Numa vida feita de rotinas e de hábitos, como é a vida de quase todos nós, tirando os influencers, os frequentadores do Insta e a Gente das revistas, vem um momento em que nos assalta um qualquer tropeço que sobressalta todo esse quase ritual. Há qualquer coisa que se rompe, que agora se cola ao que era costumeiro e dado por seguro. E que as mais das vezes não é coisa boa.
E cada vez que o tropeço ocorre traz consigo a lembrança do que era antes e a guinada dolorosa do que agora é. Note-se que tanto pode ser uma dorzinha na perna que afinal não passou, como pode ser a invasão turística com que o nosso passeio no bairro agora se defronta. São coisas dessas, capazes de envenenar a vida com a sua repetição incessante e inevitável. E que vivemos com irritação, com fúria, com desespero mesmo. Até que vem outro momento – decisivo, decidido, crucial – em que, à falta de botões, dizemos para os nossos fechos éclair: “Pronto, é assim!” E com este Assim determinamos que o que antes era uma embirração, um tropeço, uma mazela, é, passa a ser, doravante, uma parte de todo o resto. Não como uma forma de resignação, de acomodação à má fortuna, mas antes como uma espécie de metamorfose, de onde emergimos renascidos, um novo ser, ou uma nova realidade, que ignora o legado do sofrimento ou do cansaço de antes, como uma pele antiga que se larga ao abandono.
Sei que nem tudo será muito claro para todos neste arrazoado, mas é assim.
Quem havia de explicar bem isto era mas é a Luísa Costa Gomes. Com uma diferença, já se sabe: o que aqui há de pesado, de tortuoso, e até de rebuscado, é o tanto que nela sobra de leveza e de graça. Disse “explicar”, mas não é sequer isso. As coisas com ela não se explicam, simplesmente acontecem. E no mundo que ela cria ou reinventa, e para onde seremos irreprimivelmente arrastados, nada nos há de parecer inverosímil ou improvável, porque é essa a lógica do mundo que a escritora nos inventou. Não pela força de alguma demonstração silogística, mas pela evidente necessidade inerente a esse mundo inventado. E tudo se harmoniza e se completa com a mesma simplicidade que vemos nas escamas de um peixe – cada palavra a exigir a próxima e a responder à anterior, nada a mais e nada a menos. Sem pespontos a denunciar a armação, tal como nada de visível liga as escamas do peixe, aos nosso olhos lisa e única. O brilho que recobre a pele unida, sem hiatos, vem-lhe aqui, na prosa, da graça e da leveza da escrita. Veja-se por exemplo o conto “O Salto de Master Campbell” do livro “Contos outra vez”. Não o escolho por ser uma espécie de ilustração do meu “É assim”, que tão laboriosamente procurei ilustrar, mas também não se pode dizer que lhe seja completamente estranho.
É a história de um ator famoso que tinha por hábito – um tanto inesperado para a assistência – entrar em palco com um salto a pés juntos para a boca de cena, ao mesmo tempo que fazia estalar as mãos nas coxas e arreganhava para o público os dentes todos – e isto qualquer que fosse o papel a representar, esclarece a autora, que aliás estive a citar até aqui. E vem depois o historial desse gesto tão inusitado. O que fora um percalço sucedido ao ator, o Master Campbell do título, ao tropeçar na espada que empunhava ao entrar em cena, tornou-se depois por sua decisão numa espécie de marca do seu génio, ao ser assumido como deliberado, estudado e repetido nas suas atuações. Um pouco como o “É assim”, que antes tentei acima esforçadamente impingir como receita para muitos dos tropeços que nos embaraçam os dias. Só que, como já disse, exposto como é no conto, torna-se também “na síntese do melhor de todos os saltos”. É o que faz o génio. É assim.
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div dir=”ltr”>Eu, apesar de andar de gripe
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Zé Lima, antes de mais muito obrigada pelos textos que meu tens enviado e pelo teu blogue. Tenho gostado de todos e lido todos. Não sou muito de participar
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