Jardim Árabe

Pouco tempo depois de vir morar para esta casa, esteve cá um pintor meu amigo que achou que as paredes estavam muito vazias. O remédio era fácil: Fomos ao atelier dele e eu escolhi um quadro para a sala. Fica aí em exposição, disse ele. Sempre o vêem mais pessoas do que no atelier.
E foi assim que entrou em minha casa o «Jardim Árabe» de Manuel Costa Cabral, o meu amigo pintor.
Aos poucos, com o convívio que assim se criou, o quadro foi-se revelando e  ao mesmo tempo foi revelando os seus segredos. Onde se via a representação de uma jarra azul no meio do verde vibrante da folhagem de um jardim, começavam agora a surgir outras representações possíveis da mesma jarra e da mesma folhagem. Como se o quadro escondesse outro, ou outros igualmente possíveis, que apenas aos poucos se fossem desvendando. Era como se o quadro tivesse sido pintado em diversas camadas sucessivas e cada uma apenas se revelasse ao sabor da luz do dia, ou outra, ou do ângulo com que a luz iluminava o jardim. A representação inicial, de uma pintura que vivia do forte contraste entre as cores criadas pela natureza, várias e moventes, e as cores criadas pelo homem, sólidas e permanentes, passara a ser um jogo entre essas duas figurações: com novas ramagens a emergirem, a virem ao de cima, a multiplicarem-se em vozes e movimentos diferentes. E tudo isso nos parecia possível, e deslumbrante, e novo.
Que é um exagero, dirão alguns. Será, mas foram as palavras que me vieram para explicar a «descoberta» do quadro que há pouco chegara a nossa casa, do maravilhamento que pode acompanhar o convívio próximo com uma obra de arte. Podia ser um livro, talvez – e sinto que aqui mais alguns me acompanharão – ou uma música. Ou até uma pessoa. Há livros que se esgotam numa leitura. Conhecida a intriga, a história, nada mais há a descobrir. Possivelmente nunca mais voltaremos a pegar nele. Outros há, porém, que nos seguem pela vida fora e a cada leitura nos fazem vibrar pelo que redescobrimos e pelo que descobrimos de novo. 
É possível que alguma coisa da fulguração inicial, do maravilhamento da descoberta, se vá atenuando e embotando com o convívio continuado e as emoções latentes despertem agora em assomos, como quando nos lembramos do que, de quem, já fomos. Alguma coisa de nós passou a estar ali. 
Sentíamos que o quadro sempre ali estivera, que se apoderara daquele espaço, e de nós, de certo modo. 

Tínhamos de o comprar, decidimos. Antes que o pintor mudasse de ideias ou o vendesse a outros.
Renunciámos à moradia na Comporta, às férias nas ilhas paradisíacas da agência de viagens e decidimos fazer uma proposta ao pintor. E ele disse que sim, que vendia o quadro, mas que o preço é que não podia ser aquele. E (antes que eu caísse para o lado) concluiu: fica por metade disso e uma bacalhoada em tua casa. E assim foi

Esteve há pouco fora daqui numa exposição retrospetiva da pintura do Manuel Costa Cabral. E, durante um mês, mais do que outra coisa, a parede despida marcava para nós, os que cá vivemos, um vazio maior do que o deixado pelo quadro.
Voltou agora. Mas não veio só: acompanha-o outro quadro (da série «Fonte») que conhecemos na exposição e que convencemos o Manel a vender-nos. Ainda não escolheu a parede onde ficará. Mas já está assente: depois disso haverá uma «vernissage» à séria, com a presença do autor, como os usos mandam. E para ela ficam desde já convidados todos os que isto lêem (Depois receberão as outras informações necessárias, morada, data e programa). Têm é de avisar desde já, que é para sabermos quanto havemos de comprar de tremoços.

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