O interno feminino

Ora vamos lá ouvir o que nos conta o amigo Ortigão, chegadinho de Paris carregadinho de novidades e de opiniões.
Encontrei-o na Feira da Ladra, em Lisboa, numa banca do alfarrabista onde não é raro desaguarem raridades como as suas (do Ortigão) «Notas de Viagem, Paris e a Exposição universal (1878-1879). Ouvir «Então, que tal Paris?», foi para a ramalhal figura como que a deixa para a sua caudalosa entrada em cena, para as impressões e considerações que trazia já muito à mão, prontas a desembalar e exibir diante do pasmo e deslumbramento de quem o quisesse ouvir. 
Tudo fresco, inédito, moderno, na sua fala intransigentemente vernácula, esquiva a qualquer reforma vocabular ou orthográphica: «Entre o Pariz de hoje e o Pariz de ha nove annos, a differença exterior que mais impressiona é a do aspecto das mulheres”, prologou ele.
A coisa prometia, pelo que deixava adivinhar.

É que Ramalho Ortigão não é um qualquer portuguesinho perdido entre as 13 milhões de pessoas de todos os cantos do mundo que na altura visitavam Paris e a sua pujante Exposição Universal. A Exposição e não só. Ao nosso Ramalho, sobrou-lhe ainda tempo para visitar a Sorbonne, o collegio de França e a escola de medicina e para disso tudo nos dar notícia. Mas tempo também, como seria de esperar, para admirar as muitas exibições que em Pariz davam conta dos avanços da Agricultura, das Artes e da Indústria. E em tudo isso se alarga o ramalhal assombro: o telefone de Bell, o phonographo de Edison, e até a cabeça da colossal estátua da Liberdade destinada ao porto de Nova York onde «no logar do cerebello, podem jantar duas ou tres familias.» E pergunto-me ainda se não terá  ele também visitado a «village nègre», considerada uma uma das atrações «científicas!!» mais populares da Exposição, um dito «Zoo humano» onde eram exibidos 400 indígenas trazidos das colónias francesas. 
Que mais interessou Ramalho na Exposição?
Os congressos!
Vários. Todos eles dando a conhecer e discutindo o que de mais notável se fazia no mundo nos mais variados domínios: meteorologia, matemática, indústria, engenharia, hygiene, medicina, sciencias e etc etc. O pormenor do relato faz crer que Ramalho Ortigão não perdeu pitada. Culto, inteligente, curioso, toca em todos esses domínios, sempre com o mesmo interesse e rigor. De tantos congressos, porém, «nenhum parecia destinado a attrahir tão especialmente a attenção do publico como o congresso das mulheres.». Isto diz Ramalho e, não sei porquê, tenho para mim que talvez também a ele lhe tenha merecido um interesse particular, ao ponto de lhe reservar um capítulo especial nas suas «Notas de Viagem».
Mas não gostou. 
As mulheres reunidas nesse congresso, afinal dedicavam-se a discutir as discriminações com que a lei tratava as mulheres, exigindo que «as medidas policiaes com relação á mulher se limitem a fazer respeitar a ordem publica sem distincção de sexos» e coisas deste teor. E Ramalho não gostou. Não gostou porque «querer fazer da mulher o ente mais igual ao homem, como estas senhoras declamaram em todas as suas reuniões, é cahir no maior dos erros emquanto á comprehensão do destino feminino. A alliança conjugal baseia-se precisamente no principio das dissimilhanças. A mulher é precisa, é indispensavel, é essencial ao homem exactamente pela razão de que é mais fraca do que elle. É da sua fraqueza que a mulher tira o immenso poder que contrabalança toda a nossa força e que torna a esposa o complemento de nós mesmos, a nossa companheira, a nossa igual.»
«Dêm-lhe ao mesmo tempo a abolição de todas as penas que nos nossos codigos ferem a violação dos deveres da filha, da esposa e da mãi, e todas as grandes qualidades que distinguem a mulher e fazem d’ella a metade integrante da humanidade se atrophiarão successivamente até cessarem para sempre de funccionar. A mulher então será livre – livre para não prestar para nada.»

Ramalho Ortigão, zangado com as senhoras do Congresso das Mulheres, é peremptório: «A grande, a elevada, a importante funcção da mulher na sociedade humana não é ser telegraphista, ser boticaria, ser jornalista ou ser doutora; é ser mãe e é ser esposa.»

Estou convencídissimo de que não há de faltar por aí gente em barda a concordar com a ramalhal invectiva. «A mulher é em casa que se quer», abona o país onde até a violência, quando doméstica, goza de uma esfera de impunidade onde não é bem aceite que a Justiça meta a colher. O que a Justiça, aliás, de bom grado repete nos seus acórdãos, sempre que lhe dão azo para tal. 

O chiste, a verve, o fino recorte literário da ramalhal prosa valem um seguro aval a esta sua declaração da quintessência do feminino. 
Mas… (lá tinha de vir o mas) isso só para uso interno, claro, um interno feminino, digamos assim. Porque para uso externo já a conversa é outra, e é outro o externo feminino. É que sempre há de vir de lá algum que logo retruca-truca: mas, vamos lá a ver, se todas elas são mães e esposas como é que…?
E também para isso nos chega a pronta resposta de Pariz e do muito nosso Ortigão: «Pariz produz igualmente a cocotte. A cocotte é uma das molas mais poderosas da civilisação e do progresso. (…)  A immensa multidão das pequenas cousas inventadas para tornarem a vida mais doce, mais facil, mais espirituosa, mais subtil, mais delicada, mais digna, não existiria no mundo se desde a antiga Grecia, a mãe das artes, até o moderno boulevard de Pariz, não tivesse existido a cocotte..»

E é assim que a cocotte (e acho que não é preciso traduzir) salva a família, o casamento, a tranquilidade e «o amor sublime d’esses entes sobrehumanos que fazem consistir toda a sua aspiração, toda a sua honra, toda a sua gloria, em serem unica e exclusivamente na terra as mães de bons filhos.»

Pode ser que já não exista o Pariz de que nos falam as “Notas de Viagem” do bom do Ramalho Ortigão, ele próprio já só lembrado em vagas referências nas sacristias e nos acórdãos judiciais. Mas se isso se foi, ficou o relento bafiento da surda violência dessas máximas disfarçadas de bom senso. Bom senso esse de que já Ortigão nos dava a sua ramalhal definição: «o pariziense, que é o bom senso encarnado, não admitte em geral senão duas especies de amor: o amor honesto, legalisado na dignidade tranquilla e fecunda da familia, ou o amor absolutamente livre, de caracter arbitrario, temperado com a porção de desdem indispensavel ás garantias da liberdade, na tolerancia anarchica da cocotte.»

Ai de mim, que começo pelos temas sérios e conceituados da Exposição Universal de Paris de 1878, que nos trouxe os primeiros passos da proteção das propriedade literária, da adoção generalizada do alfabeto Braille e numerosas invenções úteis de que ainda hoje nos servimos, para descambar depois por esses boulevards abaixo e acabar a falar das cocottes que tanto entusiasmaram o Ramalho… Para não ficar com a vergonha toda, deixo aqui a fechar a página a photo do Pavilhão Português na Exposição. A ver se com isso me redimo.

 

não há palavras

Na infância da humanidade, muito antes de se falar em influencers, quando não havia universidades, nem internet, nem Wikipédia, não havia também mais nada que pudesse servir de candeia no mundo de trevas e de mistério em que tudo parecia estar mergulhado. A explicação para as coisas e para os acontecimentos, assentava antes naquilo a que hoje chamamos o pensamento mágico: a crença no poder do pensamento para agir sobre a realidade, na capacidade de dominar o mundo exterior através de rituais ou de palavras mágicas. No fundo, uma forma de racionalizar o desconhecido e os medos que ele desperta. Em muitas tradições místicas e esotéricas crê-se que as palavras possuem esse poder e que são (podem ser) agentes de criação de uma realidade até aí inexistente. 

Quando nada mais havia, havia já a palavra («No princípio era o Verbo», diz um dos livros sagrados do cristianismo) e é tal o poder da palavra que pode criar a realidade que nomeia. Diz-se : «Faça-se luz! E a luz faz-se». Diz-se «Abracadabra» e logo aparecerá o que desejamos (ou desaparecerá o que tememos). Quantos e quantos pastorinhos não andarão por esses montes e fragas a gritar-lhes o «abre-te sésamo» que fará surgir a gruta de tesouros sem fim que sabem estar aí escondidos à guarda de alguma moura encantada, só à espera de ser desencantada.
De certo modo, podemos dizer que em toda a nossa cultura por todo o lado e a todo propósito e despropósito está latente a ideia de que sem uma palavra que a nomeie nenhuma realidade existe.


Num livro que se tornou famoso pelo que tem de visionário e premonitório, George Orwell imaginou um universo totalitário em que o Poder não só domina a sociedade como a pretende transformar tão radicalmente que nenhuma alternativa possa jamais existir. O instrumento mais poderoso de que dispõe é precisamente a língua, as palavras. Em particular a «novafala», a língua oficial, que se vai sobrepondo de forma radical (e, supostamente, irreversível) à língua até então falada. Partindo do princípio de que só existe e só pode ser pensado, o que pode ser nomeado, o objetivo da novafala era tornar impossível qualquer outro modo de pensar, para além do pensamento oficial, de modo que «qualquer pensamento herege — isto é, qualquer pensamento que divergisse dos princípios [oficiais] — se tornasse literalmente impensável. Era algo que se fazia em parte inventando novas palavras, mas sobretudo eliminando palavras indesejáveis e excluindo das palavras que restassem todos os sentidos heterodoxos e, tanto quanto possível, todos os sentidos secundários».

De um modo ou outro, não há ditadura nenhuma capaz de resistir à mesma tentação de eliminar uma realidade incómoda, proibindo tudo o que a possa referir. Proíbem-se livros, filmes, canções e proibem-se também as palavras. A Censura salazarista enviava às redações e às rádios listas de palavras que não poderiam ser usadas nos noticiários ou nos textos publicados. Palavras como sindicato, greve, manifestação, liberdade de imprensa, e todas as que pudessem despertar a curiosidade sobre o mundo onde elas podiam existir, eram suprimidas do vocabulário, na ideia de que não havendo palavras não haveria a realidade que elas traduziam.

O livro de Orwell foi publicado em 1949 e intitula-se «1984» (tradução para português de Vasco Rato, ed. Dom Quixote.) 
Bem poderia ser «2025».
O que ele descreveu como uma ficção é cada vez mais uma realidade em várias pontos do mundo. Sempre ditaduras. Um caso surpreendente porém poderia ser o de Magaland, talvez o país mais rico e mais poderoso do mundo, onde hoje em dia assistimos a uma série de transformações que em tudo fazem lembrar as operações linguísticas (e outras) do mundo sinistro retratado por Orwell.

Além de revogar todas as medidas até aí existentes que pudessem contender com a nova visão do novo Presidente, é adotada uma política deliberada de apagar da memória (por enquanto só da memória oficial, dos organismos do Governo) tudo o que pudesse evocar uma realidade diferente. Ultimamente chegou-se ao ponto de eliminar todos os documentos oficiais ou partes dele que fizessem referência a políticas ou realidades condenadas pela nova Administração. As palavras usadas na busca de tais documentos são tão precisas e direcionadas como: anti-racismo, diversidade, igualdade, preconceito, crise climática, feminismo, nativos americanos, emigrantes, poluição, diferenças culturais, preferências sexuais… E mais um ror de palavras deste teor. Um dos principais jornais do país publicou nessa altura uma amostragem das palavras que deveriam ser riscadas dos documentos oficiais existentes e evitadas daí para a frente. São centenas. Com resultados por vezes inesperados: uma investigadora de uma das mais prestigiadas universidades do mundo (mas… lá está, professora de ginecologia e obstetrícia, uma área que abunda em palavras proibidas) viu desaparecer do pé para a mão um artigo que tinha escrito e publicado há cinco anos numa revista da especialidade. Deixou de existir, pura e simplesmente.

Leio isto e penso que há aqui qualquer coisa que não deixa de nos fazer lembrar o «pensamento mágico» primitivo, a ideia de que apagar (por decreto) a palavra equivale a apagar a realidade que ela designa (ou designava).

A conversa já vai longa e não sei sequer se o merece, pelo que já me calo antes que se torne indigesta. Hoje deu-me para aqui. E se o que me puxou foi aquela lista de palavras proibidas decretada em Magalândia, o que me pôs a pensar nestas coisas das palavras e dos seus ignorados poderes foi uma cena a que assisti quando andava a passear o cão. Não tem nada a ver, claro, mas meio a rir meio a sério achei que poderia ser uma boa metáfora da destruição da palavra (e do direito à palavra) a que todos os déspotas se propõem com tantas ganas que nem que seja à marretada. Tirei uma fotografia e aqui a deixo, para ver se também acharão que é assim.

infidelidade sem culpa

Tradutor de ofício, dou por mim agora a traduzir… uma tradução. Não é coisa que, à partida, me agrade por aí além, desde já o digo. Mas não havia muito por onde escolher: o livro foi escrito em árabe, a editora não encontrou quem pudesse traduzir o livro a partir do original, e não viu outro recurso que não fosse pegar na versão inglesa. E aqui me têm enfiado neste singular arranjo de dois tradutores com um livro pelo meio, uma espécie de capicua de oficiais do mesmo ofício.
Mas dizia eu que não é coisa muito do meu agrado e explico porquê. 
Ao traduzir um livro, estou de certo modo a propor ao leitor português a leitura que eu faço desse livro. Como se o lesse em voz alta. Procurando repetir as inflexões, o tom, a articulação particular do autor. Como quem, para reproduzir uma qualquer obra, procura recorrer aos mesmos materiais e às mesmas ferramentas que foram usadas no original. Essa fidelidade ao original traduz-se, no caso da tradução, em seguir o mais possível de perto as pegadas deixadas pelo autor, pelo menos aquelas que são transponíveis para a nossa língua – desde o estilo e a linguagem, mais ou menos popular ou mais ou menos erudito, até às inflexões que lhe dá a época ou o lugar, passando por edecetras tão variados como a pontuação ou as particularidades ou tiques de linguagem ou de estilo e outras miudezas do género. 
Mas… e no caso de se tratar da tradução de uma tradução?

Faz-me pensar naquele jogo de crianças em que se diz uma frase ao ouvido de um outro, que ele deve repetir ao ouvido mais próximo, e assim por diante até voltar ao autor da versão original – percebe-se então que muito mudou pelo caminho, alguém tirou ou juntou um ponto ao conto. No caso de uma tradução que não podemos confrontar com o original, como avaliar o que se perdeu pelo caminho? Se é que se perdeu, mas também isso não teremos maneira de o saber.

Enfim, quero eu dizer na minha que no caso da tradução de uma tradução há qualquer coisa que faz com que não me sinta vinculado, ou limitado, pelo mesmo pacto de fidelidade que me ligaria ao autor original.

Mas com a tradução que agora tenho em mãos, deu-se uma coisa curiosa: liberto das peias da fidelidade literal, tudo fluía mais livremente, mais ao jeito da nossa língua, sem quaisquer contorsões ou embaraços. Não é que deixasse de ser a tradução de uma tradução, pois que me sentia apesar de tudo ligado por um laço de lealdade à tradutora que me servia de mediação. Uma confiança igual à do corredor que confia no companheiro de equipa que lhe passa o testemunho. Mas – e é isto talvez mais importante ainda – havia aqui qualquer coisa de inesperadamente diferente: era como se entre a voz da versão inglesa e a voz do original árabe me chegasse ainda uma terceira voz, de uma língua vinda de tempos imemoriais, quando em toda a Terra havia somente uma língua, e era como se sentisse latente essa voz comum a toda a humanidade, uma voz que continuasse a vibrar em todas as línguas faladas, herdeiras dessa comum ancestral, anterior a Babel, anterior à confusão das línguas e à dispersão de todos os habitantes da Terra a que os condenou a fúria do iracundo Iavé da Bíblia. 

Compreendi melhor então o que queria dizer o poeta Herberto Helder ao apresentar o livro O Bebedor Nocturno, onde reuniu alguns poemas de outras culturas e civilizações «mudados» para português: poemas do Antigo Egipto, de poemas aztecas, malgaxes, e de outras civilizações: «Pego no Livro dos Mortos, em inglês ou francês, como se fosse um poema inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e sobretudo, um poema meu. Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não me sinto infiel. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, sub-repticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol.» Mais do que uma «tradução» ou uma «versão», palavras que aliás evita usar, mais do que a procura de equivalências vocabulares ou de sentidos entre uma língua e outra, HH fala de «significações suspensas, da fascinação dos sons que convergem e divergem» e do «desespero surdo» que domina, não o tradutor, mas o «poliglota», que na desunião dos idiomas busca a unidade improvável. Multiplicando as operações de propiciação da unidade, ele caminha irradiantemente para a dispersão. Descentraliza-se. Existe em estado de Babel.»

E para que se veja no que deu a ousadia herbertiana, deixo-lhes aqui uma bela poesia mexicana de língua nauatle ou azteca, incluída na referida recolha.

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho. 

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece: 

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

Voltar a casa

Como quem volta a casa, esteve aqui hoje de visita o Manuel Resende, o poeta, amigo também. Faria hoje 77 anos. E como era meu costume haveria de mandar-lhe algum poema de que eu gostasse, a servir de prenda de aniversário. 
Seria desta vez um poema de Primo Levi, de «A Uma Hora Incerta» (tradução de Rui Miguel Ribeiro, que acaba de sair nas Edições do Saguão) e que a Chiara me ofereceu há dias: «Este é o tempo dos relâmpagos sem trovões, / Este é o tempo das vozes não ouvidas / Dos sonos inquietos e das vãs vigílias (…)» 
a condizer com o que eu ia para dizer, do ar de desencanto que por aí corre. Que parece que, desavindos com a esperança que em tempos nos animou (porque, sim, também isso é verdade), corremos agora a esconder-nos das notícias que nos chegam, de tanta ignomínia sem freio, e tantas vezes cometida em nosso nome. Ia para falar disso, pronto, mas lembrei-me a tempo que atrás de tempos, tempos vêm e que nada acabou ainda. É só um pouco tarde, talvez.
E também disso fala o Primo Levi:

«… não esqueças os dias

Dos silêncios longos e fáceis,

Das estradas nocturnas e amigáveis,

Das meditações serenas,

Antes que as folhas caiam,

Antes que o céu se volte a fechar,

Antes que novamente despertemos,

Reconhecendo, diante das nossas portas,

O percutir dos passos de ferro.»

São coisas que o Manel entendia, de que falou também ele. 
Desta vez, então, será ele a trazer um poema para partilhar com os que por aqui passam e que poderão não o conhecer ainda. Aqui está:

Estava nas cartas…

Será que alguém de entre os que por aqui passam terá lido um livrinho intitulado «Desconhecido nesta morada»? Traduzi-o há mais de vinte anos, ando agora a revê-lo para outra editora e, ao fazê-lo, fui levado de volta a uma série de perguntas, de dúvidas e dessas coisas que nos perturbam o sono, que já nessa altura me atanazavam. Quando digo livrinho não é só um modo de falar. Trata-se realmente de um pequeno conto, que se leria numa viagem de autocarro se por acaso se lesse nos autocarros. Em texto corrido, provavelmente não iria além das trinta ou quarenta páginas. E só a inventiva dos paginadores, mais um prefácio, um posfácio ou outras notas do género para ajudar à missa, conseguem esticar a coisa até àquele mínimo capaz de lhe dar direito a lombada.

O conto é a história de dois amigos alemães, Max e Martin, que vivem na América, em São Francisco, onde são sócios de uma galeria de arte. Liga-os uma forte amizade que, mesmo depois da partida de um deles, se prolonga através das cartas que vão trocando. São essas cartas que alimentam o fio narrativo do livro: de volta à pátria, Martin, vai contando a Max, em sucessivos episódios, o ambiente que se vive na Alemanha durante o período conturbado da ascensão de Hitler ao poder.
Publicada em 1938, há nesta história qualquer coisa de premonitório sobre os horrores nazis que estavam para vir. Ninguém, nessa altura, poderia antever os crimes sem nome dos campos de extermínio, dos fornos crematórios, do genocídio dos judeus alemães e do resto da Europa. Muito embora houvesse já sinais inequívocos do caminho que se traçava nessa direção e houve pessoas mais atentas que os souberam ler. Kathrine Kressman Taylor, a autora deste conto, foi uma delas. 

A ação cobre um período de 18 meses, entre 1932 e 1934 – o período de «gestação do ovo da serpente”: em Janeiro de 1933 Hitler passa a ser o Chanceler da Alemanha; em Março, é construído o campo de concentração de Dachau, onde começam por ser internados comunistas, sociais-democratas, sindicalistas e outros «inimigos do povo»; em Abril, os judeus são banidos da função pública; em Julho, é autorizada a esterilização forçadas dos ciganos, dos deficientes e dos alemães de cor; em 1934, depois da morte do Presidente Hindenburg, Hitler proclama-se «Führer do Terceiro Reich» e são decretadas as leis raciais antissemitas que prenunciam as Leis de Nuremberga para a Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã (1935),  e a chamada «solução final para o problema judaico». É este o ar que se respira na Alemanha, que respira Martin, e que transpira na correspondência que trava com Max, o seu sócio e amigo judeu que ficou na América.
E é tóxico, esse ar, e aos poucos vai contaminando o próprio Martin. A princípio, é ainda com alguma reserva que ele observa a caminhada de Hitler para o poder total («pergunto a mim próprio: será que ele não é louco?»), reserva essa que o medo ou a prudência o obriga a mascarar («Todos nós, e quem tem amor à pele, apressámo-nos a aderir ao Nacional-Socialismo»), mas não tarda a evoluir para uma aceitação passiva que rapidamente se trasmuda em entusiasmo com esta «nova Alemanha guiada pelo nosso Amado Chefe!» 

Caso para dizer: estava nas cartas! Como fotogramas de um filme que só no final poderemos ver na totalidade, ganhando então o seu pleno sentido, carta a carta, a autora vai mostrando os passos que conduzem inelutavelmente ao desfecho fatídico, como um castelo de cartas que se foi erguendo até desabar de um só golpe.

Foi justamente ao ver os efeitos do «veneno nazi» sobre pessoas que ela considerava aparentemente imunes  («amigos meus alemães, cultos, intelectuais, generosos» que «em muitíssimo pouco tempo se tornaram nazis convictos»), que Katherine Kressman Taylor decidiu escrever Desconhecido nesta morada: «Queria escrever sobre aquilo que os nazis faziam e mostrar ao público americano o que estava a acontecer a pessoas reais, vivas, apanhadas pela vaga de uma ideologia perversa».

E pelos vistos o objetivo da autora tem vindo a fazer o seu caminho. Esgotado em poucos dias depois da primeira publicação, Desconhecido nesta morada nunca parou de ser reeditado, traduzido, adaptado ao teatro e ao cinema. Esta popularidade de um texto que, de outro modo, nem pela escrita nem pelo tema, se destacaria particularmente de outras obras de ficção com o mesmo fundo histórico, deve-se, quanto a mim, em grande parte a dois fatores fundamentais. Um deles tem a ver com a escolha da «troca de cartas» como forma de «contar» a história. A linguagem é, assim, simples, despida de figuras de estilo ou de artifícios literários, próprio de uma correspondência entre amigos. A escrita, liberta das usuais convenções da novela assenta apenas nos factos capazes de fazer progredir a ação, sem mais derivas,  sem a mediação de um narrador omnisciente, ou seja sem uma postura moral ou uma elaboração de motivações e justificações, como seria próprio de uma narrativa tradicional. De certo modo é o próprio leitor que vai construindo a história, julgando os motivos e os factos que lhe vão chegando. 
O segundo fator de que falei, aliás decisivo, é o modo como a autora conclui o conto. Um verdadeiro achado! Estou convencido de que é esse final, precisamente, o que de modo mais vívido persiste na memória dos leitores ao fim de muito tempo.

Como todas as histórias exemplares – e a autora não esconde os propósitos edificantes do seu conto numa «América isolacionista (…) onde os políticos declaravam que as histórias da Europa não nos diziam respeito e que a Alemanha não era um problema» – também esta pretende servir de aviso para o futuro. Futuro que é já hoje, aliás. Os sinais premonitórios estão aí, assim os saibamos ler. Ou não estaremos hoje a assistir em muitos lados aos ensaios que preparam o terreno para qualquer coisa  que, tal como então se pensava, também nós achamos ainda que não é possível acontecer nos nossos dias? A eliminação sistemática e impiedosa dos objetores por quem detém o Poder; a instituição do culto do chefe acima de qualquer hesitação; o cinismo com que todo o género de acólitos e apparatchiks desvalorizam ou justificam o injustificável; a oportuna incriminação de  bodes expiatórios, sejam eles as minorias étnicas ou sociais, os emigrantes, os dissidentes…  tudo isto soa a uma nova versão de uma tragédia que quereríamos esquecer.

Ia ainda falar de outra coisa relacionada com isto (as tais perguntas e questões que o livro me trouxe de volta), mas a conversa já vai longa e fica para outra vez. O que aqui está já dá para tirar o sono a muita gente.

Rosas e Dinamite

Costuma dizer-se que o acaso faz bem as coisas. Nem sempre assim será, mas desta vez, por acaso é verdade. Foi por acaso que conheci a poesia de Manuela Nogueira, que daqui a pouco lhes irei apresentar. Mas primeiro vamos ao tal acaso, que se deu quando encontrei um amigo meu muito chateado porque tinha de ir fazer uma entrevista para uma revista e à última hora tinham-lhe sonegado o fotógrafo. E foi então que eu, arrastado pelo empurrão do acaso (lá está!) me ofereci para o acompanhar e fazer as vezes do gazeteiro. Sobra-me em atrevimento o que me falta em juízo, como não deixaria de dizer, se ali estivesse, o Jean Némar, meu amigo e confessor, que é o estribilho usual dele quando me vê atirar-me da prancha de cabeça sem saber nadar. É capaz de ter razão, mas a verdade é que daí a pouco lá ia eu com esse meu amigo a caminho do Estoril e da tal entrevista.

E a entrevistada era precisamente a já nomeada Manuela Nogueira, que eu não conhecia e de quem até então nunca ouvira falar. Conversa daqui, conversa dali, fui tirando umas fotografias ora daqui ora dali e eles lá entraram na matéria da entrevista.
A despropósito, mas para que se veja a caloirice do fotógrafo improvisado, explicaram-me depois que é de regra nos jornais nunca incluir o entrevistador nas fotografias, o que  eu não respeitei na maior parte das que tirei. E que agora servem só para arquivo do meu atrevimento.
Enquanto falavam, cumprida a minha parte da missão, pus-me a deambular pela casa e a admirar as muitas coisas que por lá havia para admirar. De vez em quando chegavam-me em fundo as palavras deles e ainda mais de vez em quando umas risadinhas breves, frescas, de menina. Menina essa, diga-se já, que andaria pelos seus noventa e muitos anos. Irresistíveis, também, aquelas risadas. E contagiantes. Estou convencido de que era para poder ouvir esse riso tão límpido e alegre que o tio dela, o poeta Fernando Pessoa, se punha a fazer palhaçadas, enquanto ela o observava da janela, fingindo-se de distraído e indo de encontro aos candeeiros da rua. Aliás, é essa memória enternecida que ela guarda desse tio brincalhão e bem disposto. E que ela perpetua nessa casa onde agora mora.
Em tudo quanto é parede, mesa, móvel, repete-se quase em exclusivo a presença de Fernando Pessoa, declinado em fotografias, desenhos, pinturas, bonecos, caricaturas, e até estampados de tecidos. O que é mais engraçado é que, ao vaguear por este emaranhado de recordações e testemunhos, nada me cheirava a museu ou fixação maníaca de colecionador. Porque de algum modo tudo parece emanar qualquer coisa de pessoal, de enternecido, de familiar. E é o que é, ao fim e ao cabo.

Neste divagar, deu-me para pegar num livro que, esse, era da autoria dela, da entrevistada. E pus-me a lê-lo. E gostei. Tanto que lhe pedi autorização para mandar alguns desses poemas para a DiVersos, uma revistinha de poesia onde às vezes colaboro com traduções de poetas do meu gosto. (Ainda aqui há de ser chamada a revista e o trabalho de paciência e dedicação do seu editor, José Carlos Marques. Fica aqui a promessa.)
Não só me autorizou como me ofereceu um exemplar do livro, Rosas e Dinamite. Por meu lado, mandei então alguns poemas do livro, depois publicados na revista. Foram acompanhados por uma breve apresentação que então escrevi naquele estilo supostamente neutro e com o seu quê de presumido próprio de quem fala sobre o que não sabe. Mas que aqui segue, apesar de tudo:

«Em Rosas e Dinamite somos surpreendidos por uma poesia onde as palavras se depuram de emoções e sentimentos, se decantam até ao mais essencial, aos “cacos da vida” – as palavras como coisas, mudas, que valem apenas pelo seu uso ou a sua beleza, como se diz num destes poemas. É um livro que pode ser lido como uma viagem, a busca de uma verdade irredutível. Que é também uma viagem de regresso, que refaz os passos de uma memória, agora despojada do que nela havia de “grinaldas de papel colorido, de efabulação”, e que mais valia fossem “um saco de feijão que se pudesse demolhar e guisar”, como se diz na sugestiva imagem do poema “Na arca da memória”. É uma poesia para nómadas, esses que antes de partirem para a longa viagem se desfazem de tudo o que possam ter de dispensável ou inútil.»
E, já agora, como prometido, aqui vão três dessas poesias, a aguçar o apetite ou a curiosidade.

Paciência eterna

Não me convidem para conversar.

Só ouço os sons e não o sentido.

Porque o destino das palavras é trocarem 

sempre o verdadeiro Destino.

Desde séculos mudam-se como cartas

numa paciência monótona e eterna.

Por mais que mudem, nunca dizem

o que apenas desejam esconder.

E assim as coisas são mais verdade. 

Por serem só úteis, inúteis ou belas.

Na arca da memória

Na arca da memória tanta efabulação,

tantas grinaldas de papel colorido, 

sonhos sem pés prontos a caminhar,

flores secas em livros sempre por abrir.

Na arca da memória tanta efabulação, 

como mentiras em caixas de vidro:

rostos, gestos vagos, imprecisos, 

cenas de angústia ou crises de riso.

Na arca da memória tanta efabulação, 

guardada num tesouro de frágil cristal, 

dele me alimento, por ele bate o coração; 

e nela, na arca, nada se guarda de real.

Se ao menos tivesse guardado um saco de feijão… 

e demolhado crescesse e guisado merecesse

o esforço de quem displicentemente o semeou…

Mas não. Na cerebral, insólita circunvalação, 

um comboio caminha por trilhos a desvendar 

nenhuma estação é para esquecer ou parar.

Só talvez na morte o terminus da razão.

Peregrinamos o mundo em caravanas

Numa húmida e fria madrugada 

que cortou o decorrer do Verão 

tive a profunda e verdadeira noção 

da diminuta exiguidade da vida.

“O tempo antecedera-se ao calendário”

– Os sonhos bem os via ruir –

mas peguei nos cacos da vida 

e tudo o mais necessário 

preparando-me para fugir.

Reparei então que havia outros parceiros 

nómadas, como eu, das leis humanas;

com eles, os desiludidos meus companheiros, 

peregrinamos o mundo em caravanas.

Raposa em chamas

Há uma imagem que me ficou de 2024, sobrepondo-se a tantas outras que me perseguem. De tão persistente, tornou-se de certo modo um símbolo capaz de condensar muitas coisas mais. Havia os carros empilhados à toa que as chuvadas súbitas tinham arrastado consigo pelas ruas de uma cidade valenciana, havia as inundações e os deslizamentos de terras e a ladainha de nomes e lugares que ficaram a assinalar o rosário de desgraças que acompanham tudo isso: Ellie o ciclone na Malásia; as searas secas e o gado morto na África do Sul, e na Etiópia e no Quénia; e as ondas de calor que paralisaram a Índia, o Bangladesh, o Paquistão; o furacão Beryl que varreu as Caraíbas; o ciclone Chido a correr desenfreado por Mayotte, Nampula, Cabo Delgado; o degelo dos glaciares europeus que levaram a Itália e a Suíça a terem de redesenhar as suas fronteiras…Então, tanta coisa e o que me fica é a imagem desta raposa que foge apavorada por entre as chamas dos incêndios californianos?

Não é que me importe mais o destino dos bichos do que o dos homens. Não é o caso, de modo nenhum. Mas há naquela imagem qualquer coisa que nos apela para além da razão. Vulneráveis, inocentes, incapazes de exprimir o seu sofrimento ou de fazer escolhas, os animais podem facilmente remeter-nos para o que há em nós de mais profundo e remoto, transcendendo culturas, línguas, sociedades. Como se essa imagem nos devolvesse a um mundo latente dentro de nós, em que todas as formas de vida estão indissoluvelmente ligadas umas às outras por uma comum ancestralidade.

Dizer que foi o ano mais quente desde que há registos, que muitas espécies se perderam para sempre, que a humanidade práqui, que a humanidade práli, etc etc. tudo isso que lemos e ouvimos nos fala à razão. Mas a raposinha em chamas, mais do que à razão, talvez nos fale antes a essa parte de nós muito mais recôndita e que ao vir ao de cima nos deixa transidos por emoções sem nome.

Indefesos e vulneráveis – ao contrário dos homens, que sabem prever os desastres, construir diques, escoadouros, dotar-se de armas de combate ao fogo, à água, à peste e a todos os apocalipses – os animais levam-nos por isso muitas vezes a ver neles de certo modo como que a imagem da nossa culpa perante a devastação. 

É que para os bichos não há sequer a vaga consolação que a invocação dos deuses, das proteções sobrenaturais, da intercessão da Virgem, com que desde o princípio dos tempos os homens procuram apaziguar a angústia que sentem diante da natureza em revolta. 
Lembremo-nos, por exemplo (mas quem hoje se lembrará?) do desastre do petroleiro Prestige, nas costas galegas em 2002. Mais de sessenta mil toneladas de petróleo que rapidamente se espalharam causando a morte de toda a vida marinha ao longo de cerca de três mil quilómetros de costa. Da Galiza ao Minho é um saltinho, não podemos deixar de pensar. E então como foi Portugal poupado? Haverá quem pense em marés, em correntes marinhas, em ventos, até no puro acaso… Mas não, como bem explicou Paulo Portas, não foi nada disso. Era ele na altura ministro de uma coisa qualquer, não sei já qual fosse (e se bem se lembram ele próprio também não sabia ao certo) e logo esclareceu que «Portugal na crise do Prestige foi muito ajudado por aquilo que – eu sou crente – acho que foi uma intervenção de Nossa Senhora». Aqui está uma coisa de que não podiam valer-se as aves e os peixes e toda a vida marinha que ali ficou condenada sem remissão. Já para não falar dos pobres do galegos, que nem direito a compensação tiveram. Ao fim de 89 sessões e 400 horas a ouvir testemunhas e peritos, o tribunal que decidiu o caso absolveu todos os implicados, sentenciando: «ninguém sabe exatamente a causa do acidente» e como tal «não há responsabilidade penal» que se possa imputar a empresas como a armadora ou as responsáveis pela inspeção.
E, já agora, se formos a fiar-nos na Virgem, porque não havemos de ver a Sua mão noutras ocasiões também? Como quando há tempos os autarcas algarvios, assustados com a seca continuada e os perigos que levantava para o turismo, logo determinaram reduções nos caudais, limitações horárias nos consumos de água, vetos às piscinas e campos de golfe e alguns outros edecetras de que agora não me lembro. Não teria havido também ali uma mãozinha amiga, ou a Sua divina intercessão a trazer de volta (como trouxe) a chuva ao Algarve e salvar a temporada turística? E logo a seguir, ainda mais rapidamente, a imediata cessação de tantos constrangimentos, sem que se pensasse em prever, em armazenar agora para futuras necessidades, essas coisas de que os autarcas estão dispensados por não sei que sagrada bula. Basta que se fiem na Virgem…

Mas agora perdi-me. Onde é que eu ia? Pois, a raposinha californiana: aí vai ela a fugir, espavorida, focinho pontiagudo, cauda flamejante, pelo meio das labaredas dos incêndios da Califórnia. É a ela que eu vejo, ainda assim, como a imagem mais pungente para ilustrar a nossa busca de um sentido para o sofrimento tantas vezes inútil a que todos os dias nos é dado assistir. E oiço-me a dizer baixinho: corre, raposinha, corre, para longe da nossa cegueira.

zona de desinteresse

Há um livro que traduzi há tempos e que agora quase não há dia em que não me volte incessantemente à ideia. Conto já porquê. 
O título, «Contai aos vossos filhos» (Editora Gótica, 2000), vem de uma citação da Bíblia (Joel, I, 2-3): «Ouvi, anciãos, e prestai atenção! / Vós todos que habitais a Terra. / Foi no vosso tempo que isto se passou / ou no tempo dos vossos pais? // Contai aos vossos filhos, e que eles o contem  aos filhos deles, / e os filhos destes à geração seguinte.» O livro é uma espécie de recolha de testemunhos do horror nazi que culminou nos campos de extermínio, onde morreram milhões de judeus da Alemanha e dos territórios dominados pelos nazis – inclui e comenta cartazes, páginas de jornais da época, músicas, desenhos e muitas fotografias, algumas com legendas num tom burocrático e neutro, escritas à mão pelos próprios guardas dos campos de concentração («Chegada de um carregamento», «Homens ainda utilizáveis», Mulheres e crianças inutilizáveis», etc). Ao lermos o livro, apercebemo-nos de que é a própria factualidade do texto e dos números que torna ainda mais impressionante a dimensão do crime que expõe. E no entanto devo dizer que a impressão mais profunda que me ficou da leitura (e da tradução) talvez tenha sido o excerto de um poema do poeta polaco Czesław Miłosz incluído no livro. Porquê, não sei bem ao certo. Talvez porque a linguagem poética acaba por nos atingir em zonas menos defendidas, porque menos conscientes. Acabamos por conseguir lidar com coisas tremendas e atrozes porque arranjamos processos para as delimitar e integrar no que já sabíamos, antes de se tornarem intoleráveis. A zona indistinta e móvel a que à falta de melhor chamamos inconsciente, essa que no meio do sono nos tira para fora, essa que nos faz entrever o que preferimos não querer ver, essa, é-nos mais inacessível. A linguagem que usa para nos interpelar não tem regras claras. Talvez que a linguagem poética chegue lá de maneiras que também não saberemos destrinçar nem controlar, mas que nos atingem. Para voltar a Miłosz : o poema abriu talvez comportas que não estão normalmente acessíveis. Fala do Campo dei Fiori, a praça de Roma, onde Giordano Bruno foi queimado vivo em 1600 por ordem da Santa Inquisição, e de como isso não impediu que as tabernas estivessem de novo cheias ainda antes que as chamas se tivessem apagado. É essa mesma indiferença que, em 1943, o faz evocar a praça de Varsóvia e a alegria dos que aí se divertem enquanto no gueto judaico adjacente, do outro lado do muro, o que se ouve são os disparos das armas e o crepitar dos incêndios.

Recordo o Campo dei Fiori,
em Varsóvia, junto ao carrocel
um belo entardecer pela Primavera
e os acordes de uma canção de Carnaval.
A melodia alegre abafava
as rajadas atrás do muro do gueto
enquanto os pares voavam 
alto no azul do céu.

Por vezes o vento trazia dos incêndios
faúlhas enegrecidas à deriva
e as pessoas do carrocel
apanhavam essas pétalas no ar.
O mesmo vento ardente
levantava as saias das raparigas
fazendo rir a multidão
nesse luminoso domingo de Varsóvia.
(…)

Os que se divertiam na praça sabiam de onde vinham (e o que eram!) essas faúlhas enegrecidas. Ou então esforçavam-se por não saber. Quem, de entre nós, não faria o mesmo para não ter de enfrentar a terrível interpelação que isso nos colocaria?

Para defender as pessoas – as pessoas normais, diriam eles – de tais dilemas, os próprios nazis delimitavam à volta dos campos de concentração uma área de uns quarenta quilómetros, chamada «zona de interesse», para que não houvesse testemunhas dos crimes que aí eram cometidos e para impedir qualquer contacto dos condenados com o mundo exterior. Há um filme que passou recentemente nos cinemas («Zona de interesse», de Jonathan Glazer) que mostra a vida bucólica e tranquila da família do diretor do campo de extermínio de Auschwitz na casa de campo onde habita, ignorando (querendo ignorar) os cheiros, os sons, o sofrimento que lhes chegavam do lado de lá dos muros do complexo de fornos crematórios onde eram assassinados milhares de judeus.

Poderíamos dizer que a zona de interesse hoje em dia tem de abranger uns bons milhares de quilómetros, para nos isolar das atrocidades que se cometem por esse mundo fora. E nem assim. Porque ao mesmo tempo vai-se restringindo a distância a que as coisas acontecem. Tudo nos chega aos olhos e aos ouvidos. E quase no instante em que acontecem, o que mais aumenta o nosso sentimento de desamparo e de impotência diante das monstruosidades que de certo modo presenciamos e que nos questionam instantemente.

Hoje, nesta bela manhã de sol, a olhar o rio do meu terraço, leio o jornal do dia. Tudo se atropela a pedir atenção: há o administrador do banco central que afinal pode ganhar mais uns (muitos) milhares de euros porque a lei oportunamente foi mudada há três dias, e há o derby Benfica-Sporting, e há o fim do ano na Madeira e há… Lá se vai a zona de conforto! Há uma entrevista com Raul Manarte, um português que faz parte da organização Médicos Sem Fronteiras, que o levou já a várias situações de guerra: na Ucrânia, em Cabo Delgado, nos campos de refugiados na Grécia, no Sudão do Sul, com casos horríveis… Está agora em Gaza. Viu muita coisa, como se calcula, mas, diz ele: «o que eu nunca vi foi as pessoas não poderem fugir. E nunca vi uma assimetria assim tão grande. As pessoas estão presas aqui num bocadinho de terra e sente-se um colosso militar permanentemente que não só mata as pessoas, mas tortura-as porque os drones estão sempre a passar, as bombas estão sempre a cair, a marinha está sempre a disparar, não há escolas, a comida não entra e agora até a chuva entra pelas tendas. Isso eu nunca tinha visto.» E vê isso todos os dias. E nós pelos olhos dele. Vê os militares do Exército israelita (o exército mais moral do mundo, diz a propaganda) a invadirem e incendiarem um hospital ao mesmo tempo que obrigam os doentes e o pessoal médico a concentrarem-se no pátio e a tirarem as roupas em pleno inverno, para serem interrogados e depois levados sabe-se lá para onde. Vê as centenas de crianças mutiladas, sem pernas, sem braços, com próteses improvisadas, que vagueiam entre os destroços. E com ele vemos nós também. E lá se vai a zona de conforto. Nem tantos milhares de distância nos poupam. Pois se até os israelitas, os justos de Israel, ali a dois passos, já deixaram de ver o que se faz em Gaza em nome deles! Talvez que o apelo de Joel o profeta – «Contai aos vossos filhos!» – não tenha afinal passado de geração em geração até à atual geração de Israel. 

O jornalista do Público (Luis Octávio Costa) pergunta ao entrevistado se acha que o testemunho dele é importante. «Será que muda alguma coisa? – responde Raul Manarte – A solução para o que se passa aqui não é humanitária, é política. Por mais ajudas humanitárias que haja, não vão acabar com isto. Acho que é a acção cívica em massa que vai acabar com isto.» 

Chegado aqui, com um apertozinho no coração, lembro-me daquela miúda sueca que começou a faltar às aulas às sextas-feiras para se ir sentar à porta do parlamento com um cartaz a exigir aos políticos do país ações concretas para combater os efeitos das alterações climáticas provocadas pela ação humana. Depois dela, outros seguiram o seu exemplo. Primeiro na Suécia, depois no resto da Europa, depois no mundo todo. A voz dela acabou por passar muito para além dos muros que rodeavam a zona de interesse que os do Poder acabam sempre por erigir à volta do que querem escondido, ou pelo menos disfarçado, ou normalizado, ou banalizado. Há sempre outras coisas que têm de ser atendidas. Para nosso bem, dirão. São essas que estão no centro das preocupações deles.
E se calhar das nossas… ai de nós. 

[…]

Há quem diga que poesia e bons sentimentos não dão em bons casamentos. E quem diz bons sentimentos diz boas causas, acrescentam outros. E eu fico-me a pensar no que diriam então os que assim sentenciam de um poeta que conheci há dias.
Encontrei-o numa página do «Guardian» (https://www.theguardian.com/books/article/2024/sep/02/poem-of-the-week-by-fady-joudah), que depois me levou a uma busca pelos escaninhos e veredas da net para descobrir o resto.
E o resto começa por ter a ver com a «circunstância» do poeta, que depois de uma maneira ou de outra se refletem na sua poesia. Árabe, filho de refugiados palestinianos, criado na Lìbia e na Arábia Saudita, a viver na América, médico dos Serviços de Urgência, voluntário dos Médicos sem Fronteiras em África – tudo marcas que traçam um intrincado de fidelidades e de heranças nem sempre compatíveis.

O último livro de Joudah é de certo modo uma ilustração do dilema assim suscitado: poeta que pressentimos originalmente de vocação lírica, chamado pela profissão e pelas «circunstâncias» a responder ao apelo que lhe chega da cruel realidade da Palestina ocupada. Nem sempre é pacífico este convívio entre poesia e intervenção política. É o próprio poeta a reconhecer o terreno minado que isso representa e as dificuldades em contorná-lo. Como diz numa entrevista, «tenta desesperadamente fazê-lo sem condescendência ou falsas simplificações». Esta profissão de fé, porém, coloca-o na ténue fronteira que a separa das armadilhas do «sentimentalismo narcisista», do sensacionalismo das causas da atualidade, ou da tentação de transformar o poema em panfleto ou artigo de opinião. Joudah procura escapar à armadilha, com as metáforas a que recorre, a presença da natureza, mesmo desfigurada ou mera memória de um tempo limpo do passado, a música latente nas elipses que usa para remontar ao que significa (para todos nós, afinal) ser humano. Muito do que ele diz está assim no que não é dito, apenas indiciado.

A começar pelo título do livro: nenhuma palavra ou frase, simplesmente três pontos dentro de parênteses retos […], a lembrar um pictograma (é o poeta quem o diz). E como qualquer pictograma, também ele sujeito a leituras ambíguas ou múltiplas – há quem veja aqui uma alusão a alguma coisa que é suprimida ou omitida. Ou censurada. Quem se ativer mais ao simbolismo gráfico do pictograma, poderá nele ver, por exemplo, um espaço fechado, uma casa destruída com pessoas lá dentro, a cela de uma prisão. 

Há um poema – com o título […], comum, aliás, a outros poemas– tão inesperadamente como uma bomba que tivesse deflagrado, sem preâmbulos (a bomba já explodiu, a casa já desabou),  começa pela conjunção «e» («E, de repente, uma menina»). Não precisamos de saber que a cena evocada se passa em Gaza entre escombros, não é disso que o poema trata diretamente: é antes o assombro e a alegria de uma menina ao deparar com os que a salvam de entre as ruínas; e logo, da mesma forma elíptica e repentina, o medo de se ver só e para sempre separada do mundo onde até aí viveu protegida e amada.

Não são muitos os casos de autores em que a poesia sobrevive ao ser filtrada pela atualidade e as referências políticas diretas. Para melhor decidirem, os leitores poderão tentar ler os poemas procurando «ignorar» as circunstâncias concretas (ou supostas) em que eles surgiram. Idealmente, o que passou pelo «filtro», que reteve o que antes havia de meramente circunstancial, constituirá o essencial da poesia de Fady Joudah.
Para ajudar neste teste, incluo aqui dois dos poemas do livro.

[…]

e de repente uma menina recebe uma ovação

dos seus salvadores,
tudo homens ajoelhados e deitados no chão

limpando os escombros obra de outros homens
com suas mãos nuas,
desfigurados pela poeira
como fantasmas.

Todos os desastres são naturais
incluindo este,
porque os homens são naturais.

Os salvadores dizem-lhe
que ela é incrível, poderosa,
e por uma fração de segundo, antes do peso

do desaparecimento da sua família
a afundar, ela sorri,

como uma criança
que viveu sete anos acima do solo
a receber elogios.

[…]


Vós que me tirastes de minha casa
sois cegos para o vosso passado
que nunca vos larga. 
Cegos para o que me é feito
a mim agora por vós.
Um agora, dilatório, desgastante, 
de modo que o crime
é das alterações climáticas e não um massacre,
de modo que o presente nunca tem fim.
Mas eu estou mais perto de vós
do que vós de vós próprios, e isto, meu amigo inimigo,
é a definição de distância.
Oh, não fiqueis indignados.
Vêde o vídeo. Vou enviar-vos o link
da limpeza que fazeis de mim membro a membro
atirado para a rua onde se marcha onde 
a minha catástrofe no presente
não tem ainda a dimensão do vosso passado:
É este o muro
contra o qual lançais os vossos dados?
Falo no sentido etimológico. 
Não me importa que as balanças pendam para o vosso lado, 
não é o que conta para mim. Tenho um coração  que apodrece,
resiste, e espera. Tenho genes,
como os vossos, que não observam 
a «Pirâmide de Danos».
Dizei, vós que me despejais de minha casa,
que também desalojastes os meus pais
e os pais deles das casas deles:
Que tal a vista da minha janela?
Qual o sabor do meu sal?
Deverei eu condenar-me um pouco
para que possais perdoar-vos
no meu corpo? Oh, como amais
o meu corpo, a minha casa.

Tradutor – Mediador

Ao que me dizem da editora (Relógio d’Água), está por pouco a saída de um livro do Salinger que eu traduzi. Para quem não conhece este autor, terá nessa altura uma boa amostra do que a casa gasta. São duas noveletas, bastante diferentes entre si, e cada qual com a sua dose do génio que aflora noutras obras dele – estou-me a lembrar de «À espera no Centeio» ou dos «Nove Contos», também traduzidos por mim. Este que agora aí vem – com o título «Carpinteiros, levantai alto a cumeeira e Seymour, uma introdução» – é a tradução que resulta da profunda revisão de uma versão feita antes para outra editora. E é uma maravilha! O livro, esclareço. E esclareço porque quando digo isto, o Jean Némar (língua afiadíssima, como bem se sabe) comenta sempre do lado: «Há quem diga que o original também não está nada mal…» (as reticências são minhas; quando ele o diz, são substituídas por um risinho de mofa que eu dispensaria).

Mas que se segue, a primeira parte («Carpinteiros….») é uma história divertidíssima que começa por arrancar dentro de um táxi, que depois fica bloqueada pelo desfile de uma incrível banda de escuteiros ou coisa que o valha e acaba por se refugiar no apartamento do seu narrador (Buddy Glass). No táxi, além da história e do seu narrador, segue também o que poderia ser uma peça de inventário do tipo de personagens que povoam o universo do Salinger: uma dama de honor de um quase casamento, de feitio belicoso e autoritário, que depressa se impõe ao resto da tripulação; o marido dela, a disfarçar a submissão com um arremedo de ironia e falso humor; uma senhora, amiga da quase noiva do quase casamento, afixando um «sorriso que só lhe faltava ser canonizado»; e ainda um velhote minúsculo de chapeú alto e fraque, surdo como uma porta, que há de acabar esquecido e depois desaparecido do tal apartamento, sem que o narrador, e nós com ele, faça a menor ideia do destino que levou. Não conto mais, para não roubar a surpresa aos que ainda não leram a história. E também porque ainda (e sobretudo!) quero falar da segunda parte do livro: «Seymour, uma introdução»

Este… este quê? Conto? Novela? Texto inclassificável? Não sei como se sairão desta os especialistas da especialidade de dar um nome às coisas, e que achem nisso alguma vantagem. Nanja eu. Seja o que for, é mais uma maravilha de entre as maravilhas com que sempre podemos contar no que nos vem deste autor. Chegados aqui, haverá quem note uma qualquer parcialidade nas minhas palavras, pecado de que eu, aliás, pecador me confesso. 

Também aqui, o narrador é o mesmo Buddy Glass da primeira parte do livro e é seu declarado intento fazer uma tal apresentação do irmão, Seymour, que seja dele uma descrição tão completa e fiel e viva que torne possível, no final, enviá-la para publicação na revista simplesmente entregando-lhe (isso mesmo, à descrição!) «um bilhete de comboio e talvez uma sanduíche para o caminho e qualquer coisa quente num termos, e pronto»!
Na verdade, assistimos – literalmente, assistimos – nós leitores, à escrita do retrato de Seymour.  Tão fiel e pormenorizado quanto o projeto de Buddy o exige: assim, é-nos descrito por meio de vários capítulos, um para o nariz, um para as sobrancelhas, outro para o cabelo, e por aí diante, com divagações e circunlóquios recheados de histórias, de episódios, de relatos do passado e do presente que aos poucos vão fazendo surgir, em três dimensões – pelo menos três – e ao vivo o irmão Seymour em pessoa. Tudo isto numa escrita vertiginosa, exuberante, jubilosa: num processo que nos permite «ver» o escritor no seu trabalho, pelo menos quando o que temos diante dos olhos é um escritor apaixonado pelo seu tema, pelo seu objeto, pelo seu projeto, e possuído pelo génio (ou o demónio) da escrita. As frases encadeiam-se num emaranhado esfuziante de histórias, de divagações, de circunvoluções, para logo se dispersarem em novas derivações, em novas frases – parentéticas, subordinadas, explicativas – numa verdadeira girândola exultante, que é no que dá o puro prazer da escrita. A tal ponto que o autor, subliminarmente consciente, do barroquismo da construção, da profusão de parênteses e apartes, às tantas decide comprometidamente oferecer ao leitor por suas próprias mãos um «despretensioso raminho de parênteses temporãos: (((( )))).» Que ali ficam a embelezar a página, para sua desculpa e para nosso contentamento.

Coube-me em sorte, pelo menos em parte, a vertigem dessa euforia e disso tentei dar mostras equivalentes na versão portuguesa. Os leitores aí estão que poderão julgar. Tenho para mim, que cabe ao tradutor de certo modo um papel de mediador entre as duas versões do mesmo livro e partilhar e tentar comunicar ao leitor da sua língua a alma, o que vai na alma do autor que tem em mãos. E usar, para tanto, os mesmos materiais, os mesmos recursos que foram convocados pelo original – desde o nível de linguagem, o registo do vocabulário, e até a pontuação, sempre que possível. E se o que nos vem ter à mão é um trabalho em talha dourada, barroco ou rococó que seja, pois seja também essa a nossa oficina. 

A tal propósito, vem-me à ideia, um pouco a contrario, um outro autor que também traduzi (Erri de Luca) e que de certo modo será o oposto do Salinger no que à escrita diz respeito. Aqui, ao contrário da exuberância de Salinger, o que temos é uma obra quase artesanal, estreme, feita à mão. Um estilo cru, seco, reduzido ao mínimo de tudo o que possa ser redundante ou excessivo. E, para retomar o que atrás dizia, caberá aqui ao tradutor cortar nos materiais e nas ferramentas, aproximar-se o mais possível desse minimalismo. Quem souber apreciar o que há de belo e radical na simplicidade de uma cantarinha ou de uma infusa artesanal, saberá também ver na singeleza da escrita de um autor como Erri de Luca como ela está próxima do que há de mais elementar e essencial na natureza e no espírito humano. E como, ao mesmo tempo, isso não o impedirá, de ver o que há de magnífico numa criação de Monteverdi ou de Bach, só dois exemplos, aqui chamados para levar a água a este meu moinho. 

Falei ali atrás, para expor os desafios levantados à tradução de dois autores tão diferentes, das diferenças na escrita entre os dois. Na escrita, disse eu, mas poderia também dizer, na vida e nas escolhas de vida que fizeram, e que acaba por deixar marcas no que escrevem e como escrevem. Nada de tão diferente, quase radicalmente oposto, entre os dois. O que em Salinger se respira do mundo intelectual, quase aristocrático, abastado e displicente do meio culto e artístico de Nova Iorque, não tem nada a ver com o que nos conta Erri De Luca, que nasce para a escrita tardiamente, na idade madura, depois de ter trabalhado como operário nas oficinas da Fiat, em Turim, e mais tarde, emigrado, na construção civil em França. Um escritor comprometido com a luta dos mais desfavorecidos, como o eufemismo costuma dizer, que aparece ao longo da vida alistado em várias movimentações políticas, e sempre de forma interveniente e pragmática. Uma vez em que lhe telefonei, atendeu a mãe dele, que me disse que ele tinha ido para a Jugoslávia (era no tempo da guerra de 1993-99) como camionista integrado numa caravana de ajuda reunida pela solidariedade internacional.

Ia agora falar de um outro livro que traduzi há pouco, que ainda não foi publicado (e não sei se o será…) e que pensava usar como mais uma fábula sobre a nobre arte da tradução. Mas a conversa já vai longa e acho que vai ficar para a próxima. Uma coisa de cada vez, como vocês dizem, ao chegarem ao décimo parágrafo destes desabafos a choverem no molhado.