english as she is spoke

Não sei como é pelo resto do país, mas aqui pelos meus lados é já hoje coisa assente: o inglês tornou-se a nossa segunda língua, mesmo sem proclamação oficial. Os mirandeses que me desculpem, mas é um facto. E contra factos não há nenhuma guerra do mirandum que lhe possa pôr termo. É assim.
Desde que o turismo tomou conta disto, todo o isto foi mudando e levando a sua avante. E se a sua vai avante a nossa vai marcha à ré. E é se queremos; não há alternativa. Solução? Se calhar é melhor pôrmo-nos nós também a aprender a língua que afinal por cá se fala. Desaparecem as leitarias e confeitarias de antanho? Pois aí temos o Coffee Lab & Bakery. Queremos qualquer coisinha para entreter o estômago antes do almoço? Mesmo sem pataniscas ou peixinhos da horta, temos aí a Lemongrass Kitchen, ou o Neighbourhood, com seu smashburger & beer, ou o Locals Nomads (full of wine, dizem eles). Se precisamos de arranjar as unhas ou coisas igualmente inadiáveis do mesmo género, temos aí à mão o Look Change Saloon, a Cila Nails and Hair, o Rose Beauty Saloon, ou o Connection Barber Shop… Mesmo as necessidades mais essenciais não ficam sem resposta: é só ir à Oblivion Tattoo Shop. Ou ao Concept Store, que não faço ideia do que seja, mas também cá temos. Assim como temos – e fica tudo dito – a Feels Like Home.

Há dias o Jean Némar, que sempre vai aparecendo, embora cada vez mais raramente, se calhar cansado de tanto cosmopolitismo, ele que vive entre países, contou-me há dias, ia eu a dizer, que  uns senhores turistas o abordaram na rua com um inicial Do-you-speak-English? que o deixou logo avisadinho. Respondeu-lhes que sim, que quando está em Londres ou em Bombaim ou em Boston faz os possíveis por falar English, mas que aqui não era preciso porque a maior parte das pessoas falam português. Isto, dito no seu impecável English que lhe ficou dos anos que passou em Singapura, deixou os americanos (eram americanos) banzados e sem saber se tinham entendido bem. Talvez tenham. E talvez tenham percebido que é sempre arriscado partir do princípio de que todo o mundo deve estar preparado para os entender onde quer que estejam.

Mas… o problema é que são eles que têm razão. A razão dos tempos que correm, é certo, mas é nesses tempos que nós vivemos. E por isso se calhar há que nos irmos habituando, como dizia o outro.
E até calha bem: ia agora mesmo falar de um livrinho que por por tais razões se vai tornando indispensável – um pequeno manual de conversação português-inglês. 

Tem por título «English As She Is Spoke» e a autoria é do nosso injustamente ignorado Pedro Carolino. Está organizado em curtos capítulos que fornecem o vocabulário e as frases indispensáveis para as situações e as necessidades mais correntes de um lusíada em terras infiéis. 
Há um capítulo inicial dedicado a «Frases familiares» (p.e. trazei-me uma faca; assentai-vos ou assente-se; tendes penna e tincta?; deitemo-nos sobre a herva, etc. etc. etc, que são muitas as frases e difícil a escolha), os demais capítulos cobrem algumas das situações e necessidades mais quotidianas: Para dar os bons dias (Wish the good morning!); para fazer uma visita de manhã; do passeio; do jogo; com o alfaiate; com o sapateiro; com o estalajadeiro; para almoçar; para perguntar novidades; para montar a cavallo, etc. etc. que por aqui me fico. Mas não se fiquem vocês se, estando algures, quiserem meter conversa com os nativos do English as she is spoke.

O livrinho tem merecido inúmeras edições desde a sua primeira edição (em 1882, salvo erro) e sempre recebendo os mais calorosos elogios e merecido reconhecimento. A começar por um famoso americano, um especialista do género, de seu nome Samuel Langhorne Clemens, ainda que mais conhecido entre nós por Mark Twain. É dele o prefácio da edição que tenho em mãos. E vale a pena transcrever algumas amostras.

Começa logo assim: «Neste mundo de incertezas, há, em todo o caso, uma coisa que pode ser com razoável confiança dada por assente: e que é a de que este celebrado livrinho de conversação nunca há de morrer enquanto perdurar a língua inglesa. A sua deliciosa e involuntária absurdidade, e a sua encantadora naïveté, são, a seu modo, tão sublimes e inigualáveis como o são as sublimidades de Shakespeare.» Não se fica por aqui, mas procura também afastar qualquer suposição de se tratar de uma mistificação: «O livro foi indubitavelmente escrito com toda a boa fé e profunda seriedade por un honesto e íntegro idiota que julgava saber alguma coisa da língua inglesa (…) Há nele frases, e parágrafos, que nenhuma mera fingida ignorância poderia alguma vez conseguir – nem tão pouco a mais genuína e completa ignorância sem o auxílio da inspiração.» Diz Mark Twain a concluir o prefácio: «Não é possível abrir este livro em qualquer página que seja sem que aí se descubra alguma pérola. E para provar que assim é, vou abri-lo ao acaso e copiar a página em que calhar.» E vá de reproduzir uma página, a servir de exemplo.

Eu, que não conto com a mesma paciência e curiosidade dos leitores, limito-me a meia página, de que só copio a parte em English as she is spoke (embora o português não lhe fique atrás.…) Aqui têm:
«With a hair dresser. // Master hair dresser, you are very lazy. You keep me back at home; I was to go out. If you come not sonner, I shall leave you to. / Sir, I did come in a hurry / Shave me / Yours razors are them well? / Yes, sir / Look to not cup me. / Comb-me quicky; don’t put me so much pomatum. What news tell me? All hair dresser are newsmonger. / Sir, I have no heared any thing. / To morrow be more early; bring me any news. Are you great deal of customers? / I have enough for to maintain-me.»
Bom proveito, pois. Citando verbatim et literatim o autor na apresentação inicial: «We expect then, who the little book that may be worth the acceptation of the studious persons, and especialy of the Youth, at which we dedicate him particularly.»

PS: escreveu-me alguém a perguntar como poderia juntar mais um ao grupo de leitores, ou seja: como subscrever o blog. Pois é ir ao blog no endereço que copio a seguir e depois clicar em “subscrever”. endereço (link): https://zelima388727646.wordpress.com/
E obrigado. Quantos mais melhor!

6 thoughts on “english as she is spoke

  1. Fantàstic, estimat Zè. A casa nostra, a Catalunya, estem igual. Faria riure si no fes plorar.

    Això del llibre i de Mark Twain no ho coneixia. Gràcies.

    Ara aquí s’està fent una campanya consistent en ‘Mantinc el català’. perquè el problema el tenim per partida doble: amb l’anglès i el castellà. No saps pas la quantitat de vegades que he aconseguit que l’interlocutor canvii del castellà al català!

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  2. Já não posso passar sem estas cartas, estimadíssimo Zé Lima.

    Ontem, no meu caminho da Graça até ao Chapitô onde acontecia o lançamento do último livro do meu amigo José Caldas, atalhei pela Rua da Oliveirinha não sem antes ter fumado um cigarrinho no Largo de Santa Marinha.

    A tua buganvílea está um esplendor.

    Eis senão quando passo por baixo das janelas da minha antiga casa e ao virar da esquina dou comigo num lugaar que nem suspeitava que existisse.

    Mais english é impossível.

    Sorri cá para comigo, dei graças ao sr. Silva que me deu ordem despejo e abençoei a hora em que mudei para Benfica.

    Aqui, por enquanto, longe dos carris do 28, tudo é aldeia.

    Grade abraço para ti e todos.

    Abraço grato.

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