sic transit…

a Feira da Ladra encontra-se tudo e mais alguma coisa. tudo a trouxe-mouxe. as coisas lado a lado descobrem sentidos inesperados, ironias, surpresas. o último livro da Luísa no meio de uma catrefada de livros que o acaso ali reuniu. E as perguntas que a Feira sempre nos propõe, sem nunca nos dar a resposta (sobretudo quando os vendedores não são os profissionais que também os há): nunca saberemos se o livro foi ali parar porque alguém já o leu e quer agora recuperar uns tostões, se desanimou da leitura e quer desfazer-se do livro, porque lho deram e não sabia que lhe fazer. mas estas perguntas devem ser ainda mais insidiosas para os escritores que derem ali de caras com os seus próprios livros. E pior ainda: um dia encontrei, abandonados no fim da feira, uma data de livros do Joaquim Paço d’Arcos, assinados pelo autor e dedicados a um certo amigo seu. É que nem dados…

uma casa com legenda

junto ao Panteão: uma casa toda grafitada, com desenhos que descrevem os objetos, as plantas, os utensílios que se encontram (se devem encontrar, se podem encontrar) em cada uma das divisões: o bengaleiro à entrada, a mesa posta, os armários, a cama feita, pronta a que alguém nela se deite, uma arca fechada. E é a única coisa fechada: de resto é o que se chama uma casa aberta. aos olhares de fora, à curiosidade, à supresa de quem espreita.

feirinha da ladra

a Ema e a Clarinha foram vender umas coisas para a Feira. Coisas delas: uns elásticos para fazer pulseiras, uns lápis, coisas assim. Instalaram-se no jardim de Santa Clara, fora do recinto da verdadeira Feira da Ladra. Fui lá ver se havia coisas que me pudesse interessar. Uma caixinha de madeira bem gira. Não estava à venda – era para guardar o dinheiro. Uns paus de giz, que poderia usar para desenhar no chão. Não estavam à venda – eram para os desenhos. Então o que podia comprar? Um desenho. Encomendei um desenho. A Clarinha fez um retrato do Chip. Bem giro. Aqui está ele, com a sua cauda encaracolada:

urbi et orbe

é a ocasião da tradicional mensagem de ano novo. este ano saiu-me assim (à falta de melhor):

isto é mais para começar com um abraço. a acreditar que daqui para diante haverá sempre outros mais.Temo-nos visto pouco ultimamente, mas não tem de ser sempre assim. Não vai ser.E depois há isto de 2021 NÃO ser bissexto: por muito mau que venha a ser nunca o será tanto como o anterior. Hoje que está tudo a começar dá para acreditar que sim, que vamos ter direito à nossa merecida dose de alegria, amizade, amor, saúde e todas as outras coisas boas que dão sentido a isto tudo.Pelo menos são estes os meus votos para o novo ano. zé lima


Também há uma prenda, mas diz-me aqui o pessoal que “derivado à situação não sei de quê” não há entregas e que a encomenda tem de ser levantada no local. Bom trabalho deu a fazer: era pena ficar ali a estragar-se. Mas para quem não puder, vai aqui a fotografia (é ali junto aos silos da Nacional, à beira-Tejo…)

Tão assim que nós éramos

às tantas desatamos a reunir-nos, em encontros mais ou menos combinados, sem grandes razões ou porquês. Desta vez dizia-se que era de ex-Bxl. Era para ser na Gulbenkian, estava fechada e fomos a um restaurante ali perto. Caras que conheci em tempos, refeitas pelos anos e por vidas agora estranhas. De quem já pouco sabia. De comum tínhamos algum tempo em que vivemos juntos no mesmo sítio. E dávamos por nós agora como que irmanados por esse passado comum, agora lavado das diferenças, das distâncias reais ou ilusórias de antes. Como estranhos que se aliam em terras estrangeiras. Tudo é agora liso, sem acidenteE como náufrago perdido num vazio de recordações e de referências que havia de fazer? Agarrava-me aos poucos que conhecia ainda, com quem mantinha ainda alguma relação viva. Chama-se a isto conviver. E é bem feito.

Às armas!

Há dias a notícia no telejornal era sobre um novo tipo de tanque que ia ser enviado para a Ucrânia. Esmeraram-se, e havia no estúdio uma maqueta ou lá o que era, à escala, do tal tanque. E o jornalista ou apresentador de serviço gabava a peça: o seu poder mortífero, as capacidades, as habilidades, os etcs que os catálogos dos traficantes de armas usam para as impingirem aos clientes. Tentador. Se não fosse o preço, quem resistiria a comprar um nem que fosse para pôr no quintal para impressionar e atemorizar os vizinhos?

Já dias antes, quando a notícia era um ataque das tropas ucranianas que tinha feito não sei quantas vítimas russas, os jornais discutiam os números fornecidos. Que deviam ser mais, que não menos, achavam. Na guerra mente-se e compete aos jornalistas independentes repor a verdade no sítio, devem estar eles a pensar. E vai cada um de matar mais uns quantos. O apoio à Ucrânia também dá nisto: querer-se que matem mais. Pessoas. Está bom de ver que não é para matar coelhos ou lebres que se mandam tanques para um lado e outro.

E nós? Mesmo sem saber quem será este nós, coçamos a cabeça, sem saber o que dizer ou fazer. Terá algum significado a vida (antes a morte) dos que desaparecem com a notícia? Podemos viver ao lado desta disputa de saber quem mata mais?

Ao mesmo tempo (quase) esboçou-se nos jornais uma polémica sobre a letra do hino. Há quem ache deslocado, despropositado, anacrónico o veemente apelo às armas do hino nacional. Que começou por marchar contra os bretões (ao que li algures) e quando os bretões passaram a ter, também eles, Deus do lado deles, passou a ser “contra os canhões” sem identificação de origem. E agora?

rituais propiciatórios

à meia noite fomos para o terraço e desatámos a bater testos das panelas, tampas de tachos. O largo, que o alojamento local deixou deserto de moradores, alheio à nossa festa. Só a família da Dona Lusitana, à janela, respondeu. Bom ano, bom ano. A Cereja cumpre tudo à risca: passas de uvas, champanhe (com cidra a fazer-lhe as vezes). até vestiu uma coisa nova. E obrigou o Coiote a vestir tb um pijama novo, prenda de Natal.

sem nenhum grande fogo de artifício, viam-se inúmeros pequenos archotes de luz a subir no céu da Outra Banda. Viam-se foguetes de Almada, Barreiro, Seixal e toda aquela correnteza que nos serve de horizonte. Em vez do grande vulcão do fogo com que Lisboa costuma impor-se à vista do mundo, esta miríade de pequenos fogos tornou-se inesperadamente mais humana, mais próxima, piscadelas de olho de vizinhos uns aos outros.

e depois fomos acabar de digerir o polvo à lagareiro que eu tinha feito para o jantar. e o bolo grego que a Cereja tinha feito, pela receita que o João V lhe tinha mandado.

Será que com tudo isto o novo ano nos vai acolher melhor?

nem tudo o que

estive a ler uma entrevista a um fotógrafo. às tantas dizia que tinha chegado à fotografia porque a isso o tinha obrigado o pai, que também era fotógrafo. Digam-me lá agora: qual o entrevistador que resiste a um tal anzol? Não este, pelo menos desta vez. Logo lhe chegou um cheirinho a pai que “inicia”, pai que estimula, pai mestre e se calhar todas as lições exemplares que lhe andam pegadas. “Então, ainda bem que o seu pai o “obrigou” a ser fotógrafo…” E logo o entrevistado, que, pela amostra (mas há mais disto pela entrevista fora) não é muito dado a historinhas edificantes, sai-se com: “Ele não me obrigou, deu-me um enxerto de porrada. E pôs-me na rua e só me deixou entrar quando eu me comprometi a trabalhar com ele. Dormi uma noite à porta de casa.”

marcar o ponto

há aquelas anedotas do gajo que chegava ao emprego, assinava o ponto e ia para o café. voltava ao fim do dia. ou o outro que chegava, punha um casaco nas costas da cadeira (tinha outro de reserva) e ia à vida, sem dar mais cavaco. E há quem pense: e na vida, não é isso mesmo que se passa?

No dia de ontem, ao começar o ano, há quem pense que tudo, todos os gestos, todas as coisas, têm de ter um sinal especial, como que a deixar nelas a marca do que será o resto do ano. Somos assim: pequenos bichos de temores e esperanças arrancados a sabe-se de lá onde. Sem acreditarmos nisso, repetimos os gestos e os rituais em nome de coisas a que não damos nome.

Ao começar o dia, estava a fazer a barba, não sei o que me passou pela cabeça. Chamei o Coiote, besuntei-o com a espuma de barbear e rapei-lhe o buço. Há uma primeira vez que depois recordamos, como que a marcar o território do terreno onde acabámos de entrar e que não sabemos (ainda) o que é. É o que me dizem. Há quem acredite nisso. Que não eu.