Raposa em chamas

Há uma imagem que me ficou de 2024, sobrepondo-se a tantas outras que me perseguem. De tão persistente, tornou-se de certo modo um símbolo capaz de condensar muitas coisas mais. Havia os carros empilhados à toa que as chuvadas súbitas tinham arrastado consigo pelas ruas de uma cidade valenciana, havia as inundações e os deslizamentos de terras e a ladainha de nomes e lugares que ficaram a assinalar o rosário de desgraças que acompanham tudo isso: Ellie o ciclone na Malásia; as searas secas e o gado morto na África do Sul, e na Etiópia e no Quénia; e as ondas de calor que paralisaram a Índia, o Bangladesh, o Paquistão; o furacão Beryl que varreu as Caraíbas; o ciclone Chido a correr desenfreado por Mayotte, Nampula, Cabo Delgado; o degelo dos glaciares europeus que levaram a Itália e a Suíça a terem de redesenhar as suas fronteiras…Então, tanta coisa e o que me fica é a imagem desta raposa que foge apavorada por entre as chamas dos incêndios californianos?

Não é que me importe mais o destino dos bichos do que o dos homens. Não é o caso, de modo nenhum. Mas há naquela imagem qualquer coisa que nos apela para além da razão. Vulneráveis, inocentes, incapazes de exprimir o seu sofrimento ou de fazer escolhas, os animais podem facilmente remeter-nos para o que há em nós de mais profundo e remoto, transcendendo culturas, línguas, sociedades. Como se essa imagem nos devolvesse a um mundo latente dentro de nós, em que todas as formas de vida estão indissoluvelmente ligadas umas às outras por uma comum ancestralidade.

Dizer que foi o ano mais quente desde que há registos, que muitas espécies se perderam para sempre, que a humanidade práqui, que a humanidade práli, etc etc. tudo isso que lemos e ouvimos nos fala à razão. Mas a raposinha em chamas, mais do que à razão, talvez nos fale antes a essa parte de nós muito mais recôndita e que ao vir ao de cima nos deixa transidos por emoções sem nome.

Indefesos e vulneráveis – ao contrário dos homens, que sabem prever os desastres, construir diques, escoadouros, dotar-se de armas de combate ao fogo, à água, à peste e a todos os apocalipses – os animais levam-nos por isso muitas vezes a ver neles de certo modo como que a imagem da nossa culpa perante a devastação. 

É que para os bichos não há sequer a vaga consolação que a invocação dos deuses, das proteções sobrenaturais, da intercessão da Virgem, com que desde o princípio dos tempos os homens procuram apaziguar a angústia que sentem diante da natureza em revolta. 
Lembremo-nos, por exemplo (mas quem hoje se lembrará?) do desastre do petroleiro Prestige, nas costas galegas em 2002. Mais de sessenta mil toneladas de petróleo que rapidamente se espalharam causando a morte de toda a vida marinha ao longo de cerca de três mil quilómetros de costa. Da Galiza ao Minho é um saltinho, não podemos deixar de pensar. E então como foi Portugal poupado? Haverá quem pense em marés, em correntes marinhas, em ventos, até no puro acaso… Mas não, como bem explicou Paulo Portas, não foi nada disso. Era ele na altura ministro de uma coisa qualquer, não sei já qual fosse (e se bem se lembram ele próprio também não sabia ao certo) e logo esclareceu que «Portugal na crise do Prestige foi muito ajudado por aquilo que – eu sou crente – acho que foi uma intervenção de Nossa Senhora». Aqui está uma coisa de que não podiam valer-se as aves e os peixes e toda a vida marinha que ali ficou condenada sem remissão. Já para não falar dos pobres do galegos, que nem direito a compensação tiveram. Ao fim de 89 sessões e 400 horas a ouvir testemunhas e peritos, o tribunal que decidiu o caso absolveu todos os implicados, sentenciando: «ninguém sabe exatamente a causa do acidente» e como tal «não há responsabilidade penal» que se possa imputar a empresas como a armadora ou as responsáveis pela inspeção.
E, já agora, se formos a fiar-nos na Virgem, porque não havemos de ver a Sua mão noutras ocasiões também? Como quando há tempos os autarcas algarvios, assustados com a seca continuada e os perigos que levantava para o turismo, logo determinaram reduções nos caudais, limitações horárias nos consumos de água, vetos às piscinas e campos de golfe e alguns outros edecetras de que agora não me lembro. Não teria havido também ali uma mãozinha amiga, ou a Sua divina intercessão a trazer de volta (como trouxe) a chuva ao Algarve e salvar a temporada turística? E logo a seguir, ainda mais rapidamente, a imediata cessação de tantos constrangimentos, sem que se pensasse em prever, em armazenar agora para futuras necessidades, essas coisas de que os autarcas estão dispensados por não sei que sagrada bula. Basta que se fiem na Virgem…

Mas agora perdi-me. Onde é que eu ia? Pois, a raposinha californiana: aí vai ela a fugir, espavorida, focinho pontiagudo, cauda flamejante, pelo meio das labaredas dos incêndios da Califórnia. É a ela que eu vejo, ainda assim, como a imagem mais pungente para ilustrar a nossa busca de um sentido para o sofrimento tantas vezes inútil a que todos os dias nos é dado assistir. E oiço-me a dizer baixinho: corre, raposinha, corre, para longe da nossa cegueira.

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