América em casa

É só um supor, mas vamos lá supor que levamos a sério a indignação que por aí vai contra as medidas tomadas pelo Império americano para meter na ordem algumas das satrapias mais recalcitrantes aos seus diktats. A Europa não foi das mais poupadas. E a frustração e a revolta contra o Império explodiu temperamental e enfurecida a prometer por ali le jour de gloire ou, por aqui, marchar contra os canhões que for preciso. E valentes retaliações. Ai ele é isso? Ai querem ir-nos ao bolso? Pois bem, não contem mais connosco, com nenhum de nós, para continuar a consumir os vossos produtos. Aqui em casa acabou o made in América!

E foi um rebuliço por esses supermercados fora. Pode-se imaginar (e imaginar não custa) toda a nossa denodada gente a espiolhar etiquetas para rejeitar tudo o que fosse da origem agora renegada, todos a rebuscar prateleiras à procura de alternativas nossas, muito nossas. Ou pelo menos europeias que também são um bocado nossas. 
Um patriotismo que fica bem, mas que fica caro. E que dá muito muito trabalho!

Veja-se a história deste valoroso bretão que conta num jornal britânico (The Guardian) a odisseia em que se meteu quando decidiu eliminar do seu quotidiano tudo o que cheirava a Magalândia. 
No que toca aos comes e bebes ainda a coisa foi andando: não faltam alternativas para os cereais do pequeno-almoço, para o whisky, para os MacDonalds e Kings Burgers. Até para a Coca-Cola. Também para os consumos que nos consomem na área da higiene, da limpeza, das roupas, etc. Já um pouco mais complicado quando se trata de substituir o Bob Dylan, ou o Springsteen, ou a Aretha Franklin, ou o Miles Davis e mil e um como eles; ou os filmes e as séries que acompanharam a nossa vida ou revemos agora na Netflix.

O problema começou quando chegou à tecnologia em que assenta todo o dia-a-dia dos nossos dias. Torceu-se todo, o desgraçado, para arranjar substitutos para o Gmail, para o Google Maps, para o FaceBook, para o YouTube e todo o resto que invadira e tomara conta da sua vida familiar e social. 

As opções ditadas pela consciência escondem muitas vezes ao nosso olhar superficial o que implicam de penoso, de dispendioso, de complicado. Metade (ou mais!) da nossa vida assenta em hábitos e escolhas de muitos anos. Mudar a nossa bengala cibernética, por exemplo, significa ter de aprender o funcionamento de novos sistemas operativos, novas palavras-passe, novos termos, novas regras… Um inferno. Como depressa percebeu o bom do Jeremy Ettinghausen, que assim se chama o homem de quem estou a falar, e que vive agora (se é que sobreviveu à experiência) a esbravejar no meio do novelo ensarilhado das alternativas europeias ainda verdes. Quando as há. E outras, se não estão verdes, é porque, como as bananas, amadurecem no consumidor. Escapar ao made in America é entrar num mundo desconhecido feito de nomes que ainda nos soam, a nós, americanos involuntários, ou à força, um tanto ou quanto bárbaros, como : Murena fairphone 5, Suunto, Proton mail, Whereby, Openstreetmaps, LibreOffice… Tudo europeu, sim, mas sabe-se lá quantas não o serão à custa de componentes feitos na China, na Ásia mais ou menos americana e noutros sítios, que se calhar nos deveriam merecer os mesmos pruridos de consciência.

Diz o Jeremy que é uma questão de princípio e que…  It’s not a principle if it doesn’t cost you something. E foi esse o preço que se dispôs a pagar para mudar tudo. Tudo? Não. Há coisas que nem assim ele conseguiu mudar, e que tem a ver com o coração da questão: não encontrou nenhum banco que funcione com um sistema de pagamentos que não seja o Visa ou o Mastercard. Como não se inclina para a solução de guardar o dinheiro debaixo do colchão, foi esse o primeiro grande obstáculo em que embateu. Outro foi o sistema de investimentos financeiros, quando pensou em pôr a pensão ao abrigo do omnipresente sistema americano. Fala também timidamente no club de futebol de que é adepto (Arsenal), e que por razões que não quer discutir lhe custaria muito deixar. Mas pelos vistos também aí terá que cortar. Foi comprado pelos americanos. 

Não é fácil des-americanizar o nosso quotidiano quando nele habita o que temos de mais vital, as nossas paixões (e a nossa bolsa!) centro nevrálgico das pulsões e do ambiente amniotico em que vivemos mergulhados. É que a América não ficou quietinha no sítio onde Colombo a encontrou e a deixou. Hoje, a América está em todo o lado. E aqui também. Para mal dos nossos pecados, que agora nos torna tão espinhosa a nobre tarefa patriótica de a despejar daqui de casa
É que não é fácil.
E não é fácil por uma razão muito simples (também por muitas outras mais complicadas, mas que agora não vêm ao caso). É que quando falamos das coisas que consumimos, que importamos, que compramos não estamos apenas a falar do seu valor de uso. Esse é igual para todos e em toda a parte. Tanto nos diz as horas uma respeitável cebola da Reguladora (desde 1872) de Famalicão como o artilhadíssimo Rolex de ouro e diamantes usados pelas socialitas que vêm nas revistas. Mas isso só no que toca a saber que horas são, que é esse o valor de uso de um relógio. O resto – e é aí que bate o ponto – tem muito mais que se lhe diga e agora já não estou a falar apenas de relógios. Além do seu democrático valor de uso, as coisas (chamemos-lhes assim para simplificar) têm também um valor de troca (que não é já o mesmo para todos nem para tudo). E principalmente têm um valor por assim dizer simbólico, que as pode tornar em sinais de pertença, valor esse que varia de pessoa para pessoa, que as consome para se afirmar ou para ser vista como pertencentes a uma tribo, a um clube, a uma classe, a uma casta, a uma tendência da moda (mesmo que passageira). Quantos dos produtos que compramos e exibimos não terão para nós essa única utilidade? E quantos desses produtos (e marcas!!) não serão precisamente americanos e que só por isso os usamos? Poucos serão os que se resignam a vestir umas calças de ganga da Maconde (onde isso lá vai) se puder comprar umas Levi’s 501, é ou não é?

A América não só está em todo o lado como invadiu a nossa vida, as nossas escolhas, e até o mundo mais secreto dos nossos desejos e das nossas fantasias, essa é que é essa.
Mas então não há nada a fazer a não ser fazer o quer o Império nos diz para fazer, sem tornar a nossa vida impossível? É uma pergunta a que só cada qual pode responder. Mas, vamos lá a ver, isto é como nos testes de exame: não é preciso responder a todas para ter positiva. Podemos ir por partes. Pode ser que cada um de nós não esteja à altura de derrubar o Império, mas todos podemos ir metendo uma pedrinha na engrenagem, e atrasar o passo à invasão inexorável, que foi o que fez o pobre do Viriato diante das poderosas legiões. Espero que último este assomo patriótico possa levar toda a nossa gente a cancelar a compra do Tesla que tinham encomendado, ou a rescindir as férias em Miami, ou o inocente hábito de investir na Google e quejandos. Daí para baixo não é tão fácil, e verdade, mas talvez valha a pena tentar. E dá um certo gozo passar uma rasteira à Magalândia.
Que o digam as pessoas cá de casa já convertidas à Pasta Medicinal Couto (agora com flúor, veja-se o luxo) e outras re-descobertas da nossa alma lusa e europeia. É só ir à internet: está cheia de listas dos mais variados produtos para alimentar a vaga de des-americanização que aí anda. Ou não anda?

Há coisas que me deixam na dúvida: aqui no meu bairro da Graça, o comércio local, por exemplo, continua a ignorar as veleidades contestatárias e continua florescente e cada vez mais próximo do modelo importado. Por aqui, não vamos lá.

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Cão Nosso

Acabada a guerra de Troia, ao fim de vinte anos, Ulisses voltou a casa. Disfarçado de mendigo, triste e idoso, sobre os ombros lançou o miserável alforge, cheio de buracos, dependurado de uma corda torcida, empunhando um bastão que o porqueiro Eumeu lhe oferecera. Ninguém o reconheceu. Ninguém? «Um cão que ali jazia, arrebitou as orelhas. / Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio / criara… / Ali jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente; / jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas, / Aí jazia o cão Argos, coberto das carraças dos cães. / Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto, / começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas; / só que não tinha já força para se aproximar do dono.»

Aconteceu isto há quase três mil anos e é com estas palavras (aqui citadas na tradução de Frederico Lourenço) que o aedo Homero faz entrar na literatura ocidental o seu primeiro cão e já a decantada fidelidade que lhe há de ficar colada ao pêlo. O cão e a sua proverbial fidelidade nunca deixará desde aí de ser glosada das mais variadas maneiras em parábolas, fábulas e livros de todos os géneros. Tem alimentado as mais estafadas metáforas e serve até de ilustração a marcas comerciais. No cinema então nem se fala: todos conhecem a Lassie, ou o quase humano Inspetor Max, e uma enfiada de outros cães feitos à nossa imagem e semelhança que entretém as tardes de domingo das televisões de todo o mundo. Acabou por ir dar às histórias piegas ou edificantes ou muito fofinhas dos filmes de animação e até à banda desenhada, onde destaco (não posso deixar de o fazer) o meu preferido Ran-Tan-Plan (não confundir com Ri-Tin-Tin!), com quem, à medida que os anos vão passando, cada vez mais me identifico.

Rafeiros ou de raça, vadios, caçadores, cães de circo, cães de combate, reais ou imaginados, seja como for, não hão de faltar cães a saltitar por essa literatura fora e pelos tempos fora. Quase sempre a roer os ossos dos lugares comuns de que se alimentam, quase sempre colados à imagem dos humanos que lhe servem de molde. Assim é o Nero dos «Bichos» que Miguel Torga nos legou na arca de Noé que procurou mobilar com todo o tipo de bicharada – velho e desprezado como o Argos do Ulisses, mas talvez atanazado por menos carraças, e por bem mais chavões e os estafados predicados que acompanham a espécie desde a sua criação. Valha-nos ao menos o O’Neill e a matilha que ele lançou à solta no digamos assim poema feito de cães: «cão ululante, cão coruscante, / cão magro, tétrico, maldito, / a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, / cão disparado: cão aqui, / cão além, e sempre cão». Ainda com um verso para o cão estouvado de alegria, até ao verso final a enxotá-los todos: «Sai depressa, ó cão, deste poema!»

De entre toda a cãozoada literária de que agora me estou a lembrar (e que tenha lido) talvez sejam os cães do Jack London de «O Apelo da Selva» os que (incompletamente) mais escapam à pecha em que cai a maior parte dos escritores de atribuir qualidades e sentimentos humanos aos animais que inventam. 
Não é que seja muito diferente do que acontece na chamada vida real. Vemos os cães com olhos humanos e não é estranho que nele projetemos muito daquilo de que somos feitos. Basta ver a maneira como as pessoas falam com eles, como falam deles, os nomes que lhes põem, como os usam para compensar o que sentem ter-lhe sido tirado ou negado e que assim se safam do divã do analista.
Mas nada disso é para aqui chamado. Os cães a que aqui assobiei para a conversa são os dos livros, os inventados. E sobretudo os cães de um livro que traduzi e que deve estar quase quase a aparecer por aí: «Last Days of the Dog-Men» de Brad Watson de quem nunca até agora tinha ouvido falar. E de caminho, também queria falar da Cutelo Edições, que também não conhecia,  sem saber o que andava a perder.

É um livro pequeno, de uma centena de páginas, pouco mais, com oito histórias, todas elas com um cão, ou mais, à trela. Quase todas elas envolvem de uma maneira ou de outra os complicados meandros da relação entre homens e cães ou antes, neste caso, o que essa relação reflete. O cão não é, com uma exceção, a personagem principal de nenhum destes contos, servindo as mais das vezes como âncoras emocionais ou testemunhas silenciosas dos humanos que as povoam: quase sempre às voltas com a falta de significado da vida que lhes coube em sorte, de casamentos em vias de dissolução ou convertidos na relação vagamente incestuosa da convivência continuada. Os cães aparecem aqui como que a lembrar a possibilidade de uma vida diferente, mais livre, mais perto da natureza, das exigências elementares. A começar pela charada do título, que eu, à falta de uma solução clarividente, traduzi à letra (convencido, como ainda estou, que é assim que deve ser) : «Últimos Dias dos Cães-Homens». 
Ressoa aqui um tom de melancolia, que as histórias confirmam, de uma elegia por um mundo que vive os seus últimos dias, um mundo que seria governado pela lealdade, a simplicidade, o amor ditado mais pelo instinto do que pelos cálculos das vantagens mútuas. Ao mesmo tempo há neste título (talvez) a alusão ao esboroamento de uma realidade, a dos estados do sul da América, perpetuada nos clichés dos seus machos viris e dominadores, agora confusos e desarmados, incapazes de lidar com a mudança, a vulnerabilidade, a intimidade das relações a que os seus comportamentos de outros tempos não conseguem adaptar-se.

Watson encontrou o tom ajustado para nos falar deste universo de solidão mal disfarçada, de falta de comunicação, ou de comunicação imperfeita, que a relação homem-cão testemunha e reflete. Escrito num inglês a que vou chamar demótico, «simples e sem adornos» – assim é a vida de um cão, diz o narrador da história do título. Resulta daqui uma prosa, contida, ritmada, despida de qualquer sentimentalismo. E sem ceder à quase irreprimível tentação de romantizar, de idealizar ou de qualquer outra forma (digo? Vou dizer!) antropomorfizar os cães e o comportamento dos cães que albergou nas suas histórias. Um autor que vale a pena conhecer, digo eu, que aqui o li pela primeira vez.

Vale a pena portanto falar da editora e do editor que antes o descobriu: Cutelo Edições, de Pedro Magalhães. Uma pequena editora de Guimarães com um catálogo que aposta em autores que nem sempre se vêem pelos escaparates pagos das grandes livrarias. Essa foi a primeira boa surpresa que este livro me trouxe: ir encontrar longe do mundo dos best-sellers vendidos para todo o mundo em pacotes (compra-se o que se quer, e sob condição o que não se quer) em feiras do livro-espetáculo, um editor que ainda consegue «descobrir» livros e autores, que arrisca nessas descobertas couro, cabelo e cabedais, sim, que as letras dos bancos não têm nada a ver com as dos livros. São até incompatíveis, as mais das vezes. Em resumo, um editor que lê livros, que lê os seus livros e os discute com os tradutores, uma raridade cada vez mais rara, podem crer os que isto lêem.

O livro deve estar a aparecer por aí. Vale o que pesa, vão por mim.

Há claro o problema de quem é pequeno: não tem muitas maneiras de se pôr em bicos de pés, num mundo em que os livros quando nascem não nascem iguais para todos. Não podem contar com fotografias espampanantes dos autores ou autoras divulgadas nas revistas amigas, ou nos sites amigos, ou nos influencers amigos; não podem contar com a referência deferencial dos comentadores televisivos; não podem contar com a cumplicidade interessada dos jornalistas que fazem vender. Podem contar apenas e tão só com a divulgação feita quase um-a-um pela seita semiclandestina dos leitores de livros. E para os encontrar é preciso ir diretamente à página da editora, que se não me engano, é : https://www.facebook.com/cuteloeditora/?locale=pt_PT
Como a Cutelo está associada à editora Maldoror frequenta também as mesmas livrarias independentes (como a Centésima Página, a Flâneur, a Snob), mas também a Almedina e também certas Fnacs. Espero que consigam encontrá-la e aos seus livros num desses sítios, ou então daqui a pouco nas Feiras do Livro que aí vêm.

Isto já mais parece um passeio com o meu cão: sei onde começo, mas não faço ideia para onde me leva. Comecei na Odisseia e já vou na Feira do Livro… Fiquemos por aqui.

um homem da Renascença

Acontece muitas vezes ouvir o nosso bom povo dizer de alguém: temos ali um verdadeiro «homem da Renascença». E neste seu singelo linguajar quer o nosso bom povo dizer que temos ali uma pessoa que se destaca em diversas áreas do conhecimento, das artes e da ciência. Uma pessoa versátil, com uma grande capacidade de aprender e de se adaptar a diferentes contextos, que demonstra interesse e aptidão por uma variedade de atividades. E isto que diz o nosso bom povo, diz também o dicionário que estou a citar, pelo que é muito capaz de ser verdade.

Diga-se a despropósito que embora este tipo de frases feitas fale mais comummente no homem, é muito possível que, afinal, também as mulheres habitem o mesmo planeta e façam coisas bastante idênticas e que por isso – vamos arriscar! – talvez se pudesse dizer também em alguns casos: «uma verdadeira mulher da Renascença». Mas, enfim, não foi isso que passou para os dicionários e como em muitos outros casos retirou-se assim expeditamente da cara do planeta uma das suas metades. Mas lá que ela existe…
Adiante.
Um dos homens que certamente caberia em tal retrato é sem dúvida o Eduardo Veloso. 
Conheci-o de perto, o que não é o que mais importa, neste caso. Também aqui se poderá talvez dizer que a proximidade nos rouba a perspetiva. 
Foi aliás esta a percepção que eu tive há dias ao participar num encontro organizado pela Associação de Professores de Matemática no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, que fez com que me surgisse com clareza o retrato que a proximidade me impedia de ver de forma mais completa. Já antes tinha pressentido qualquer coisa de parecido ao ler o artigo da Rita Ponce, publicado na Revista de Educação e Matemática (nº 167, de 2023) e no jornal Observador (29 de julho de 2016). Infelizmente, não disponho dos links nem acesso a estas publicações para vos dar, mas podem ler o texto aqui: https://clippingsme-assets-1.s3.amazonaws.com/cuttingpdfs/2103177/Perfil_ESV_APM2023.pdf
Vale a pena. 

Tem por base várias entrevistas a pessoas que o conheceram, além de uma longa entrevista com o próprio Eduardo, e é de certo modo um retrato dele a corpo inteiro: o matemático dedicado ao ensino da matemática no ensino secundário; o matemático dos «Desafios» (uma rubrica semanal do Público com problemas de matemática); o astrónomo amador que, armado de uns binóculos de andar por casa, descobriu (quase!) um novo cometa; o navegador da aviação numa época pré-computadores e pré-gps, quando os aviões se guiavam pelas estrelas. E também o homem solidário, ativista político a intervir em alguns momentos quentes da resistência à Ditadura.
Durante o tal encontro no Museu da Ciência quase me deu vontade de rir quando vi, na pequena exposição que lá estava com fotos e documentos, a cópia de uma denúncia anónima à Pide, feita por um pobre coitado que dizia querer «colaborar com a justiça». A denúncia, se formos a ver, é ao fim e ao cabo uma homenagem involuntária ao subversivo que denuncia: «diz-se que tem rendimentos (…), mas faz uma vida modestíssima. Diz-se que subsidia organizações ilegais. (…) Entretanto, saibam que é muito seguro e que iludirá qualquer interlocutor menos prevenido.»
Disso tudo fala o artigo-entrevista que referi e por isso digo que é um verdadeiro retrato de corpo inteiro.

A meu ver, porém, há ainda um retrato dele mais íntimo, ou mais profundo, que é a imagem virtual que a obra fotográfica dele reflete. 
É bem certo que as coisas que realmente importam exigem sempre dois olhares para bem as vermos – do direito e do avesso, por dentro e por fora, de longe e de perto. E daí que eu diga também que é nas fotografias do Eduardo Veloso que nos apercebemos mais claramente de uma data de outras coisas, essas que são quase sempre invisíveis aos olhos. Não estou com isto a querer dizer que seja um fotógrafo consagrado (que, na minha opinião, não é); estou a dizer, isso sim, que a fotografia dele é um espelho bastante fiel da maneira como ele via o mundo e a vida: o despojamento do supérfluo, a recusa do decorativo, do efeito fácil, a cumplicidade com a natureza – o reflexo de uma vida, de uma maneira de pensar, assente em grandes panorâmicas, na perspetiva, nas coisas definidas, nítidas até ao infinito, à linha de fuga.

No caso de grande parte das fotografias do Eduardo seria possível aplicar o mesmo método de análise que ele utilizou no estudo que fez dos pintores da Renascença italiana: Para nos mostrar a «invenção da perspetiva» por esses pintores, o Eduardo sobrepõe à imagem do quadro as linhas de perspetiva que lhe estão subjacentes. 
Nesse livro, «Pespectiva linear: arte e geometria no Renascimento», que apenas existe em esboço, e apenas online, o Eduardo procurava explicar o papel pioneiro dos pintores, como Giotto e Piero della Francesca, que com as suas «descobertas» – melhor se diria intuições – antecipam de certo modo o estabelecimento em bases geométricas sólidas daquilo que veio a designar-se perspetiva linear, ou «dos pintores», como também é chamada. Quem sabe? Talvez  ele tivesse de algum modo «gravado» no espírito (e no olhar!) as obras desses pintores quando fotografava aquelas vasta panorâmicas que se estendiam, sem se esfumarem, sempre luminosas, até uma linha de fuga quase no horizonte.

O livro ficou a metade – deixou um esboço, um plano e algumas ideias base. Quem sabe se um dia destes não aparecerá por aí um matemático inspirado que pegue no livro no ponto onde está e o leve por ali fora até ao plano idealizado pelo Eduardo Veloso.

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english as she is spoke

Não sei como é pelo resto do país, mas aqui pelos meus lados é já hoje coisa assente: o inglês tornou-se a nossa segunda língua, mesmo sem proclamação oficial. Os mirandeses que me desculpem, mas é um facto. E contra factos não há nenhuma guerra do mirandum que lhe possa pôr termo. É assim.
Desde que o turismo tomou conta disto, todo o isto foi mudando e levando a sua avante. E se a sua vai avante a nossa vai marcha à ré. E é se queremos; não há alternativa. Solução? Se calhar é melhor pôrmo-nos nós também a aprender a língua que afinal por cá se fala. Desaparecem as leitarias e confeitarias de antanho? Pois aí temos o Coffee Lab & Bakery. Queremos qualquer coisinha para entreter o estômago antes do almoço? Mesmo sem pataniscas ou peixinhos da horta, temos aí a Lemongrass Kitchen, ou o Neighbourhood, com seu smashburger & beer, ou o Locals Nomads (full of wine, dizem eles). Se precisamos de arranjar as unhas ou coisas igualmente inadiáveis do mesmo género, temos aí à mão o Look Change Saloon, a Cila Nails and Hair, o Rose Beauty Saloon, ou o Connection Barber Shop… Mesmo as necessidades mais essenciais não ficam sem resposta: é só ir à Oblivion Tattoo Shop. Ou ao Concept Store, que não faço ideia do que seja, mas também cá temos. Assim como temos – e fica tudo dito – a Feels Like Home.

Há dias o Jean Némar, que sempre vai aparecendo, embora cada vez mais raramente, se calhar cansado de tanto cosmopolitismo, ele que vive entre países, contou-me há dias, ia eu a dizer, que  uns senhores turistas o abordaram na rua com um inicial Do-you-speak-English? que o deixou logo avisadinho. Respondeu-lhes que sim, que quando está em Londres ou em Bombaim ou em Boston faz os possíveis por falar English, mas que aqui não era preciso porque a maior parte das pessoas falam português. Isto, dito no seu impecável English que lhe ficou dos anos que passou em Singapura, deixou os americanos (eram americanos) banzados e sem saber se tinham entendido bem. Talvez tenham. E talvez tenham percebido que é sempre arriscado partir do princípio de que todo o mundo deve estar preparado para os entender onde quer que estejam.

Mas… o problema é que são eles que têm razão. A razão dos tempos que correm, é certo, mas é nesses tempos que nós vivemos. E por isso se calhar há que nos irmos habituando, como dizia o outro.
E até calha bem: ia agora mesmo falar de um livrinho que por por tais razões se vai tornando indispensável – um pequeno manual de conversação português-inglês. 

Tem por título «English As She Is Spoke» e a autoria é do nosso injustamente ignorado Pedro Carolino. Está organizado em curtos capítulos que fornecem o vocabulário e as frases indispensáveis para as situações e as necessidades mais correntes de um lusíada em terras infiéis. 
Há um capítulo inicial dedicado a «Frases familiares» (p.e. trazei-me uma faca; assentai-vos ou assente-se; tendes penna e tincta?; deitemo-nos sobre a herva, etc. etc. etc, que são muitas as frases e difícil a escolha), os demais capítulos cobrem algumas das situações e necessidades mais quotidianas: Para dar os bons dias (Wish the good morning!); para fazer uma visita de manhã; do passeio; do jogo; com o alfaiate; com o sapateiro; com o estalajadeiro; para almoçar; para perguntar novidades; para montar a cavallo, etc. etc. que por aqui me fico. Mas não se fiquem vocês se, estando algures, quiserem meter conversa com os nativos do English as she is spoke.

O livrinho tem merecido inúmeras edições desde a sua primeira edição (em 1882, salvo erro) e sempre recebendo os mais calorosos elogios e merecido reconhecimento. A começar por um famoso americano, um especialista do género, de seu nome Samuel Langhorne Clemens, ainda que mais conhecido entre nós por Mark Twain. É dele o prefácio da edição que tenho em mãos. E vale a pena transcrever algumas amostras.

Começa logo assim: «Neste mundo de incertezas, há, em todo o caso, uma coisa que pode ser com razoável confiança dada por assente: e que é a de que este celebrado livrinho de conversação nunca há de morrer enquanto perdurar a língua inglesa. A sua deliciosa e involuntária absurdidade, e a sua encantadora naïveté, são, a seu modo, tão sublimes e inigualáveis como o são as sublimidades de Shakespeare.» Não se fica por aqui, mas procura também afastar qualquer suposição de se tratar de uma mistificação: «O livro foi indubitavelmente escrito com toda a boa fé e profunda seriedade por un honesto e íntegro idiota que julgava saber alguma coisa da língua inglesa (…) Há nele frases, e parágrafos, que nenhuma mera fingida ignorância poderia alguma vez conseguir – nem tão pouco a mais genuína e completa ignorância sem o auxílio da inspiração.» Diz Mark Twain a concluir o prefácio: «Não é possível abrir este livro em qualquer página que seja sem que aí se descubra alguma pérola. E para provar que assim é, vou abri-lo ao acaso e copiar a página em que calhar.» E vá de reproduzir uma página, a servir de exemplo.

Eu, que não conto com a mesma paciência e curiosidade dos leitores, limito-me a meia página, de que só copio a parte em English as she is spoke (embora o português não lhe fique atrás.…) Aqui têm:
«With a hair dresser. // Master hair dresser, you are very lazy. You keep me back at home; I was to go out. If you come not sonner, I shall leave you to. / Sir, I did come in a hurry / Shave me / Yours razors are them well? / Yes, sir / Look to not cup me. / Comb-me quicky; don’t put me so much pomatum. What news tell me? All hair dresser are newsmonger. / Sir, I have no heared any thing. / To morrow be more early; bring me any news. Are you great deal of customers? / I have enough for to maintain-me.»
Bom proveito, pois. Citando verbatim et literatim o autor na apresentação inicial: «We expect then, who the little book that may be worth the acceptation of the studious persons, and especialy of the Youth, at which we dedicate him particularly.»

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Justos entre as nações

Dizem-me que há em Jerusalém um jardim onde plantaram mais de duas mil árvores a que foi dado o nome de «Jardim dos Justos entre as Nações». Cada árvore tem o nome de uma das muitas pessoas que durante a guerra na Europa prestaram ajuda aos judeus perseguidos pelos nazis. Todos esses que com isso puseram em risco as suas próprias vidas, salvaram ao mesmo tempo muitas mais. Nenhum deles era judeu; mas todos eles achavam que os judeus eram seres humanos que cabiam na sua quota de responsabilidade enquanto seres humanos. Os gestos destas pessoas ofereciam um contraste flagrante no meio da corrente de indiferença e de antissemitismo que prevalecia entre as populações europeias durante o Holocausto.

Depois da guerra, agora senhores de um país a que podiam chamar seu, os perseguidos de ontem quiseram com este jardim homenagear estes protetores desinteressados e a coragem daqueles que se mostraram sensíveis ao sofrimento de um povo indefeso.

Muito tempo passou entretanto. O suficiente pelo menos para que muito disto vá caindo num morno esquecimento. Hoje, contam-se pelos dedos os sobreviventes do Holocausto. E muita coisa mudou também em Israel: é hoje um país poderoso, dotado de um exércido dos mais poderosos do mundo, armado pela maior potência do mundo. As sucessivas vagas dos judeus recém-chegados, sobretudo depois do fim do império soviético, trazem consigo outras memórias, a dos pogroms estalinistas e das perseguições antissemitas nesses países. O Holocausto tornou-se em grande parte uma memória que vive nos livros da escola e no museu do Holocausto de Jerusalém. As árvores do Jardim dos Justos lá estão ainda. Será que também a memória que evocam viverá também?

Hoje, quando vemos o exército de Israel perseguir, esmagar, massacrar, exterminar sistematicamente um povo inteiro, não será a hora de perguntarmos também: Onde estão os Justos de Israel?

Hão de responder-nos (muitos) que esse é o preço necessário a pagar pelo resgate das vidas inocentes detidas pelos fanáticos do Hamas, que dominam o território de Gaza e usam as populações inocentes (se é que há inocentes, dirão também) como arma e escudo. Mas, mesmo assim, poderemos perguntar ainda: E que justificação haverá então para os crimes que o exército de Israel comete diariamente, metodicamente, nas terras ocupadas da Cisjordânia (não em Gaza) onde o Hamas não domina? Que há de justificar então a perseguição organizada, os controlos de pessoas e de movimentos, a destruição de tantas oliveiras e das culturas dos camponeses, a demolição de casas e a expulsão forçada das pessoas que aí vivem? Estes castigos coletivos não fazem lembrar nada a quem alguma vez ouviu as histórias do gueto de Varsóvia? 

Sei que há outras vozes (poucas) que em Israel se ouvem a assumir a sua quota de responsabilidade enquanto seres humanos, acima do ódio nacionalista (e até racista) que é o que mais se faz ouvir. Poucas que sejam, porém, são ainda assim o que resta de decência, de humanidade, e de esperança em Israel. 
São vozes como as do escritor Amos Oz, de Gideon Levy e outros jornalistas do diário Haaretz, do movimento Peace Now, do grupo Standing Together, aqueles de que ouço falar, outros haverá. Ouvem-se aqui e ali (mas se calhar mais aqui do que ali) escritores e intelectuais judeus a condenarem as atuações do exército de Israel. 

A continuação da guerra e dos crimes que a coberto dela se cometem começa a corroer a indiferença. 
Há pouco tempo, no dia da Memória do Holocausto (24 de Abril), três das raras sobreviventes do terror nazi postaram-se à entrada do memorial do Holocausto onde decorriam as comemorações oficiais com um cartaz e uma mensagem clara: «Se perdemos a nossa compaixão pelo outro, perdemos a nossa humanidade.» Uma delas contou ter chorado ao ler a notícia sobre uma criança de Gaza que perdeu os dois braços num bombardeamento israelita e que ao acordar a primeira coisa que fez foi virar-se para a mãe e perguntar: «Como te vou abraçar agora?»
Ao mesmo tempo em Telavive milhares de pessoas manifestavam-se contra a guerra e a limpeza étnica que prossegue em Gaza. Algumas descendentes de sobreviventes dos campos de extermínio nazis, afrontando insultos e agressões, vestidas de negro, empunhavam fotografias de crianças palestinianas mortas nos bombardeamentos, e exibiam panelas vazias a lembrar a fome a que Israel condena os sobreviventes de Gaza com o bloqueio que impõe à ajuda humanitária.

Talvez tenha chegado a hora de começar a registar os nomes destes que hão de um dia representar a consciência de Israel, os Justos que souberam levantar-se de entre a indiferença e afrontar os riscos que isso representa hoje em Israel. 
Talvez esteja a chegar a hora de começar a plantar as árvores de um novo jardim. Desta vez, dedicado aos Justos de Israel.
Haverá aí uma árvore para Yotam Vilk, o soldado de um esquadrão de blindados, que se recusa continuar a lutar depois de ver assassinar a sangue frio um adolescente palestiniano desarmado, cansado, como ele diz, por «estarem ali sem verem os palestinianos como pessoas. De ver coisas que estão para lá dos limites éticos, de ver como os palestinianos são indiscriminadamente mortos e as casas destruídas. De ver soldados (do proclamado «exército mais ético do mundo») a saquearem e a vandalizarem residências». Tudo isto acontece enquanto o Governo fala cada vez menos da libertação dos reféns e cada vez mais da expulsão dos palestinianos, ao mesmo tempo que negoceia a instalação das populações deslocadas, agora em «condições humanas e dignas» noutros países (Etiópia, por exemplo). O objetivo cada vez mais explícito é transformar Gaza num paraíso balnear onde possam viver em paz os colonos que aspiram à expansão do seu espaço vital. 
Já em tempos aqui se falou neste caso, mas os que chegaram atrasados poderão ler em: https://zelima388727646.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=1136&action=edit

Nesse novo jardim dos Justos deverá também haver uma árvore com o nome de Yuval Green, um jovem médico de 27 anos, que abandonou o seu posto em Gaza, incapaz de viver com o que tinha visto: soldados a incendiarem casas, a participar em saques à procura de contas de oração para levarem como recordações.
Uma árvore também com o nome de Ishai Menuchim do movimento de soldados (Yesh Gvul) que recusam participar nos combates em Gaza e que são a parte visível de um movimento crescente de revolta das consciências. 
Haverá árvores com nomes como o de Veronika Cohen, hoje com 80 anos, nascida no gueto de Budapeste, que ao falar nas comemorações do Holocausto disse: «Acho que não é justo lembrar o nosso sofrimento sem reconhecer o sofrimento de Gaza»; ou o nome de Ruth Vleeschhouwer Falak, de 89 anos, que sobreviveu à ocupação nazi da Holanda, e que hoje diz: «Na década de 1930, se os alemães se tivessem levantado contra o partido nazi, talvez eles não tivessem conseguido fazer o que fizeram connosco.»

Há mais de duas mil árvores no atual Jardim dos Justos entre as Nações. 
Quantas haverá num futuro Jardim dos Justos de Israel?

Placa a assinalar o local onde se encontra a árvore do português Aristides Sousa Mendes no Jardim dos Justos, em Jerusalém

Heróis sem medalha

Que terá acontecido ao grupo de amigos holandeses que protegeram Anne Frank do terror nazi?
Todos conhecemos mais ou menos a história de Anne Frank, se calhar teremos até lido o diário que escreveu durante o tempo em que viveu escondida com a família (de julho de 42 a agosto de 44) num anexo secreto, criado com a cumplicidade dos amigos. Até que uma denúncia anónima fez com que fossem todos presos pela polícia secreta alemã (Gestapo). 
Conhecemos menos, porém, ou não conhecemos de todo, a história dos amigos que daquele modo lhes permitiu sobreviverem isolados do mundo e da curiosidade dos vizinhos e da Gestapo.

Era preciso coragem. 
Afrontar as imposições das forças ocupantes dava direito a prisão e castigo certo. Os invasores nazis condenavam quem prestasse qualquer ajuda aos judeus perseguidos, muitos deles fugidos da Alemanha, na esperança de encontrarem refúgio na vizinha Holanda, como era o caso da família Frank. Os amigos de Otto Frank, o pai de Anne, não terão sido os únicos a mostrar essa coragem. Outros houve certamente, mas talvez o caso deles se tenha tornado mais conhecido pela notoriedade que involuntariamente lhes deu uma menina judia de treze anos quando o diário dela, escondido por um dos seus salvadores, acabou por ser publicado depois da guerra acabar. 

Mas também o denunciante anónimo que levou à prisão dos refugiados do anexo secreto não foi caso único.
Em 2025, no início do ano, o Governo holandês tornou públicos os documentos secretos dos arquivos oficiais sobre as pessoas que tinham sido investigadas por colaboração com as forças nazis durante a ocupação da Holanda, de 1940 a 1945. Foram assim revelados os nomes de 425.000 pessoas. Muitas delas terão contribuído para a prisão, o internamento em campos de concentração e a morte de milhares de judeus holandeses no implacável sistema de extermínio nazi. No fim da guerra, apenas 27% da população de judeus holandeses tinha sobrevivido. 

Terão uns colaborado por medo, cedendo a pressões intoleráveis, mas também outros voluntariamente, por se identificarem com quem detém o Poder. Num livro publicado recentemente sobre os informadores da Pide, em Portugal, viu-se que muitos deles o faziam espontaneamente, em cartas que escreviam por sua mão, a denunciar pessoas (conhecidos, vizinhos, colegas) suspeitos, por não serem «afetos ao regime».  

Ninguém nasce para ser herói, dir-se-á. E dir-se-á também que mais são as circunstâncias que tudo decidem. E se as mais das vezes os heróis de que se fala quando se fala de heróis surgem-nos envoltos no calor do combate, ou recobertos das suas bandeira, das suas ideias e ideais, são menos as vezes em que falamos de outra coragem, muitas vezes desconhecida, dos poucos que simplesmente se erguem acima da sua frágil humanidade e recusam pactuar com a prepotência.
Ninguém celebrará afinal essa coragem silenciosa, perante uma nova normalidade, «quando o tiroteio emudece, / quando o inimigo se torna invisível / e a eterna sombra das armas recobre o céu.» 

Quando a desordem se torna ordem, quando o Poder que tudo invade, corrompe tudo e todos, não é fácil o afrontamento, não é fácil dizer não. Diante do Poder triunfante e dominante, sentimo-nos desarmados, isolados. As vozes que se erguem contra a opressão são isso mesmo, e muitas vezes só isso: vozes. A Resistência de que se fala e que é representada nos murais que surgem pelas cidades é feita de gestos grandiosos, de bandeiras desfraldadas, de palavras de ordem desafiadoras e gloriosas. Mas essa Resistência idealizada é quase sempre a Resistência de outros, que combatem à distância, longe do morno quotidiano, da «pequena dor tão mansa e quase vegetal que cada um de nós / traz docemente pela mão». O risco, quando há risco, nunca vai muito além de alguns problemas, de algumas contrariedades que enfrentamos com advogado ao nosso lado. E no entanto mesmo essa pequena coragem nos falta tantas vezes. Não será a vida que se arrisca, diremos, mas arrisca-se perder o emprego, a casa, a tranquilidade, a aceitação dos que nos rodeiam. Quem não se há de habituar às quase necessárias concessões, alibis aceitáveis para se poder continuar a viver,  conviver, sobreviver? Aos poucos habituamo-nos a ver as palavras perderem o sentido que antes tinham e a que agora é o Poder a assacar-lhes o sentido que devem ter. Não se diz igualdade, não de pode dizer inclusão, proibido dizer diversidade: todas elas são palavras proibidas. 
Nessa nova ordem, o que antes era recatadamente disfarçado, torna-se agora triunfante. A empatia, a compaixão, a identificação com o sofrimento dos outros terá agora que se defrontar com a hostilidade e até a punição de quem detém o Poder. Torna-se possível declarar abertamente como princípio aceite ou aceitável coisas destas: «A empatia é um vírus, um bug, no sistema moral, uma fraqueza da civilização ocidental». Isto dito pelo homem mais rico do mundo, um dos homens mais poderosos de Magalândia, por sua vez o país mais poderoso do mundo, conselheiro e cúmplice do maganão que governa Magalândia. Num momento seguinte, será dado mais um passo, também esse anunciado pelo mesmo Elon Trump: «as decisões políticas devem ser tomadas por inteligência artificial, essas sim lógicas e racionais, que não se deixam influenciar pela empatia».

A coragem para recusar essa lógica e essa desumanização passará as mais das vezes por pequenos gestos, uma recusa silenciosa, para a qual não há medalhas e que nenhum mural celebrará. Coisas de pessoas que não se vêem como heróis, simplesmente pessoas decentes. E é isso talvez o que simplesmente nos é pedido.
Antes de acabar, deixem-me citar mais uma vez o poema «Todos os dias», de Ingborg Bachman, que traduzi em tempos para a inestimável DiVersos, uma revistinha muito da minha predileção: 

«A medalha a pobre estrela / da esperança sobre o coração / (…) Conferida / por deserção da bandeira, / por coragem face ao amigo, / por denúncia dos segredos infames / e por desobediência / a todas as ordens.»

A guerra acabou!

Deve ter sido na noite passada. E cheira-me que foram os da Resiliência. O aspeto acabadinho, apurado, sem respingos; o estilo críptico, terminante como um desafio – tudo faz pensar que anda aqui mão deles.
Será possível que guerra tão longa e tão acirrada acabe assim de uma penada? (De uma pincelada, aliás!) Como quem apaga uma inconveniência ou se descarta de uma servidão.
Assim ficam para trás as batalhas travadas, rejeitadas para a memória obscura onde se travam lutas igualmente obscuras, com inimigo e alvo tão obscuro como todo o resto?
De tudo (ou de nada) apenas restarão as crónicas:
https://wordpress.com/post/zelima388727646.wordpress.com/1129  

E os da Resistência? Será que se deixam ficar? Sem darem resposta a este desafio (ou provocação, não se sabe ao certo)?
Na mesma parede de sempre, a página em branco (em preto, aliás), está mesmo a pedi-las.
A ver vamos.

O interno feminino

Ora vamos lá ouvir o que nos conta o amigo Ortigão, chegadinho de Paris carregadinho de novidades e de opiniões.
Encontrei-o na Feira da Ladra, em Lisboa, numa banca do alfarrabista onde não é raro desaguarem raridades como as suas (do Ortigão) «Notas de Viagem, Paris e a Exposição universal (1878-1879). Ouvir «Então, que tal Paris?», foi para a ramalhal figura como que a deixa para a sua caudalosa entrada em cena, para as impressões e considerações que trazia já muito à mão, prontas a desembalar e exibir diante do pasmo e deslumbramento de quem o quisesse ouvir. 
Tudo fresco, inédito, moderno, na sua fala intransigentemente vernácula, esquiva a qualquer reforma vocabular ou orthográphica: «Entre o Pariz de hoje e o Pariz de ha nove annos, a differença exterior que mais impressiona é a do aspecto das mulheres”, prologou ele.
A coisa prometia, pelo que deixava adivinhar.

É que Ramalho Ortigão não é um qualquer portuguesinho perdido entre as 13 milhões de pessoas de todos os cantos do mundo que na altura visitavam Paris e a sua pujante Exposição Universal. A Exposição e não só. Ao nosso Ramalho, sobrou-lhe ainda tempo para visitar a Sorbonne, o collegio de França e a escola de medicina e para disso tudo nos dar notícia. Mas tempo também, como seria de esperar, para admirar as muitas exibições que em Pariz davam conta dos avanços da Agricultura, das Artes e da Indústria. E em tudo isso se alarga o ramalhal assombro: o telefone de Bell, o phonographo de Edison, e até a cabeça da colossal estátua da Liberdade destinada ao porto de Nova York onde «no logar do cerebello, podem jantar duas ou tres familias.» E pergunto-me ainda se não terá  ele também visitado a «village nègre», considerada uma uma das atrações «científicas!!» mais populares da Exposição, um dito «Zoo humano» onde eram exibidos 400 indígenas trazidos das colónias francesas. 
Que mais interessou Ramalho na Exposição?
Os congressos!
Vários. Todos eles dando a conhecer e discutindo o que de mais notável se fazia no mundo nos mais variados domínios: meteorologia, matemática, indústria, engenharia, hygiene, medicina, sciencias e etc etc. O pormenor do relato faz crer que Ramalho Ortigão não perdeu pitada. Culto, inteligente, curioso, toca em todos esses domínios, sempre com o mesmo interesse e rigor. De tantos congressos, porém, «nenhum parecia destinado a attrahir tão especialmente a attenção do publico como o congresso das mulheres.». Isto diz Ramalho e, não sei porquê, tenho para mim que talvez também a ele lhe tenha merecido um interesse particular, ao ponto de lhe reservar um capítulo especial nas suas «Notas de Viagem».
Mas não gostou. 
As mulheres reunidas nesse congresso, afinal dedicavam-se a discutir as discriminações com que a lei tratava as mulheres, exigindo que «as medidas policiaes com relação á mulher se limitem a fazer respeitar a ordem publica sem distincção de sexos» e coisas deste teor. E Ramalho não gostou. Não gostou porque «querer fazer da mulher o ente mais igual ao homem, como estas senhoras declamaram em todas as suas reuniões, é cahir no maior dos erros emquanto á comprehensão do destino feminino. A alliança conjugal baseia-se precisamente no principio das dissimilhanças. A mulher é precisa, é indispensavel, é essencial ao homem exactamente pela razão de que é mais fraca do que elle. É da sua fraqueza que a mulher tira o immenso poder que contrabalança toda a nossa força e que torna a esposa o complemento de nós mesmos, a nossa companheira, a nossa igual.»
«Dêm-lhe ao mesmo tempo a abolição de todas as penas que nos nossos codigos ferem a violação dos deveres da filha, da esposa e da mãi, e todas as grandes qualidades que distinguem a mulher e fazem d’ella a metade integrante da humanidade se atrophiarão successivamente até cessarem para sempre de funccionar. A mulher então será livre – livre para não prestar para nada.»

Ramalho Ortigão, zangado com as senhoras do Congresso das Mulheres, é peremptório: «A grande, a elevada, a importante funcção da mulher na sociedade humana não é ser telegraphista, ser boticaria, ser jornalista ou ser doutora; é ser mãe e é ser esposa.»

Estou convencídissimo de que não há de faltar por aí gente em barda a concordar com a ramalhal invectiva. «A mulher é em casa que se quer», abona o país onde até a violência, quando doméstica, goza de uma esfera de impunidade onde não é bem aceite que a Justiça meta a colher. O que a Justiça, aliás, de bom grado repete nos seus acórdãos, sempre que lhe dão azo para tal. 

O chiste, a verve, o fino recorte literário da ramalhal prosa valem um seguro aval a esta sua declaração da quintessência do feminino. 
Mas… (lá tinha de vir o mas) isso só para uso interno, claro, um interno feminino, digamos assim. Porque para uso externo já a conversa é outra, e é outro o externo feminino. É que sempre há de vir de lá algum que logo retruca-truca: mas, vamos lá a ver, se todas elas são mães e esposas como é que…?
E também para isso nos chega a pronta resposta de Pariz e do muito nosso Ortigão: «Pariz produz igualmente a cocotte. A cocotte é uma das molas mais poderosas da civilisação e do progresso. (…)  A immensa multidão das pequenas cousas inventadas para tornarem a vida mais doce, mais facil, mais espirituosa, mais subtil, mais delicada, mais digna, não existiria no mundo se desde a antiga Grecia, a mãe das artes, até o moderno boulevard de Pariz, não tivesse existido a cocotte..»

E é assim que a cocotte (e acho que não é preciso traduzir) salva a família, o casamento, a tranquilidade e «o amor sublime d’esses entes sobrehumanos que fazem consistir toda a sua aspiração, toda a sua honra, toda a sua gloria, em serem unica e exclusivamente na terra as mães de bons filhos.»

Pode ser que já não exista o Pariz de que nos falam as “Notas de Viagem” do bom do Ramalho Ortigão, ele próprio já só lembrado em vagas referências nas sacristias e nos acórdãos judiciais. Mas se isso se foi, ficou o relento bafiento da surda violência dessas máximas disfarçadas de bom senso. Bom senso esse de que já Ortigão nos dava a sua ramalhal definição: «o pariziense, que é o bom senso encarnado, não admitte em geral senão duas especies de amor: o amor honesto, legalisado na dignidade tranquilla e fecunda da familia, ou o amor absolutamente livre, de caracter arbitrario, temperado com a porção de desdem indispensavel ás garantias da liberdade, na tolerancia anarchica da cocotte.»

Ai de mim, que começo pelos temas sérios e conceituados da Exposição Universal de Paris de 1878, que nos trouxe os primeiros passos da proteção das propriedade literária, da adoção generalizada do alfabeto Braille e numerosas invenções úteis de que ainda hoje nos servimos, para descambar depois por esses boulevards abaixo e acabar a falar das cocottes que tanto entusiasmaram o Ramalho… Para não ficar com a vergonha toda, deixo aqui a fechar a página a photo do Pavilhão Português na Exposição. A ver se com isso me redimo.

 

não há palavras

Na infância da humanidade, muito antes de se falar em influencers, quando não havia universidades, nem internet, nem Wikipédia, não havia também mais nada que pudesse servir de candeia no mundo de trevas e de mistério em que tudo parecia estar mergulhado. A explicação para as coisas e para os acontecimentos, assentava antes naquilo a que hoje chamamos o pensamento mágico: a crença no poder do pensamento para agir sobre a realidade, na capacidade de dominar o mundo exterior através de rituais ou de palavras mágicas. No fundo, uma forma de racionalizar o desconhecido e os medos que ele desperta. Em muitas tradições místicas e esotéricas crê-se que as palavras possuem esse poder e que são (podem ser) agentes de criação de uma realidade até aí inexistente. 

Quando nada mais havia, havia já a palavra («No princípio era o Verbo», diz um dos livros sagrados do cristianismo) e é tal o poder da palavra que pode criar a realidade que nomeia. Diz-se : «Faça-se luz! E a luz faz-se». Diz-se «Abracadabra» e logo aparecerá o que desejamos (ou desaparecerá o que tememos). Quantos e quantos pastorinhos não andarão por esses montes e fragas a gritar-lhes o «abre-te sésamo» que fará surgir a gruta de tesouros sem fim que sabem estar aí escondidos à guarda de alguma moura encantada, só à espera de ser desencantada.
De certo modo, podemos dizer que em toda a nossa cultura por todo o lado e a todo propósito e despropósito está latente a ideia de que sem uma palavra que a nomeie nenhuma realidade existe.


Num livro que se tornou famoso pelo que tem de visionário e premonitório, George Orwell imaginou um universo totalitário em que o Poder não só domina a sociedade como a pretende transformar tão radicalmente que nenhuma alternativa possa jamais existir. O instrumento mais poderoso de que dispõe é precisamente a língua, as palavras. Em particular a «novafala», a língua oficial, que se vai sobrepondo de forma radical (e, supostamente, irreversível) à língua até então falada. Partindo do princípio de que só existe e só pode ser pensado, o que pode ser nomeado, o objetivo da novafala era tornar impossível qualquer outro modo de pensar, para além do pensamento oficial, de modo que «qualquer pensamento herege — isto é, qualquer pensamento que divergisse dos princípios [oficiais] — se tornasse literalmente impensável. Era algo que se fazia em parte inventando novas palavras, mas sobretudo eliminando palavras indesejáveis e excluindo das palavras que restassem todos os sentidos heterodoxos e, tanto quanto possível, todos os sentidos secundários».

De um modo ou outro, não há ditadura nenhuma capaz de resistir à mesma tentação de eliminar uma realidade incómoda, proibindo tudo o que a possa referir. Proíbem-se livros, filmes, canções e proibem-se também as palavras. A Censura salazarista enviava às redações e às rádios listas de palavras que não poderiam ser usadas nos noticiários ou nos textos publicados. Palavras como sindicato, greve, manifestação, liberdade de imprensa, e todas as que pudessem despertar a curiosidade sobre o mundo onde elas podiam existir, eram suprimidas do vocabulário, na ideia de que não havendo palavras não haveria a realidade que elas traduziam.

O livro de Orwell foi publicado em 1949 e intitula-se «1984» (tradução para português de Vasco Rato, ed. Dom Quixote.) 
Bem poderia ser «2025».
O que ele descreveu como uma ficção é cada vez mais uma realidade em várias pontos do mundo. Sempre ditaduras. Um caso surpreendente porém poderia ser o de Magaland, talvez o país mais rico e mais poderoso do mundo, onde hoje em dia assistimos a uma série de transformações que em tudo fazem lembrar as operações linguísticas (e outras) do mundo sinistro retratado por Orwell.

Além de revogar todas as medidas até aí existentes que pudessem contender com a nova visão do novo Presidente, é adotada uma política deliberada de apagar da memória (por enquanto só da memória oficial, dos organismos do Governo) tudo o que pudesse evocar uma realidade diferente. Ultimamente chegou-se ao ponto de eliminar todos os documentos oficiais ou partes dele que fizessem referência a políticas ou realidades condenadas pela nova Administração. As palavras usadas na busca de tais documentos são tão precisas e direcionadas como: anti-racismo, diversidade, igualdade, preconceito, crise climática, feminismo, nativos americanos, emigrantes, poluição, diferenças culturais, preferências sexuais… E mais um ror de palavras deste teor. Um dos principais jornais do país publicou nessa altura uma amostragem das palavras que deveriam ser riscadas dos documentos oficiais existentes e evitadas daí para a frente. São centenas. Com resultados por vezes inesperados: uma investigadora de uma das mais prestigiadas universidades do mundo (mas… lá está, professora de ginecologia e obstetrícia, uma área que abunda em palavras proibidas) viu desaparecer do pé para a mão um artigo que tinha escrito e publicado há cinco anos numa revista da especialidade. Deixou de existir, pura e simplesmente.

Leio isto e penso que há aqui qualquer coisa que não deixa de nos fazer lembrar o «pensamento mágico» primitivo, a ideia de que apagar (por decreto) a palavra equivale a apagar a realidade que ela designa (ou designava).

A conversa já vai longa e não sei sequer se o merece, pelo que já me calo antes que se torne indigesta. Hoje deu-me para aqui. E se o que me puxou foi aquela lista de palavras proibidas decretada em Magalândia, o que me pôs a pensar nestas coisas das palavras e dos seus ignorados poderes foi uma cena a que assisti quando andava a passear o cão. Não tem nada a ver, claro, mas meio a rir meio a sério achei que poderia ser uma boa metáfora da destruição da palavra (e do direito à palavra) a que todos os déspotas se propõem com tantas ganas que nem que seja à marretada. Tirei uma fotografia e aqui a deixo, para ver se também acharão que é assim.

infidelidade sem culpa

Tradutor de ofício, dou por mim agora a traduzir… uma tradução. Não é coisa que, à partida, me agrade por aí além, desde já o digo. Mas não havia muito por onde escolher: o livro foi escrito em árabe, a editora não encontrou quem pudesse traduzir o livro a partir do original, e não viu outro recurso que não fosse pegar na versão inglesa. E aqui me têm enfiado neste singular arranjo de dois tradutores com um livro pelo meio, uma espécie de capicua de oficiais do mesmo ofício.
Mas dizia eu que não é coisa muito do meu agrado e explico porquê. 
Ao traduzir um livro, estou de certo modo a propor ao leitor português a leitura que eu faço desse livro. Como se o lesse em voz alta. Procurando repetir as inflexões, o tom, a articulação particular do autor. Como quem, para reproduzir uma qualquer obra, procura recorrer aos mesmos materiais e às mesmas ferramentas que foram usadas no original. Essa fidelidade ao original traduz-se, no caso da tradução, em seguir o mais possível de perto as pegadas deixadas pelo autor, pelo menos aquelas que são transponíveis para a nossa língua – desde o estilo e a linguagem, mais ou menos popular ou mais ou menos erudito, até às inflexões que lhe dá a época ou o lugar, passando por edecetras tão variados como a pontuação ou as particularidades ou tiques de linguagem ou de estilo e outras miudezas do género. 
Mas… e no caso de se tratar da tradução de uma tradução?

Faz-me pensar naquele jogo de crianças em que se diz uma frase ao ouvido de um outro, que ele deve repetir ao ouvido mais próximo, e assim por diante até voltar ao autor da versão original – percebe-se então que muito mudou pelo caminho, alguém tirou ou juntou um ponto ao conto. No caso de uma tradução que não podemos confrontar com o original, como avaliar o que se perdeu pelo caminho? Se é que se perdeu, mas também isso não teremos maneira de o saber.

Enfim, quero eu dizer na minha que no caso da tradução de uma tradução há qualquer coisa que faz com que não me sinta vinculado, ou limitado, pelo mesmo pacto de fidelidade que me ligaria ao autor original.

Mas com a tradução que agora tenho em mãos, deu-se uma coisa curiosa: liberto das peias da fidelidade literal, tudo fluía mais livremente, mais ao jeito da nossa língua, sem quaisquer contorsões ou embaraços. Não é que deixasse de ser a tradução de uma tradução, pois que me sentia apesar de tudo ligado por um laço de lealdade à tradutora que me servia de mediação. Uma confiança igual à do corredor que confia no companheiro de equipa que lhe passa o testemunho. Mas – e é isto talvez mais importante ainda – havia aqui qualquer coisa de inesperadamente diferente: era como se entre a voz da versão inglesa e a voz do original árabe me chegasse ainda uma terceira voz, de uma língua vinda de tempos imemoriais, quando em toda a Terra havia somente uma língua, e era como se sentisse latente essa voz comum a toda a humanidade, uma voz que continuasse a vibrar em todas as línguas faladas, herdeiras dessa comum ancestral, anterior a Babel, anterior à confusão das línguas e à dispersão de todos os habitantes da Terra a que os condenou a fúria do iracundo Iavé da Bíblia. 

Compreendi melhor então o que queria dizer o poeta Herberto Helder ao apresentar o livro O Bebedor Nocturno, onde reuniu alguns poemas de outras culturas e civilizações «mudados» para português: poemas do Antigo Egipto, de poemas aztecas, malgaxes, e de outras civilizações: «Pego no Livro dos Mortos, em inglês ou francês, como se fosse um poema inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu. Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não me sinto infiel. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, sub-repticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol.» Mais do que uma «tradução» ou uma «versão», palavras que aliás evita usar, mais do que a procura de equivalências vocabulares ou de sentidos entre uma língua e outra, HH fala de «significações suspensas, da fascinação dos sons que convergem e divergem» e do «desespero surdo» que domina, não o tradutor, mas o «poliglota», que na desunião dos idiomas busca a unidade improvável. Multiplicando as operações de propiciação da unidade, ele caminha irradiantemente para a dispersão. Descentraliza-se. Existe em estado de Babel.»

E para que se veja no que deu a ousadia herbertiana, deixo-lhes aqui uma bela poesia mexicana de língua nauatle ou azteca, incluída na referida recolha.

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho. 

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece: 

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.