” ainda menos. Escapam-nos as razões que os movem. Podemos compreender as razões dos trabalhadores grevistas que exigem a nossa atenção, a nossa solidariedade, que dão cabo da nossa rotina, mas que lutam por “qualquer coisa”, o salário, as condições de trabalho. Somos capazes de nos pôr no lugar deles. No caso dos climáticos não. À falta da greve, são eles próprios as armas: bloqueiam ruas, acorrentam-se à entrada de edifícios públicos, ocupam escolas, usam a disrupção, usam formas de provocação, umas mais criativas que outras (por vezes bastante estúpidas, haja paciência) para trazer a crise climática para a ordem do dia, para o nosso dia a dia, “para nos acordarem”. E é isso que mexe connosco, que nos tira do sério, a nós, que com os problemas dos outros podíamos bem. Dos “outros”, até percebermos que os outros somos nós também.

Sabem o que isto me faz lembrar? As sufragistas. A sério! Hoje já ninguém se lembra das sufragistas, as ativistas que em meados do século XIX (onde isso já vai!) reivindicavam o direito de voto para as mulheres. Hoje é coisa dada por assente? Pois é, mas à custa de quê? Da luta de várias gerações de mulheres que não hesitaram em recorrer à disrupção contra a indiferença e a oposição da sociedade da época com manifestações e atos de desobediência civil. Os direitos assim conquistados permitem-nos hoje esquecer que o foram à custa de ativistas que entraram em confrontos com a polícia, que foram atacadas sexualmente, que foram espancadas, que enfrentaram a fúria e a troça dos jornais, que se acorrentaram a edifícios públicos, que fizeram greve da fome, que partiram montras.
Há aqui muita coisa que nos faz lembrar o ativismo climático nos nossos dias: sobretudo as formas de luta de quem não representa interesses corporativos ou de classe nem reivindica nada de “palpável”, de interesse direto e imediato. Com uma diferença importante, apesar de tudo: os “climáticos” desde sempre se identificaram como pacifistas e recusaram os meios violentos. No caso das sufragistas nem sempre assim foi. Na Inglaterra, por exemplo, houve uma ala mais radical que chegou a recorrer ao terrorismo, a incêndios provocados, a bombas, a cartas armadilhadas e outras formas de ação direta.
Os “nossos” ativistas não vão por aí. E se algum mal causam é a si próprios. Não exigem regalias, ou privilégios, nem compensações económicas. Querem apenas acordar-nos para nos levarem a acordar os que têm poder de decisão. E para isso usam a arma que têm: a disrupção – porque é essa a única maneira de que dispõem para interromper a nossa rotina, a nossa indiferença, a nossa apatia.
Outra diferença: as sufragistas tinham uma meta clara – uma lei que reconhecesse os seus direitos, o que veio a acontecer em 1928 (com a Representation of the People Act) em Inglaterra e com a aprovação da 19ª Emenda constitucional nos EUA, em 1919, que, porém, excluía desse direito as mulheres negras que só vieram a consegui-lo com o movimento dos direitos cívicos na década de 1960). Mas no caso dos movimentos pelo clima, onde fixar a meta? E como o fazer? Há as metas digamos “oficiais” dos Acordos de Paris, e das COP, mas que têm sido deixadas ao sabor das relações de forças entre as grandes potências industriais. E que escapam à intervenção do ativismo climático. Por isso, possivelmente, o que se pode dizer é que “atingir a meta” ou aproximar-se da meta se medirá em última análise pela capacidade em mobilizar os “outros” em cada país. E os “outros” somos nós todos, afinal. Se tudo o que agora se diz em tom menor de “eles e nós”, começar a passar para o tom maior de um “nós” sem distinções. Os ativistas não são (não têm de ser) nem heróis nem vítimas, todos concordarão. Mas… será que se aceita realmente que eles representam uma tomada de consciência da sociedade? Há quem ache que é só poderemos pensar que sim no dia em que o digamos, expressamente, com a nossa presença e a nossa voz, juntamente com “eles”. Eu, que sou mais cético (ou céptico, como quiserem), acho que só quando isso se traduzir em votos, quando os partidos incluírem metas com calendário nos seus programas, quando os Governos fizerem o mesmo. De resto… vemos que o caminho se estreita, que o desastre climático se anuncia cada vez mais claramente, que a nossa vidinha começa a ver-se comprometida, mas seguimos em frente.
Será que alguém como o gato da fábula do Kafka um dia nos dirá: “Não tinhas mais que mudar de direção” ?


António Guterres que, pela posição que ocupa e pelos contactos de que dispõe, está bem consciente do problema, disse isso mesmo há cerca de um ano (6 de fevereiro de 2023) quando apresentava as suas prioridades de ação perante a Assembleia Geral da ONU: ”We need disruption to end the destruction.

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