Não sei se gostas das crónicas que a Ana Cristina Leonardo escreve no Ipsilon do Público. Há quem não goste. Que são uma prosa sinuosa, cheia de meandros, disse-me uma amiga minha, cheia de name-dropings (sic) e citações encadeadas umas nas outras, que mal dão para entender onde ela quer chegar.
Eu por acaso gosto. Por essas mesmíssimas razões. Gosto das derivações, das divagações, seguindo pistas daqui e dali, mesmo correndo o risco de nos perdermos numa ou noutra vereda. Aquilo não é nenhuma tese de doutoramento, entenda-se. Até mais parece é uma daquelas meditações à rédea solta, das que fazemos na pastelaria quando para aí nos dá.
Há ainda outra coisa que me leva a gostar, mas explico já a seguir.
A crónica do ipsilon desta semana é um perfeito exemplo da receita. Até parece de encomenda. No fundo é uma espécie de colagem de textos de vários autores, romancistas quase todos. Não estão identificados, sucedem-se sem introdução, sem aviso prévio, sem aspas sequer. Haverá quem reconheça num ou noutro o dedo de quem escreveu, até talvez o livro de onde saiu o texto. Ou então não, e também não interessa para o caso. Bastará apenas deixar-se levar na corrente, a ver onde tudo aquilo leva.
No fim da crónica, sim, como numa espécie de agradecimento final, nomeia então todos os autores que “contribuíram” para a obra. Enumera-os – e é aqui que está a tal “coisa” de que falei, a tal razão ademais que me faz gostar destas crónicas – escritores e tradutores, tudo à mistura, sem hierarquias, ou distinções. Uma maneira de mostrar (o que para muita gente não parece ser uma evidência) que o que lemos quando lemos um autor estrangeiro é uma versão (portuguesa) da sua escrita. Sem esse intermediário não conheceríamos grande parte da literatura universal. É essa “coautoria” (seja permitida aqui a palavra) que a Ana Cristina Leonardo assim reconhece e de certo modo homenageia. Reparei porque não é assim tão frequente como se poderia pensar.
Há muitas maneiras de dizer isso, mas poucas tão bonitas (ou sábias, ou discretas, ou elegantes, o que quiserem), como a que ela escolheu na crónica de que estive a falar:
“Esta crónica seria impossível sem os contributos de Albert Camus, António Lobo Antunes, Bernard Lewis, Delmore Schwartz, Dinis Machado, Émile Zola, Gabriel García Márquez, Georges Perec, Herman Melville, Jerome K. Jerome, John Fante, Julien Gracq, Machado de Assis, Marquês de Sade, Nuno Bragança, Saul Bellow e Tolstoi. E ainda: Alfredo Margarido, Ana de Freitas, António Pescada, Bruno Cardoso Reis, Daniel Gonçalves, Eduardo de Barros Lobo, Fernando Assis Pacheco, Luísa Feijó, Manuel João Gomes, Maria Dulce Guimarães, Pedro Tamen, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Gato e Vasco Teles de Menezes.”
Não é bonito?
É muito bonito, sim.
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Gosto muito, sim.
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