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o puro sangue português
anda agora por aí uma gente a falar nos “verdadeiros portugueses”, a clamar que os emigrantes envenenam a pureza do sangue português. O que, desde logo, num país que tem a maior taxa de emigração na Europa, já devia dar que pensar. Mas o que é pior é que há quem lhes dê ouvidos. Talvez os que se consideram como sendo esses tais “verdadeiros portugueses”. O que é uma coisa que me deixa um pouco baralhado, a mim, que poucas ou nenhumas certezas tenho sobre o meu direito a tal Denominação de Origem Certificada. E que nem sequer estou a ver como se há de medir o índice de tal pureza.
A certidão de nascimento de Portugal data de 1143, com o tratado de Zamora em que Afonso VII de Leão e Castela reconhece Portugal como reino independente. Os portugueses, porém, já há muito por cá andavam. Já nas suas veias corria o sangue de muitos povos que por cá tinham passado. Não só os lusitanos e outros iberos, também os túrdulos, os celtas, os galaicos, os góvios, os vetões. Quando andei na escola ensinavam-nos que por cá tinham andado vândalos, alanos, suevos, visigodos, todos eles nos deixando o seu legado de palavras, lendas e genes. Parece que mesmo gregos e fenícios. Sem falar nos romanos e nos mouros que cá se instalaram com mais demora. E de certeza que toda esta gente nos deixou mais do que algumas palavras, mais do que algumas alfaias agrícolas, algumas artes dos metais e da guerra. Além dos destinos que assim se cruzavam, de certeza que algo mais se cruzou também. E que disso ficaram sinais nos genes dos que por cá iam ficando, e que viriam a ser os tais portugueses. Nós.
E outros foram passando, e alguns ficando. O nosso primeiro rei é filho de um borgonhês. E herdeiro de um reino e de um legado genético onde certamente se reflete toda a história que lhe fica para trás. Nada na natureza é de geração espontânea. Todos nós temos ancestrais comuns e todos nos irmanamos nessa herança.
Falo por mim: o meu DNA conta uma história que me liga a uma herança muito distante da decantada “pureza” de que falam os “verdadeiros portugueses” que agora por aí se ouvem. Maioritariamente ibero, é certo, mas também com inúmeras “gotas” de sangue italiano (certamente romano), celta, francês, asquenaze, escandinavo, norte-africano e árabe.
Como sei isso? Sei porque fiz um teste genético. Não é que estivesse particularmente interessado no assunto, foi mais uma questão de curiosidade. A Rita participava num trabalho sobre genética e eu aceitei ser voluntário para o estudo. Todos cá em casa mandámos amostras da nossa saliva e daí a tempos recebemos o relatório. No meu caso como já disse bastante comprometedor para a “pureza portuguesa” das minhas origens. E como não sou evidentemente caso único, é muito provável que todos os que por cá andam tenham saído da mesma costela, mesmo sem remontar aos tempos do pai Adão.
agora tenho um burro

Chama-se Atenor. É conhecido por ser brincalhão. Gosta de deitar a língua de fora a quem se mete com ele.
Ainda não nos conhecemos pessoalmente. Ainda só trocámos fotografias. Mas um dia destes há de ser. Quando eu ganhar coragem para rumar a Miranda, à aldeia de Atenor (voilà!), onde ele mora, no Centro de Valorização do Burro de Miranda.
De há muito que eu dizia que se tivesse onde os meter, gostava de ter um burrinho e uma cabrinha. A Cereja e o Coiote pegaram-me na palavra e como prenda de Natal mandaram-me o Atenor. Para já só a fotografia e um certificado a atestar o laço assim criado entre nós. Ah, e a promessa de me irem dando notícias do burrinho.
Há já uma longa linhagem de burros na família (mesmo sem contar os burros que nós somos ;-): O Coiote conhecia de pequeno o Carocho (na verdade do velho Coronha- ver photo) e a Cereja é amiga do peito do Gilô (na verdade da Constança, do Pegão, no Algarve). Ora eu não sou menos que eles. E agora tenho também eu o Atenor. Hi-han!
A cabrinha talvez fique para melhor ocasião.

O que há num nome?
Começo com Aldegundes, uma menina da escola onde andei. Não gostava nada do nome. Tinham-lho posto os pais para agradar a uma tia (rica). Dou-lhe toda a razão (à Aldegundes) – imagine-se o desânimo dos (futuros) namorados quando se lançassem à indeclinável tarefa de lhe cantarem os louvores em rima. Mas, ainda assim, teve mais sorte do que os três filhos do sr e da sra Campbell, de New Jersey (EUA), a quem foram dados os nomes de Adolf Hitler Campbell, Honszlynn Hinler Jeannie Campbell (Hinler, em honra de Heinrich Himmler), e JoyceLynn Aryan Nation Campbell. Diz a notícia onde li isto que, mais tarde, o sr Campbell requereu uma alteração da certidão de nascimento da filha. Queria corrigir a ortografia do nome, de Arian para Aryan.
Por estes exemplos, já se pode ver como pode ser pesada a herança legada pelo nome que nos calha em sorte. Oiça-se a coitada da Julieta (sim, a do Shakespeare) quando se queixa como os seus amores com Romeu se vêem travados pelos nomes das famílias (rivais) que cada um arrasta consigo: “Que há num nome? Não teria a rosa, se lhe déssemos outro nome, igual perfume?” Será justa a ingenuidade da Julieta, mas nem sempre são justas as razões da força e de quem tem o poder de decidir. Não admira também por isso mesmo que haja quem pondere (logo que pode fazê-lo, atingida a idade da razão, atingida a independência) renegar essa herança.
Claro que também haverá sempre alguém para contrariar: pode apagar-se o nome de alguém, dirão, mas a verdade é que ao apagá-lo se apaga também a sua identidade. Mas que identidade? – há que perguntar. A de quem (im)pôs o nome ou a de quem o carrega? Pergunte-se à Aldegundes (a quem as amigas, aliás, tratam por Aldy). Pergunte-se aos meninos americanos a quem (im)puseram o nome de “Hitler”, ou de “Himmler”, ou de “Nação Aryana”.
E o que se diz para uma pessoa como não dizê-lo quando são milhões de pessoas, países inteiros, “batizados” por quem se considerava donos deles?
Chega o colonizador português (ou francês ou inglês, que a lógica é a mesma) a uma terra e porque aí vê que a riqueza a explorar é o marfim dá-lhe por nome Costa do Marfim. Se ouro, Costa do Ouro. Se o que há de mais imediatamente visível para enriquecer é uma madeira vermelha como brasa, pois ficará “Brasil”. Se o estuário onde aportam lhes parece ter a forma de um gabão, o casaco que usam os navegadores portugueses, é mesmo esse o nome que darão ao novo entreposto de escravos, Gabão. E assim ficará, declinado nas várias línguas europeias. Outro entreposto dos escravos que traficavam fica numa zona rica em camarões? O país será chamado Camarões, decidem os comerciantes portugueses, ignorando as mais de 230 línguas locais, faladas por milhões de pessoas. Pode ser que o colonizador chegado a novas terras queira homenagear o rei a quem serve: chamará a essas terras Filipinas, do nome de Sua Majestade Filipe II de Espanha. Outros batizarão de Rodésia uma nova colónia em homenagem ao empresário e colonizador britânico Cecil Rhodes. Os portugueses darão à capital de Moçambique o nome de um comerciante e aventureiro, Lourenço Marques, que aí assentara arraiais para explorar o marfim e o cobre, como o testemunha D. João de Castro já em 1545.
Depois…, sabe-se como é, mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Por meados do século XX um terremoto avassalador abala todo o edifício colonial. Um a um, povos e nações dominados pelo colonialismo europeu sacodem o jugo imposto há séculos. A estes abalos hão de seguir-se réplicas imparáveis, que ainda nos dias que correm se fazem sentir. Doravante donos da sua vontade, esses povos querem desfazer-se de uma herança que lhes era alheia. Derrubam-se estátuas, monumentos, memórias dessa outra vontade que não era a deles. As línguas locais vêm ao de cima: Burquina Fasso (e já não Alto Volta), Essuatíni (e não Suazilândia), Sri Lanka (e não Ceilão), Botsuana (e não Bechuanaland), Gana (e não Costa do Ouro). Nomes dados por assentes como o da Índia, estão agora na berlinda. O ressentimento contra a dominação britânica levou já a mudanças de nomes de ruas e cidades em todo o país. O último passo pode não estar longe: O lugar do primeiro ministro Modi na última cimeira do G20 estava assinalado por uma placa onde se lia “Bharat”, um termo sânscrito com mais de dois mil anos usado para designar o país.
Já estou a ouvir os paladinos da memória do passado e do Império: E a História? Acaso de pode apagar a História? Ainda há pouco uma amiga minha – em resposta a um postal que publiquei aqui questionando a prática de dar nomes no mínimo discutíveis às ruas e praças que deveriam ser de todos, não só de alguns – me contrapunha isso mesmo, que era apesar de tudo importante guardar essa memória, mesmo a dos erros cometidos, que era essa uma maneira (também) de aprender com a História.
Mas aprender o quê? – gostaria eu de saber. Se o autarca Avelino Torres dá o seu próprio nome ao estádio local que lição há aqui a imortalizar? Se uma Câmara decide distribuir ruas, praças e estátuas pelos seus apaniguados por que razão havemos todos de aprender com eles tal lição de cidadania? Porque hei de eu confrontar-me diariamente com a homenagem prestada pela minha rua a um negreiro? A um ditador? A um político corrupto? A um embusteiro da Ciência? A alguém que cometeu crimes contra os direitos humanos? O que leva a que não tenhamos direito a escolhas mais consensuais? Não haverá gente decente que todos possamos homenagear sem reticências? Porque não dar às ruas nomes sem notáveis pelo meio? Há por aí ruas Direitas a dar com um pau. E ruas das Tílias, das Amoreiras, das Laranjeiras. Dos Sapateiros, dos Douradores. E ruas com nomes de mulheres, para variar? Ou ruas do Paraíso, da Liberdade, etc etc etc. Algures no mundo há quem imponha a passagem de 50 anos sobre a morte de uma pessoa antes de se poder dar o nome dela a um local público. Com 50 anos em cima, quem passaria o crivo da memória?
Já se percebeu onde quero eu chegar, não vale a pena chover mais no molhado. O que se pergunta é: quem são afinal os donos da História, essa que nos querem ensinar? E porque não devem tais lições ser antes ensinadas em museus e em bibliotecas, nas escolas, em vez de nos serem impostas, à nossa revelia, na grande sala sala de aulas que é, que deveria ser, o nosso espaço comum?
Dá muito trabalho e muita confusão mudar o que está mal? Pois dá. Mas vão dizer isso aos habitantes de Marco de Canaveses que mudaram o nome do estádio do Avelino. Ou aos novos países africanos que atiraram para os museus as memórias do passado colonial que renegam. Ou vão dizê-lo aos australianos que criaram uma Comissão destinada a “descolonizar” a nomenclatura topográfica e urbanística racialmente ofensiva. E que já se puseram ao trabalho! É um trabalho pesado? Pois é. E mudar o nome (colonial) de um país mais pesado é. Mas faz-se. Mais pesado ainda seria ter de suportar pelos tempos fora a memória de um passado que oprime.
cão novo em casa
as palavras (berros!) que agora mais se ouvem cá em casa: Não!, Pára!, Quieta!, Larga!, Sai! Não rói!
e o resto: a revoada de alegria, a pura alegria de estar viva, com que nos acolhe cada manhã, cada vez que chegamos a casa, cada vez que nos encontra, cada vez que nos reencontra, cada vez que lhe dá para aí. E são muitas as vezes.

tudo vai na maneira de o dizer
Não sei se gostas das crónicas que a Ana Cristina Leonardo escreve no Ipsilon do Público. Há quem não goste. Que são uma prosa sinuosa, cheia de meandros, disse-me uma amiga minha, cheia de name-dropings (sic) e citações encadeadas umas nas outras, que mal dão para entender onde ela quer chegar.
Eu por acaso gosto. Por essas mesmíssimas razões. Gosto das derivações, das divagações, seguindo pistas daqui e dali, mesmo correndo o risco de nos perdermos numa ou noutra vereda. Aquilo não é nenhuma tese de doutoramento, entenda-se. Até mais parece é uma daquelas meditações à rédea solta, das que fazemos na pastelaria quando para aí nos dá.
Há ainda outra coisa que me leva a gostar, mas explico já a seguir.
A crónica do ipsilon desta semana é um perfeito exemplo da receita. Até parece de encomenda. No fundo é uma espécie de colagem de textos de vários autores, romancistas quase todos. Não estão identificados, sucedem-se sem introdução, sem aviso prévio, sem aspas sequer. Haverá quem reconheça num ou noutro o dedo de quem escreveu, até talvez o livro de onde saiu o texto. Ou então não, e também não interessa para o caso. Bastará apenas deixar-se levar na corrente, a ver onde tudo aquilo leva.
No fim da crónica, sim, como numa espécie de agradecimento final, nomeia então todos os autores que “contribuíram” para a obra. Enumera-os – e é aqui que está a tal “coisa” de que falei, a tal razão ademais que me faz gostar destas crónicas – escritores e tradutores, tudo à mistura, sem hierarquias, ou distinções. Uma maneira de mostrar (o que para muita gente não parece ser uma evidência) que o que lemos quando lemos um autor estrangeiro é uma versão (portuguesa) da sua escrita. Sem esse intermediário não conheceríamos grande parte da literatura universal. É essa “coautoria” (seja permitida aqui a palavra) que a Ana Cristina Leonardo assim reconhece e de certo modo homenageia. Reparei porque não é assim tão frequente como se poderia pensar.
Há muitas maneiras de dizer isso, mas poucas tão bonitas (ou sábias, ou discretas, ou elegantes, o que quiserem), como a que ela escolheu na crónica de que estive a falar:
“Esta crónica seria impossível sem os contributos de Albert Camus, António Lobo Antunes, Bernard Lewis, Delmore Schwartz, Dinis Machado, Émile Zola, Gabriel García Márquez, Georges Perec, Herman Melville, Jerome K. Jerome, John Fante, Julien Gracq, Machado de Assis, Marquês de Sade, Nuno Bragança, Saul Bellow e Tolstoi. E ainda: Alfredo Margarido, Ana de Freitas, António Pescada, Bruno Cardoso Reis, Daniel Gonçalves, Eduardo de Barros Lobo, Fernando Assis Pacheco, Luísa Feijó, Manuel João Gomes, Maria Dulce Guimarães, Pedro Tamen, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Gato e Vasco Teles de Menezes.”
Não é bonito?
a solução, afinal…
Estive agora mesmo a ler uma história daquelas de que não se sai ileso. Uma rapariga de 21 anos conta o cativeiro e as torturas a que foi sujeita durante 54 dias nas mãos de um impiedoso grupo terrorista. Encontrava-se num festival de música no sul de Israel, num kibutz próximo da chamada Faixa de Gaza, quando uma vaga de milhares de homens armados irrompeu imprevistamente e desatou a matar indiscriminadamente quem lhes aparecesse pela frente. Morreram assim muito mais de mil pessoas. Sem nenhuma provocação direta, nem nada que fizesse prever o ataque. Foi depois perseguida, ferida com um tiro à queima-roupa num braço, arrastada pelos cabelos, levada para um esconderijo em Gaza, sujeita a um curativo improvisado sem nenhum meio de anestesia, entregue a uma família simpatizante do Hamas, onde foi mantida dias sem comer, com uma ferida aberta no braço, sujeita a incessante assédio, e todo o tipo de insultos e torturas. Mia Schem, assim se chama ela, tem dupla nacionalidade franco-israelita. Talvez isso lhe tenha valido ser uma das primeiras pessoas reféns do Hamas a ser libertada. Dirá depois: “Era o inferno. Todos ali são terroristas… não há civis inocentes, nem um. É coisa que não existe.”
Que mais poderia ela dizer?
Não é verdade, sabemos que não é assim, mas que mais poderia ela dizer? E logo ali ao virar da esquina, num outro quarteirão da internet, num artigo da Newsweek, dou com a história de Hamza Howidy, um rapaz que nasceu e cresceu em Gaza no meio do horror imposto pelo Hamas, das restrições e das limitações de todo o género, onde a dissidência se pagava caro. E Hamza é um dos que o pagou com prisão, com tortura, com perseguições. Fala de amigos dele que pagaram com a morte quando tentaram fugir. E que no entanto diz ainda agora: “Espero que depois da guerra, depois de o Hamas ser derrotado, sejamos capazes de criar uma paz duradoura tanto para palestinianos como para israelitas. Há muitos em Gaza que rezam por isso também.”
De longe, porém, sentimos o ódio a alastrar. De um lado e de outro. As soluções, se as há, terão de surgir de quem tem a força para as impor ou negociar, pensamos. E que vemos nós? O Governo de Israel a negociar com o Congo a emigração “voluntária” dos habitantes de Gaza a seguir à guerra.
“A seguir à guerra – é um Ministro israelita quem o diz – o governo do Hamas ruirá. Não haverá autoridades municipais; a população civil estará inteiramente dependente da ajuda humanitária. Não haverá trabalho, e 60% das terras cultiváveis serão transformadas em zonas tampão de segurança.” Gaza estará praticamente reduzida a escombros, Israel criará novas zonas-tampão ao longo dos 14 quilómetros de fronteira com o Egipto e estabelecerá um bloqueio naval permanente. Diz o Ministro Gila Gamliel que não se pode deixar os habitantes de Gaza aí, a serem educados no ódio, que em breve alimentaria novos ataques. Há em Israel quem advogue a ocupação de Gaza com criação de novos colonatos. Dois deputados, um do partido do Poder e outro da oposição, assinam um artigo de opinião, no americaníssimo Wall Street Journal, a sugerir a relocalização dos habitantes de Gaza. Mas fora de Gaza.
A solução, afinal…
um pequeno pormenor
está no Porto uma exposição sobre o Conde de Ferreira, vida e obra. Muita gente pasma e louva a generosidade póstuma de que deu mostras: ao morrer, deixou destinada uma parte da sua fortuna imensa para a construção de 120 escolas primárias. Numa época em que tal coisa era praticamente desconhecida, é de pasmar, realmente. E não se ficou por aí: mandou também construir um hospital psiquiátrico, coisa nova no país igualmente – mais a gente se pasma e aclama.
Sabendo isto, quem estranhará que o nome dele tenha sido dado a 66 ruas e praças no país? Quem há de opor-se? Ou contrariar? Ou questionar?
E sabendo depois que a tal imensa e generosa fortuna foi arrecadada no tráfico negreiro a que o Conde se dedicava? E sabendo que esse tráfico arrancou dez mil pessoas das terras onde viviam em África para serem vendidas como escravos no Brasil?
Haverá quem ache que uma coisa (a esmola que a mão direita dá) redime de certo modo a outra (as vidas destruídas que a mão esquerda tira). E haverá também quem sinta o embaraço que tal dilema lhe impõe. E a que não pode escapar: no nome de uma rua, de uma praça, diante de uma estátua pública que não podemos deixar de ver, não conseguimos agora ignorar a sombra daqueles milhares de vidas roubadas até aí desconhecidas, que agora nos assombram. Não podemos já deixar de as ver também, tão presentes como as estátuas do Conde. Do negreiro beneficente.
Esta história fez-me lembrar uns versinhos de quando eu era pequenino, que falavam de um senhor que passou a vida a fazer das suas à custa dos demais e que depois dizia que isso “outros o fizeram / (e não foi coisa mais pequena…)/ E enquanto os mais não se arrependeram / ele não falha missa ou novena”. E assim está o Conde e o seu arrependimento post mortem, que lhe lavou os crimes e lhe pôs o nome em ruas e praças. Nessa altura (no tempo dos tais versinhos), não me questionava ainda sobre o sentido que tem dar às ruas e às praças que são de todos o nome de pessoas que são só de alguns. Mas, e hoje? Será forçoso ter de aceitar o passado como uma herança que não se pode repudiar? Sem nos questionamos ao menos?
Se alguém nos leva a pensar no caso, sim, achamos que se pisou um risco qualquer. Há um limite, que todos pressentimos, mas a que ninguém ainda fixou os contornos, que deveria ter servido de alerta. Mas não serviu. Sabemos que não, a realidade o mostra. Passeamo-nos pelas nossas cidades por entre os fantasmas e a presença figurada de certos nomes que tresandam a ódio, a racismo, a opressão. Assim o quis a vontade de alguns: Serviam o Poder e era o que contava. O resto? Um pormenor sem importância.
Haverá uma medida para a infâmia?
A justiça cósmica não existe. É o que me parece, pelo menos. Nunca instância nenhuma alguma vez nos pedirá contas do nosso silêncio, cumplicidade, indiferença, nem tão pouco da nossa indignação, perante tanta desumanidade, tanta crueldade, tanta infâmia a que todos os dias assistimos ou que nos chega pelas notícias. É assim, mais nada.
Mas vamos imaginar que não, que não é assim. Que de uma qualquer maneira éramos chamados a decidir. E que teríamos de traçar a linha que separa uns dos outros os crimes mais ignóbeis.
Uns em que carrascos e vítimas se confrontam, em que se vêem cara a cara – serão para nós diferentes de outros em que o crime se comete à distância, ou sob o anonimato dos massacres indiscriminados? As vítimas que têm um nome são diferentes daquelas que só têm um número? Os 400 civis que morreram no bombardeamento do abrigo antiaéreo onde se refugiavam valerão menos no nosso juízo do que um mesmo número de mulheres e crianças violadas, mutiladas e massacradas numa aldeia noutro país? As centenas de pessoas de uma aldeia arrasada durante uma “operação de limpeza” pesarão na nossa balança tanto como os habitantes de outra aldeia executados depois de serem exibidos, cuspidos, apedrejados, mutilados? Haverá uma medida, um peso, uma conta para a infâmia?
Desde sempre assim foi, alguém dirá. Falam disso livros tão antigos como a Bíblia ou as narrativas dos portugueses no Oriente. Ou dos horrores das Grandes Guerras, do Holocausto. É verdade. Invocamos o passado, como se passado fosse. Crimes de que só resta hoje a memória, que como tudo o resto se apaga e definha em museus e em monumentos votivos.
Mas… e mais perto de nós, tão perto que muitos de nós souberam deles no momento em que ocorriam?
Katyn (1940), Babi Yar (1941), Deir Yassin (1948), My Lai (1968), Wiriamu (1972), Al Amiriya (1991), Ruanda (1994), Kibutz Nir Oz (2023).
Sabem o que me disse o Jean Némar, com quem discutia estas coisas? Que sim, que era verdade que nunca seríamos o juiz de tamanhos crimes, que nunca teríamos de pesar, medir ou contar tais responsabilidades. Nem tão pouco seríamos sequer advogados chamados a invocar agravos ou atenuantes em julgamento nenhum. Ao que não poderíamos escapar era ao papel de testemunhas. Éramos, somos, todos testemunhas. E aí estava a diferença. Crimes como o massacre, o genocídio, dos tutsis no Ruanda foram cometidos perante o silêncio mais ou menos generalizado da comunidade “civilizada”, quer dizer, informada. Alguns outros foram denunciados, condenados, por testemunhas que se manifestaram, que se movimentaram, que pressionaram quem podia pôr-lhes termo. Está aí a diferença.
É verdade, mas ainda assim…
Produto para se dormir tranquilo…
Li ontem no Público uma crónica de Graça Castanheira que me deixou a pensar nos insondáveis mistérios dos processos de desculpabilização (e, bem vistas as coisas, de desumanização) que somos capazes de inventar quando nos pomos a isso. Pilatos era um aprendiz da arte, temos de concluir.
Falava-se na tal crónica do uso de armas de grande poder de destruição pelas tropas israelitas em Gaza e a esse propósito referia os moderníssimos morteiros “Iron Sting”. São, ao que parece, levíssimos (apenas 17 quilos), e são guiados por um sofisticado sistema de navegação. É importante este aspeto: os americanos, que no fundo são quem subsidia esta guerra, têm pedido com insistência a Israel que mate sim, mas com mais precisão. A opinião pública americana (e portanto os votantes, e portanto os investimentos em armamento) são muito sensíveis à questão da morte indiscriminada de civis inocentes. E é importante para Israel responder a esta preocupação. Mesmo que no fundo os que comandam a guerra considerem que ali ninguém é inocente, havia que diminuir o número de mortes indiferenciadas. Daí os tais morteiros. Que o seu fabricante (Elbit System’s Land Division) recomenda para a circunstância. A incredulidade levou-me a ir ver o site da empresa (https://elbitsystems.com/blog/iron-stings-precision-counters-tunnel-shafts/). Assim é: a chefe da secção dos morteiros gaba o novo produto. “É crucial não nos tornarmos complacentes, temos de evoluir constantemente seguindo a pulsação do mercado”. E cita as boas referências dos consumidores diretos na frente de batalha. Diz ela: “Ao receber um feedback tão bom fico contente. Posso dormir tranquila sabendo que as nossas tropas estão a utilizar um excelente produto”.