Para os mais curiosos de entre os que me ouvem, trago aqui uma sugestão que é capaz de pelo menos os divertir: um dia em que lhes calhe passar pela Praça do Comércio em Lisboa reparem no curioso comportamento dos pombos que por ali andam a fazer pela vida. A maior parte deles voarão por ali às voltas, à cata de algum resto de pão ou de piquenique à beira-rio; haverá alguns empoleirados na cabeça ou nos ombros de Viriato, de Vasco da Gama, de Nuno Álvares ou de outros dos gloriosos antepassados que ladeiam o Arco da praça e que eles vão impunemente cagando enquanto fazem pose para os turistas; haverá outros ainda descansadamente poisados em cima do Triunfo e da Fama que jazem aos pés da estátua real. O que ninguém verá é nenhum dos pombos ousar cometer o mesmo ultraje contra El-Rei e o seu cavalo. Poderão voejar por perto, poisar no elefante ou mesmo no cavalo e nos despojos de guerra que se distribuem pela a base do pedestal, mas nunca por nunca em cima de Sua Majestade e do seu cavalo. E porquê? perguntarão então os curiosos. Não por respeito pela realeza ou pelas glórias da Pátria. Senão, veja-se a estátua de Dom João I ali ao pé na Figueira ou a de Camões um pouco mais acima: ambas castigadas pelos pombos insolentes, tisnadas pelos excrementos e o verdete. Não; a solução do mistério está lá no topo, naquelas víboras eriçadas que as patas do cavalo esmagam impiedosamente, como se fossem (e era isso que se pretendia que fossem) os inimigos de El-Rei. Geneticamente condicionados para temerem cobras e víboras, os pombos põem-se logo ao largo mal as avistam, ainda por cima erguidas em ameaça, prontas a atacar, nem que seja figuradas em efígie.
Já estou a ver os olhares incrédulos de uns quantos e até alguns sorrisos de mofa, a fazer-me lembrar os soslaios irónicos dos funcionários da Câmara quando eu lá ia ao gabinete do vereador dos espaços públicos expôr as minhas teorias e as minhas propostas de defesa dos monumentos da cidade. A senhora que me atendia não queria por certo desfazer nas boas intenções e na boa vontade da iniciativa cívica, mas via-se que a fé dela era pouca, apenas compensada pela bonomia do sorriso a mostrar que sim-senhor agora que já o ouvi já posso dispor-me a nunca mais pensar no assunto. Mas aí voltava eu à carga: que o princípio até tinha outras aplicações, que basta pensar nas silhuetas de aves de rapina coladas nas vedações das auto-estradas (transparentes, mas sólidas) a evitar à passarada miúda um choque quase de certeza fatal – a ideia é a mesma: usar o medo dos inimigos ancestrais como arma de dissuasão. E argumentava ainda com os custos que carregam os orçamentos da Câmara com a compra de peças eriçadas de picos a impedir que os pombos pousem nas fachadas de igrejas e palácios, venenos de todo o género, limpezas regulares, eletrificação, pombais contraceptivos e outras estratégias de insucesso até aqui usadas. Nada demovia a vereadora. Devia pensar que as víboras que eu propunha, nem que fossem de barro (desde que em pose agressiva!) haveriam de encher Lisboa de uma bicheza de estética pelo menos discutível. E talvez temesse também o ridículo a que se sujeitaria se a experiência não resultasse, o que na ideia dela era o mais certo, estou eu em crer. Dizia-lhe então que podia estudar-se uma cercadura esteticamente aceitável de onde espreitassem as cobras, invisíveis para quem olhasse cá de baixo, desde que visíveis para os pombos que as sobrevoam. Dizia-lhe que podia fazer uma expriência discreta, nem que fosse nas varandas da Câmara… De nada valeu.
E bem moderadas que elas eram as minhas medidas. Ainda bem que não fui ao ponto de propor os remédios do Presidente Mao para livrar os chineses, a agricultura chinesa, da praga dos pardais que lhes levavam pelo menos quatro quilos de cereal por ano cada um deles. Não esteve com meias medidas, o Grande Timoneiro e Educador da Classe Operária (e Camponesa, já agora): atirou para os campos milhões de chineses, homens mulheres e crianças, armados de tachos, bombos, paus e tudo o que pudesse fazer barulho e impedir os pombos de pousar. Assim foram eliminados milhões e milhões de aves de todo o género: os que não morriam logo no ninho ou nos ovos, morriam por exaustão, impedidos de pousar e descansar com aquele alarido dia e noite. O pior foi o que se seguiu: o extermínio dos pássaros, e o desequilíbrio ambiental que se seguiu, que aumentou exponencialmente o número de insectos, gafanhotos, lagartos e outras pragas que a passarada continha dentro dos limites que a Natureza aceitava. E daí: destruição dos cultivos, diminuição drástica das colheitas, falta de alimentos e… Fome! O Camarada Mao mandou então importar pássaros da União Soviética, para combater o excesso de insectos que destruíam as sementeiras. Mas já era tarde de mais. Outras causas terá havido a ajudar, mas considera-se hoje (os historiadores ocidentais pelo menos) que esta campanha anti-pardais foi uma das principais causas da Grande Fome Chinesa que matou entre 20 e 50 milhões de pessoas no período de 1959-1961.
O que hoje temos por cá, diga-se já agora, poderá não ser a «Campanha contra as Quatro Pragas» do Grande Educador chinês, mas não deixa de andar lá por perto: o uso intensivo de pesticidas, a desmatação maciça, a destruição de habitats naturais, a agricutura intensiva, as alterações climáticas e mais uns quantos édecetras do género, estão a causar, entre outras coisas, uma diminuição generalizada das abelhas e de outros polinizadores (e portanto a diminuição das colheitas, a escassez de alimentos, a ruptura da cadeia alimentar). Talvez não passe ainda de uma sombra da verdadeira imagem do que se anuncia, mas as sombras chinesas maoistas talvez devessem dar-nos mais que pensar.
As minhas propostas de defesa dos monumentos e da arquitetura urbana não iam tão longe, apesar de tudo. Pregar um susto aos pombos iconocolastas é coisa que, estou eu em crer, não mereceria grandes condenações nem sequer a São Francisco de Assis, patrono insuspeito na matéria. Mas embateram (as propostas) contra a indiferença da vereação (e mais uns quantos sorrisos irónicos e talvez algum «lá vem o dos pombos» murmurado entre dentes pelos funcionários da recepção).
Mas também há quem diga que não é bem assim… E que há medidas mais… enfim, mais «sensatas», dirão esses e outros que tais.
Quanto a isso, peço meças!

Voejar, vebo lindo…
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Da próxima vez que pousar em Lisboa vou ver como está o cavalo d’El Rei. Levo uns ratinhos de plástico, dos de corda, para as víboras, para as compensar do malquerer dos pombos.
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A tua ironia aliada à crítica,(e já agora a erudição), resulta neste texto divertido e que faz pensar.
Bjinhos, meu queridl Zé.
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Que estranho! Pensei que fosse do conhecimento comum que as cobras afastam os pombos, sejam elas reais ou de borracha…
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