com mortes, mas sem mortos

Haverá aí alguém que não tenha já lido «O Mandarim»? E alguém se lembrará ainda do que leu? 
Lembro eu, então, resumindo muito resumidamente: conta-nos um certo Teodoro, amanuense do ministério do Reino, o caso que com ele se deu de às tantas, inopinadamente, ter diante de si a possibilidade de herdar os infindáveis cabedais de um remoto mandarim chinês à sua morte. Morte essa que estava nas mãos do Teodoro determinar: bastaria para isso abanar uma campainha que logo ali apareceu à sua disposição. E ao soar desse ti-li-tim o remoto mandarim soltaria um suspiro final e o modesto amanuense, então a viver num quarto de hóspedes, com os miseráveis vinte mil reis mensais do seu estipêndio, veria a seus pés mais ouro do que o que poderia sonhar a ambição de um avaro. Ousaria ele tocar a campainha? Ousaria matar, lá muito longe, o mandarim de quem nada sabia, nem poderia saber? 
Pois ousou, sim senhor. E o livro é o relato do que então se seguiu.

Conto isto aqui, assim resumidamente, mas não é do livro que queria falar. Aliás, duvido que mereça a cera que com ele se pudesse gastar. Numa prosa com muito de pomposo e de indigesto, o bacharel narrador, que mais parece ter-se escapado do expediente do escritório de algum Alves & Cª, gasta metade das pouco mais de cem páginas da novela a rebolar-se na vida de depravação e de luxo que a herança lhe valeu, tal como a teria fantasiado a imaginação medíocre e frustrada de um manga de alpaca que tivesse acabado de devorar as descrições miríficas da «Salambô» ou das «Tentações de Santo Antão» que Lisboa andaria nessa altura a descobrir. E a outra metade passa-as a perseguir uma redenção impossível numa busca insana do finado mandarim, numa China improvável, feita de clichés e de apropriações e contrafações da literatura francesa da época. Tudo isto servido num pastiche, com seus peculiares modismos e bordões, do estilo inconfundível do escritor Eça de Queirós, seu contemporâneo. Não seria certamente esta noveleta inconsequente que haveria de lhe valer o lugar no Panteão Nacional, que aliás nem a família saberá ao certo se ele o haveria de desejar.

O que me leva a trazer para aqui o Mandarim é antes, e mais precisamente, o problema digamos que filosófico que ele nos coloca com aquela interpelação estranha, rebrilhando em negrito: «Tocarás tu a campainha? De um lado um mandarim decrépito, morrendo sem dor, longe, a um ti-li-tim da campainha; do outro toda uma montanha de ouro cintilando a teus pés!»
É importante aquele pormenor da morte que podemos imaginar sem dor, longe da vista, anónima. Nada das mortes sanguinolentas à espadeirada ou de escopeta à queima-roupa. Nada do horror e da culpa associados ao crime violento ou à morte infligida por nossa mão. Tudo se passa de modo asseado, sem confrontos, sem remordimentos, sem transtornos de stress pós-traumático.
Tão importante isso é que os profissionais das profissões da morte se dedicam há séculos a aperfeiçoar o método: já hoje é possível matar, e matar em massa até, sem ter de confrontar o assassino com a sua vítima, com a realidade real da morte matada. Este aqui, premindo um botão, que descarrega a bomba que matará centenas, milhares de desprevenidos no lugar errado no momento errado. Aquele ali, despejando um tapete espesso de napalm que aumenta a persistência incendiária de algum composto petrolífero e deixa aldeias inteiras feitas em fumo num abrir e fechar de olhos. Ainda outro acolá simplesmente clicando a opção «ativar» no programa informático que fará explodir um, centenas, milhares de telemóveis, ou pagers, ou outro meio de comunicação aparentemente inócuo.
Um progresso na arte de matar sem culpa, ao que se vê. 

A utilização da aviação na guerra foi um primeiro passo. Decisivo. Uma alternativa económica sem necessidade de manter vastas guarnições permanentemente no ativo. Logo após a sua criação, a Royal Air Force foi utilizada pela Grã-Bretanha nas chamadas «operações de controlo aéreo» das suas possessões no Médio Oriente, que lhe tinham cabido como despojos do desmembrado Império otomano a seguir à Primeira Grande Guerra. A tática elaborada por um comandante de esquadrão recomendava bombardeamentos contínuos, dia e noite, de casas, searas e gado, sobre as aldeias iraquianas. Eficaz. Dizia um jovem chefe de esquadrão: «Agora os árabes e os curdos sabem que em quarenta e cinco minutos uma aldeia completa pode ser totalmente aniquilada e um terço dos seus habitantes mortos por quatro ou cinco máquinas que não constituem nem um alvo para eles, nem oportunidade de glória como guerreiros, nem reais possibilidades de fuga». Note-se: são as máquinas que matam, não homens já. 
Era só o início do sistema de morte em massa e anónima.

Veio o Vietname, vieram as guerras coloniais da Europa, e aí o remédio indicado para as guerrilhas do inimigo eram os bombardeamentos indiscriminados, o napalm, as bombas de deflagração retardada. Não vamos falar sequer de Hiroxima e Nagasaki – o culminar do método da morte sem culpa, infligida de longe, anonimamente, a milhares e milhares de pessoas sem rosto, sem nome, sem presença, que nunca virão assediar o sono dos assassinos.
Mesmo assim, haverá quem lamente o desperdício – e falará de métodos ainda mais sofisticados – e menos impopulares entre os eleitores! – que tornarão possível matar vítimas selecionadas, já não à toa, usando métodos igualmente «anónimos». 

O exército israelita (a sua Unidade 8200, shmone matayim em hebraico, comparável à National Security Agency americana) criou uma base de dados, alimentada pelo programa «Lavanda» de inteligência artificial, que em pouco tempo, reunindo dados de variadas proveniências, conseguiu identificar trinta e sete mil alvos potenciais, com supostas ligações ao Hamas, para servirem de apoio à campanha de bombardeamentos em Gaza. Diz um dos agentes dos serviços de informações do exército, num relato de que dá notícia o jornal inglês «The Guardian» que eles, os utilizadores do Lavanda, tinham mais fé num «mecanismo estatístistico» do que num soldado, que poderia ser influenciado pela sede de vingança. «Todos nós ali, eu incluído – diz um dos autores do testemunho – tínhamos perdido alguém no 7 de outubro. Mas a máquina fazia tudo friamente. E isso tornava as coisas mais fáceis. Eu não perdia mais do que 20 segundos com cada um dos alvos nesta fase, e eram dezenas deles por dia. A mais valia  que eu acrescentava como humano era zero, não passava de uma espécie de carimbo de aprovação. Poupava-se uma data de tempo.» 

Mesmo assim, havia o risco, praticamente inevitável, de apanhar alguns civis inocentes, o que poderia suscitar algumas objeções morais ou legais a alguns militares. O Exército israelita sabe isso («é o exército mais ético do mundo», não se cansa de o lembrar) e, como esclarecem as fontes do artigo do Guardian, o Exército antes de o bombardeamento ser autorizado, no caso de certos alvos, aplicava algumas regras que apenas pré-autorizavam um certo número de mortes de civis. Diziam as tais fontes citadas pelo Guardian que durante as primeiras semanas da guerra era permitido matar 15 ou 20 civis nos ataques a militantes dos níveis mais baixos, que poderiam ser realizados com munições não-dirigidas, conhecidas como «bombas estúpidas» [dumb bombs], capazes de destruir casas inteiras com os ocupantes que lá se encontrassem no momento. «Não vale a pena estar a gastar bombas caríssimas com pessoas sem importância. É muito caro para o país e há muita falta delas.» No caso de altos dirigentes do Hamas, poderia atingir-se um número superior a cem mortes autorizadas [de civis]. «Tínhamos uma tabela para saber quantos civis poderiam ser mortos no caso de um comandante de brigada, de um comandante de batalhão e assim por diante», diz uma das fontes citadas. Outras fontes dizem que o número foi variando ao longo do tempo e houve casos em que não eram autorizadas mais do que 5 mortes de civis. 

O Exército de Israel, (o mais ético do mundo, como se auto-define) ao tomar conhecimento da publicação destes testemunhos emitiu uma declaração afirmando que as suas operações eram levadas a cabo de acordo com as regras internacionais da proporcionalidade. E esclarecia ainda que as chamadas «dumb bombs» constituem armas normais, que são usadas pelos pilotos israelitas de uma maneira que assegura «um elevado grau de precisão». E além do mais, garante um dos autores do relatório citado, «os sistemas de informação não passam de meros instrumentos usados pelos analistas do processo de identificação de alvos». 

Aqui para nós, não estou muito convencido de que o esclarecimento lave o Lavanda de algumas objeções ou acalme os escrúpulos de alguns com mais dúvidas quanto aos padrões do exército mais ético do mundo. Ou que apague todas as questões suscitadas pela publicação do testemunho destes seis membros do serviço de informações, todos eles envolvidos nos sistemas de Inteligência Artificial usados para identificar membros do Hamas e da Jihad Islâmica, a que o Guardian teve acesso e que foram originalmente comunicados ao jornalista Yuval Abraham que os utilizou na publicação israelo-palestiniana +972 e em Local Call, um site independente de notícias em língua hebraica.

Tudo isto nos deixa a pensar que não andaremos muito longe da guerra limpa, assética, eficaz como nos anúncios dos inseticidas mata-baratas e percevejos. E mais perto andaremos ainda se a isto juntarmos a informação da Amnistia Internacional sobre o sistema de recolha de dados biométricos de palestinianos, posto em prática pelo Exército israelita («O Exército mais ético do mundo», não nos esqueçamos), recorrendo a programas de reconhecimento facial (com nomes tão evocativos como Lobo Vermelho, Lobo Azul e Alcateia), efetuado sem consentimento, nas passagens dos pontos de controlo na Cisjordânia ocupada, acumulando deste modo uma vastíssima base de dados de palestinianos que, se em mãos menos éticas, poderia ser usada para restringir a liberdade de movimentos ou para exercer uma vigilância coletiva sobre as populações das áreas ocupadas.

Há quem se preocupe com tudo isto. E há quem ache que vai nisto uma enorme economia de esforços e de meios, uma guerra ao mesmo tempo eficaz e económica, o sonho dos fazedores de guerras que se deparam com o número sempre crescente de populações renitentes em se oferecerem para o supremo sacrifício pela Pátria. Quem há de resistir à tentação? Quem não faria soar o ti-li-tim fatal que lhes assegurasse a morte remota de todos, mandarins ou não, que se lhes opusessem?

Estou como diz o autor d’«O Mandarim», que conclui assim o seu relato: «Ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra de má argila, meu semelhante e meu irmão!»
E na verdade ninguém nos diz que não seja (ainda hoje) a cada um de nós que ele se dirige. 

lá bons sentimentos…

Decretou-se – não sei quando, não sei quem – que a boa literatura e os bons sentimentos andam sempre de costas voltadas. E isso que se diz dos bons sentimentos, poderá dizer-se de todas as suas declinações: as boas intenções, as boas causas, os bons propósitos. É muito capaz de ser verdade, sobretudo se pensarmos em alguns exemplos de uma literatura feita de pieguice, de beatices laicas, de sermões bem pensantes que mais não fazem, no fundo, do que pregar aos convertidos. A virtude, como os amores felizes, os guarda-livros honestos ou os casais fiéis, raramente nos merecem o mesmo interesse que nos despertam os marginais, os trapaceiros, as complexidades dos amores ilegais ou contrariados. Um estudante aplicado, sensato, incapaz de matar, sequer pensar em matar, alguma velha usurária dificilmente nos serviria de guia pelos intricados labirintos do crime, da culpa e da redenção. Digo eu. Há livros que precisamente ficaram conhecidos não tanto pela sua qualidade literária como pelos seus proclamados bons propósitos. Basta pensar no famosíssimo melodrama antiesclavagista «A Cabana do Pai Tomás», de uma, tirando isso, desconhecidíssima Harriet Beecher Stowe. Ou basta pensar na maior parte da literatura heróica e edificante que nos legou o chamado realismo socialista, esse sim decretado oficialmente e vigiado de perto, sob ameaça de excomunhão e exclusão, pelo comissariado da propaganda. É um exemplo extremo, é certo, mas que não deixou de ter os seus seguidores noutras paragens. Em modalidades menos extremadas, também é certo, seja porque assim o aconselhavam os brandos costumes locais seja porque nem em toda a parte havia jdanovs à altura ou com igual poder de, digamos assim, persuasão.

Mas, resumindo, e sem ter de bater mais no ceguinho: é sabido que a criação, a inventividade, a poesia, não convivem bem com os decretos, com os preconceitos, com os pressupostos, com as rotas previamente traçadas. E não há bons sentimentos que salvem essa literatura bem intencionada do inferno da banalidade que, aliás, deve estar bem recheado disso mesmo.

Mas… será sempre assim? Terá de ser sempre assim? Hão de perguntar os leitores que apesar de tudo ainda acreditam em bons sentimentos e em boas causas, que choraram ao ler «O Meu Pé de Laranja-Lima», que se comovem com a lição de simplicidade e ternura d’ «O Príncipezinho», que não resistem ao apelo de um livro que tenha por título O Homem que…, O Rapaz que…., a Mulher que… e outras tantas maneiras de anunciar que aí vem uma boa ideia para oferecer no Dia da Mãe.   E porque não? Porque não há de a literatura alumiar também os caminhos do vale escuro que todos estamos condenados a percorrer? Servir de exemplo, apontar futuros?
E sou capaz de não me enganar muito se adivinhar que já alguém estará a levantar a mão aí do meio do público atento empunhando o livro recém-publicado de John Steinbeck, «Noite sem Lua», que só a modéstia me impede de dizer que foi traduzido por mim.

É um livrinho pequeno, pouco mais de cem páginas, uma espécie de fábula sobre os horrores da guerra e sobre a resistência à ocupação militar, publicado em 1942. Conta a história da ocupação de uma pequena cidade costeira (que não é nomeada) por um invasor (que não é nomeado). Várias sugestões subliminares distribuídas ao longo da narrativa não deixam muitas dúvidas de que se trata de uma aldeia norueguesa invadida pelo exército nazi. É esta imprecisão deliberada que lhe dá precisamente o valor intemporal de uma fábula, aplicável a todas as situações idênticas em que uma força opressora nos rouba daquilo com que nos identificamos, um país, uma pátria, um lar. Não admira que o livro tenha sido traduzido para quase todas as línguas da Europa e tenha circulado clandestinamente nos países ocupados pela Alemanha, desafiando a censura e a repressão.

O livro, aliás, fora pensado precisamente como um meio de propaganda política. O Exército americano, assim como enviava cantores a artistas de variedades para animar os soldados nas frentes militares, não hesitava também em recorrer a escritores prestigiados com o mesmo objetivo. Steinbeck colaborava como voluntário com várias agências dos serviços secretos americanos (que mais tarde viriam a dar origem à CIA) e foi dessa colaboração que nasceu a ideia de «Noite sem Lua» (The Moon is Down) para encorajar a resistência nos países invadidos.

Não é seguramente o melhor livro de Steinbeck, que todos conhecerão mais pelos seus romances realistas sobre os trabalhadores rurais americanos («As Vinhas da Ira», «A Leste do Paraíso»). Por mim, se tivesse de escolher um livro de Steinbeck para levar para a ilha deserta dos inquéritos de Verão, mais depressa pegaria em «Viagens com Charley», uma espécie de diário da viagem que ele fez através da América numa carrinha adaptada (que batizou de «Rocinante») tendo como única companhia o cão Charley do título. Uma escrita viva, inesperadamente intensa, a rebentar do humor ou da indignação que a descoberta do seu próprio país lhe iam despertando. Muito diferente, do livro «empenhado», do vigoroso manifesto que é «Noite sem Lua», de personagens estereotipadas, rígidas, capazes por isso mesmo de melhor representarem sem grandes ambiguidades o papel que lhes cabe numa peça designada para servir o nobre objetivo de despertar os povos ocupados para a luta contra a opressão. Mais do que uma novela literária, é um panfleto político, deixem-me dizer assim, para cortar caminho. E a escrita é a condizer: simples, sem rasgos de imaginação, sem derivações, sem grandes complexidades ou dilemas psicológicos, disposta quase como uma peça de teatro, sem cenas exteriores, localizada em praticamente apenas dois cenários. O texto pouco mais é do isso mesmo: as falas de personagens de uma peça encenada para um «público-alvo». Aliás, no mesmo ano em que a novela foi publicada, Steinbeck publicou também uma versão teatral.

É o que é: uma boa, uma poderosa peça de propaganda antitotalitária, animada por uma boa causa e por bons sentimentos. Quem lho levará a mal?

O repovoamento de Alfama

Não há muito tempo, a fotógrafa Camilla Watson, de passagem por Lisboa, mas que por cá se foi ficando, desatou a fotografar os bairros antigos da Mouraria e de Alfama. Ou antes, o que aos olhos dela aí havia de mais interessante e vivo: as pessoas que lá moravam. Reuniu assim uma galeria variada de caras e de histórias que, achou ela, era pena deixar na gaveta. Mas também não via nada fora da gaveta onde elas calhassem. Só se fosse nos bairros a que pertenciam. 
Não era mulher de ficar à espera que as coisas aconteçam: havia que restituir os moradores ao bairro. E o que a Camilla sonhou, a Câmara quis, e a obra nasceu. Quem hoje percorrer as ruelas e becos de Alfama há de reparar numas fotografias que de onde a onde lhe hão de aparecer impressas na pedra. A Bélita do Chafariz de Dentro, a Tininha do Beco do Guedes aí estão tal como Camilla as apanhou, com uma pequena placa ao lado a contar um bocadinho das suas vidas.
Num cunhal de pedra aqui perto de minha casa, ficou definitivamente a morar o Sr.  Manuel Mendes que ninguém conhecerá por outro nome que não seja o Manel 18, de quem ficamos a saber que veio morar para Alfama em 1943, com 6 meses de idade.

Uma bela ideia, a da Camilla. E que logo foi aproveitada pela Câmara e pelo seu Presidente, que na inevitável inauguração, com as inevitáveis discursatas, adidos de imprensa e conselheiros de imagem, à falta de melhor inspiração, acentuou a importância de «perpetuar nas paredes as pessoas carismáticas do bairro».
Uma bela ideia, portanto. E no tempo certo. A tempo.

Não tardaria muito, todo esse mundo que evocam as tais «placas de contextualização», seria varrido por uma vaga devastadora de turistas e de alojamentos locais aqui diariamente despejados por cruzeiros e aviões vindos dos quatro cantos do mundo, para durante 3 ou 4 dias devorarem Alfama e tudo o que aí possa existir que vagamente lhes faça lembrar as sugestões dos folhetos do trip advisor e da internet. E na verdade será essa voracidade de gafanhotos de passagem tudo o que daqui levarão de mais parecido com um encontro com as gentes do sítio, com «o encontro de culturas» que é o turismo, como toda a gente diz com um ar desconvencido. De verdadeiramente local, só conhecerão o alojamento. E mesmo esse só durante uns 3 ou 4 dias que por cá passam. Um alojamento local que se fez à custa da emigração forçada dos locais para os bairros da periferia. Nunca conhecerão o bairro que aqui havia antes, porque para eles também não há «antes». É tudo um «agora», sem referência a mais nada. Para eles, Alfama será definitivamente um bairro cosmopolita, habitado por gente de todos os cantos do mundo, falando as muitas e desvairadas línguas do mundo, que passa o dia em pizzarias, esplanadas de caipirinhas e mojitos, a debicar uma comida feita ao gosto do maior denominador comum universal, sem espinhas, sem gosto, sem surpresas, no meio de uma barafunda tonitruante da música da moda e do fado.
É deles, agora, Al-fama e Al-proveito.

Os locais, esses, sem meios para chegar aos alojamentos locais dos turistas, lá foram para outros locais, talvez a reconstituírem uma vizinhança local que dure mais do que 3 ou 4 dias, que fale português entre si, em novas tabernas e leitarias, a falar do antes, dos alegres pregões matinais que, também eles, não voltarão mais. E no Sant’António virão a Alfama ver os turistas locais, ver os casamentos na Sé e as marchas da Avenida.

Dos antigos moradores locais, em breve, poucos mais restarão do que aqueles que as fotografias da Camilla eternizaram. Esses, ficarão para sempre em Alfama, moradores de pedra e cal.

Quem matou Jan Palach?

Por esta altura do ano, em 1968, os tanques soviéticos invadiram a Checoslováquia. Foi a maneira mais expedita que os tanques encontraram para pôr termo às veleidades reformistas dos checos que começavam a falar em liberdade de imprensa, de reunião, de expressão, de viagem – aquilo a que depois se chamou «a Primavera de Praga, tudo coisas de que os tanques não gostam. Acabou-se a Primavera; começou a ocupação. 
Os dirigentes checos reformistas, levados à força e em segredo para a União Soviética, assinaram aí um tratado permitindo o “estacionamento temporário” dos tanques soviéticos. Os tanques ficaram, pois, na Checoslováquia, mas agora como convidados. E logo iniciaram um período de Normalização, que implicava uma profunda repressão política, uma purga dos reformistas e o regresso à pureza ideológica que os tanques preferiam à Primavera.
Os checos comuns, singularmente, não perdiam muito tempo em salamaleques com os seus convidados forçados. Por mais mordaças que lhes pusessem, multiplicavam-se em manifestações, manifestos, e outras formas de protesto. Pacíficas, porque sem armas de igual peso, com tanques não se brinca. A força bruta, sem a mínima possibilidade de abertura, de negociação, em breve se traduz em revolta latente e em gestos desesperados.

Em 16 de janeiro de 1969, Jan Palach, um estudante universitário de Praga, imolou-se pelo fogo numa praça central da cidade. Tinha apenas vinte anos.

De tão terminante e irredimível, o gesto dá bem a medida da violência da repressão imposta pelos tanques. Um rapaz até aí anónimo, sem protagonismo político, sem ligações conhecidas a qualquer movimento organizado assinala a recusa dos tanques pelos checos deste modo tão assumidamente radical. Em que ser radical, como alguém antes dissera, «é ir à raiz. E a raiz do homem é o próprio homem.» O que aqui, de uma forma atroz, significava «é o próprio corpo».

A violência desta morte choca-nos, antes de nos questionar, pelo que nela há de inegociável, de sacrificial. Na nossa matriz cultural mais profunda, o corpo, o nosso corpo, é a linha limite da recusa. Todas as formas de protesto, de contestação, de recusa da ordem dominante, em que se recorre ao uso do corpo como arma começam precisamente por se defrontar com a incompreensão e o choque, mesmo daqueles que à partida poderiam estar de acordo com as razões por trás do gesto desesperado. Dizemos: até concordo com o que eles dizem, não posso é aceitar os meios que usam. Concordo com ele, com eles, mas… E é este «mas» o que realmente nos define.
Podemos concordar com uma greve da fome, mas…
Podemos concordar com os ativistas climáticos que põem o seu corpo em jogo, mas… 
Vagamente que seja, sentimos, queremos sentir, que há ali ainda um espaço para a negociação, para a contemporização, para uma chamada à realidade, à nossa realidade…

O que nós gostávamos, o que nós gostávamos mesmo era que houvesse uma qualquer varanda aonde pudéssemos mandar trazer uma bacia de água limpa e, aí, diante de toda a gente, diante do mundo, de nós próprios, pudéssemos lavar as mãos e proclamar a nossa inocência de tanta coisa suja que por aí se pratica em nosso nome.

Vinte anos depois da morte de Jan Palach, em janeiro de 1989, os protestos em Praga subiram de tom, desencadeando o que depois se chamou a «Semana Palach», que despertou o mundo para a situação que se vivia na Checoslováquia, que desfechou o primeiro grande abanão no muro de silêncio que rodeava a sociedade dos tanques, e que viria a soçobrar dez meses mais tarde em Berlim. No resto da Europa, muitos do que antes apoiavam os tanques, começaram a pôr-se em causa, e a pôr em causa esse apoio. Muitos desses movimentos e partidos começaram a esvaziar-se. Ninguém (quase ninguém) queria ser cúmplice.

Em Lisboa, no muro de um quartel que lá havia (hoje uma universidade), também eu, então escrevedor de paredes ainda no ativo, fazia a quem passava a pergunta com que comecei este postal: «Quem matou Jan Palach? Tinha apenas 20 anos».
Mas, bom rapaz que no fundo também sou, para não culpabilizar excessivamente a boa gente que todos nós somos, mais adiante no muro escrevi também: «Não vos inquieteis – é a realidade que se engana». 
Ainda hoje me serve de lema.

comércio local (3)

Neighbourhood (smash burger & beer)
Rose Beauty Club Sosciarelli
Vino Vero
La Matta Ristorante Pizzeria
Le Joyeux Gourmet
Bacaro Natural Wines Handcrafted Beer
Mu Gelato & Caffè
Look Change Saloon
Locals Nomads – Full of Wine
Funerária Bonfim

[Apesar do desaparecimento das mercearias, das peixarias e das padarias, o comércio local continua florescente aqui no bairro. Ninguém se pode queixar de falta de pizzerias – só no Largo da Graça e arredores contei hoje 4 recentes. Mas já antes tinha anotado aqui esta exuberância do comércio local, como se pode ver em: https://zelima388727646.wordpress.com/2024/01/18/comercio-local-2/ e: https://zelima388727646.wordpress.com/2023/02/05/comercio-local/ ]

Vai-se a água… vão-se os burros…

Para chegarmos à praia, atravessamos um campo que quase chega à beira-mar. Nesta altura do ano está coberto dos talos ainda tenros da aveia segada há pouco tempo. E era aí que invariavelmente encontrávamos o Gilô. Preso pela arreata a uma vara espetada no chão, ia pastando um círculo quase perfeito de erva até onde a corda chegasse. Assim que sentia a Cereja por perto, desatava a zurrar e a resfolegar numa saudação em que se adivinhava a amizade e as saudades que sentia depois de um ano de ausência. Muito provavelmente, também a lembrança dos mimos que ela costumava levar-lhe: umas folhas de couve, umas cenouras, restos de fruta. Amigo certo dos nossos verões, portanto, o velho Gilô.
Este ano, ao passarmos pelo campo, munidos das desejadas cenouras, nada de Gilô.
Quando depois encontrei o dono, perguntei-lhe pelo nosso amigo. Eram tristes, as notícias. Como ele contou:

O burro ficou doente. Não conseguia andar.  Mal dava um passo. Não conseguia se alevantar sozinho. Uma vez levantou, mas não conseguia ficar em pé. Eu já estava a chorar e o caraças. Que ia eu fazer? De repente deu-lhe aquilo. Naquele dia começou a ficar  mal. Eu queria pô-lo num terreno ali em cima e ele tremia todo. Levantava-se, bebia água e depois ficava sem se mexer. Dava-me pena, não esperava que o bichinho ficasse ali assim. Foi qualquer coisa que lhe deu de repente. O homem veio aí e disse logo: olha a melhor maneira é dar uma injeção e mata-se e pronto. Tenho muita pena, mas é assim. É que tu vais ter aí o burro a sofrer. A parte aqui deste lado estava toda rasgada, já estava em sangue. E ele disse: não adianta nada. Dá pena. Dar pena, dá, isso dá. E deu-lhe a injeção. Parece que o bicho até chorou. Tinha uma lágrima no olho. Eh pá, fiquei, sei lá… 
E onde vou eu agora buscar outro? O Zé do peixe passou aí e disse-me: Olha, tenho um burro e nem pagas nada. E tenho outro, de outra pessoa, uma estrangeira, mas essa é muito longe. É em Faro. É uma burra, uma burrinha bonita, tem três anos. E este daqui é um macho. Até me fazia jeito, um casal era bom. Ela também o quer oferecer, também. Mas tinha de o ir buscar. Não sei. Há aí o meu amigo Zé, um rapaz que vende aí o peixe. Na quinta-feira ele vem aí e vou falar com ele. Ele tem um atrelado desses que levam cavalos. Mas depois tenho de pagá-lo. Não sei quanto ele leva, só perguntando a ele. O pior é a água. A minha mãe não quer. Disse-me logo: isto está sempre a piorar, a piorar. Eu queria, gosto de ter aí os animais. Agora se arranjasse um casal era bom. Mas a água é que é o principal. Os animais precisam de água. Um burro mama mais água do que as ovelhas. As ovelhas todas juntas, e o burro mama mais água que as ovelhas todas. Logo se vê. Há de haver mais burros. Mas o problema é a água. A água não é suficiente. Dá para as ovelhas beberem, mas… não sei, não sei, tenho medo. Isto, o tempo não anda famoso. A chuva não foi muita. Aqui não choveu nada, nada. Então vejam lá, o meu poço grande já se vê o fundo. Quando eu esgoto leva uns quatro dias a vir acima. Mas não é de repente, é pouco a pouco, pouco a pouco. Comer há com fartura, mas água… O poço dali da vizinha também está muito em baixo. O outro ali, o poço dele está seco. O meu pequeneco, aquele debaixo da amoreira, estava cheio de água, já não tem água nenhuma. Cada vez é menos chuva, cada vez é pior. O problema é esse. Os poços estão a secar. Aquele ali comprou aqueles depósitos grandes. Compra a água a um homem, ele vem cá enchê-los. Mas ele já disse, se isto assim continua não vou poder vender mais. Tenho os meus animais e já tenho pouca água. Os furos também se acabam. A água vai, vai e também desaparece. Ninguém semeia nada. As coisas secam na árvore. As plantas não dão nada. Este ano só pusemos grãos e tremoços. Por isso é que eu digo a muita gente: de que vale gastar dinheiro a fazer furos e depois ficar sem água e sem o dinheiro? Olha, chapéu! Isto, a água, se não chover, desaparece. Isto vai secar tudo, vai morrer tudo, árvores, tudo. Que vou dar ao burro? Comida até há, há aí muito feno, mas a água? E os garrafões da água que a gente bebe estão cada vez mais caros. E a água que a gente compra para dar aos animais não é barata. Às vezes são os bombeiros que trazem, outras vezes é ali um homenzinho que também tem vacas, traz um pipote de três mil litros e enche ali os depósitos. E também não é barato. E tem de se comprar sempre mais. Mas houve ali um dia que… Eu até estranhei. O depósito estava vazio, os três mil litros desapareceram num instante. Ia para regar e nem uma pinga de água? Fiquei todo marafado. A terra estava dura como pedra. Se tivesse vertido água havia de estar encharcada. Alguma coisa foi. Não me digam que a roubaram! Que há quem roube… A mim já me roubaram… havia ali uns molhos de tremoços que eu tinha ali em cima e já mos roubaram E a água são bem  capazes também. Podem roubar… Isto está aqui um problema grave. Não há água nem para nós nem para os animais. Nunca mais choveu como deve ser.

um fósforo no escuro

Pode ser muito enviesado o caminho seguido por um livro até chegar às nossas mãos. Este que ando a ler, por exemplo, chegou-me por causa de uma citação que dele fazia um outro que não sei já qual seria. É este um dos o males de andar a ler vários livros ao mesmo tempo, à espera que algum nos agarre com toda a força que nele haja e (quase) nos obrigue a ler o resto de fio a pavio. Não seria o caso do tal livro agora esquecido, mas que no entanto me deixou às voltas com uma citação de um texto de Javier Marías, um escritor espanhol, que aliás não conhecia, sobre tradução. É um tema que me interessa o suficiente para me levar a procurar o livro do tal Javier Marías e ir ver como defenderia ele a tese que despertou a minha curiosidade e que a citação apenas expunha brevemente.

A ideia que nesse texto se expõe parte do caráter quase sagrado d0s grandes textos da literatura mundial, escritos numa língua que, por força da passagem do tempo, se vai tornando para os leitores atuais cada vez mais distante e incompreensível. E, porque intocáveis, esses textos permanecerão para sempre iguais, na fermoza lingoa em que foorão escriptos. Qualquer variação, por mínima que fosse, seria considerada inaceitável. Em contrapartida, esses mesmos textos poderão ser sucessivamente traduzidos, acompanhando a evolução da língua para a qual são traduzidos sem que com isso deixem de ser os mesmos. Numa comparação usada pelo autor: tal como uma partitura musical que pode ser interpretada infinitas vezes, com uma infinidade de diferentes matizes, velocidades, instrumentos, consoante os intérpretes, sem nunca deixar de ser ela própria. A partitura não muda, mas soa distinta cada vez que é interpretada. Os textos originais, diz ele, são um pouco como as partituras musicais; a tradução um pouco como as diferentes execuções ou interpretações daquilo que de outro modo estaria condenado a ficar silenciado, e a empalidecer com o tempo e convertendo-se aos poucos em hieroglifos crípticos para os descendentes de quem escreveu o irrepetível e intocável e inalterável texto.

Javier Marías usa como exemplo o caso do Don Quijote de la Mancha – tinha que ser! – ou da Montanha Mágica, de Thomas Mann, das Afinidades Electivas, de Goethe, da Metamorfose, de Kafka. A lista limita-se a autores alemães por se tratar de um texto que foi lido pelo autor em Dortmund, Alemanha, na cerimónia de entrega do prémio internacional Nelly Sachs que lhe fora atribuído. Mas não será difícil completá-la com muitos outros livros de muitas outras línguas. Nenhum espanhol ou «hispanohablante», diz ele, aceitaria como início do Quixote outras palavras que não fossem: «En un lugar de La Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor…» Assim como nenhum português, poderíamos nós dizer, aceitaria como início da obra de Bernardim Ribeiro um outro que não fosse: «Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual fosse então a causa d’aquela minha levada,—era eu pequena,—não na soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de ser o que depois foi.»

A verdade, porém, é que como tudo o que é humano também as línguas sofrem mudanças e  envelhecem. E se esses textos clássicos (e portanto intocáveis e quase sagrados) ainda hoje são lidos são-no em grande parte por «imposição» dos currículos escolares que desse modo pretendem passar às novas gerações o precioso legado dos grandes autores. Só que a linguagem, o vocabulário, mesmo a sintaxe, foram-se tornando para os leitores atuais em grande parte numa verdadeira escrita hieroglífica, apagada pelo tempo e às vezes seguindo carreiros muito diferentes dos iniciais, assumindo novos conteúdos e conotações. Ainda há pouco estive a ver os livros recomendados (e «obrigatórios») para o ensino secundário e pude constatar como o brilho dos textos de Fernão Lopes, de Gil Vicente, do Padre António Vieira, para me ficar por estes exemplos, apenas conseguiam chegar-nos lá da distância dos anos luz de quando foram foram escriptos à custa de uma infinidade de contextualizações, comentários explicativos e notas de pé de página.

Não assim com as traduções – é essa a tese exposta por Javier María. Diz ele: «os alemães do futuro gozarão do privilégio de continuar a ler o Quixote na sua língua alemã do futuro e não numa versão arcaica; tal como nós, os espanhóis, poderemos continuar a ler A Metamorfose ou A Montanha Mágica no nosso espanhol futuro e não num espanhol arcaico.» Por isso se sucedem, se renovam, se atualizam regularmente as traduções dos grande clássicos que, esses, se mantêm eternamente inalterados, intocáveis que são. Falo dos autores clássicos, mas, no fundo, o mesmo se poderia dizer em relação a quaisquer outros livros, qualquer que seja a sua idade. Uma vez escrito, o livro assim se manterá (em princípio) para sempre na sua língua original. E também aqui vale a regra de que cada uma das traduções que dele forem feitas irá acompanhando a evolução da língua da tradução.

Aqui fica, em resumo, a tese sobre a atualidade da tradução, tal como é exposta por Javier Marías, escritor espanhol e também tradutor, num artigo intitulado «Una pobre cerilla», incluído no livro «Literatura y fantasma», que reúne variadíssimos textos seus sobre variadíssimos assuntos. E, se nem todos me mereceram a mesma atenção e apreço, este que aqui deixo resumido foi para mim como o fósforo no escuro (a cerilla do título), que, mais do que iluminar, serve para mostrar a dimensão das trevas que nos rodeiam.

tréguas tribais

Para onde quer que eu vá, os meus passeios com o cão acabam quase inevitavelmente por me levar até ao grande muro que circunda o quartel. Sou um leitor compulsivo e atento das mensagens que ali se vão sucedendo, umas vezes sobrepondo-se às que lá estavam, outras infestando-as com os mais variados riscos e rabiscos. Murais feitos com todos os cuidados são torpedeados com todo o tipo de àpartes, a escorrer tinta e ironia, ou raiva, às tantas. A uma esmerada composição de feministas a jurar «sororiedade» (sic) às 3 Marias, no fraseado elaborado da pieguice bem-pensante do momento, e logo desfeiteada por um «tem juízo» numa garatuja alarve, segue-se um outro mural com slogans de apoio à «Palestina Livre», enxertado de intervenções que desfiguram as imagens das, supõe-se, mulheres palestinianas aí representadas. Ao fim de algum tempo (e já ali está há algum tempo), o mural fica salpicado de rabiscos atabalhoados. Como glosas intercaladas num texto alheio, alguém tentou desfazer o que está dito (e atira com «Terroristas!», que depois será riscado por cima a tinta diferente), enquanto outros deixam o seu apoio à Palestina (e ao Hamas!). No meio disto tudo, ainda sobra espaço para achincalhar o mandão do Miguel, mas recorrendo ao dialeto agora tão em uso entre nós («Miguel, calma, you are so bossy!»).

Fazem-me lembrar, estas trocas públicas de denúncias, de apelos, de insultos, os antigos dazibaos dos maoistas chineses. Não sei se alguém ainda se lembrará: aqueles cartazes pintados ou escritos à mão que infestavam os muros das cidades e das universidades chinesas durante a chamada Grande Revolução Cultural Proletária. Representavam, na opinião dos que detinham o Poder, a opinião pública, livre e sem intermediários, e eram em grande parte o pontapé de saída para as vastas purgas que então se sucediam, com denúncias da atuação «contra-revolucionária», da incompetência ou da corrupção de funcionários locais. Anónimas, sempre. 
Diga-se também que o tosquiador acabou em boa parte por sair tosquiado: os dazibao que então foram consagrados como um direito garantido pela constituição de 1975 começaram, com o virar dos tempos, a ser usados como meio de expressão do movimento por reformas políticas e económicas. Depressa se desfez o que depressa se fizera: os dazibaos são probidos e é abafado o movimento que veio a encontar o seu fim sangrento no massacre da Praça de Tiananmen em 1989.


Claro que nestes dazibaos da Graça, em Lisboa, não há sequer uma sombra disso. Nem estes ataques e denúncias são causa de destituições, prisões ou desterros de quem quer que seja. Lembrei-me disso só pelo que aqui há de confronto espontâneo de opiniões (que não é o mesmo que confronto de ideias, há de notar-se). Ninguém pedirá policiamento ou limites para expediente tão espontâneo e livre, pelo menos enquanto se ficar por aí, pelas opiniões.
Mas não é isso que me leva a falar nos murais da Graça. 
É que o painel que se segue no muro está ali há muito mais tempo do que estes de que falei. E até já apareceu por este blogue há uns tempos. (Para os que chegaram atrasados, pode-se ver, clicando neste link: https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/227). Aqui o que se regista, mesmo que involuntariamente, é a contenda surda que se estabeleceu entre duas tribos vizinhas: os da «Resiliência» e os da «Resistência». Quem aí primeiro se instalou foi a Resiliência e, como quem assenta um padrão a assinalar a propriedade de terras estranhas, assinalou o facto com um mural feito com todas as regras da arte, com todos os efes e erres. Mas não é que em poucos dias (ou noites) alguém lhes pôr um travão? Os da Resistência, sejam eles quem forem, vieram pôr os pontos nos is, ou antes o ésse e o tê, que logo muda toda conversa e o entendimento a dar à intervenção. Ainda houve mais uma pequena escaramuça – em que se apagaram e se reescreveram as duas letrinhas teimosas. Mas depois mais nada. Foram-se passando os meses (muitos) e nada. Os murais ao lado vão mudando, vão sendo enxovalhados ou vitoriados, e este aqui: nada. Porquê, não faço ideia. Será assim em obediência a alguma regra, que ignoro, do Código não-escrito dos escrevedores de paredes? Alguém me saberá explicar? Que isto dá que pensar, dá. Pelo menos a quem vagueia por aqui sem nada mais que o ocupe do que estes pequenos nadas de que se alimenta o diário do bairro.

conversa no jardim

Passo aqui os dias, estou sempre sozinho, pois estou. Já não conheço cá ninguém.  Aquela rapaziada dos barcos, morreram todos. Trabalhei lá muito tempo. Estou reformado de lá. Passei muito tempo lá, nos barcos. Havia muita carga antigamente, havia. Agora acabou tudo, acabou esses navios todos. Era cortiça, era carvão, era tudo. Agora vem tudo em contadores. Foi um meu irmão que me arranjou para lá. O meu pai também lá andou. Já não conheci o meu pai. Não me lembro nada dele. Era miúdo ainda. Morreu muito cedo. Também trabalhava aqui no porto de Lisboa. Era o meu irmão, eram dois cunhados meus. Depois ficaram reformados e foram para a província. Tinham lá casa. Eu também tenho lá duas casas. Estão vazias, a cair para o chão. Casas de pedra. Tenho lá uma que gastei uma porrada de contos com ela. Essa é de cimento. Vigas de cimento. Dura para o resto da minha vida. Em agosto vou estar lá um mês ou dois. Era para lá estar, estava lá melhor que aqui. O que é um gajo vai para lá e está lá sozinho. Não tenho lá ninguém. Estava melhor lá no nosso sítio. Temos lá casa. Terrenos há poucos. Vieram uns que andaram lá a comprar aquelas serras todas, a porem vinhas. Andavam lá máquinas a lavrar aquelas serras todas, aquelas barrocas e tudo. As minhas terras nem dadas as querem. Os meus pais tinham batatas, tinham milhos, tinham trigos, tinham umas cavadas ali naquelas baixas, semeavam tudo. Não vendiam, comiam o que criavam, ninguém comprava. Era uma zona que não havia ninguém que comprava nada. Agora os que vêm de fora, compram aqueles sítios, compram aquilo barato. Dantes mal dava para viver. Antigamente trabalhava nas terras, era o tempo da minha mãe, dos meus irmãos. Trabalhava nas fazendas, cavava terra, semeámos batatas, semeámos tudo. Dali da povoação levávamos uma hora a pé. Para ir para aquelas fazendas. Tínhamos lá uma adega, uma casinha e íamos para lá comer e dormíamos lá. Agora lavraram aquelas barrocas, está tudo lavrado. Ainda me deram cem contos por uma fazenda daquelas. Aquilo é só serra. Serras altas. Antigamente não havia estradas. Era só a pé. Era só caminhos. Agora é só estradas. Havia rebanhos de gado. Ovelhas e cabras e cabritos. Era uma vida dura. O meu pai morreu cedo. A minha mãe morreu cedo, praí com uns cinquenta anos. Naquele tempo morria muita gente nova. Passavam muita miséria, coitadas, muita fome. No meu tempo tinha aí trezentos moradores, ainda era muita gente, agora é uma dúzia de gatos, já nem os conheço. Uns morreram, outros… não há lá ninguém do meu tempo. Tinha dois irmão, já morreram os dois. Morreu um e outro apareceu morto lá numa propriedade, enforcado. Enforcou-se. Foi para lá e apareceu lá morto, numa fazenda que lá havia. Foram lá dar com ele morto. Trabalhava aqui nos barcos. Aquilo lá, algum o matou ou o enforcou. Tinha uma gaja, andava só agarrada aos homens, só andava metida era com os velhos. Aquilo lá houve algum gajo, lá o apanhou naquele sítio, lá o apanharam e enforcaram-no. Nunca se descobriu nada. Ela já morreu. Se fosse agora tinha uns cem anos. Eu também já estou velho, já estou com oitenta e seis anos. Morreram todos. Éramos três rapazes e três raparigas. Só uma é que é viva. Está com noventa e cinco anos. Já não sai de casa, coitada. A minha sobrinha está ao pé dela, só tinha aquela filha. A minha sobrinha, coitada, também teve azar.  Estava com dois homens e agora está sozinha, os gajos largaram-na da mão e ficou sozinha.  Esteve sempre junta com dois homens. Também eram lá dos meus sítios. Viviam os três juntos. Ela teve azar. Um, juntou-se com outra gaja, lá a deixou, lá foi embora, nunca mais apareceu. O outro anda lá fora, trabalhava nas obras, lá para a França, para aquelas terras todas. Fazia daquelas chaminés, dos fornos para fazerem pão. Era mais novo que a mim. Ela teve azar. Não fazia mal a ninguém. Não sei lá o que eles faziam. Agora está sozinha. Tem um filho, tem uns cinquenta anos, o filho, já. Também trabalha aqui no porto de Lisboa. A minha sobrinha tem ali uma casa, naquela rua. Gosta daqui da cidade. Ainda é nova, tem uns sessenta anos. Eu estou ao pé dela, estou sozinho e estou ao pé dela. Dou-lhe qualquer coisa, dou-lhe um xis, para o comer. Eu quando vim da terra vim para cá, vim aqui para a Graça, trabalhava num sapateiro. Depois  um cunhado meu é que me arranjou trabalho para ir para essas vinhas no Cartaxo e por aí. Vinham daquelas serras, iam para o Cartaxo, para Vila Franca de Xira, para Santarém, para aquelas quintas. Cheguei a andar por lá. Trabalhava de noite e de dia. Vinha o capataz que arranjava trabalho, ia às terras buscar pessoas para trabalhar. Foi um cunhado meu que me arranjou o trabalho para ir para ali. Já morreu. Já morreram, os meus cunhados. Andava ali muita gente lá dos meus sítios, era gente aos montes. Viviam lá naquelas serras, naquelas barrocas. Havia um manajeiro e que ia buscar pessoal para trabalhar nessas vinhas, ali no Cartaxo e por aí. Tinham casas e tudo para nós.  Acabou tudo, agora acabou tudo. Havia pouco trabalho naqueles tempo, éramos três irmãos, todos os rapazes, vínhamos todos para ali. Dantes no nosso sítio era só cavar as fazendas. Havia uns que eram caçadores. Havia muitos e quando chegava o domingo andava tudo com a arma às costas. Pagavam, não era?, pagavam a licença, tinham de andar com as armas. Eu não. Às vezes levavam-me com eles. Os meus cunhados é que iam. Eram caçadores. Lá no meu sítio naquelas serras havia coelhos, havia perdizes, havia tudo, não é? Acabou tudo. Acabou. Ainda há coelhos, mas já é pouco. Arderam aquelas serras todas, ardeu tudo com o lume. Era só serras ali. Agora acabou tudo, não há trabalho nem nada, Só esses que vêm de fora, da França e assim, compram tudo. Fazem ali as moradas e ficam lá a morar. Lá nos meus sítios há umas vinte pessoas que vieram de fora e fizeram lá casas. Têm vinhas, têm olivais, têm tudo. E eu um dia também vou. Tenho lá uma casa. Aqui a casa tem muitas escadas e custa-me muito a subir. Sou aleijado de uma perna e já me custa subir escadas. Foi um gajo, uma brincadeira. Havia lá na terra uma festa, assim no verão e eu estava na cama e ouvi a música que vinha de lá de muito longe para vir tocar na festa. Vinham a tocar aquelas cornetas. Cheguei lá e vi um rapaz. Eu ia a correr também, ia a passar. Ele tinha um embrulho e meteu lá chumbo e pedras e pólvora e eu ia a passar e apanhou-me numa perna. Eram paródias, a andarem aos tiros. Eu ia a passar e apanhou-me. Os chumbos eram grossos, foi um estouro que eu sei lá. Levaram-me para Coimbra. Passei um ano no hospital.  O que é fiquei aleijado desta perna. Se eu tivesse ficado na cama, não apanhava aquilo. Mas a música vinha a tocar, era da parte da manhã. Vinham a pé para o meu sítio, tocavam aquelas cornetas, aquelas músicas e vinham até àquelas aldeias, Antigamente era assim. Havia muita malta nova. Era a festa do verão. Agora já acabou. Era em agosto. Uns a dançar, a música a tocar, uns a tocar concertina ou harmónica. Acabou a festa. Este ano já não há nada. Juntava-se ali muita malta, vinham daqui, vinham de um lado e doutro. Juntavam-se ali aos montes. Ali por aquelas serras havia muitas terras, muita gente. Mas não havia estradas. Era um deserto. Ali a gente para olhar só tem as serras, aquelas barrocas fundas. Não é como aqui. Aqui olha-se para qualquer lado e vê-se muita coisa. Eu não tenho mais nada que fazer. Venho para aqui para o jardim. Já não há cá ninguém do meu tempo. Apanhei isto na perna e nunca arranjei mulher. Às vezes no verão vamos lá, eu, a minha sobrinha e o filho dela e vamos à vila e compramos tudo para comer. Dantes lá na terra havia aquelas tabernas e vendiam tudo. Mas agora morreram todos. Não há nada. Agora tem de se ir à vila. Já não conheço lá ninguém. E aqui também não. Passo os dias aqui no jardim. Às vezes vou até lá acima à Graça. Ir para onde? Com esta perna tudo me custa. E custa-me subir as escadas. Esta perna não vale. Um dia vou para a terra. Ajusto-me lá com um restaurante e estou lá melhor do que aqui. O que é fico sozinho. Já não os conheço, os de lá. E cá também não. Morreram todos.

mira mira não me toques

Deram-me ontem um vasinho com uma flor. Não estava nada à espera. Embora andasse há muito tempo a namorá-la. Nos meus passeios com o cão passo quase todos os dias por ali – uma escolinha separada da rua por um gradeamento que tem uma espécie de parapeito onde se alinham uns quantos vasos variados. O costume: plantas para todas as estações, desabituadas de mimos e finezas, que resistem a tudo. A tudo menos a passantes cobiçosos, como vou contar. Sardinheiras, cactos ou coisa que o valha, aspidistras, espadas de são jorge, e às vezes alguma surpresa menos habitual. Era o caso: um vasinho com a tal planta de que me agradei, uma coroa de picos eriçados a guardarem umas florzinhas de um vermelho incandescente como nunca vi outro. Não teria a lata de cortar um rebento para mim, claro, mas fiquei de olho nela, à espera de ver alguém a quem o pudesse pedir. Daí a tempos, a plantinha desapareceu. Alguém menos paciente tinha tentado roubá-la. Só os picos, talvez, mas sobretudo a grade estreita tinha travado a mão larápia. Isso disse-me uma senhora Celina com quem finalmente cheguei à fala. Trabalha na cozinha da escola e vai dispensando alguns cuidados às plantas. Deu pela tentativa criminosa e tratou de esconder o vaso dos olhares cobiçosos. Mas prometeu-me que quando chegasse o tempo frio, mais próprio para estes transplantes, me daria um pé de mira-mira-não-me-toques, que assim se chama a planta, disse-me ela. O Professor Google, consultado por mim, confirmou: é esse um dos nomes que dão a esta Euphorbia milii. Mas também: dois-irmãos, bem-casados, duas-amigas ou dois-amigos (por as flores aparecerem normalmente aos pares), ou então não-me-toques, coroa-de-espinhos, coroa-de-cristo ou martírios (logo se percebe porquê, basta olhar para os picos). Menos ingénuo, o nome científico tem uma origem mais mundana: vem-lhe do barão Pierre-Bernard Milius, governador da atual Ilha Reunião, que trouxe de lá algumas destas plantas para o Jardim Botânico de Bordéus em 1821. Vá-se lá ver as voltas que o mundo dá…
Mas, o que eu estava a contar: ia eu ontem a passar na escolinha e chamou-me a Senhora Celina. Tinha preparado um vasinho com um pé de mira-mira para me dar. E já cá está, ao pé das outras flores que com o passar do tempo tenho trazido para casa dos meus passeios pelos baldios e terrenos vagos para onde o cão me arrasta. Flores silvestres que não sei como invadem o mais ínfimo pedacinho de terra que haja à mostra no meio do betão e da calçada. Coisa linda de se ver, diga-se, para os olhos dos camponeses exilados que bem vistas as coisas todos nós somos. Foi assim que aos poucos fui enfiando nos vasos do terraço inteiras campinas de outros sítios: papoilas, ainda que pouco dadas a emigrações forçadas, e que por isso se recusam muitas vezes a pegar; pampilhos, sempre todos lampeiros a instalar-se aonde quer que os levem; e capuchinhas, e tomilho, e o que mais calhar. Até – das minhas preferidas – soagens. Trouxe este ano algumas, embora só um pezinho se tenha resignado ao degredo, sempre com um ar um pouco contrafeito, como um estorninho perdido do bando, habituado que está às planuras por onde a soagem alastra em extensões compactas. É feito de soagens, o manto púrpura que na primavera cobre as campinas por esse Alentejo fora. O meu terraço não é já se sabe a planície alentejana, mas sempre me serve de lembrança desse deslumbramento, e com isso me absolve de assim a ter roubado à companhia das suas iguais.