Para chegarmos à praia, atravessamos um campo que quase chega à beira-mar. Nesta altura do ano está coberto dos talos ainda tenros da aveia segada há pouco tempo. E era aí que invariavelmente encontrávamos o Gilô. Preso pela arreata a uma vara espetada no chão, ia pastando um círculo quase perfeito de erva até onde a corda chegasse. Assim que sentia a Cereja por perto, desatava a zurrar e a resfolegar numa saudação em que se adivinhava a amizade e as saudades que sentia depois de um ano de ausência. Muito provavelmente, também a lembrança dos mimos que ela costumava levar-lhe: umas folhas de couve, umas cenouras, restos de fruta. Amigo certo dos nossos verões, portanto, o velho Gilô.
Este ano, ao passarmos pelo campo, munidos das desejadas cenouras, nada de Gilô.
Quando depois encontrei o dono, perguntei-lhe pelo nosso amigo. Eram tristes, as notícias. Como ele contou:
O burro ficou doente. Não conseguia andar. Mal dava um passo. Não conseguia se alevantar sozinho. Uma vez levantou, mas não conseguia ficar em pé. Eu já estava a chorar e o caraças. Que ia eu fazer? De repente deu-lhe aquilo. Naquele dia começou a ficar mal. Eu queria pô-lo num terreno ali em cima e ele tremia todo. Levantava-se, bebia água e depois ficava sem se mexer. Dava-me pena, não esperava que o bichinho ficasse ali assim. Foi qualquer coisa que lhe deu de repente. O homem veio aí e disse logo: olha a melhor maneira é dar uma injeção e mata-se e pronto. Tenho muita pena, mas é assim. É que tu vais ter aí o burro a sofrer. A parte aqui deste lado estava toda rasgada, já estava em sangue. E ele disse: não adianta nada. Dá pena. Dar pena, dá, isso dá. E deu-lhe a injeção. Parece que o bicho até chorou. Tinha uma lágrima no olho. Eh pá, fiquei, sei lá…
E onde vou eu agora buscar outro? O Zé do peixe passou aí e disse-me: Olha, tenho um burro e nem pagas nada. E tenho outro, de outra pessoa, uma estrangeira, mas essa é muito longe. É em Faro. É uma burra, uma burrinha bonita, tem três anos. E este daqui é um macho. Até me fazia jeito, um casal era bom. Ela também o quer oferecer, também. Mas tinha de o ir buscar. Não sei. Há aí o meu amigo Zé, um rapaz que vende aí o peixe. Na quinta-feira ele vem aí e vou falar com ele. Ele tem um atrelado desses que levam cavalos. Mas depois tenho de pagá-lo. Não sei quanto ele leva, só perguntando a ele. O pior é a água. A minha mãe não quer. Disse-me logo: isto está sempre a piorar, a piorar. Eu queria, gosto de ter aí os animais. Agora se arranjasse um casal era bom. Mas a água é que é o principal. Os animais precisam de água. Um burro mama mais água do que as ovelhas. As ovelhas todas juntas, e o burro mama mais água que as ovelhas todas. Logo se vê. Há de haver mais burros. Mas o problema é a água. A água não é suficiente. Dá para as ovelhas beberem, mas… não sei, não sei, tenho medo. Isto, o tempo não anda famoso. A chuva não foi muita. Aqui não choveu nada, nada. Então vejam lá, o meu poço grande já se vê o fundo. Quando eu esgoto leva uns quatro dias a vir acima. Mas não é de repente, é pouco a pouco, pouco a pouco. Comer há com fartura, mas água… O poço dali da vizinha também está muito em baixo. O outro ali, o poço dele está seco. O meu pequeneco, aquele debaixo da amoreira, estava cheio de água, já não tem água nenhuma. Cada vez é menos chuva, cada vez é pior. O problema é esse. Os poços estão a secar. Aquele ali comprou aqueles depósitos grandes. Compra a água a um homem, ele vem cá enchê-los. Mas ele já disse, se isto assim continua não vou poder vender mais. Tenho os meus animais e já tenho pouca água. Os furos também se acabam. A água vai, vai e também desaparece. Ninguém semeia nada. As coisas secam na árvore. As plantas não dão nada. Este ano só pusemos grãos e tremoços. Por isso é que eu digo a muita gente: de que vale gastar dinheiro a fazer furos e depois ficar sem água e sem o dinheiro? Olha, chapéu! Isto, a água, se não chover, desaparece. Isto vai secar tudo, vai morrer tudo, árvores, tudo. Que vou dar ao burro? Comida até há, há aí muito feno, mas a água? E os garrafões da água que a gente bebe estão cada vez mais caros. E a água que a gente compra para dar aos animais não é barata. Às vezes são os bombeiros que trazem, outras vezes é ali um homenzinho que também tem vacas, traz um pipote de três mil litros e enche ali os depósitos. E também não é barato. E tem de se comprar sempre mais. Mas houve ali um dia que… Eu até estranhei. O depósito estava vazio, os três mil litros desapareceram num instante. Ia para regar e nem uma pinga de água? Fiquei todo marafado. A terra estava dura como pedra. Se tivesse vertido água havia de estar encharcada. Alguma coisa foi. Não me digam que a roubaram! Que há quem roube… A mim já me roubaram… havia ali uns molhos de tremoços que eu tinha ali em cima e já mos roubaram E a água são bem capazes também. Podem roubar… Isto está aqui um problema grave. Não há água nem para nós nem para os animais. Nunca mais choveu como deve ser.

Espero que tenham chegado bem, agora de motorista como manda a tradição
Posso reencaminhar a crónica para o Tiago?
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Gosto muito destas tuas crónicas. E a foto da Rita é fantástica. Essa ideia final de ladrões de água é mesmo angustiante… Abraços
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Como compreendo obdono do Gilo-a minha Nina perdeu força nas patas traseiras, a chuva e a água da cisterna escasseia e estou cercada de ladrões de água
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