O que há num nome?

Começo com Aldegundes, uma menina da escola onde andei. Não gostava nada do nome. Tinham-lho posto os pais para agradar a uma tia (rica). Dou-lhe toda a razão (à Aldegundes) – imagine-se o desânimo dos (futuros) namorados quando se lançassem à indeclinável tarefa de lhe cantarem os louvores em rima. Mas, ainda assim, teve mais sorte do que os três filhos do sr e da sra Campbell, de New Jersey (EUA), a quem foram dados os nomes de Adolf Hitler Campbell, Honszlynn Hinler Jeannie Campbell (Hinler, em honra de Heinrich Himmler), e JoyceLynn Aryan Nation Campbell. Diz a notícia onde li isto que, mais tarde, o sr Campbell requereu uma alteração da certidão de nascimento da filha. Queria corrigir a ortografia do nome, de Arian para Aryan.

Por estes exemplos, já se pode ver como pode ser pesada a herança legada pelo nome que nos calha em sorte. Oiça-se a coitada da Julieta (sim, a do Shakespeare) quando se queixa como os seus amores com Romeu se vêem travados pelos nomes das famílias (rivais) que cada um arrasta consigo: “Que há num nome? Não teria a rosa, se lhe déssemos outro nome, igual perfume?” Será justa a ingenuidade da Julieta, mas nem sempre são justas as razões da força e de quem tem o poder de decidir. Não admira também por isso mesmo que haja quem pondere (logo que pode fazê-lo, atingida a idade da razão, atingida a independência) renegar essa herança.
Claro que também haverá sempre alguém para contrariar: pode apagar-se o nome de alguém, dirão, mas a verdade é que ao apagá-lo se apaga também a sua identidade. Mas que identidade? – há que perguntar. A de quem (im)pôs o nome ou a de quem o carrega? Pergunte-se à Aldegundes (a quem as amigas, aliás, tratam por Aldy). Pergunte-se aos meninos americanos a quem (im)puseram o nome de “Hitler”, ou de “Himmler”, ou de “Nação Aryana”.
E o que se diz para uma pessoa como não dizê-lo quando são milhões de pessoas, países inteiros, “batizados” por quem se considerava donos deles?

Chega o colonizador português (ou francês ou inglês, que a lógica é a mesma) a uma terra e porque aí vê que a riqueza a explorar é o marfim dá-lhe por nome Costa do Marfim. Se ouro, Costa do Ouro. Se o que há de mais imediatamente visível para enriquecer é uma madeira vermelha como brasa, pois ficará “Brasil”. Se o estuário onde aportam lhes parece ter a forma de um gabão, o casaco que usam os navegadores portugueses, é mesmo esse o nome que darão ao novo entreposto de escravos, Gabão. E assim ficará, declinado nas várias línguas europeias. Outro entreposto dos escravos que traficavam fica numa zona rica em camarões? O país será chamado Camarões, decidem os comerciantes portugueses, ignorando as mais de 230 línguas locais, faladas por milhões de pessoas. Pode ser que o colonizador chegado a novas terras queira homenagear o rei a quem serve: chamará a essas terras Filipinas, do nome de Sua Majestade Filipe II de Espanha. Outros batizarão de Rodésia uma nova colónia em homenagem ao empresário e colonizador britânico Cecil Rhodes. Os portugueses darão à capital de Moçambique o nome de um comerciante e aventureiro, Lourenço Marques, que aí assentara arraiais para explorar o marfim e o cobre, como o testemunha D. João de Castro já em 1545.

Depois…, sabe-se como é, mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Por meados do século XX um terremoto avassalador abala todo o edifício colonial. Um a um, povos e nações dominados pelo colonialismo europeu sacodem o jugo imposto há séculos. A estes abalos hão de seguir-se réplicas imparáveis, que ainda nos dias que correm se fazem sentir. Doravante donos da sua vontade, esses povos querem desfazer-se de uma herança que lhes era alheia. Derrubam-se estátuas, monumentos, memórias dessa outra vontade que não era a deles. As línguas locais vêm ao de cima: Burquina Fasso (e já não Alto Volta), Essuatíni (e não Suazilândia), Sri Lanka (e não Ceilão), Botsuana (e não Bechuanaland), Gana (e não Costa do Ouro). Nomes dados por assentes como o da Índia, estão agora na berlinda. O ressentimento contra a dominação britânica levou já a mudanças de nomes de ruas e cidades em todo o país. O último passo pode não estar longe: O lugar do primeiro ministro Modi na última cimeira do G20 estava assinalado por uma placa onde se lia “Bharat”, um termo sânscrito com mais de dois mil anos usado para designar o país.

Já estou a ouvir os paladinos da memória do passado e do Império: E a História? Acaso de pode apagar a História? Ainda há pouco uma amiga minha – em resposta a um postal que publiquei aqui questionando a prática de dar nomes no mínimo discutíveis às ruas e praças que deveriam ser de todos, não só de alguns – me contrapunha isso mesmo, que era apesar de tudo importante guardar essa memória, mesmo a dos erros cometidos, que era essa uma maneira (também) de aprender com a História.
Mas aprender o quê? – gostaria eu de saber. Se o autarca Avelino Torres dá o seu próprio nome ao estádio local que lição há aqui a imortalizar? Se uma Câmara decide distribuir ruas, praças e estátuas pelos seus apaniguados por que razão havemos todos de aprender com eles tal lição de cidadania? Porque hei de eu confrontar-me diariamente com a homenagem prestada pela minha rua a um negreiro? A um ditador? A um político corrupto? A um embusteiro da Ciência? A alguém que cometeu crimes contra os direitos humanos? O que leva a que não tenhamos direito a escolhas mais consensuais? Não haverá gente decente que todos possamos homenagear sem reticências? Porque não dar às ruas nomes sem notáveis pelo meio? Há por aí ruas Direitas a dar com um pau. E ruas das Tílias, das Amoreiras, das Laranjeiras. Dos Sapateiros, dos Douradores. E ruas com nomes de mulheres, para variar? Ou ruas do Paraíso, da Liberdade, etc etc etc. Algures no mundo há quem imponha a passagem de 50 anos sobre a morte de uma pessoa antes de se poder dar o nome dela a um local público. Com 50 anos em cima, quem passaria o crivo da memória?
Já se percebeu onde quero eu chegar, não vale a pena chover mais no molhado. O que se pergunta é: quem são afinal os donos da História, essa que nos querem ensinar? E porque não devem tais lições ser antes ensinadas em museus e em bibliotecas, nas escolas, em vez de nos serem impostas, à nossa revelia, na grande sala sala de aulas que é, que deveria ser, o nosso espaço comum?

Dá muito trabalho e muita confusão mudar o que está mal? Pois dá. Mas vão dizer isso aos habitantes de Marco de Canaveses que mudaram o nome do estádio do Avelino. Ou aos novos países africanos que atiraram para os museus as memórias do passado colonial que renegam. Ou vão dizê-lo aos australianos que criaram uma Comissão destinada a “descolonizar” a nomenclatura topográfica e urbanística racialmente ofensiva. E que já se puseram ao trabalho! É um trabalho pesado? Pois é. E mudar o nome (colonial) de um país mais pesado é. Mas faz-se. Mais pesado ainda seria ter de suportar pelos tempos fora a memória de um passado que oprime.

cão novo em casa

as palavras (berros!) que agora mais se ouvem cá em casa: Não!, Pára!, Quieta!, Larga!, Sai! Não rói!

e o resto: a revoada de alegria, a pura alegria de estar viva, com que nos acolhe cada manhã, cada vez que chegamos a casa, cada vez que nos encontra, cada vez que nos reencontra, cada vez que lhe dá para aí. E são muitas as vezes.

tudo vai na maneira de o dizer

Não sei se gostas das crónicas que a Ana Cristina Leonardo escreve no Ipsilon do Público. Há quem não goste. Que são uma prosa sinuosa, cheia de meandros, disse-me uma amiga minha, cheia de name-dropings (sic) e citações encadeadas umas nas outras, que mal dão para entender onde ela quer chegar. 
Eu por acaso gosto. Por essas mesmíssimas razões. Gosto das derivações, das divagações, seguindo pistas daqui e dali, mesmo correndo o risco de nos perdermos numa ou noutra vereda. Aquilo não é nenhuma tese de doutoramento, entenda-se. Até mais parece é uma daquelas meditações à rédea solta, das que fazemos na pastelaria  quando para aí nos dá.
Há ainda outra coisa que me leva a gostar, mas explico já a seguir.

A crónica do ipsilon desta semana é um perfeito exemplo da receita. Até parece de encomenda. No fundo é uma espécie de colagem de textos de vários autores, romancistas quase todos. Não estão identificados, sucedem-se sem introdução, sem aviso prévio, sem aspas sequer. Haverá quem reconheça num ou noutro o dedo de quem escreveu, até talvez o livro de onde saiu o texto. Ou então não, e também não interessa para o caso. Bastará apenas deixar-se levar na corrente, a ver onde tudo aquilo leva.
No fim da crónica, sim, como numa espécie de agradecimento final, nomeia então todos os autores que “contribuíram” para a obra. Enumera-os – e é aqui que está a tal “coisa” de que falei, a tal razão ademais que me faz gostar destas crónicas – escritores e tradutores, tudo à mistura, sem hierarquias, ou distinções. Uma maneira de mostrar (o que para muita gente não parece ser uma evidência) que o que lemos quando lemos um autor estrangeiro é uma versão (portuguesa) da sua escrita. Sem esse intermediário não conheceríamos grande parte da literatura universal. É essa “coautoria” (seja permitida aqui a palavra) que a Ana Cristina Leonardo assim reconhece e de certo modo homenageia. Reparei porque não é assim tão frequente como se poderia pensar.
Há muitas maneiras de dizer isso, mas poucas tão bonitas (ou sábias, ou discretas, ou elegantes, o que quiserem), como a que ela escolheu na crónica de que estive a falar:

“Esta crónica seria impossível sem os contributos de Albert Camus, António Lobo Antunes, Bernard Lewis, Delmore Schwartz, Dinis Machado, Émile Zola, Gabriel García Márquez, Georges Perec, Herman Melville, Jerome K. Jerome, John Fante, Julien Gracq, Machado de Assis, Marquês de Sade, Nuno Bragança, Saul Bellow e Tolstoi. E ainda: Alfredo Margarido, Ana de Freitas, António Pescada, Bruno Cardoso Reis, Daniel Gonçalves, Eduardo de Barros Lobo, Fernando Assis Pacheco, Luísa Feijó, Manuel João Gomes, Maria Dulce Guimarães, Pedro Tamen, Rui Zink, Urbano Tavares Rodrigues, Vasco Gato e Vasco Teles de Menezes.”

Não é bonito?

a solução, afinal…

Estive agora mesmo a ler uma história daquelas de que não se sai ileso. Uma rapariga de 21 anos conta o cativeiro e as torturas a que foi sujeita durante 54 dias nas mãos de um impiedoso grupo terrorista. Encontrava-se num festival de música no sul de Israel, num kibutz próximo da chamada Faixa de Gaza, quando uma vaga de milhares de homens armados irrompeu imprevistamente e desatou a matar indiscriminadamente quem lhes aparecesse pela frente. Morreram assim muito mais de mil pessoas. Sem nenhuma provocação direta, nem nada que fizesse prever o ataque. Foi depois perseguida, ferida com um tiro à queima-roupa num braço, arrastada pelos cabelos, levada para um esconderijo em Gaza, sujeita a um curativo improvisado sem nenhum meio de anestesia, entregue a uma família simpatizante do Hamas, onde foi mantida dias sem comer, com uma ferida aberta no braço, sujeita a incessante assédio, e todo o tipo de insultos e torturas. Mia Schem, assim se chama ela, tem dupla nacionalidade franco-israelita. Talvez isso lhe tenha valido ser uma das primeiras pessoas reféns do Hamas a ser libertada. Dirá depois: “Era o inferno. Todos ali são terroristas… não há civis inocentes, nem um. É coisa que não existe.”

Que mais poderia ela dizer?
Não é verdade, sabemos que não é assim, mas que mais poderia ela dizer? E logo ali ao virar da esquina, num outro quarteirão da internet, num artigo da Newsweek, dou com a história de Hamza Howidy, um rapaz que nasceu e cresceu em Gaza no meio do horror imposto pelo Hamas, das restrições e das limitações de todo o género, onde a dissidência se pagava caro. E Hamza é um dos que o pagou com prisão, com tortura, com perseguições. Fala de amigos dele que pagaram com a morte quando tentaram fugir. E que no entanto diz ainda agora: “Espero que depois da guerra, depois de o Hamas ser derrotado, sejamos capazes de criar uma paz duradoura tanto para palestinianos como para israelitas. Há muitos em Gaza que rezam por isso também.”

De longe, porém, sentimos o ódio a alastrar. De um lado e de outro. As soluções, se as há, terão de surgir de quem tem a força para as impor ou negociar, pensamos. E que vemos nós? O Governo de Israel a negociar com o Congo a emigração “voluntária” dos habitantes de Gaza a seguir à guerra.

“A seguir à guerra – é um Ministro israelita quem o diz – o governo do Hamas ruirá. Não haverá autoridades municipais; a população civil estará inteiramente dependente da ajuda humanitária. Não haverá trabalho, e 60% das terras cultiváveis serão transformadas em zonas tampão de segurança.” Gaza estará praticamente reduzida a escombros, Israel criará novas zonas-tampão ao longo dos 14 quilómetros de fronteira com o Egipto e estabelecerá um bloqueio naval permanente. Diz o Ministro Gila Gamliel que não se pode deixar os habitantes de Gaza aí, a serem educados no ódio, que em breve alimentaria novos ataques. Há em Israel quem advogue a ocupação de Gaza com criação de novos colonatos. Dois deputados, um do partido do Poder e outro da oposição, assinam um artigo de opinião, no americaníssimo Wall Street Journal, a sugerir a relocalização dos habitantes de Gaza. Mas fora de Gaza.

A solução, afinal…

um pequeno pormenor

está no Porto uma exposição sobre o Conde de Ferreira, vida e obra. Muita gente pasma e louva a generosidade póstuma de que deu mostras: ao morrer, deixou destinada uma parte da sua fortuna imensa para a construção de 120 escolas primárias. Numa época em que tal coisa era praticamente desconhecida, é de pasmar, realmente. E não se ficou por aí: mandou também construir um hospital psiquiátrico, coisa nova no país igualmente – mais a gente se pasma e aclama.
Sabendo isto, quem estranhará que o nome dele tenha sido dado a 66 ruas e praças no país? Quem há de opor-se? Ou contrariar? Ou questionar?
E sabendo depois que a tal imensa e generosa fortuna foi arrecadada no tráfico negreiro a que o Conde se dedicava? E sabendo que esse tráfico arrancou dez mil pessoas das terras onde viviam em África para serem vendidas como escravos no Brasil?

Haverá quem ache que uma coisa (a esmola que a mão direita dá) redime de certo modo a outra (as vidas destruídas que a mão esquerda tira). E haverá também quem sinta o embaraço que tal dilema lhe impõe. E a que não pode escapar: no nome de uma rua, de uma praça, diante de uma estátua pública que não podemos deixar de ver, não conseguimos agora ignorar a sombra daqueles milhares de vidas roubadas até aí desconhecidas, que agora nos assombram. Não podemos já deixar de as ver também, tão presentes como as estátuas do Conde. Do negreiro beneficente.

Esta história fez-me lembrar uns versinhos de quando eu era pequenino, que falavam de um senhor que passou a vida a fazer das suas à custa dos demais e que depois dizia que isso “outros o fizeram / (e não foi coisa mais pequena…)/ E enquanto os mais não se arrependeram / ele não falha missa ou novena”. E assim está o Conde e o seu arrependimento post mortem, que lhe lavou os crimes e lhe pôs o nome em ruas e praças. Nessa altura (no tempo dos tais versinhos), não me questionava ainda sobre o sentido que tem dar às ruas e às praças que são de todos o nome de pessoas que são só de alguns. Mas, e hoje? Será forçoso ter de aceitar o passado como uma herança que não se pode repudiar? Sem nos questionamos ao menos?
Se alguém nos leva a pensar no caso, sim, achamos que se pisou um risco qualquer. Há um limite, que todos pressentimos, mas a que ninguém ainda fixou os contornos, que deveria ter servido de alerta. Mas não serviu. Sabemos que não, a realidade o mostra. Passeamo-nos pelas nossas cidades por entre os fantasmas e a presença figurada de certos nomes que tresandam a ódio, a racismo, a opressão. Assim o quis a vontade de alguns: Serviam o Poder e era o que contava. O resto? Um pormenor sem importância.


Haverá uma medida para a infâmia?

A justiça cósmica não existe. É o que me parece, pelo menos. Nunca instância nenhuma alguma vez nos pedirá contas do nosso silêncio, cumplicidade, indiferença, nem tão pouco da nossa indignação, perante tanta desumanidade, tanta crueldade, tanta infâmia a que todos os dias assistimos ou que nos chega pelas notícias. É assim, mais nada.

Mas vamos imaginar que não, que não é assim. Que de uma qualquer maneira éramos chamados a decidir. E que teríamos de traçar a linha que separa uns dos outros os crimes mais ignóbeis.
Uns em que carrascos e vítimas se confrontam, em que se vêem cara a cara – serão para nós diferentes de outros em que o crime se comete à distância, ou sob o anonimato dos massacres indiscriminados? As vítimas que têm um nome são diferentes daquelas que só têm um número? Os 400 civis que morreram no bombardeamento do abrigo antiaéreo onde se refugiavam valerão menos no nosso juízo do que um mesmo número de mulheres e crianças violadas, mutiladas e massacradas numa aldeia noutro país? As centenas de pessoas de uma aldeia arrasada durante uma “operação de limpeza” pesarão na nossa balança tanto como os habitantes de outra aldeia executados depois de serem exibidos, cuspidos, apedrejados, mutilados? Haverá uma medida, um peso, uma conta para a infâmia?
Desde sempre assim foi, alguém dirá. Falam disso livros tão antigos como a Bíblia ou as narrativas dos portugueses no Oriente. Ou dos horrores das Grandes Guerras, do Holocausto. É verdade. Invocamos o passado, como se passado fosse. Crimes de que só resta hoje a memória, que como tudo o resto se apaga e definha em museus e em monumentos votivos.
Mas… e mais perto de nós, tão perto que muitos de nós souberam deles no momento em que ocorriam?
Katyn (1940), Babi Yar (1941), Deir Yassin (1948), My Lai (1968), Wiriamu (1972), Al Amiriya (1991), Ruanda (1994), Kibutz Nir Oz (2023).

Sabem o que me disse o Jean Némar, com quem discutia estas coisas? Que sim, que era verdade que nunca seríamos o juiz de tamanhos crimes, que nunca teríamos de pesar, medir ou contar tais responsabilidades. Nem tão pouco seríamos sequer advogados chamados a invocar agravos ou atenuantes em julgamento nenhum. Ao que não poderíamos escapar era ao papel de testemunhas. Éramos, somos, todos testemunhas. E aí estava a diferença. Crimes como o massacre, o genocídio, dos tutsis no Ruanda foram cometidos perante o silêncio mais ou menos generalizado da comunidade “civilizada”, quer dizer, informada. Alguns outros foram denunciados, condenados, por testemunhas que se manifestaram, que se movimentaram, que pressionaram quem podia pôr-lhes termo. Está aí a diferença.
É verdade, mas ainda assim…

Produto para se dormir tranquilo…

Li ontem no Público uma crónica de Graça Castanheira que me deixou a pensar nos insondáveis mistérios dos processos de desculpabilização (e, bem vistas as coisas, de desumanização) que somos capazes de inventar quando nos pomos a isso. Pilatos era um aprendiz da arte, temos de concluir.

Falava-se na tal crónica do uso de armas de grande poder de destruição pelas tropas israelitas em Gaza e a esse propósito referia os moderníssimos morteiros “Iron Sting”. São, ao que parece, levíssimos (apenas 17 quilos), e são guiados por um sofisticado sistema de navegação. É importante este aspeto: os americanos, que no fundo são quem subsidia esta guerra, têm pedido com insistência a Israel que mate sim, mas com mais precisão. A opinião pública americana (e portanto os votantes, e portanto os investimentos em armamento) são muito sensíveis à questão da morte indiscriminada de civis inocentes. E é importante para Israel responder a esta preocupação. Mesmo que no fundo os que comandam a guerra considerem que ali ninguém é inocente, havia que diminuir o número de mortes indiferenciadas. Daí os tais morteiros. Que o seu fabricante (Elbit System’s Land Division) recomenda para a circunstância. A incredulidade levou-me a ir ver o site da empresa (https://elbitsystems.com/blog/iron-stings-precision-counters-tunnel-shafts/). Assim é: a chefe da secção dos morteiros gaba o novo produto. “É crucial não nos tornarmos complacentes, temos de evoluir constantemente seguindo a pulsação do mercado”. E cita as boas referências dos consumidores diretos na frente de batalha. Diz ela: “Ao receber um feedback tão bom fico contente. Posso dormir tranquila sabendo que as nossas tropas estão a utilizar um excelente produto”. 

post scriptum

Levado pelo acaso, fui parar a uma zona por onde agora não ando muito. Ainda Lisboa, mas com qualquer coisa que nos faz sentir vagamente despaísados. Afastamo-nos umas ruas da nossa órbita de todos os dias e logo tudo nos parece outro planeta. Outra gente, outras lojas e até os escritos nas paredes nos falam de coisas de que não tratam as paredes do nosso bairro. “Autodeterminação trans já!”, dizia este. Estaquei, interdito. O que mais me baralhou, assim de repente. foi aquele “já!” – impaciente, peremptório, quase intimidante. Foi como me soou, a mim, que estava ainda a tentar perceber o que poderia ser a “auto-determinação trans”. Sabia mais ou menos o que era “auto-determinação”, sabia também menos ou mais o que era “trans”, mas não percebia o que estavam ali a fazer juntas as duas palavras. Admitia à partida que quem tal escreve deve sabê-lo. Também eu escrevedor de paredes nas minhas horas, conheço o rigor das normas não-escritas do ofício – os riscos e a escassez da matéria prima obriga a poupar as palavras, a escolher as mais diretas, as mais claras, as mais incisivas. Nem sempre assim será, bem sei, mas quis pensar que também este aqui saberia o que nos estava a ditar com aquele imperativo: já!
Ou não, vamos lá a ver. Talvez não houvesse ali nada de ameaçador, talvez fosse antes um apelo, uma maneira de nos mostrar como sentia a urgência do que nos era proposto. Um gesto que no fundo pedia compreensão, adesão. Ou, quem sabe, que fora escrito para alguém, para que o visse, para que desse valor ao seu gesto corajoso e solitário. Será que esse alguém o viu? Há coisas que só escritas ganham realidade para os outros. Os escritores, os poetas sabem isso. Os apaixonados também.
Foi o que me pareceu ler no escrito logo ali ao lado, como um post scriptum a querer levar a mensagem ao destino.

Tempos depois (21 de dezembro): parece que eu é que estava a precisar de um post-scriptum. Li hoje no jornal uma notícia que me explicava o que eu não percebi ao ver o escrito na parede. Dizia, às tantas: ”Em 2018 foi introduzida a possibilidade de menores a partir dos 16 anos requererem a mudança de género e de nome no registo civil sem necessidade de qualquer relatório médico que atestasse a disforia de género, desde que com consentimento familiar.” Supõe-se que os adultos nem de consentimento precisam. É isso a autodeterminação: a vontade da pessoa transgénero é acatada e respeitada sem mais intermediários. E todo o processo é gratuito, esclarece também a jornalista (Daniela Carmo). Fico a saber. Mas o “post-scriptum” na parede tem piada na mesma, há que convir.

as desvairadas gentes de Lisboa

o Jean Némar é que costuma dizer: “gosto tanto de estrangeiros como detesto turistas”. Assino por baixo. Realmente que diferentes eles são! E como é diferente a relação que têm com a cidade! Uns – bandos de gafanhotos vorazes, a percorrer a via sacra que lhes impõem os guias turísticos, a correr atrás de uma bandeirola que guia os grupos, a cheiricar cada estação do calvário, como mijadelas rápidas a marcar com um “visto” o território – nem nos dão tempo para lhes sabermos os nomes. Saem daqui sem ter falado com ninguém, sem ver nada que não tenham já visto em imagens e vídeos, sem surpresas. Verão talvez mais tarde, em casa, com mais vagar, nas fotos e vídeos que não páram de armazenar.


Nada a ver com os estrangeiros. As “muitas e desvairadas gentes” de que já o cronista falava, quando Lisboa começou a abrir-se ao mundo e a atrair gente das nações mais variadas, ou “desvairadas”, como se dizia no português antigo. Não turistas que aqui passam de corrida, mas gente que aqui mora e connosco partilha a cidade. Dá gosto vê-los, conhecê-los. Vivem ao nosso lado, mas há no modo desse viver um qualquer toque de diferente que nos ajuda a olhar as coisas também de modo diferente, como se finalmente nos fosse dado a ver um outro lado da realidade que sempre víramos pelo mesmo ângulo.

Ainda há pouco (no Verão) reparei nisso. Com a chegada do calor toda a gente pensava em praia e piscinas, sobretudo as crianças (e os pais das crianças, claríssimamente). Só que as três piscinas da vizinhança estavam todas fechadas: a da Penha de França, depois das obras, e depois das avarias, enfiou por uma enfiada de processos e recursos para “apurar responsabilidades” e lá continuava imprópria para consumo; a de Alfama fechada “por razões de segurança”; a do Casal Vistoso fechada por razões que a Câmara explicava cripticamente como “um conjunto de patologias que impedem a sua utilização no imediato”. Um imediato que dura há 3 anos. Convocaram-se os moradores para organizar um protesto: uma reunião em Santa Clara, com dia e hora aprazados. Fui lá ver como era. Haveria umas dez pessoas, quase todos estrangeiros – italianos, franceses, espanhóis. Portugueses éramos dois.
Lá está: uma diferente maneira de pegar na cidade. De passar da queixa ao protesto e à procura da solução. Nós, talvez habituados a nada esperar dos que nos governam (e governam como se a cidade fosse deles, só deles), limitados a ver as coisas acontecerem. Já eles, os desvairados estrangeiros, a querer fazer acontecer as coisas.
Já em tempos, há muito tempo, a Mary me tinha chamado a atenção para isso. Andávamos a pensar criar um coro, para cantarmos. Nas primeiras reuniões logo alguém propôs procurar apoios para pagar ao maestro. Dizia a Mary: “Não percebo. Vocês aqui quando querem fazer uma coisa a primeira coisa em que pensam é em arranjar subsídios. Na América, quando queremos fazer uma coisa, fazêmo-la. E pagámo-la com os nossos meios.”

Não sei porquê, talvez porque uns puxam os outros, há aqui na Graça muitos italianos. No movimento das piscinas também. A nossa porta-voz foi a Chiara. Foi ela que “falou ao povo” na concentração que se fez junto ao coreto. É também ela a alma da “Horta Comunitária” que se vai fazendo aos poucos num terreno vago de Alfama – o que resta de umas demolições que ali fizeram há tempos. (O que também quer dizer que, mais dia menos dia, a horta vai ter que enfrentar a dura realidade das escavadoras e da pressão imobiliária sobre um espaço “oh, tão bem situado”). E, lá está, quem vai à frente? Quem são os hortelões e hortelãs? Variados, com nomes tão “desvairados” como Chiara, Enora, Marie Hélène, Alex MacDonald. Francisca Fernandez, Will, Arnaud. Mas, não exageremos só para um lado, também Luísa, Rodrigo, Zé e outros, talvez menos desvairados, mas igualmente fiados de que no meio daqueles escombros e restos de tijolos é possível fazer crescer couves, tomates, favas, acelgas, espinafres, tudo alimentado por vários compostores que enchemos com os restos das nossas cozinhas. Agora há até oliveiras, uma figueira, muitas flores, ervas aromáticas. Lindo de se ver.

Resiliência / Resistência

Vieram uns todos artilhados – tintas, pincéis, moldes, medidas rigorosas – e deixaram-nos com esta: RESILIÊNCIA. Nada de improvisado, de espontâneo, de atabalhoado. Não. Tudo nos conformes: um fundo a negro, de uns bons vinte metros e, então, por cima as letras brancas, bem recortadas: Resiliência. Não é palavra de todos os dias, nem de toda a gente. Nem todos terão entendido, acho eu. E nesse caso quem agarrará na mensagem? Há uma mensagem? Para quem e por quê deixar ali registada a palavra, só uma palavra, sem mais. “Capacidade de recuperar rapidamente das adversidades”, é o que quer dizer, ao fim e ao cabo. Como a erva que calcamos, que se verga, que cede, para logo retomar a posição inicial. Talvez um bocadinho amochada, ainda assim, mas vá lá. Ali está, pronta para outra. Como aquelas letras na parede. Lá estão.

Dias depois (ou noites, será antes isso), vieram outros. Se calhar não achavam que fosse assim. Que a vida não era isso. Que havia ali qualquer coisa de resignado, de aceitação do que nos pisa e nos calca, de baixar a cerviz perante as prepotências do destino. E vai daí: RESISTÊNCIA. Sem mais aquelas, sem grandes preparos, em gestos rápidos, em cor berrante, sem rigores de grafismos. Bastou interpor aquelas duas letrinhas, um S e um T. Resistência: antes que nos pisem, antes que nos calquem, não hão de passar. Não temos de nos nos curvar.

E isso toda a gente entendeu, acho eu.