Isto já foi há tanto tempo que se calhar já poucos se lembrarão de quando Iavé, o Deus da Bíblia, depois de criar os céus e a terra, os animais e as plantas, decidiu criar o homem e a mulher e entregar-lhes o jardim na parte leste do Éden onde poderiam ficar a morar. Era um jardim onde havia de tudo, do bom e do melhor, e de tudo o homem podia comer e servir-se (e a mulher também, imagino, embora no Génesis Iavé apenas fale com o homem e seja quanto ao resto pouco explícito nesta matéria. Será talvez a primeira vez, mas não é certamente a última).
Comer de tudo não. Porque em letras pequeninas, no fim do contrato havia mais qualquer coisa que o bom do Adão se dispensou de ler e que, como depois se veio a ver, trazia muita água no bico. Dizia a cláusula assim ignorada: «Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas o da árvore do conhecimento do bem e do mal» (sic).
Isto passou-se há muito muito tempo e quase de certeza que já todos se esqueceram.
Não eu. E não eu porque praticamente todos os dias, no jardim para onde o meu cão teima em me arrastar, há duas árvores que inevitavelmente me fazem lembrar o mito original e a sina com que carregou toda a humanidade até ao fim dos tempos. Porquê, é o que já contarei.
Uma dessas árvores nunca cheguei a perceber o que seja. Se como dizem é pelos frutos que se vê a árvore, nunca me foi dado ver em que viriam a tornar-se estes que nunca chegam a amadurecer, se pêssegos, se alperces, se damascos. A outra árvore é uma romãzeira.
Só quem conhece o esplendor de uma romãzeira em flor, o despontar do pequeno embrião do fruto, o crescente rubor que há de (haveria de…) culminar numa verdadeira granada de beleza inexcedível, só esses poderão compreender com que pena, com que amargura, com que revolta fico a olhar os frutos ainda verdes todos espalhados pelo chão, arrancados à toa da árvore que esperava oferecê-los mais tarde a quem passasse. E o pessegueiro (ou o que seja) a mesma coisa, todos os anos a mesma coisa: tudo arrancado, desbaratado sem dó nem piedade.
O jardim é de todos, o que também quer dizer de ninguém que o cuide ou defenda. E todos os anos chega o dia em que no jardim deparo com a mesma maldade inexplicável. Estivesse a romãzeira num jardim a que alguém chamasse seu e, mesmo sem muros ou arame farpado à volta, ninguém lhe poria a mão sem pronta resposta do dono. Muito provavelmente até teria já ali ao pé dela os querubins de espada flamejante que Iavé pôs a guardar o caminho da árvore da vida.
Ninguém me tirou nada que fosse meu, é verdade. E assim me apercebo de que, mais do que o crime, o que me revolta é o que nele há de estúpido e de gratuito. E, mais do que muitas coisas bem piores, é isso no fundo o que mais me deixa às voltas com o que há de insondável e de irredimível nesta maldade sem ódio, quase como se fosse um pecado original, que ninguém cometeu, mas nos coube em sorte como uma espécie de herança genética que não se pode renegar nem combater.
É aqui que agora surge o Jean Némar, meu amigo e confessor, que tem chave da casa e entra e sai a seu bel-prazer. Menos dado a grandes especulações, aproveita como sempre para me contradizer: «E é por causa de uma maçã que tu me vens com todo este arrazoado?»
E não, não é. Mas percebo o que ele quer dizer, apesar de não ter ouvido metade do arrazoado. Todo o resto da turma compreendeu claramente que não era propriamente de maçãs ou de romãs que se estava a falar. E sei perfeitamente que, para falar do mal (ou do Mal, com maiúscula e tudo) muito mais haveria por onde se pegar. Basta ver os telejornais num dia qualquer e a qualquer hora. Ou folhear qualquer livro de História, de qualquer época e de qualquer ponto do mundo). Mas não é isso, não estou a falar, desse Mal (chamemos-lhe assim) que sempre aparecerá envolto em álibis e justificações, de uma maneira ou de outra. A Humanidade, julgada por tais exemplos, sempre achará que tudo o que produz resultados, tudo o que melhora o quinhão de alguém, mesmo à custa de outros, não é um Mal é antes um Bem. Um bem pragmático, operacional, se quiserem, mas um bem. E não há guerra nenhuma, nenhum massacre, nenhuma massa de ódio, que não invoque um qualquer contrapeso a justificá-lo. Muito haveria a dizer sobre a matéria, mas hoje não é isso que está no sumário.
É outra coisa: essa maldade difusa, sem nada a justificá-la, quase sem ódio, que vemos cada vez mais presente por todo o lado. Sempre existiu, claro, mas é hoje mais visível, mais difundida, até mais copiada. E de tal modo que nem sequer já hoje nos surpreende como soía. Hoje, a surpresa, o espanto, quase o reservamos para o contrário: um gesto de simpatia inesperada, um aceno espontâneo sem nada que o justifique a não ser partilhar a nossa comum humanidade.
É disso também que de certo modo fala o poeta Manuel Resende, numa anotação irónica sobre o que pode haver de intrigante no desajustamento do nosso olhar sobre esta farsa involuntária em que todos nos vimos metidos (em «O Mundo Clamoroso, Ainda», depois incluiudo em «Poesia Reunida», Edições Cotovia, 2018, pag. 215). Aqui o deixo:
Na auto-estrada
Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.
Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?

Gostei muito, meu amigo Zé Lima. Obrigado pela tua presença. Um grande abraço Zé Paulo
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