Estava nas cartas…

Será que alguém de entre os que por aqui passam terá lido um livrinho intitulado «Desconhecido nesta morada»? Traduzi-o há mais de vinte anos, ando agora a revê-lo para outra editora e, ao fazê-lo, fui levado de volta a uma série de perguntas, de dúvidas e dessas coisas que nos perturbam o sono, que já nessa altura me atanazavam. Quando digo livrinho não é só um modo de falar. Trata-se realmente de um pequeno conto, que se leria numa viagem de autocarro se por acaso se lesse nos autocarros. Em texto corrido, provavelmente não iria além das trinta ou quarenta páginas. E só a inventiva dos paginadores, mais um prefácio, um posfácio ou outras notas do género para ajudar à missa, conseguem esticar a coisa até àquele mínimo capaz de lhe dar direito a lombada.

O conto é a história de dois amigos alemães, Max e Martin, que vivem na América, em São Francisco, onde são sócios de uma galeria de arte. Liga-os uma forte amizade que, mesmo depois da partida de um deles, se prolonga através das cartas que vão trocando. São essas cartas que alimentam o fio narrativo do livro: de volta à pátria, Martin, vai contando a Max, em sucessivos episódios, o ambiente que se vive na Alemanha durante o período conturbado da ascensão de Hitler ao poder.
Publicada em 1938, há nesta história qualquer coisa de premonitório sobre os horrores nazis que estavam para vir. Ninguém, nessa altura, poderia antever os crimes sem nome dos campos de extermínio, dos fornos crematórios, do genocídio dos judeus alemães e do resto da Europa. Muito embora houvesse já sinais inequívocos do caminho que se traçava nessa direção e houve pessoas mais atentas que os souberam ler. Kathrine Kressman Taylor, a autora deste conto, foi uma delas. 

A ação cobre um período de 18 meses, entre 1932 e 1934 – o período de «gestação do ovo da serpente”: em Janeiro de 1933 Hitler passa a ser o Chanceler da Alemanha; em Março, é construído o campo de concentração de Dachau, onde começam por ser internados comunistas, sociais-democratas, sindicalistas e outros «inimigos do povo»; em Abril, os judeus são banidos da função pública; em Julho, é autorizada a esterilização forçadas dos ciganos, dos deficientes e dos alemães de cor; em 1934, depois da morte do Presidente Hindenburg, Hitler proclama-se «Führer do Terceiro Reich» e são decretadas as leis raciais antissemitas que prenunciam as Leis de Nuremberga para a Protecção do Sangue Alemão e da Honra Alemã (1935),  e a chamada «solução final para o problema judaico». É este o ar que se respira na Alemanha, que respira Martin, e que transpira na correspondência que trava com Max, o seu sócio e amigo judeu que ficou na América.
E é tóxico, esse ar, e aos poucos vai contaminando o próprio Martin. A princípio, é ainda com alguma reserva que ele observa a caminhada de Hitler para o poder total («pergunto a mim próprio: será que ele não é louco?»), reserva essa que o medo ou a prudência o obriga a mascarar («Todos nós, e quem tem amor à pele, apressámo-nos a aderir ao Nacional-Socialismo»), mas não tarda a evoluir para uma aceitação passiva que rapidamente se trasmuda em entusiasmo com esta «nova Alemanha guiada pelo nosso Amado Chefe!» 

Caso para dizer: estava nas cartas! Como fotogramas de um filme que só no final poderemos ver na totalidade, ganhando então o seu pleno sentido, carta a carta, a autora vai mostrando os passos que conduzem inelutavelmente ao desfecho fatídico, como um castelo de cartas que se foi erguendo até desabar de um só golpe.

Foi justamente ao ver os efeitos do «veneno nazi» sobre pessoas que ela considerava aparentemente imunes  («amigos meus alemães, cultos, intelectuais, generosos» que «em muitíssimo pouco tempo se tornaram nazis convictos»), que Katherine Kressman Taylor decidiu escrever Desconhecido nesta morada: «Queria escrever sobre aquilo que os nazis faziam e mostrar ao público americano o que estava a acontecer a pessoas reais, vivas, apanhadas pela vaga de uma ideologia perversa».

E pelos vistos o objetivo da autora tem vindo a fazer o seu caminho. Esgotado em poucos dias depois da primeira publicação, Desconhecido nesta morada nunca parou de ser reeditado, traduzido, adaptado ao teatro e ao cinema. Esta popularidade de um texto que, de outro modo, nem pela escrita nem pelo tema, se destacaria particularmente de outras obras de ficção com o mesmo fundo histórico, deve-se, quanto a mim, em grande parte a dois fatores fundamentais. Um deles tem a ver com a escolha da «troca de cartas» como forma de «contar» a história. A linguagem é, assim, simples, despida de figuras de estilo ou de artifícios literários, próprio de uma correspondência entre amigos. A escrita, liberta das usuais convenções da novela assenta apenas nos factos capazes de fazer progredir a ação, sem mais derivas,  sem a mediação de um narrador omnisciente, ou seja sem uma postura moral ou uma elaboração de motivações e justificações, como seria próprio de uma narrativa tradicional. De certo modo é o próprio leitor que vai construindo a história, julgando os motivos e os factos que lhe vão chegando. 
O segundo fator de que falei, aliás decisivo, é o modo como a autora conclui o conto. Um verdadeiro achado! Estou convencido de que é esse final, precisamente, o que de modo mais vívido persiste na memória dos leitores ao fim de muito tempo.

Como todas as histórias exemplares – e a autora não esconde os propósitos edificantes do seu conto numa «América isolacionista (…) onde os políticos declaravam que as histórias da Europa não nos diziam respeito e que a Alemanha não era um problema» – também esta pretende servir de aviso para o futuro. Futuro que é já hoje, aliás. Os sinais premonitórios estão aí, assim os saibamos ler. Ou não estaremos hoje a assistir em muitos lados aos ensaios que preparam o terreno para qualquer coisa  que, tal como então se pensava, também nós achamos ainda que não é possível acontecer nos nossos dias? A eliminação sistemática e impiedosa dos objetores por quem detém o Poder; a instituição do culto do chefe acima de qualquer hesitação; o cinismo com que todo o género de acólitos e apparatchiks desvalorizam ou justificam o injustificável; a oportuna incriminação de  bodes expiatórios, sejam eles as minorias étnicas ou sociais, os emigrantes, os dissidentes…  tudo isto soa a uma nova versão de uma tragédia que quereríamos esquecer.

Ia ainda falar de outra coisa relacionada com isto (as tais perguntas e questões que o livro me trouxe de volta), mas a conversa já vai longa e fica para outra vez. O que aqui está já dá para tirar o sono a muita gente.

6 thoughts on “Estava nas cartas…

  1. Acabou-se a ficção do direito internacional, agora mandam só os pistoleiros dos bombardeamentos. E na grande democracia, o chefe é manifesto ditador. Como se já não bastassem os outros.

    Gostar

  2. Não li o livro, mas algo aproveitaria se o lesse, não me seria supérfluo ou redundante, antes pelo contrário. Pelo que dizes e mostras, como se compreende o título Desconhecido nesta Morada? Que aconteceu para ter este título? Qual o desfecho, na última carta?

    Gostar

  3. Olá Zé

    Tenho lido e acompanhado as tuas caminhadas literárias que me dão um enorme gosto. Não deixes de as enviar por favor.

    Estava nas cartas…

    Olho e sinto aproximar-se uma tempestade de areia ( …para os olhos como se diz) que nos vai engolir a todos ou pelo menos e de certeza turvar os contornos.

    Tramp, Putin e Vance semeiam ventos e uivam. Porque é que Hitler, Stalin e Franco também nunca riram e falaram sempre zangados?

    Um grande abraço

    Manuel

    Gostar

  4. Concordo inteiramente, José Lima: o momento que vivemos assemelha-se ao da tomada do poder na Alemanha pelos nazis. Mais grave: a tecnologia actual da manipulação torna a coisa ainda mais perigosa.
    Um abraço.
    António


    Gostar

Deixe uma resposta para Manuel Costa Cabral Cancelar resposta